Ficou evidente na fala da maioria dos gestores entrevistados a percepção da reflexão enquanto condição essencial para aprendizagem. Fato que é amplamente reconhecido por diversos autores que compartilham dessa ideia de que a reflexão é um elemento indispensável no processo de aprendizagem dos indivíduos (SCHÖN, 1983; MEZIROW, 1990). O processo de autoavaliação proporciona ao servidor a possibilidade de refletir e buscar estratégias para poder progredir e melhorar o seu desempenho (perspectiva de crescimento e desenvolvimento).
Um dos aspectos fundamentais no processo de AD é proporcionar feedback e, consequentemente, poder oportunizar a reflexão, o autoconhecimento e crescimento profissional, refletido, posteriormente, na aprendizagem e no desenvolvimento de novas competências (MOREIRA;TOSE, 2012).
“Na minha opinião, um processo de avaliação só gera aprendizado se houver antes de tudo reflexão... se as pessoas parassem para repensar os seus comportamentos e o que deve ser mudando... então eu vejo que a reflexão ela tem que existir a todo instante, e no processo de avaliação principalmente, porque ali você está refletindo sobre questões importantes e que a gente precisa amadurecer, só assim é possível o aprendizado e a mudança.” [E.21]
“Para que o processo de avaliação traga algum aprendizado pra pessoa, ela tem que refletir sobre... talvez no momento da autoavaliação ela tenha a oportunidade de fazer isso... e daí ele precisa ter consciência das suas falhas, porque sem essa clareza não há mudança nem aprendizagem...” [E.11]
Nos discursos ficou clara a percepção do valor da reflexão na AD enquanto mediadora de aprendizagem e do processo de tomada de consciência e auto reconhecimento de falhas para que possa haver mudanças por meio dessas aprendizagens.
Nesse sentido, pode-se inferir que o processo de AD estimula a reflexão nas pessoas sobre seu desempenho, despertando a necessidade de aprender coisas novas, de modo que não só o avaliado tem a possibilidade de repensar suas atitudes e comportamentos, mas também aqueles que estão na condição de avaliador também podem fazem isso de forma comparativa. Conforme pode ser exemplificado nos discursos seguintes:
“Eu acredito que a avaliação gera aprendizado sim. Gera sim! Porque é um momento de reflexão, né? e na medida em que você tá avaliando alguém... você mesmo sem querer você se autoavalia. E mesmo que não seja o seu momento, você vai aprender alguma coisa ali.” [E.05]
“A avaliação quer queira quer não faz as pessoas refletirem... e até quem tá avaliando, no caso do par, que não tem muita coisa a ver com a avaliação do outro em si, mas ele começa a refletir, bem em cima das atitudes dele... ele começa a refletir... todos os envolvidos, eu acho começam a refletir... o gestor também começa a se reavaliar também... o próprio par, né? O próprio avaliado e o par, né? e isso gera muito aprendizado no processo.” [E.06]
“Acho que o que mais gera aprendizado é você conseguir reconhecer as suas falhas. Você só aprende quando você reconhece o que precisa melhorar... consegue ver o que não está bom... e aí muitas vezes no dia a dia você vai fazendo...fazendo ... e daí de tanto fazer daquela forma e ninguém nunca lhe apontou o que é melhor para o setor e para a instituição...para os objetivos da instituição... então você nunca corrige... se o processo de avaliação me da essa chance de estar cara a cara com os meus defeitos...e com o que a instituição precisa...então eu tenho a oportunidade de refletir...acho que todos tem essa oportunidade quando estão envolvidos no processo...até a gente que está avaliando... a gente aprende a separar o pessoal do profissional...aprende a ter coragem de apontar os problemas de outro...aprende que é necessário ser um chefe ...um líder...aprende a também refletir...será que o problema não está na minha forma de direcionar...de gerir ... esse grupo aqui no meu setor...então é crescimento para todos...”[E.08]
Vale salientar que, embora a AD estimule a conscientização, a reflexão e desperte o servidor para pensar sobre seu desempenho, para que a aprendizagem aconteça vai depender da vontade de cada pessoa envolvida no processo avaliativo. Assim, o processo de AD tem potencial para gerar aprendizagem nas pessoas envolvidas desde que seja realizado de forma participativa, dialogada, de forma consciente e reflexiva.
“Sim, porque o conhecimento ele não é limitado, ele é amplo e infinito... e as demandas cada vez exigem mais das pessoas e é impossível você ter respostas já prontas pra tudo... então na avaliação a pessoa se dá conta do que ainda precisa aprender, né?...e no processo de avaliação o servidor é avaliado e é exigido que ele aprenda novas coisas pra melhorar seu desempenho...mas é claro que não é a avaliação em si que vai despertar a pessoa a aprender sempre...a própria pessoa tem que querer aprender...tem duas escolhas, permanecer do mesmo jeito ou mudar...e a gente só muda quando a gente aprender a fazer diferente...quando a gente aprende coisas novas.”[E.22]
“Eu acho que o processo de avaliação gera mais a questão da consciência nas pessoas...O que se espera na realidade é que todos aprendam nessa experiência de avaliação, mas nem sempre isso acontece mesmo...depende mesmo de uma reflexão...da consciência e do querer de cada um.” [E.10]
A reflexão é apenas o ponto de partida para a tomada de consciência pelo colaborador avaliado, de suas falhas e da necessidade de aprendizagem, voltada para a promoção de seu crescimento profissional. Na medida em que o processo de AD estimula a reflexão e identifica as falhas no desempenho, pode despertar o interesse dos servidores em buscar estratégias de aprendizagem para o aperfeiçoamento profissional.
Quando o servidor tem a consciência do que precisa melhorar em seu desempenho por meio do processo reflexivo, proporcionado pela AD, sente-se estimulado a começar a mudar e aprender de forma a melhorar o seu desempenho o que interfere positivamente em toda a organização.
“... se houver a reflexão... no momento que você para pra dar ênfase a certos aspectos, eu acredito que pode sim contribuir para o aprendizado e crescimento profissional da pessoa avaliada... se para o servidor que é parte da organização tem efeito... reflete para a organização.” [E.03]
Dessa forma, fica explícito o conceito da aprendizagem organizacional, quando o aprendizado individual tem potencial para ser transferido para o âmbito coletivo e organizacional, se incorporando à memória da instituição em forma de padrões, políticas, procedimentos e outros tipos de conhecimentos internalizados na cultura organizacional.
A aprendizagem organizacional, portanto, é o processo pelo qual a aprendizagem individual se insere na memória e na estrutura da organização, compondo seu patrimônio de conhecimentos (KIM, 1998).
Nesta subseção ficou evidente a importância da reflexão para se estimular os processos de aprendizado no processo de AD. Na próxima subseção serão analisados a importância do diálogo e do feedback na AD de forma a estimular o aprendizado.