2. DEKOR VE AKSESUARLARINI AKTİVİTELERDE KULLANMA
2.4. Dekor ve Aksesuarları Uygun Saklama
O CEI “Hora Marcada” está inserido em uma região periférica da cidade de Fortaleza. Trata-se de uma zona eminentemente residencial, com média de 3,94 habitantes65 por domicílio e caracterizada pelo intenso fluxo de indivíduos, pois se destaca no setor de Serviços e de Comércio.
Trata-se de uma área que conta com estabelecimentos educacionais públicos e particulares, distrito policial, Organização Não Governamental (ONG), diversas linhas de transporte público, um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS); um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), dentre outra variedade de instituições que prestam serviços à população (FORTALEZA, 2013).
Quanto às questões relativas ao campo educacional, neste bairro, o chefe de família estuda, em média, 8,87 anos, o que denota um baixo índice de escolaridade. Apesar de este dado apontar ao poder público sobre a necessidade de investimento neste setor, no bairro há, ainda, um parco investimento relacionado à educação, pois “faltam creches para atender à demanda da população infantil de menor poder aquisitivo; e capacitação profissional para jovens e trabalhadores em geral” (FORTALEZA, 2015a, p. 46).
Por conta de tal situação, não são poucas as crianças e jovens que ficam sem acesso à educação, o que provoca insatisfação dos moradores do bairro, os quais se sentem prejudicados, pois, muitas vezes, acaba sendo necessário que esses indivíduos, para utilizar equipamentos públicos de educação, precisem se deslocar para outros bairros, o que, por sua vez, pode ser algo desgastante e cansativo, sobretudo para as crianças pequenas. Durante a pesquisa de campo, algumas mães com crianças matriculadas no CEI “Hora Marcada” comentaram sobre esta dificuldade. Em certa ocasião “[…] a mãe da criança explicou que sua filha conseguiu vaga no CEI, mas não conseguiu matricular o filho, estudante do Fundamental I, na escola anexa ao CEI e que, por isso, o menino estuda numa instituição mais afastada de casa” (DIÁRIO DE CAMPO, 14 dez. 2016).
Além do acesso limitado à educação, outra realidade enfrentada pelo bairro onde se localiza o lócus de pesquisa diz respeito ao quantitativo elevado de roubos e lesões corporais. O índice de assaltos, segundo a maior parte dos funcionários do CEI, dá-se em
65 As informações relacionadas à região do CEI investigado foram retiradas do Anuário de Fortaleza 2012-2013
(ANUÁRIO…, 2014), do Mapa da criminalidade e da violência em Fortaleza (FORTALEZA, 2011) e da Revista Fortaleza 2040 (2015).
decorrência das favelas existentes no bairro. Junto a isso, a região é acometida por “constantes brigas de acerto de contas entre gangues” (FORTALEZA, 2015a, p. 45).
O entorno do CEI “Hora Marcada” é constituído por um cenário bastante heterogêneo, formado por uma população com condição econômica bastante diversificada. Mesmo desfrutando de alguns serviços, o bairro se configura como uma região carente em inúmeros setores, mas, em especial, segurança e educação (FORTALEZA, 2013).
O CEI fica em uma rua bastante movimentada, onde há um canal a céu aberto e um frequente acúmulo de lixo que, além de comprometer a estética da região, aumenta o índice de doenças e insetos. Nela se localiza não apenas este estabelecimento, mas a Escola “Hora Marcada”, que atende crianças matriculadas nas séries iniciais do Ensino Fundamental, e uma fábrica de roupas de grande porte.
Estando de frente para esta instituição, é possível visualizar um longo muro encoberto por pichações. O portão principal tem uma cor um pouco desbotada, o que parece denotar falta de manutenção na pintura. Sendo assim, a estrutura frontal do CEI não evoca a impressão de um lugar que trabalha com crianças. Nesse sentido, é possível mencionar Horn (2007, p. 47), pois a autora assegura que “os espaços externos são considerados prolongamento dos espaços internos”. Portanto, se a parte interna do CEI “Hora Marcada” está repleta de crianças, seu espaço externo deveria conter elementos que fizessem alusão à infância. A importância disso para a criança pequena está no fato de que ela precisa desejar estar na Educação Infantil, haja vista que é da sua vontade e curiosidade que vai partir todo o trabalho pedagógico. Deste modo, ter uma instituição visualmente atrativa parece um aspecto não só importante, mas fundamental para as crianças pequenas.
Após ultrapassar o portão principal, há outro, mas em tom esverdeado, com pequenas aberturas. Dele era possível enxergar o espaçoso corredor com duas salas de atividades do lado esquerdo e outras três do lado direito. Seguindo até o final deste corredor, chega-se à cozinha do estabelecimento. Ao lado da cozinha, há uma porta de cor verde escuro, que é um local utilizado como uma espécie de despensa, para guardar e organizar os produtos não perecíveis utilizados para o preparo da alimentação das crianças. Adiante, há outro compartimento, onde fica situada a sala da Coordenação, principal local de trabalho da Coordenadora.
Esta sala também é usada para o atendimento das famílias, para reuniões, no horário de planejamento das professoras e nos horários previstos de intervalo para as docentes. No local, há internet com wifi, um filtro com água gelada, uma geladeira e uma mesa redonda com cadeiras para que as pessoas possam se acomodar. Há outra mesa, um
pouco menor, apenas para o uso da Coordenadora e outra, do mesmo tamanho, utilizada por professoras ou por Auxiliares de coordenação, profissionais que dão suporte ao desenvolvimento do trabalho da gestora no CEI.
Perto da sala da Coordenação, há um espaço destinado aos horários de brincadeiras das crianças. Trata-se de um local com areia, quatro brinquedos, dentre casinha e escorregadores, sendo todos de plástico. Um dos brinquedos, que lembrava uma lagarta, estava amarrado com barbantes e sempre que as turmas faziam uso dele, corriam o risco de sofrer algum tipo de acidente.
Vale lembrar que o documento intitulado Parâmetros básicos de infraestrutura para instituições de Educação Infantil defende que “os aparelhos fixos de recreação, quando existirem, devem atender às normas de segurança do fabricante e ser objeto de conservação e manutenção periódicas” (BRASIL, 2006c, p. 28), o que não parecia ser o caso deste material do “parque” do CEI “Hora Marcada”.
Outro ponto, ainda relacionado a este espaço, é que era comum perceber conflitos entre as crianças, pois durante as brincadeiras disputavam os poucos baldes e pás disponíveis neste local. Inclusive, alguns desses “brinquedos” eram improvisados com potes de produtos de higiene ou garrafas pet. Este cenário demonstra parco investimento nesses recursos.
Segundo Kishimoto (2010, p. 3), os brinquedos e outros materiais servem como instrumentos para que a criança amplie seus saberes por meio da “diversidade de formas, texturas, cores, tamanhos, espessuras, cheiros e outras especificidades do objeto são importantes para a criança compreender esse mundo”. Mas não apenas isso, os brinquedos servem de mediadores nas interações entre as crianças e os adultos. Logo, quando as crianças não têm acesso a brinquedos variados e de boa qualidade, acabam tendo possibilidades mais amplas de aprendizagem negadas. Frente a esta realidade, cabe dar destaque a outro pensamento da autora já mencionada, pois ela esclarece que
Cabe à creche e à pré-escola, espaços institucionais diferentes do lar, educar a criança de 0 a 5 anos e 11 meses com brinquedos de qualidade, substituindo-os, quando quebram ou já não despertam mais interesse. Para adquirir brinquedos, é fundamental selecionar aqueles com o selo do INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), que já foram testados em sua qualidade com critérios apropriados às crianças (KISHIMOTO, 2010, p. 2).
No contexto investigado, portanto, a forma como o “parque” estava organizado denota uma política de pouco investimento financeiro, realidade que persegue a Educação Infantil ao longo da História. Por isso é possível afirmar que, em suma, o “parque da
goiabeira66”, como era carinhosamente chamado o “parque” por todos os funcionários do CEI “Hora Marcada”, não possuía as características suficientes para se configurar como um parque infantil. A realidade enfrentada por esta instituição, portanto, merece ser avaliada, afinal, as brincadeiras e as interações são eixos norteadores das práticas pedagógicas para crianças pequenas (BRASIL, 2009a), e os parques, quando bem instalados, funcionam como excelentes locais para essas vivências.
Ainda sobre a parte interna do CEI, próximo à sala da Coordenação, estão dispostos os “chuveirões”, comumente utilizados nos momentos de banho das crianças. O banheiro, localizado no lado oposto aos “chuveirões”, que deveria ser usado no horário de banho, é subutilizado, porque possui um piso muito escorregadio, já tendo provocado acidentes envolvendo funcionários e crianças. Diante disso, a situação do banheiro do CEI “Hora Marcada” descumpre as condições legais previstas na Resolução Municipal nº 002/2010 (FORTALEZA, 2010) que explica, no artigo 32, que os estabelecimentos de atendimento educacional a crianças de zero a três anos devem possuir banheiros com piso antiderrapante. Um trecho do diário de campo exemplifica isso:
Com o passar dos dias, fui percebendo que o banheiro do CEI não era utilizado no banho das crianças. Perguntei para as profissionais se elas não preferiam usar o banheiro. Enquanto banhavam as crianças, explicaram que o chuveirão era mais seguro, porque o chão não era liso (DIÁRIO DE CAMPO, 24 out. 2016).
Além do piso inadequado, outra reclamação que se repetia entre as Auxiliares estava relacionada à distância entre o banheiro do CEI e a sala de atividades, algo que tornava mais difícil a rotina das turmas, em especial à do Infantil I, porque frequentemente precisavam ser asseadas e ter suas fraldas trocadas, processo que poderia ser facilitado se houvesse locais “para higienização das crianças, troca e guarda de fraldas […] e eliminação de fezes” (BRASIL, 2006d, p. 14) dentro, ou mais próximo, da sala de atividades, o que não ocorria no caso deste estabelecimento.
Outro fator que gerava descontentamento de Auxiliares e professoras se relacionava à arquitetura do CEI “Hora Marcada”. O estabelecimento, inaugurado no ano de 2002, sob a gestão do antigo prefeito Juraci Magalhães, que permaneceu à frente do governo municipal de 1997 a 2004, possui o “padrão Juraci Magalhães”. As Creches construídas durante este governo têm salas quadradas, pequenas e divididas por “muretas”, também chamadas, pelos funcionários do local, de “meia parede”.
As Creches nesse padrão parecem condizentes com os modelos que marcaram a oferta de atendimento educacional de baixo custo, em que a boa qualidade não era um quesito importante, prática amplamente adotada no período de expansão da Educação Infantil no Brasil (ROSEMBERG, 2002; KRAMER, 2006a). Junto a isso, a forma como a instituição é estruturada possibilita “um controle interior, articulado e detalhado para tornar visíveis os que nela se encontram” (FOUCAULT, 2008, p. 144). Este controle é sutil, mas “dociliza” os corpos de Auxiliares e professoras, pois todos podem ser observados, durante todo o tempo, seja por famílias, equipe gestora ou entre si.
A parte interna de cada sala de atividades possui um armário com chave, geralmente utilizado para guardar papel, cadernos, perfume, xampu, sabonete, dentre outros materiais que as crianças fazem uso diário. Apenas Auxiliares e professoras tinham acesso a este armário.
Cada sala também contava com estantes de ferro com, pelo menos, duas prateleiras. Nelas ficavam dispostos diferentes tipos de brinquedos, livros e revistas. Todavia, nem todos estavam ao alcance da turma. Essas estantes estavam em bom estado de conservação e afixadas à parede para evitar acidentes com as crianças.
Considerando que a criança deve ser tomada como o centro das práticas pedagógicas na Educação Infantil, seria adequado que os brinquedos estivessem dispostos em locais acessíveis a esses indivíduos, incentivando à autonomia e a capacidade de escolha, bem como refletindo uma concepção de Educação Infantil comprometida com o desenvolvimento integral da primeira infância (MACHADO, 1999; FARIA, 2000; ROCHA, 1997, 2001; FARIA, 2007).
As mesas e cadeiras presentes nas salas de atividades do CEI “Hora Marcada” são adequadas ao tamanho das crianças. A quantidade é suficiente para acomodar todas as crianças quando necessário. Este mobiliário era utilizado somente em situações de atividades específicas, como as “tarefas” realizadas no caderno ou para colocar fraldas, limpar colchonetes, fazer agendas, dentre outras atribuições dos adultos que acompanham as turmas. As cadeiras, em todos os agrupamentos, ficavam, a maior parte do tempo, penduradas nas “muretas” das salas, o que talvez possa elucidar o bom estado desse material.
Nas salas foi identificado apenas um ventilador por turma. Em alguns horários do dia, esses locais podiam se tornar bem desconfortáveis para as crianças e profissionais por causa do calor. No “momento de sono” das crianças, um ventilador não era suficiente para contemplar toda a turma e ajudar a afastar os mosquitos existentes no local. Além da ventilação inadequada, as crianças dormiam em colchonetes dispostos no chão da sala de
atividades. De acordo com o artigo 32 da Resolução Municipal nº 002/2010 (FORTALEZA, 2010, p. 10), na Educação Infantil deveria haver “[…] dormitórios com berços de uso individual, assegurada a distância entre um e outro e em relação à parede de, no mínimo, 50 cm (cinquenta), para o atendimento dos bebês […]”. Portanto a realidade encontrada nessa instituição descumpre o que está previsto em lei.
Todas as salas possuíam um espelho, mas as crianças, de modo geral, eram pouco incentivadas a usá-lo. Todavia, na Educação Infantil, o espelho não se trata apenas de um objeto comum, mas de um instrumento que pode oportunizar aprendizagens às crianças, através de experiências de (re)conhecimento do esquema corporal, do senso estético, de apreciação dos movimentos e limites de seu corpo, dentre outras situações. Tanto é assim, que a Resolução municipal nº 002/2010 (FORTALEZA, 2010, p. 9), em seu artigo 31, torna obrigatório na sala de atividades um “[…] espaço para colocação de espelho, em tamanho e altura que possibilite a visualização completa das crianças”.
Ainda que a estrutura do CEI provocasse insatisfação na maior parte dos funcionários, havia outros aspectos que também incomodavam os diferentes profissionais. As professoras, por exemplo, reclamavam sobre a falta de materiais variados para colocar em prática o que tinham aprendido nas formações continuadas oferecidas pela SME, como materiais para as vivências de musicalização, livros adequados para a idade das crianças, dentre outros.
Assim, se faz importante salientar a importância de proporcionar materiais condizentes às características e necessidades das crianças, que variam de acordo com a idade. No caso dos livros, é preciso considerar que na faixa etária dos sujeitos que frequentam o CEI “Hora Marcada”, muitas crianças ainda estão aprendendo a manuseá-los, logo se faz imprescindível que alguns livros sejam, inicialmente, de pano, de plástico ou de feltro. À medida que a criança vai crescendo e se apropriando do manejo desse recurso, outros tipos de livros poderão ser ofertados, sempre partindo do pressuposto de que serão utilizados para e pelas crianças, porque elas “vão se tornando leitoras, ouvindo, vendo, falando, gesticulando, lendo, desenhando sua história, construindo novas histórias” (KISHIMOTO, 2010, p. 7). Em suma, vê-se que o material conveniente favorece não só o trabalho docente, mas, de forma especial, o desenvolvimento infantil.
Cabe, ainda, ressaltar que algumas Auxiliares e professoras acrescentaram ao hall de descontentamentos a falta de locais adequados para guardar os colchonetes, toalhas e outros pertences individuais das crianças, como sandália, chupeta, roupas/fardamento. De todo modo, esses objetos eram colocados em grandes depósitos de plástico, alguns com
tampa, outros não. Outras vezes eram mantidos dentro das mochilas das crianças, sendo retirados apenas em caso de necessidade.
Considerando tudo o que foi descrito até aqui, cabe refletir sobre o pensamento de Freire (2002, p. 25), quando o autor versa que “há de haver uma pedagogicidade indiscutível na materialidade do espaço”. A reflexão freireana é provocativa, porque desvela que não há espaço neutro. Logo, o modo como o CEI “Hora Marcada” está estruturado denota as concepções ali existentes acerca de educação e cuidado, infância, criança e trabalho docente.
A descrição do CEI “Hora Marcada” vai, em muitos aspectos, na contramão do conteúdo disposto em documentos oficiais, como os Indicadores da Qualidade na Educação Infantil (BRASIL, 2009c, p. 50), em que se afirma que as instituições “[…] devem refletir uma concepção de educação e cuidado respeitosa das necessidades de desenvolvimento das crianças, em todos seus aspectos […]”. Partindo desta assertiva e levando em conta os preceitos de educação integral marcada pelo cuidado e educação, previstos para a primeira etapa da Educação Básica, é interessante que o contexto em que a pesquisa foi desenvolvida seja repensado.
Debater o espaço67, a estrutura e a arquitetura do CEI não se constituem objetivo central ou específico desta pesquisa, porém conhecer e problematizar a forma como a instituição de atendimento educacional às crianças pequenas está organizada significa perceber que o modo como esse local se apresenta revela muito sobre a prática docente e a concepção do governo municipal sobre educação para as crianças pequenas.
Dando continuidade às informações relacionadas ao CEI “Hora Marcada”, torna- se importante ressaltar que o quantitativo de crianças atendidas neste estabelecimento, em 2016, foi de 106 crianças. No referido ano, havia cinco diferentes turmas, com média de 16 crianças por classe. Porém, como uma das salas possuía dimensões mais restritas, ofertou-se uma “turma reduzida”68, em decorrência das exigências impostas pelas “[…] especificações estabelecidas nos Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil, do CNE-MEC, e no Código de Obras e Posturas do Município de Fortaleza” (FORTALEZA, 2010, p. 8) que determinam as características estruturais que devem compor os estabelecimentos de atendimento educacional às crianças pequenas.
67 Para esta dissertação, considero o conceito “espaço” abordado por Horn (2007, p. 35), pois a autora afirma que
este termo “se refere aos locais onde as atividades são realizadas, caracterizados por objetos, móveis, materiais didáticos, decoração”.
68
Conforme a Resolução Municipal nº 002/2010, as salas das crianças nas instituições de Educação Infantil devem ter um espaço que considere “1,50 m² (um e meio) por criança atendida” (FORTALEZA, 2010, p. 9). Caso uma sala de atividade não possua essas dimensões, forma-se uma “turma reduzida”, situação que foi encontrada no CEI “Hora Marcada”, em uma turma de Infantil II, em decorrência do espaço dessa sala.
Quando a pesquisa para esta dissertação foi realizada, a instituição tinha uma turma de Infantil I, três turmas de Infantil II e duas turmas de Infantil III. Não havia turmas para bebês. Deste modo, a Rede Municipal de Educação de Fortaleza, como já mencionado, fere o direito à educação, assegurado pela LDB (BRASIL, 1996a), pois desde a década de 1990, ficou estabelecido que o atendimento educacional a crianças pequenas deve ser ofertado a partir de zero anos; porém a realidade evidenciada não se trata de uma condição específica ao município investigado.
A dificuldade de matricular69 bebês na primeira etapa da Educação Básica mostra- se como um empecilho a ser superado em todo território nacional (VIEIRA, 2011, 2010; GOMES, 2016). Como a Creche ainda não possui caráter de obrigatoriedade de matrícula, o número de vagas dispensadas a essa faixa etária tem recebido menor investimento, mesmo com este direito garantido pela LDB (BRASIL, 1996a).
Quanto à forma de funcionamento do CEI “Hora Marcada”, em 2016, somente as crianças de um e dois anos estavam matriculadas em tempo integral. As crianças pertencentes a essas turmas faziam cinco refeições por dia no CEI: “desjejum”70, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. As crianças de três anos desfrutavam apenas do regime parcial71, com uma turma pela manhã e outra pela tarde. Sendo assim, quanto à alimentação, no tempo parcial, as crianças tinham direito a três refeições.
Convém destacar que os agrupamentos, de modo geral, aceitavam bem as refeições oferecidas. Aquela que parecia menos atrativa era o “desjejum”, pois a maioria das crianças parecia chegar alimentada no CEI. Há um fragmento do diário de campo que aborda esta questão:
Muitas crianças não tomavam o mingau oferecido na primeira refeição. Busquei conversar com as profissionais responsáveis pela feitura deste alimento e elas me
69 Com apoio nas informações do site do Observatório do PNE, constata-se que houve crescimento no número de
matrículas em Creche ao longo dos últimos anos, mas numa necessidade aquém do número de crianças a serem atendidas.
70 A utilização da expressão “desjejum” para fazer referência à primeira refeição oferecida pelo estabelecimento,
parece associada a uma concepção assistencialista e compensatória da educação. Nesta perspectiva, caberia ao estabelecimento educacional compensar as deficiências das crianças, fosse cultural, médica ou de outra natureza (KRAMER, 2011). Esta concepção parte do pressuposto que essas crianças possuem, necessariamente, carências que devem ser sanadas, incluindo, também, a alimentação, afinal, a palavra “desjejum” supõe que a criança realizará sua primeira refeição do dia nesse contexto.
71 Este atendimento passou a se configurar deste modo no ano de 2014, quando Ivo Gomes, secretário de
educação da época, junto ao prefeito Roberto Cláudio, afirmaram que esta seria uma alternativa para ampliar