5. REEL OPSIYONLAR METODUYLA e-TICARET PROJESI ANALIZ
5.1 Reel Opsiyonlar ile Ideal Yatirim Zamanlamasinin Belirlenmes
5.1.4 Degerleme Sonuçlar
A religião pode ser tanto benéfica quanto prejudicial, e as melhores intenções podem ser distorcidas. Mas a Reforma é – e a Reforma foi – um movimento espiritual: espiritual no sentido de construir uma convulsão do espírito humano; espiritual também no fortalecimento dos vínculos que ligam os indivíduos e a sociedade ao Espírito Divino. A Reforma, através da renovação da Igreja, é uma tentativa de alertar o mundo. (Felipe Fernández-Armesto, Derek Wilson).222
A questão das causas da reforma é complexa. Para tentar resolvê-la é preciso ir direto ao essencial. O Protestantismo dá ênfase a três doutrinas principais: a justificação pela fé, o sacerdócio universal, a infalibilidade apenas da Bíblia. Esta teologia respondia certamente às necessidades religiosas do tempo, sem o que ela não teria conhecido o sucesso que foi o seu. (Jean Delumeau).223
A escrita da história se constitui em uma operação historiográfica que tem como objetivo a reconstrução da situação vivencial do Outro, aquele que está paradoxalmente posicionado como ausente do presente, o qual é colocado em cena através de uma viagem de retorno, utilizando-se como mapa os rastros deixados pelos atores da história, com o intuito de restabelecer as chaves semânticas que possibilitam a interpretação dos fatos circunscritos ao seu lugar social de origem, o qual autoriza e fundamenta a sua existência. Observamos, neste trabalho, que o lugar social comumente entendido como o seu produto semântico, portanto, um sistema de ideias, não surge em um vácuo etéreo, mas na verdade é determinado pelas
222 Felipe Fernández-Armesto, Derek Wilson, Reforma: o Cristianismo e o mundo 1500-2000, Rio de Janeiro,
Record, 1997, p. 11.
90 situações da realidade dos sujeitos históricos condicionados às suas contingências situacionais de vida. Assim, a própria pesquisa da história articula-se neste lugar social, produzindo a circunscrição em um meio de construção elaborado segundo determinações específicas. Para Certeau a escrita da história está “submetida a imposições”224e “enraizada em privilégios”225,
portanto, é justamente “em função desse lugar que se instauram os métodos, que se delineia uma topografia de interesses, que os documentos e as questões, que lhes serão propostas, se organizam”.226 Por conseguinte, “toda interpretação histórica depende de um sistema de
referencia”227, constituindo-se em uma estrutura fundante, implícita na interpretação,
evidenciada nas escolhas objetivas, externalizadas na linguagem utilizada pelo historiador como um sistema de pensamento que lhe antecede, constituindo-se deste modo em um sistema de pensamento fundantemente estruturado. Considerando atentamente esta necessidade aqui esboçada para a compreensão da escrita da história, tomaremos neste capítulo, como foco de construção, a tarefa de reconstruir o contexto histórico condicionante da experiência vivencial de Jean de Léry em suas mais diversas relações que produziram a sua visão de mundo. Seguiremos esta andança através de uma espécie de viagem de retorno historiograficamente determinada. Deste modo, pressupomos que o discurso de Jean de Léry é, portanto, um discurso social, onde o autor opera uma ação na qual atua como um representante, um porta-voz, consequentemente, analisar o corpo que simboliza é tarefa essencial nesta empreitada interpretativa. Portanto, nos deparamos com uma sociedade escriturística onde buscar o sentido das vozes perdidas é uma necessidade, pois, conforme enfatiza Certeau, não existe “voz „pura‟, porque ela é sempre determinada por um sistema”.228
Em Léry o sistema que determina sua voz é o sistema teológico de pensamento calvinista, assim a sua voz não pode ser ouvida se não for condicionada ao sistema escriturístico onde surge, porque não é possível dissociar o escritor de sua realidade vivencial sem o custo de uma interpretação equivocada do relato.229
No capítulo anterior já apontamos, seguindo Michel de Certeau, a centralidade
224 Michel de Certeau, A Escrita da História, 3.ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2011, p. 47. 225 Michel de Certeau, A Escrita da História, 3.ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2011, p. 47. 226 Michel de Certeau, A Escrita da História, 3.ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2011, p. 47.
227 Michel de Certeau, A Escrita da História, 3.ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2011, p. 48. “Um discurso
ideológico se ajusta a uma ordem social, da mesma forma como cada enunciado se produz em função das silenciosas organizações do corpo. Que o discurso como tal obedeça a regras próprias, isso não o impede de articular-se com aquilo que não diz – com o corpo, que fala à sua maneira”. Michel de Certeau, A Escrita da
História, 3.ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 2011, p. 53.
228 Michel de Certeau, A Invenção do Cotidiano, 1. Artes de Fazer, 9.a ed., Petrópolis-RJ, 2003, p. 222. 229 Michel de Certeau, A Invenção do Cotidiano, 1. Artes de Fazer, 9.a ed., Petrópolis-RJ, 2003, p. 222.
91 determinante do lugar social, Genebra, que condiciona as construções escriturísticas de Jean de Léry. Em conformidade com nossa tese, este lugar fora caracterizado pelo sistema estrutural de pensamento calvinista, que tanto produz quanto autoriza as construções semânticas que tornam o relato de viagem inteligível, porque estabelece os limites fronteiriços da construção do relato historiográfico. Genebra, em outras palavras, a Reforma Protestante e o próprio reformador genebrino João Calvino, surgem como a coluna vertebral que perpassa toda a estrutura interpretativa contida na obra História de uma Viagem feita à Terra do Brasil, também chamada América. Este elemento estruturante, conforme já advogamos, é determinante na constituição do conceito de heterologia como uma ciência do Outro que fora organização por Jean de Léry como uma aplicação prática a partir de seu sistema de pensamento teológico calvinista.
O ambiente formador das mentalidades de Jean de Léry, desta feita, é o ambiente do Outro religiosamente constituído. A Reforma Protestante, o reformador João Calvino, os huguenotes e a França Antártica são o Outro, marginalizados pela Igreja Católica ou pelo poder político instituído em vigência no século XVI. Assim sendo, Léry é o Outro no ambiente do mesmo, portanto, ele é perseguido, posto à margem da sua sociedade e desumanizado, consequentemente, é sabedor da situação vivencial do tupinambá em sua relação com o humano, mesmo que este não tenha consciência da posição preconceituosa a qual é posto pelo Velho Mundo. Deste modo, Léry quer propor o respeito ao tupinambá que ele mesmo não encontra entre os seus próprios pares franceses ou mesmo entre os europeus de um modo geral. Portanto, conhecer Léry como o Outro é lançar luzes sobre como ele enxerga o índio, pois, ele tem conhecimento de causa quanto a ser posto à margem da existência humana, consequentemente, o huguenote também é o espelho da realidade do tupinambá. Seguir o percurso oposto, ou seja, não somente olhar o Outro para entender o mesmo, mas olhar o mesmo para interpretar o Outro, eis nosso objetivo neste capítulo.230 Não há
230“Trata-se, de fato, de traduzir uma diferença que tem como instrumento a figura da inversão: a alteridade
torna-se um anti-si-mesmo. Ora, se viajantes e utopistas abusam dessa figura, isso se deve ao fato de que tal figura constrói uma alteridade „transparente‟. „O princípio de inversão é, portanto, uma maneira de transcrever a alteridade, tornando-a fácil de apreender no mundo em que se conta (trata-se da mesma coisa, embora invertida). Entretanto, pode funcionar também como um princípio heurístico, permitindo compreender, considerar, dar sentido a uma alteridade que, sem isso, permaneceria completamente opaca. A inversão é uma ficção que faz „ver‟ e que faz compreender: trata-se de uma das figuras que concorrem para a elaboração de uma representação do mundo‟”. Adone Agnolin, O Apetite da Antropologia: o sabor antropofágico do saber antropológico:
alteridade e identidade no caso tupinambá, São Paulo, Associação Editoral Humanitas, 2005, p. 71; “Na narrativa de Léry, a viagem é tanto motivo para se reavaliar a nação francesa quanto objeto de conhecimento. A descrição do encontro com o Novo Mundo muitas vezes sugere que, ao menos inicialmente, assimilar a diferença
92 redundância, mas necessidade, enfatizar que a chave de leitura da obra de Jean de Léry é condicionada pela sua situação histórica vivenciada nas suas relações intrinsecamente relacionadas à sua concepção calvinista de mundo.
A Reforma Protestante como um movimento marginalizado em relação ao sistema de pensamento em vigor – as estruturas da teologia católica em sua relação com o estado –, constrói por meio da palavra o seu espaço. É a palavra que estrutura a Reforma, a sua fundamentação na Escritura Sagrada, e é a palavra que a expande, a pregação da Palavra e os textos escritos por ela produzidos ao longo do século XVI. Seguindo na mesma perspectiva, também temos o filólogo de formação e prática, João Calvino, posto à margem por ser protestante, mas, encontrando na palavra o sentido de sua existência vocacional ao construir o seu espaço em um lugar instituído. É pela palavra, a Bíblia, que o reformador exalta o valor do ser humano como imagem e semelhança de Deus, e, além disto, constrói o seu espaço teológico que se expande por outras áreas do conhecimento humano por meio da escrita e da pregação. E não somente isto, mas o próprio ser humano se constitui em uma escrita que expressa a divindade, fonte de conhecimento. Deste modo, é natural Léry entender que é pela palavra que se dá a construção valorativa do ser humano, consequentemente a sua etnologia se articula pela escrita, o índio tupinambá é a palavra que comunica a realidade do Novo Mundo ao Ocidente.
Desta feita, empreenderemos neste capítulo a reconstrução do lugar histórico de Jean de Léry, a Reforma Protestante, uma sucinta biografia contextualizada do seu mestre João Calvino, a França das guerras de religião e a própria França Antártica, tomando como fio condutor a realidade de que o nosso viajante esteve no século XVI posto à margem da instituição de controle e por meio da palavra encontrou o seu espaço, assim, a estratégia utilizada por excelência neste contexto para construir o espaço próprio sempre foi, por excelência, a escrita. Portanto, seguindo esta perspectiva podemos observar de modo claro que a ação de Léry em dar voz ao índio é uma expressão de apreço por este ao querer dar-lhe o seu espaço valorativo na humanidade. Prossigamos em nossa tarefa historiográfica, contudo, devemos salientar que neste capítulo serão apontados apenas lampejos das relações deste lugar histórico na construção do sistema de pensamento de Jean de Léry, pontos de contato que ganharão aprofundamento detalhado nos capítulos subsequentes.
significa ser assimilado por ela”. César Braga-Pinto, As Promessas da História: discursos proféticos e
93