Na fase de análise e interpretação dos dados, recorreu-se à técnica de Análise de Conteúdo (AC), com transcrição das entrevistas realizadas, dos discursos apresentados nos documentos coletados, das respostas às dúvidas pontuais, complementada por observações realizadas durante as reuniões pessoais.
Na definição de Bardin (1977), a AC consiste na análise de comunicação, utilizando procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição de conteúdo que permita a inferência de conhecimentos.
O cerne da AC é poder inferir o todo da comunicação, buscando o entendimento das causas e antecedentes da mensagem, bem como seus efeitos e consequências (Bardin, 1977; Martins & Theóphilo, 2009).
Kolbe e Burnett (1991, p. 245) asseveram que a utilização da técnica de AC deve ser conduzida por meios objetivos e confiáveis.
Na visão de Martins e Teóphilo (2009), a AC apresenta alguns usos como:
1. Descrever tendências no contexto das comunicações; 2. Construir e aplicar padrões de comunicação;
3. Medir a clareza das mensagens;
4. Identificar intenções, características e apelos de comunicadores.
Conforme denotam Freitas e Janissek-Muniz (2000), a parte vital da AC consiste nas categorias, definidas por estes como rubricas significativas, em função das quais o conteúdo será classificado e eventualmente quantificado. Os autores asseveram ainda que as categorias se originem dos documentos objeto da análise. Os critérios e a categorização possibilitam a fragmentação da comunicação para a análise.
A categorização é um processo de tipo estruturalista e envolve duas etapas: o inventário (isolamento das unidades de análise: palavras, temas, frases etc.) e a classificação das unidades comuns, revelando as categorias. Dependendo do assunto, por meio da AC, pode-se adotar categorização já testada em estudos anteriores (Martins & Theóphilo, 2009).
Para cadenciar a análise das evidências, apresentou-se um procedimento utilizado para compreensão do processo de institucionalização com base em Santana et al. (2012). Foram estabelecidas questões para cada uma das dimensões: Processos, Característica dos Adotantes e Ímpeto para Difusão. Por fim, definiram-se critérios para identificar os estágios de institucionalização (habitualização, objetificação e sedimentação) do ABC na prática da gestão organizacional, como apresentado no Quadro 09.
Dimensões
Critérios de análise para as categorias da pesquisa
Estágio pré-institucional Estágio Semi- institucional
Estágio de total Institucionalização
PROCESSOS
1) Quando e de que forma foi a aquisição destes instrumentos? 2) Como está sendo utilizado o ABC atualmente?
3) O ABC está sendo utilizado para qual finalidade?
4) A adoção trouxe algum problema
e/ou benefício para a área? Qual(is)?
5) Você considera que os atuais métodos de custeio estão em pleno funcionamento na organização? Quais são as justificativas? HABITUALIZAÇÃO Observa-se criação de novos arranjos estruturais. OBJETIFICAÇÃO Há incentivos para a consolidação e difusão dos arranjos estruturais por meio dos Champions3 . SEDIMENTAÇÃO Nota-se a continuidade histórica e tendência para a consolidação dos arranjos estruturais estabelecidos. CARACTERÍSTICA DOS ADOTANTES
6) Quais fatores influenciaram a adoção do ABC?
7) Como ocorre o processo de avaliação dos artefatos gerenciais? 8) Houve substituição do método de custeio? Quais métodos foram implementados nesse processo de substituição?
9) Quais mudanças ocorreram no setor em função da adoção do ABC?
HOMOGÊNEOS/ HETEROGÊNEOS
Observa-se que uma parte dos gestores iniciou estudos e projetos sobre a adoção do ABC nas práticas de gestão. Nesta fase o método pode ser utilizado na prática da gestão para efeito de testes e ajustes.
HOMOGÊNEOS/ HETEROGÊNEOS
Verifica-se que o ABC já está inserido nas práticas de gestão de alguns departamentos e há a tentativa de difundí-los para outros. Todavia, o ABC pode ser adotado conforme as características do difusor e, em seguida, adequado às necessidades específicas dos departamentos. HOMOGÊNEOS/ HETEROGÊNEOS Nota-se que o ABC está consolidado nas práticas de gestão e difundido em boa parte da empresa, apesar de cada departamento da organização adequá-lo às suas peculiaridades e necessidades.
ÍMPETO PARA DIFUSÃO
10) Vocês utilizaram alguma empresa como referência na definição do ABC? 11) Vocês estão estudando a implantação de novos métodos de custeio para o setor?
IMITAÇÃO
Nota-se a proposição de ideias quanto à adoção do ABC por algum(s) departamento(s), com base em empresas que vivenciam situações semelhantes. IMITATIVO/ NORMATIVO Observa-se a incorporação e disseminação dos ABC nas práticas de outros departamentos; são criados mecanismos iniciais de controles, do ABC utilizando-se normas e sanções. NORMATIVA Verifica-se se o ABC foi incorporado às práticas gerenciais da empresa; há monitoramento e controle pelo ABC por meio de normas e sanções.
Quadro 09: Critérios de análise das dimensões nas fases do processo de institucionalização Fonte: adaptado de Santana et al. (2012) e de Tolbert e Zucker (1999).
Em suma, para que o ABC fosse classificado na fase de pré-institucionalização, analisaram-se simultaneamente as características das três dimensões. Desse modo, para o ABC ser incluído no estágio de pré-institucionalização, foi investigado:
3
Champions: gestor(es) ou área(s) que tenta legitimar o método de custeio para que este passe a integrar as rotinas de gestão de toda a empresa. Este grupo é importante para incentivar a difusão e consolidação do método em outros departamentos.
1. Se ele desencadeou a criação de novos arranjos estruturais a partir das necessidades da organização;
2. Se uma parte dos gestores iniciou estudos de projetos sobre a adoção de determinados artefatos na prática da gestão. Se o artefato é adotado, ele passa a ser ajustado conforme as necessidades específicas da gestão. Assim, sua característica inicial é homogênea, pois faz parte da prática da gestão de todo o departamento. Sendo ele ajustado conforme as necessidades do departamento, sua caracterização passa a ser heterogênea, pois o artefato pode ser desinstitucionalizado e reinstitucionalizado, considerando as peculiaridades e necessidades de cada gestão;
3. Se for proveniente da proposição de ideias dos gestores quanto à adoção do artefato por algum(s) departamento(s), com base em empresas que vivenciam situações semelhantes, além de considerar a possibilidade de ela ser adotada por toda a organização.
Na fase de semi-institucionalização, foi verificado:
1. Se houve incentivos para a consolidação e difusão dos arranjos estruturais por meio dos
Champions;
2. Se o ABC já estava inserido nas práticas de gestão de alguns departamentos, seja de forma semelhante ou distinta, considerando as peculiaridades de cada um deles, e se há a tentativa de difundi-lo a outros departamentos;
3. Se houve incorporação e disseminação do artefato gerencial nas práticas de outros departamentos, consequentemente, são criados mecanismos iniciais de controle dos instrumentos gerenciais, utilizando-se normas e sanções.
Na fase de total institucionalização, foi observado:
1. Se houve continuidade histórica e tendência para a consolidação dos arranjos estruturais estabelecidos;
2. Se o ABC estava consolidado nas práticas de gestão e difundido em boa parte da organização, o que permitiria classificá-lo como homogêneo. No entanto, se cada gestor ajustar o artefato às necessidades e peculiaridades de sua gestão, sua característica passa a ser heterogênea, pois o artefato pode ser desinstitucionalizado e reinstitucionalizado conforme as necessidades de cada gestão;
3. Se o ABC foi incorporado às práticas gerenciais da organização, portanto, há monitoramento e controle dos artefatos gerenciais por meio de normas e sanções.
Conforme exposto acima, a AC foi empregada para buscar a essência das informações coletadas em todas as categorias apresentadas na seção 3.3: (a) níveis de adoção, (b) estágios de institucionalização e (c) perspectivas e variáveis de desinstitucionalização.