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3. MATERYAL VE METOT

3.5. Değerlendirme

Após a condenação do Capitão Inglês pelos amotinados, os antigos donos do ouro são enviados para a ilha, que se acreditava ser deserta. Lá estabeleceram os primeiros contatos com Sexta-Feira e Robinson, relatando, também, todo o ocorrido na embarcação.

Durante essas passagens, cumpre focalizar o diálogo entre Robinson e duas senhoras inglesas que ali estavam. No primeiro momento, é Crusoé que, correndo em direção a elas, segue gritando: “Ei! olha eu aqui... eu estou aqui... graças a Deus! Eu estou salvo!” (Silveira, 1978).

Em momento posterior, a outra senhora diz: “Foi Deus que mandou você aqui para nos salvar”. Crusoé responde: “Não, não foi não senhora. Eu vim por minha livre e espontânea vontade, eu vim até à pé, dona!”. (Silveira, 1978).

Pode-se perceber que o INDIVIDUALISMO PURITANO ou religioso é, mais uma

vez, desmontado na obra, visto que não há crença na predestinação do homem, nem em qualquer outro princípio de ordem calvinista. Mais adiante, Robinson acrescenta: “Mas vocês não vieram aqui para me salvar?” (Silveira, 1978).

Assim, ao refutar o individualismo do tipo religioso e econômico, adere-se a uma espécie de homem que pensa em sua exclusiva salvação. Isso se confirma posteriormente, quando Crusoé afirma que se dependesse dele todos estariam mortos.

Percebe-se, por meio dos referidos diálogos, que toda a subversão do individualismo aponta para a nova configuração ou faceta do conceito, agora atrelada ao egocentrismo e ao isolamento (individualismo absoluto), como anteriormente referido.

Assim, Robinson é um ser que, mesmo sendo desligado de fatores econômicos e religiosos, mesmo tendo formado um bloco solidário com os ingleses, não tem interesse algum na salvação do Outro. Logo, a aliança se estabelece como forma de concretizar sua própria salvação.

Figura 17 – O choque entre civilizações

Nesse sentido, a fim de salvar os ingleses, pegar suas coisas na cabana e seguir viagem rumo à Inglaterra, Robinson promove um conflito entre as civilizações, conforme é possível conferir na figura acima.

No quadrante nº 01, o plano médio conjunto faz ver os três heróis da obra, ou melhor, os integrantes do bloco dos aliados. Essa imagem quer remeter, também, à instituição do bloco aliado no período posterior à Segunda Guerra Mundial: Inglaterra, Estados Unidos, França e União Soviética.

Como se sabe, por meio do Plano Marshall, os Estados Unidos da América injetaram capital financeiro nos Estados do leste Europeu, para que esses se reerguessem da devastação causada pela guerra. Entretanto, dentre as condições estabelecidas pelo tratado, pode-se conferir uma específica: qualquer Nação beneficiada com o referido crédito deveria ou transferir seu regime político para o capitalista ou promover campanhas contra o estabelecimento do socialismo.

Tal atitude deixou a União Soviética descontente, promovendo a eclosão da Guerra Fria, com a construção do muro de Berlim. Assim, o mundo tornou-se bipolar, dividido entre capitalistas, do ocidente, e socialistas, do oriente.

Robinson Crusoé, na obra de Silveira, ao acenar tanto para um lado, como para o outro (quadrante nº 02, 03, 04 e 05), promove um conflito, de maneira proposital, já que enquanto a batalha estivesse acontecendo (quadrante nº 06), os três protagonistas teriam a oportunidade de escapar, recuperar a embarcação e voltar para a civilização.

Logo, ao mesmo tempo em que se notam, na constituição de Crusoé, elementos atrelados à subversão do conceito de individualismo, em sua forma clássica, percebe-se que, apesar da relativização proposta pela paródia e pela carnavalização, Robinson usa do bloco dos aliados para atingir sua meta: voltar à Inglaterra. Nesses termos, a personagem em questão se constrói de maneira ambígua e paradoxal, como um intermediador que, ora tende para um lado, ora para o outro, um homem híbrido e mutante.

No entanto, ao final da película, a personagem escolhe sua posição definitiva, como se pode verificar na figura abaixo:

Figura 18 – A desolação de Crusoé e o triunfo do capitalismo

Quando os amotinados são derrotados e a embarcação inglesa recuperada, ocorre uma explosão na cabana de Robinson (quadrante nº 1). Aparentando estar feliz com o retorno ao ocidente; imediatamente à explosão, Crusoé volta seu olhar para a referida cabana (quadrante nº 2), expressando, por meio de suas falas e de sua face, o desolamento.

O sentimento desolador fica evidente quando se observa o diálogo entre Robinson e a inglesa:

Robinson: Quanta maldade!

Senhora inglesa: Lá fora você terá muitas cabanas, milhares de cabanas, umas em cima das outras [...]. (SILVEIRA, 1978).

Crusoé ainda discorre, nesse diálogo, sobre a paz e a liberdade que tinha na ilha, fazendo ecoar, novamente, uma crítica ao sistema capitalista, que finalmente triunfa na obra (quadrante nº 03).

Assim, a ambiguidade proposta pela praça carnavalesca se sustenta até o final da trama, pois o individualismo econômico e religioso são retomados, em diversas passagens, mas são também relativizados, criticados e parodiados.

Embora Robinson seja um mediador, atuando de maneira ambígua, a obra não propõe uma apologia ao capitalismo triunfante, nem à figura do homo economicus; o que se percebe é a constituição de um novo ser, ou melhor, de um novo paradigma para o entendimento do homem, o qual já aponta para certas características relativas à contemporaneidade, tais como: o egocentrismo, a perda de valores humanistas, a desconsideração do outro e o isolamento.

De modo oposto, observa-se, também, a constituição de um conceito importante para a problemática do individualismo, a saber: a solidariedade que se institui entre Robinson, Sexta-Feira e o capitão inglês.

Nesse sentido, pode-se afirmar que em As aventuras de Robinson Crusoé, o individualismo é subvertido, mas assume novas facetas, posto que a obra, ao instituir a ambiguidade própria do carnaval, acaba por resvalar para a composição de um novo ser.

Logo, a obra se torna tendenciosa, apontando para um novo individualismo que surge nas fissuras do sistema capitalista, na bipolaridade oriunda de sua própria construção estética e, também, porque, apesar das batalhas, a arte acaba por imitar a vida, e o capitalismo triunfa como na Guerra Fria.

Atualiza-se, portanto, o esquema de representação instituído por Defoe, em seu romance, pois o herói inglês é também ambíguo e atua entre seus escrúpulos puritanos e seu desejo de enriquecimento, fazendo reverberar, simultaneamente, uma crítica ao sistema absolutista e um elogio ao progresso.

Nos segundos finais da obra, a última sequência enfatiza esse procedimento, como se verifica na figura abaixo:

Figura 19 – Sexta-Feira é o novo rei

No quadrante nº 01, Sexta-Feira detêm o ponto de vista e está a acenar para Robinson, já na embarcação, retornando para a Inglaterra (quadrantes nº 02 e 04). Assim, há certo predomínio do olhar do nativo, em reconhecimento de sua constituição individual, de seus direitos e sua autossuficiência.

Todavia, quando se observa mais atentamente que Crusoé deixa utensílios para o ex-socialista, tais como a arma (quadrante nº 03), pode-se inferir que tal atitude faz entrever o mesmo procedimento tomado pelos Estados Unidos da América ao ofertar capital financeiro à Europa por meio do plano Marshall. Assim, Sexta-Feira seria o novo rei, pois teria equipamentos oriundos do ocidente, os quais facilitariam a reconquista de sua posição como soberano.

CAPÍTULO 4

Benzer Belgeler