4. HASSAS NİVELMAN YÖNTEMİ İLE DEFORMASYON İZLEME; OBRUK
4.3 Elde Edilen Verilerinin Değerlendirilmesi
4.3.2 Deformasyon Analizi
Clóvis Beviláqua (1859-1944), influente jurista nascido em Viçosa do Ceará e graduado na Faculdade de Direito de Recife, como relata Schubsky (2009, p. 1), foi convidado pelo Ministro da Justiça, Epitácio Pessoa, para elaborar um projeto de Código Civil, o qual apresentou em 1899. Tal projeto foi aprovado e veio a se tornar o Código Civil de 1916.
Inicialmente, ressalta-se a necessidade de tratar separadamente o Projeto Beviláqua do efetivo Código Civil de 1916. Afinal, o projeto foi constantemente revisto por uma comissão de jurisconsultos e, tendo passado por diversas críticas, teve seu texto bastante modificado antes de vir a se tornar o Código Civil de 1916.
Relativamente à questão dos alienados, grandes polêmicas surgiram na discussão dos artigos, especialmente acerca da nomenclatura “loucos de todo o gênero”. Várias das críticas mais decisivas foram de autoria de Nina Rodrigues, contidas em seu livro O Alienado no Direito Civil Brasileiro, escrito em 1901.
Nina Rodrigues ([1933?], p. 6-9), como jurista, além de médico-legista e professor de medicina-legal, afirma que, embora Clóvis Beviláqua e a comissão designada tivessem notório conhecimento jurídico, careciam de conhecimento específico sobre medicina legal. Aduz que a obra medico-forense de Clóvis Beviláqua teve todas as falhas decorrentes da carência de uma melhor instrução técnica e profissional acerca do assunto, de modo que o Projeto em nada melhorou ou adiantou o atraso e a deficiência do direito civil vigente.
Conforme indicam as Actas dos Trabalhos da Comissão Revisora do Projecto de Codigo Civil Brazileiro, de 1901, como trazidas por Clóvis Beviláqua (1901, p. 6-7), a comissão incumbida de estudar o projeto de código era formada pelos Srs. Drs. Olegario Herculano de Aquino e Castro, Joaquim da Costa Barradas, Amphilophio Botelho Freire de Carvalho, Francisco de Paula Lacerda de Almeida e João Evangelista Sayão de Bulhões Carvalho, designados pelo Ministro da Justiça Epitácio Pessoa.
Foi no dia 7 de junho de 1900, conforme ata da 21ª reunião da comissão, conforme Clóvis Beviláqua (1901, p. 137-142) que se realizaram as mudanças referentes ao Título VI, Secção IX, Capítulo II, denominado “Da Tutela dos maiores”, a qual, dentre outros assuntos, tratou da curatela dos loucos.
Originalmente, no projeto primitivo, versava o art. 258, §1º: Art. 258 Estão sujeitos á tutela, ainda que maiores:
1.º Os alienados de qualquer espécie incluidos entre elles os fracos de espirito. (BEVILÁQUA, 1900, p.80)
Sobre o que se entende por alienados de qualquer espécie explicou o próprio Clóvis Beviláqua:
Sob a expressão de alienados e fracos de espírito, compreendem-se todos aquelles que, por organisação cerebral incompleta, por moléstia localizada no encephalo, lesão somática ou vicio de organisação, não gozam de equilíbrio mental e clareza de razão suficientes para conduzirem-se socialmente nas várias relações da vida, ‘como: os idiotas, os imbecis, os surdos-mudos de nascença não educados suffi- cientemente, os vesanicos, os furiosos, que a nossa lei designa cominummente pelos nomes geraes de mentecaptos, desassizados, dementes e furiosos, e cuja caracterização scientífica incumbe aos alienistas e aos médicos-legistas. (BEVILÁQUA, 1903, P. 583)
Os revisores do projeto, contudo, modificaram a expressão para “loucos de todo gênero”, já constante do Código Criminal de 1830, tendo sido esta a que prevaleceu e passou a integrar o art. 446 do Código de 1916:
Art. 446. Estão sujeitos à curatela:
I. Os loucos de todo o gênero (arts. 448, n. I, 450 e 457).
Nina Rodrigues ([1933?], p. 20-25) assevera ser a expressão “alienados de qualquer espécie” mais compreensiva do que “loucos de todo o gênero”. Contudo aduz ser redundante a escolha de Clóvis Beviláqua de acrescentar a expressão “incluidos entre elles os fracos de espirito” no art. 258, §1º, na tentativa de alargar a abrangência do termo para alcançar todos os casos de insanidade mental. Afinal, os “fracos de espírito” já estariam rigorosamente compreendidos no termo “alienados”.
Ressalta que, como termos como “alienados” e “loucos” conservam seu valor técnico, mesmo que se diga serem os primeiros “de qualquer espécie” e os segundos “de todo o gênero”, estes não servirão como expressão para incluir todos os casos de incapacidade civil por perturbação psíquica.
Já em 1886, em relação ao Código de 1830, Tobias Barreto22 havia esboçado crítica semelhante:
Eu disse que o Codigo, tornando irresponsáveis os loucos de todo genero, com quanto usasse de uma expressão concisamente larga, todavia não dava entrada à
22
Tobias Barreto (1839-1889) nasceu na Província de Sergipe, formou-se na Faculdade de Direito de Recife, na qual veio a lecionar. Reuniu ao redor de si alunos que vieram a ser nomes famosos no Brasil, como Graça Aranha, Sívio Romero, e o próprio Clóvis Beviláqua. (BARRETO, 2003, [orelha]).
totalidade dos phenomenos, que é de supor quisesse incluir dentro dessa categoria. O conceito da loucura é realmente um conceito genérico, divisível em espécies, que são como fracções, de que elle é o denominador comum. Mas tambem, por sua vez, a loucura assume uma feição especifica, em relação ao conceito superior da incapacidade psychologica de delinquir livremente, conceito, cujo valor excede a somma de todos loucos e menores de quatorze anos. (BARRETO, 2003, p. 44). Assim, para resolver o problema relativo à nomenclatura, Nina Rodrigues sugere uma maior enumeração de estados de insanidade:
Si, como parece justo, deve o Projecto conservar as expressões, alienados ou loucos
de todo o gênero, já consagradas no nosso direito civil, importa completar a
enumeração dos estados duradouros de insanidade mental. Para abranger os estados de demencia aphasica e de fraqueza mental senil, póde-se acrescentar aos loucos de todo o gênero do §2º do art. 5 do Projecto, a formula incluídos entre elles os que por
fraqueza intelectual não podem cuidar de seus negocios, tomada do §1º do Codigo
allemão. Será preciso prever a prodigalidade com as suas fórmas clinicas de embriaguez e jogo habitual. Póde admitir aqui, ou a discriminação desses estados, como no Codigo allemão ou a formula comprehensiva do §2º do artigo 2.300 do projecto Coelho Rodrigues23. Finalmente cumpre contemplar na parte geral do
Codigo os casos de inconsciencia mórbida ou sob a forma de incapacidade acidental do Codigo portuguez, ou da nulidade da declaração de vontade do Codigo allemão (art. 105). (RODRIGUES, [1933?], p. 105)
Nina Rodrigues argumenta, porém, que poderia ser reduzida essa necessidade de enumeração de estados mentais no Código, caso o Projecto abandonasse os termos alienados e loucos de todo o gênero, passando a utilizar como definição a “incapacidade civil devida á enfermidade mental duradoura”, como foi feito pelos Códigos italiano e português contemporâneos. Propôs, assim, que se passasse a definir os passíveis de curatela não pela enfermidade, mas pela consequência desta na capacidade do interdito de reger a sua pessoa e os seus bens.
No Código Civil de 1916, todavia, prevaleceu, como mencionado, o termo “loucos de todo gênero”. Descontente com esta escolha do legislador, Raul Camargo (1921, p. 4-5), chegou a afirmar que a crítica de Nina Rodrigues quanto à nomenclatura já condenada como insuficiente foi profética, porque a expressão, de fato, acarretou consequências negativas.
A exemplo disto, Raul Camargo cita o caso de um “Acc. De Camaras Reunidas da Côrte de Apellação”, no qual se proclama que, segundo a redação do art. 446 do Código Civil “um estado demencial incipiente e certas lacunas de memoria não são causas legais para interdicção” (CAMARGO, 1921, p. 5).
23 Art. 2300. Podem ser interdictos da livre administração e disposição dos seus bens:
[...]§2.º As pessoas prodigas e dominadas por um vicio habitual, que as afaste frequentemente de seu domicilio, ou arruíne a sua saúde, como a embriaguez, ou a sua fortuna, como os jogos de azar e as apostas. (RODRIGUES, 1893, 280-281)
Segundo Raul Camargo, devido ao fato de a expressão “loucos de todo gênero” não deixar explícito se alguns casos estariam ou não de fora da abrangência do Código Civil, acabaria por tornar-se perigosa quando analisada em conjunto com o art. 6º da Introdução ao Código Civil, o qual define que “a lei que restringe direitos só abrange os casos, que especifica”.
Ainda, outra forte crítica ao Projeto Beviláqua foi a mencionada por Pontes de Miranda (1947, p. 294) acerca do artigo 541 do Projeto Primitivo:
Art.541. Os alienados, sempre que parecer inconveniente conserva-los em casa, deverão tambem ser recolhidos em estabelecimentos adequados.
Nina Rodrigues ([1933?], p 171-172) condena o dispositivo, visto que o texto demonstra não ser supremo o interesse de cura do doente. No caso, leva-se em conta apenas a conveniência particular da família que o abriga.
Relata Pontes de Miranda (1947, p. 294), portanto, que, graças à crítica de Nina Rodrigues, foram acrescentadas ao artigo do projeto as palavras “ou a exigir o seu tratamento”. Tendo o artigo final ficado com a seguinte redação, no Código de 1916:
Art. 457. Os loucos, sempre que parecer inconveniente conserva-los em casa, ou o exigir o seu tratamento, serão também recolhidos em estabelecimento adequado. Além disso, Nina Rodrigues ([1933?], p 142) também critica o fato de o Projeto prever apenas a interdição de alienados com incapacidade absoluta, sem atenuação ou graduação, o que era tido como uma instituição condenada como regra geral. Porém, não houve modificações quanto a este assunto, tendo a situação permanecido no Código de 1916 e, por isso, a questão é abordada no tópico seguinte sob a égide da doutrina de Pontes de Miranda.