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A análise da distribuição das vertentes na área de estudo demonstra uma marcante heterogeneidade de segmentos de vertentes, apesar da maior frequência de vertentes convexas e retilíneas (Tabela 5). Em muitos perfis côncavos ou convexos de alta vertente são comuns pequenas concavidades aí aninhadas. Frequentemente os perfis de vertente, tanto no planalto superior quanto no inferior, não apresentam em toda sua extensão um mesmo padrão geométrico, sendo comuns segmentos convexos nas porções de alta vertente, com ou sem concavidades aninhadas, e segmentos retilíneos na baixa vertente. A principal conclusão que se aponta a partir disso é que no contexto pós captura fluvial um novo ritmo morfogenético estabeleceu-se nos dois compartimentos planálticos, dando início a uma nova fase morfogenética que está reafeiçoando a morfologia da fase anterior. A morfologia das vertentes de novo nos leva à ideia do trabalho fluvial diferenciado nos dois compartimentos planálticos, sendo que para os canais do planalto inferior ele se manifesta ainda no âmbito das planícies aluviais e não no âmbito do sistema vale-vertentes como um todo como talvez aconteça no planalto superior.

A coexistência de perfis de encosta tão díspares permite supor duas fases morfogenéticas distintas para a área de estudo. Uma relacionada à morfologia anterior à captura fluvial e outra que se inicia a partir desse processo e está atualmente em curso. Esta coexistência suscita a retomada de algumas ideias de Penck (1953) a respeito da transformação e evolução da paisagem geomorfológica a partir das unidades de vertente. A análise morfológica empreendida por Penck é bem clara quanto ao que as unidades de vertente dizem sobre a morfodinâmica e morfogênese no local onde elas ocorrem. Segundo ele, perfis côncavos são os perfis típicos ao longo da evolução do modelado e definem a situação do waning

development caracterizada pela diminuição relativa das altitudes. A ocorrência de perfis

convexos é acompanhada por um aumento na intensidade erosiva e caracteriza situação de

waxing development, com um aumento da intensidade erosiva e das altitudes relativas

A quantidade de rebaixamento é determinada somente pela intensidade da desnudação na interseção das unidades de vertente ...; quanto mais íngremes estas forem nas zonas de interseção, maior o rebaixamento por unidade de tempo; e isso é independente do que está acontecendo nas partes baixas das vertentes e no nível geral de desnudação. Variações na altitude relativa, por outro lado, dependem do comportamento erosivo dos canais e do comportamento erosivo que prevalece nas zonas de interseção. Se a intensidade de erosão diminui, as altitudes se tornam menores. Mas isso não ocorre até que os sistemas de vertente de perfil côncavo tenham se estendido até as partes mais altas, sem necessariamente terem afetado os topos previamente considerados (waning development). Se a intensidade erosiva aumenta, aumenta também a altitude relativa. Mas aqui, do mesmo modo, isso não acontece até que o desenvolvimento das vertentes, divididas por rupturas convexas, tenha se estabelecido (waxing development). E é somente nestes casos especiais em que vertentes retilíneas, resultantes de uma incisão fluvial uniforme, interseccionam-se nos topos, que as altitudes se mantêm constantes. Então isto não altera nada mais que a inclinação da vertente, não importa o que aconteça durante o tempo em que a intensidade da erosão se mantiver, e nem mesmo quando a desnudação e o rebaixamento das zonas de interseção forem de duração ilimitada (desenvolvimento uniforme)

(PENCK, 1953, p.155-156).

A presença de vertentes retilíneas em um contexto no qual a reincisão recente da drenagem parece incontestável não é concordante com a afirmação de que o “rebaixamento por unidade de tempo é independente do que acontece nas partes baixas das vertentes e no nível geral de desnudação” (PENCK, 1953, p.155). Na perspectiva dos fluxos de matéria e energia, a ação dos canais altera primeiramente a morfologia das baixas vertentes e se propaga a partir daí para as porções a montante.

No que se refere à recorrência de anfiteatros aninhados em altas vertentes, questiona-se se tais feições são indicadoras de algum condicionamento tectônico recente? Qual o significado destas reentrâncias em meio a vertentes côncavas, retilíneas e convexas? Estariam elas relacionadas ao reafeiçoamento morfológico da atual fase morfogenética? À primeira vista, embora comuns em amplas áreas de relevo colinoso do Planalto Atlântico, estes anfiteatros apresentam uma clara diferença quando comparados com os que ocorrem na região do médio vale do rio Doce. Ao contrário do alto rio Doce, essas feições têm aí uma comunicação com o segmento de baixa vertente ao qual pertencem, facilitando dessa maneira o escoamento superficial em direção aos talvegues. Pode-se supor que no alto rio Doce essas reentrâncias ainda não se desenvolveram a ponto de estabelecerem uma comunicação caudal com os trechos de baixa vertente? Esta é uma intrigante questão que permanece inconclusiva pelos dados deste estudo.

Tabela 5. Número de segmentos de vertente por sub-bacia SUB-BACIA SEGMENTO PREDOMINANTEME NTE CONVEXO SEGMENTO PREDOMINANTEME NTE CÔNCAVO SEGMENTO PREDOMINANTEM ENTE RETILÍNEO Córrego Pinheiro 21 13 33 Córrego Lagoa 13 5 12 Córrego do Açude 21 10 13 Córrego Soares 12 7 4 Córrego Maria Luisa 22 18 15 Córrego Ponte Funda 21 9 8 Córrego Tiradentes 6 4 13 Córrego Paiol de Cima 14 5 7

A interpretação dessa distribuição encontra dificuldades de estabelecer uma relação direta com as ideias de Penck (1953) acerca da correspondência entre taxas erosivas, levantamento tectônico e perfil de vertente. Considerando as evidências que suportam uma dissecação do relevo em vigor (waxing development) e os fatores incisão fluvial, escoamento superficial e altimetria entende-se que a evolução morfogenética recente da área não dá conta de ser explicada simplesmente pela evolução morfodinâmica das vertentes, estando esta condicionada por processos de maior magnitude e temporalidades diversas, especialmente a captura fluvial, a reorganização da drenagem, o avanço regressivo das cabeceiras e a pedogênese.

A morfologia das vertentes no planalto inferior é indicativa de um maior número de coluvionamentos nas médias e baixas vertentes deste compartimento em relação ao planalto superior. Em alguns lugares há uma clara linha divisória que marca a transição de volumes contidos na base de anfiteatros como, por exemplo, pode-se visualizar na FIGURA 14H. Em outros, a presença de linhas de pedra e horizontes enterrados (FIGURA 86V) também sugere este processo. A ausência de coluviões bem como a de níveis deposicionais fluviais nas vertentes do planalto superior pode estar relacionada ao vigor erosivo e aos maiores declives presentes já desde a fase anterior a captura do alto rio Piranga. Como estas sub-bacias faziam parte da bacia do rio Carandaí possivelmente a morfologia já fosse mais íngreme antes da captura do alto rio Piranga. Durante o período pós-captura fluvial, em função do ajuste da drenagem, os canais entalharam ainda mais os vales encaixados.

Os cupinzeiros são marcas relacionadas à morfologia de vertentes e vinculadas à incisão fluvial. Por sua localização, demonstram uma morfogênese preponderante à pedogênese. Em muitos vales, a presença de cupinzeiros de coloração acinzentada às margens e acima dos talvegues atuais denota paleoníveis hídricos abandonados. Dispersos por toda a área de estudo acredita-se que os cupinzeiros sejam bioindicadores de um contexto paleoambiental quando os talvegues ocupavam posições altimetricamente superiores às de hoje.

Em termos das marcas erosivas expostas no contexto regional pode-se dizer que a maioria das cicatrizes de movimentos de massa encontra-se próxima a cortes de estrada (FIGURA 14I), sendo pouco frequentes as cicatrizes recentes de movimentos de massa nas altas vertentes. Daí apenas se conclui que muitas destas feições não servem como indicadoras para a análise morfodinâmica e morfogenética da área de estudo na perspectiva do equilíbrio morfológico.

Benzer Belgeler