2. TROL AĞININ KAPI VE ÇEKME HALATLARININ BAĞLANTILARINI YAPMAK
2.2. Değişik Yapıdaki Kilitler
O papel decisivo que a atividade empresarial desempenhou e continua a promover na história mundial – com marcos históricos sucessivos nas primeiras sociedades da Idade Média, na fundação das Companhias das Índias Ocidentais e Orientais e seus desafiadores e custosos propósitos, no fenômeno da industrialização inglesa e na hegemonia capitalista após o fim da Guerra Fria – fez com que a empresa ganhasse destaque em diversos cenários, dentre os quais o jurídico e, principalmente, o econômico.
A respeito disso afirma Fábio Konder Comparato:
Se se quiser indicar uma instituição social que, pela sua influência, dinamismo e poder de transformação, sirva de elemento explicativo e definidor da civilização contemporânea, a escolha é indubitável: essa instituição é a empresa.109
A amplitude que a atividade empresarial exerce na história, especialmente nos últimos dois séculos, torna o seu estudo interessante sob várias perspectivas, dentre as quais, a jurídica. Ademais tal atividade está presente, direta ou indiretamente, na vida de praticamente todos os habitantes do planeta, o que faz dela assunto recorrente nas conversas diárias, nos importantes debates políticos e, como não poderia deixar de ser, na comunidade científica.
O constante e necessário uso do termo empresa nessas várias perspectivas, cada uma com o seu sistema de referência específico, faz com que a atividade de defini-lo apresente-se como um trabalho imprescindível, porém hercúleo, sendo clara a sua vaguidade e, principalmente, sua ambiguidade.
As diversas formulações teóricas que surgiram dentre os juristas com o propósito de definir o conceito de empresa são tão variadas que existe uma significante dificuldade em sistematizá-las. Entretanto, é possível fazê-lo em duas vertentes principais.110
A primeira delas defende que o conceito jurídico de empresa coincide com o conceito que normalmente lhe é atribuído pelas Ciências Econômicas, cujo discurso costuma considerá-la uma organização de capital e trabalho destinados à produção de bens ou de serviços para o mercado. Ou em outras palavras, agora com termos colhidos pelo Professor Rubens Requião: a empresa é um organismo pautado em leis econômicas e colocado a serviço de fins também econômicos.111
Já a segunda vertente defende que o conceito jurídico de empresa não deve necessariamente coincidir com aquele trabalhado pela Economia e que a simples transposição do conceito econômico ao universo jurídico é insuficiente à compreensão de seu regramento. Para esta corrente, o conceito jurídico de empresa será diferente a depender da perspectiva que a norma jurídica aborde esse fenômeno.
A corrente econômica, que defende a coincidência dos conceitos, tem forte presença acadêmica mundo afora e inclusive no Brasil. O renomado jurista Sylvio Marcondes Machado, em tese apresentada no Concurso para a Cátedra da Universidade de São Paulo intitulada “Limitação da Responsabilidade do Comerciante Individual”, após estudo exaustivo dentre obras doutrinárias e legislação do direito nacional e do direito comparado (Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Suíça, Espanha e Argentina), chegou à seguinte conclusão:
É de concluir-se pela inexistência de componentes jurídicos que, combinados aos dados econômicos, formem um conceito genérico de empresa; ou, considerada a constância do substrato econômico, pela inexistência do conceito de empresa como categoria jurídica.112
110 SASSO, Rosiane. Considerações sobre o Conceito Jurídico de Empresa à Luz do Novo Código Civil
Brasileiro. Revista Jurídica da Faculdade São Luiz. Jaboticabal, 2005. Disponível em
http://www.saoluis.br/revistajuridica/arquivos/011.pdf. Acesso em 08 dez. 2013.
111 REQUIÃO, Rubens. Curso de Direito Comercial. 32a ed. São Paulo: Saraiva, 2013. P. 76. 112 REQUIÃO, Rubens. Curso de Direito Comercial. 30a ed. vol. 1. São Paulo: Saraiva, 2010. P. 83.
Neste mesmo sentido, cada qual com suas particularidades, caminham outros notáveis comercialistas como Antônio Brunetti, Rubens Requião, Ferrara Júnior e Waldírio Bulgarelli.
Em posição firme, Waldírio Bulgarelli chega a afirmar, categoricamente, que deixar o conceito de empresa fora do direito seria de boa técnica, já que se trata de conceito eminentemente econômico. Ademais, fiel à sua premissa e em busca pela essência do fenômeno econômico da empresa, acabou por formular o termo ‘empresalidade’, querendo significar em um só signo a tridimensionalidade composta por empresário, empresa e estabelecimento. 113
Por fim, é possível concluir, utilizando-se dos ensinamento contundentes de Carvalho de Mendonça, que para a corrente econômica deve-se conceituar empresa como:
A organização técnico-econômica que se propõe produzir a combinação dos diversos elementos, natureza, trabalho e capital, bens ou serviços destinados à troca (venda), com esperança de realização de lucros, correndo riscos por conta do empresário, isto é, daquele que reúne, coordena e dirige esses elementos sob a sua responsabilidade.114
Com todo o devido respeito à corrente explicitada, não se deve adotar no Direito conceitos forjados em outros ramos científicos, isso porque, conforme já visto nos capítulos introdutórios, a Teoria dos Jogos de Linguagem impõe a cada seara científica diferentes regras para a produção de seu específico discurso. Além do que, a concepção de um mundo linguístico não admite a possibilidade de mera tradução, tendo em vista a intangibilidade dos objetos dinâmicos, e exige, na tradução, uma reconstrução, ante a existência de um abismo intransponível entre linguagens.
No caso do Direito, o seu jogo de linguagem exige para a formação do discurso jurídico-científico obediência às suas regras, não sendo possível ao jurista, portanto, simplesmente aceitar o conceito produzido em linguagem econômica. No Direito,
113
BULGARELLI, Waldírio. A Teoria Jurídica da Empresa: uma análise da empresalidade. São Paulo: RT,
1985. p. 72 e p. 154.
114 MENDONÇA, José Xavier Carvalho de. Tratado de Direito Comercial Brasileiro. Campinas: Bookseller,
necessariamente, os conceitos terão como base construções decorrentes da interpretação dos enunciados formadores do ordenamento jurídico.
Isso não significa dizer, absolutamente, que a Economia, a Contabilidade, a Ciência Política, etc. não possam ser ferramentas à compreensão e resolução de problemas relacionados ao universo jurídicos, especialmente, no que tange à produção normativa.
Os casos de Guerra Fiscal – fenômeno no qual diversos estados federados, em competição, usam sua autonomia constitucional para oferecer benefícios referentes à redução do custo tributário com o escopo de atrair sociedades empresariais ao seu território – são bons exemplos de como métodos econômicos, da sociologia e até mesmo da matemática aplicada podem ser aplicados à análise de problemas jurídicos.
Além disso, não é impossível que um signo tenha o mesmo significado tanto no Direito quanto na Economia ou em outra ciência qualquer. Entretanto, as regras de construção do discurso de cada jogo de linguagem terão que ser cumpridas sob pena de descaracterizá-lo, não sendo aceitável a adoção do conceito de uma em outra indiscriminadamente.
Em suma, em que pese a importância do diálogo interdisciplinar e a possibilidade de identidade de conceitos, o conceito jurídico de empresa será aquele construído a partir da interpretação de enunciados e construção das normas jurídicas, o seu objeto de estudo. Além disso, não se pode aceitar na construção de um discurso jurídico que o signo ‘empresa’, abordado em diversas normas jurídicas, simplesmente não seja uma categoria jurídica.
O que se observa é que a procura por uma definição universal, genérica e definitiva do que seria uma empresa confunde-se com a busca pela essência do dado bruto ou objeto dinâmico, ou seja, equivale à procura incessante por uma espécie de núcleo duro do objeto que fosse capaz de delimitar, por correspondência, o uso do termo em todo e qualquer sistema de referência. A inexistência ou inacessibilidade desta essência é exatamente o que impede a tradução ou a importação de conceitos.
Este trabalho – e isto já foi dito – afasta-se desta concepção de realidade e de verdade, e o insucesso secular na busca da natureza essencial do que é uma empresa somente corrobora a ideia de que não há uma verdade absoluta e definitiva e nem mesmo uma correspondência entre o signo e o objeto dinâmico. O que se apresenta como cognoscíveis são construções simbólicas capazes de ordenar o caos de sensações e construir a realidade de cada mente cognoscente que, quando enunciadas, buscarão o convencimento daquela comunidade e o consenso.
Acolhe-se aqui, portanto, a corrente que, em contraponto àqueles que defendem a adoção do conceito econômico de empresa pelo Direito, busca uma definição eminentemente jurídica, e é neste cenário que se destaca a obra paradigmática de Alberto Asquini da renomada Universidade de Roma – La Sapienza.
O citado professor italiano, especificamente em seu artigo Profili dell’Impresa publicado pela primeira vez no início da década de 1940, elaborou a afamada Teoria Poliédrica da Empresa em que defende não somente uma, mas uma série de definições para o termo empresa que variam conforme a perspectiva pela qual o jurista aprecia o fenômeno empresarial em seu processo de construção normativa. Em suas próprias palavras:
(...) a técnica do direito não pode dominar o fenômeno econômico da empresa para dar uma completa disciplina jurídica, sem considerar distintamente os diversos aspectos, em relação aos diversos elementos que nela existem. 115
Ao abordar a Teoria Poliédrica da Empresa em termos semióticos – o que é permitido pela metodologia deste trabalho – é possível afirmar que o professor da multicentenária La Sapienza promoveu recortes no objeto dinâmico ‘empresa’, descortinando- o em diferentes perspectivas e, com base nelas, quatro foram os perfis da empresa por ele apresentados: o perfil subjetivo, que aborda a empresa como sujeito de direitos e obrigações; o perfil objetivo, que a surpreende como um conjunto de bens; o perfil funcional, que a define como atividade econômica empreendedora; e, por fim, o perfil corporativo, que encara a
115 ASQUINI, Alberto. Perfis da empresa. Tradução de Fábio Konder Comparato. In RDM, Ano XXXV, n.º
empresa como instituição, um organismo hierarquizado ou um núcleo social em função de um objetivo comum.
Anote-se, desde já, que a perspectiva corporativa costuma ser relacionada à ideologia fascista que dominou a Itália na primeira metade do Século XX, e o papel político de Alberto Asquini, que ocupou o cargo de Ministro das Corporações de Benito Mussoline em 1932, reforça este entendimento.
De toda sorte, o aspecto corporativo busca afastar as empresas de sua origem contratual e identificá-las como instituições com forte influência e importante função no seio da sociedade. Essa perspectiva pode ser lembrada sempre que uma norma exalta a função social da empresa como, por exemplo, na Lei de Recuperação Judicial (Lei 11.101 de 9 de fevereiro de 2005) que busca recuperá-la, em que pese esteja economicamente condenada, outorgando-lhe diversos benefícios.
Não há, entretanto, um signo específico à feição corporativa da empresa propriamente dita no direito brasileiro, mas sim situações específicas onde o aspecto contratual é afastado em prol da continuidade empresarial ante a sua inegável função social.
As demais perspectivas mencionadas, além de refletirem a ideia da inexistência de uma verdade absoluta por correspondência e aceitar a de representação de várias perspectivas possíveis de um mesmo objeto, confirmando premissas do Construtivismo Lógico-Semântico, é de extrema utilidade para a delimitação do conceito de empresa dentro da perspectiva do direito positivo brasileiro, tendo em vista que o Código Civil trouxe signos diferentes para cada uma dessas perspectivas.
Por sinal, esse fato não se deu ao acaso, conforme ressalta Roberto Requião quando ensina sobre a grande influência que o Código Unificado Italiano de 1942 exerceu tanto na elaboração da Teoria Poliédrica por Asquini,116 quanto na feitura do Código Civil brasileiro em vigor.117
116 REQUIÃO, Rubens. Curso de Direito Comercial. 30a ed. vol. 1. São Paulo: Saraiva, 2010. P. 81. 117 REQUIÃO, Rubens. Curso de Direito Comercial. 30a ed. vol. 1. São Paulo: Saraiva, 2010. P. 84.
Neste mesmo sentido, o magistério de Fábio Ulhoa Coelho quando salienta que o Código Civil de 2002 foi o responsável pela migração do paradigma comercialista francês, pautado nos taxativos Atos de Comércio do Código Comercial Francês de 1807, para um sistema mais próximo dos italianos e do Código de 1942.118
De toda sorte, ao deparar-se com os enunciados positivados no Livro II do Código Civil brasileiro, denominado como ‘Do Direito de Empresa’, o intérprete, que traz consigo as premissas da paradigmática Teoria Poliédrica e as ferramentas do Construtivismo Lógico-Semântico em seu horizonte cultural, verá sua tarefa de construção de sentido bastante facilitada, uma vez que o atual Código Civil delimitou o conceito de empresa a um só dos aspectos apontados pelo jurista italiano: o aspecto funcional.
Assim, no direito positivo brasileiro, a empresa juridicamente não poderá ser confundida com o seu aspecto objetivo e, portanto, não mais poderá ser definida como um conjunto de bens, afinal, extrai-se do artigo 1.142 do Código Civil que o aspecto objetivo da empresa é denominado de ‘estabelecimento’.
Art. 1.142 Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária.
Tampouco a empresa poderá ser confundida com o sujeito de direito, seu aspecto subjetivo, pois o enunciado explicitado no artigo 966 atribui o nome específico de ‘empresário’ que poderá constituir sociedade empresária ou empresa individual, conforme será visto oportunamente.
Art. 966 – Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.
O único aspecto restante aceitável, dentre aqueles identificados por Alberto Asquini, portanto, é o aspecto funcional da empresa, ou seja, no Brasil, juridicamente, empresa, nos termos do citado art. 966 do Código Civil é “a atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços”.
Este posicionamento é consolidado na doutrina comercialista contemporânea e foi trabalhado por Fabio Ulhoa Coelho no seu aclamado Curso de Direito Comercial,119 bem como pela tributarista Maria Rita Ferragut em seu excelente Responsabilidade Tributária e o Código Civil de 2002.120