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4. BİR ŞİRKETLER GRUBUNDA ÖĞRENEN ORGANİZASYON ANKETİ

4.7.5. Değerlendirme ve Öneriler

sua cisão, desde a Idade Média, com respeito ao discurso e às práticas comuns entre as pessoas (no sacrifício da missa, no ato de um contrato...), pelo contrário, o afastamento entre razão e desrazão é acentuado e, no século XVIII, uma série de saberes e instituições se organiza justamente para escutar a palavra do louco e, assim, separá-las segundo critérios científicos a serviço da verdade ». Cf. A ordem

do discurso, p.10 et sec.

324 Aqui chamo genealogias o que também inclui seus primeiros trabalhos arqueológicos, como a

História da Loucura, com base na resposta de Foucault a Dreyfus e Rabinow a propósito de três

domínios da genealogia: « Primeiro, uma ontologia histórica de nós mesmos em relação à verdade através da qual nos constituímos como sujeitos de saber; segundo, uma ontologia histórica de nós mesmos em relação a um campo de poder através do qual nos constituímos como sujeitos de ação sobre os outros; terceiro, uma ontologia histórica de nós mesmos em relação à ética através da qual nos constituímos como agentes morais ». FOUCAULT, M. « Sobre a genealogia da ética », op.cit, p.262. 325 Cf. FOUCAULT, M. “Esthétique de l’ existence”. Dits et écrits, IV, p.732. A tese de que os livros de Foucault sobre o sujeito assujeitado, e a relação dos outros para com ele, já constituem livros de experiência moral, é explicitamente defendida pelo próprio Foucault quando, por exemplo, fala de sua

História da loucura em Entretien avec Michel Foucault (entrevista com D. Trombadori) no fim dos anos

1970: “Parce que le livre a constitué pour moi — et pour ceux qui l’ont lu ou utilisé — une transformation du rapport (historique, et du rapport théorique, du rapport moral aussi, éthique) que nous avons à la folie aux fous, à la institution psyquiatrique et à la vérité même du discours psyquiatrique”. FOUCAULT, M. Dits et écrits, IV, 1980, p.45.

326 Há dois aspectos para a história da juridificação da moral: 1. a juridificação e a codificação da experiência moral na organização do sistema penitencial no início do século XIII e seu desenvolvimento as vésperas da Reforma (Cf. FOUCAULT, M. O uso dos prazeres, pp.29-30); 2. a história de tal juridificação, e do deslocamento das práticas de si para o código, no interior de outra história: a das técnicas de si, logo, história da « ética » como relação consigo. Diz Foucault no curso de 1982: « (...) não devemos nos deixar prender ao processo histórico posterior, que se desenvolveu na Idade Média, e que consistiu na juridicisação progressiva da cultura ocidental, juridicisação que nos fez tomar a lei como princípio geral de toda regra na ordem da prática humana (...) ao contrário (...) a própria lei faz parte (...) de uma história bem mais geral, que é a das técnicas e tecnologias das práticas do sujeito relativamente a si mesmo, técnicas e tecnologias que são independentes da forma da lei e prioritárias em relação a ela ». Cf. FOUCAULT, M. Hermenêutica do sujeito, p.138.

poder, ou melhor ainda, poderes sem uma Vontade (subjetiva ou transcendental): como, pergunta Foucault, em nossas sociedades, se deu um valor à verdade a ponto de nos permitirmos cotidianamente seu controle, seu domínio sobre a vida?327 Em

outro lugar a questão permanece, a propósito da verdade sobre o sujeito que não somos e somos: « Como, por que e a que preço, temos nos empenhado em sustentar um discurso verdadeiro sobre o sujeito, sobre o sujeito que não somos, enquanto sujeito louco ou sujeito delinqüente, sobre o sujeito que, de modo geral, nós somos enquanto falamos, trabalhamos, vivemos, e enfim sobre o sujeito que, no caso particular da sexualidade, nós somos direta e individualmente para nós mesmos? ».328

Em A ordem do discurso, Foucault distingue três grandes sistemas de exclusão sobre o discurso: o interdito, a separação entre razão e loucura e, por fim, a vontade de verdade.329 A vontade de verdade atravessa tantos séculos de nossa

história330 e, sobre um suporte e uma distribuição institucional, exerce no discurso

um poder de coerção, de tal modo que a própria lei, por exemplo, a partir do século XIX, se apoia em saberes psicológicos, médicos, psiquiátricos, “como se a própria lei”, diz Foucault, “não pudesse mais ser autorizada, em nossa sociedade, senão por um discurso verdadeiro” (é o caso também da literatura dos séculos XIX e XX,

327 Foucault admite, num comentário, que sua questão sobre a verdade é, por excelência nietzscheana: “pourquoi, en fait, sommes-nous attachés à la vérité? Pourquoi la vérité plutôt que le mensonge? Pourquoi la vérité plutôt que l’illusion? Et je pense que plutôt que d’essayer de trouver ce qu’est la vérité par opposition à l’erreur, il serait plus intéressant de reprendre le problème posé par Nietzsche: comment se fait-il que, dans nos sociétés, on ait donné cette valeur à ‘la vérité’, ce qui nous a placés sous son contrôle absolu?” (FOUCAULT, M. “Sur le pouvoir”, Politics, Philosophy, Culture, p.106-7, Cf.

Dits et écrits). Em Nietzsche se aprende que o saber, longe de ser neutro, apóia sobre a separação do

verdadeiro e do falso cujos critérios não são nada científico. (Cf. NIETZSCHE, F. Voluntad de poder, I, 50 e 52, e 106-110.) Também Béatrice Han sobre a reapropriação do conceito nietzschiano de vontade

de verdade por Foucault. Cf. HAN, B. L’ontologie manquée de Michel Foucault. Editions Jérôme Millon,

1998). Han defende que em Nietzsche a vontade de verdade não é um conceito fundamental, mas uma derivação negativa (reativa e niilista) da vontade de poder e que em Foucault, ao contrário, a vontade de verdade é apresentada como um absoluto, tomando o lugar absoluto da vontade de verdade em Nietzsche. No meu modo de entender, creio que seja um exagero tanto supor que a vontade de poder em Nietzsche é algo absoluto como em Foucault o é a vontade de verdade. Vontade de poder e vontade de verdade são simulacros conceituais nietzscheanos para se compreender as formas que historicamente tomam o poder e o saber sobre o discurso e a ação. Como diz Foucault, a vontade de verdade precisa de um apoio institucional do poder (Cf. FOUCAULT, M. A ordem do discurso), por outro lado, o poder se exerce mais eficazmente se conduzido por critérios de verdade (Cf. FOUCAULT, M.Vigiar e punir. Trad. Raquel Ramalhete. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 1996). Penso que não haja infidelidade, como julga Han, na apropriação de Nietzsche por Foucault do conceito de vontade de verdade, mas fidelidade ao próprio pensamento segundo o que Foucault pôde aprender com Nietzsche, sobretudo, no que respeita à apropriação como perspectiva e experiência da verdade.

328 FOUCAULT, M. Hermenêutica do sujeito, p.308. 329 Cf. FOUCAULT, M. A ordem do discurso, pp.13 et sec.

330 Foucault argumenta que depois dos poetas gregos do século VI a.C., com Platão, o valor do discurso verdadeiro, ou a verdade do discurso, se desloca do ritual para o enunciado, de como o discurso é feito ao que o discurso diz (Ibidem, p.15), « como se, a partir da grande divisão platônica, a vontade de verdade tivesse sua própria história ». Ibidem, p.14.

especialmente).331 No entanto, a própria partilha do verdadeiro e do falso, e a

conseqüente valorização da verdade a partir do que diz o discurso, como signo histórico de nossa vontade de poder, faz parte do sempre errar da própria da vida. Mesmo o historiador das racionalidades começa seu trabalho como filósofo do erro.332 (A dicotomia entre o verdadeiro e do falso é mais uma das ilusões

metafísicas que herdamos, já ensinou Nietzsche).

A avaliação do verdadeiro depende de relações de poder que cercam não apenas o discurso, na história de nossa sociedade, mas também o corpo, seus prazeres, seu comportamento, suas relações, cada vez mais minuciosamente, sob o apelo a saberes no centro dos quais se é posto e acompanhado (por uma instituição, um tratamento, um médico...), e pelos quais se é convencido, por exemplo, de uma doença ou periculosidade.333 (O filme Laranja mecânica334 é um

bom exemplo: o acompanhamento experimental de um saber sobre o sujeito promete retirar toda sua violência sob um processo violentamente exercido sobre seu corpo, à custa de privá-lo de sua capacidade humana de ação, mesmo quando injustamente ofendido por outro). São poderes cuja racionalidade leva em conta o corpo como ser vivo, seja individualmente ou como espécie, em todo caso, o corpo vivo tanto no sentido de zoe como de bios, a animalidade do humano e a humanidade no animal, ou ainda, a vida enquanto fenômeno biológico e a vida enquanto modos de se viver, consigo e com os outros.335 É o que Foucault chama

331 Ibidem, p.19. A literatura também encontrou apoio no natural, no verossímel, na ciência (Ibidem, p.18). Basta pensarmos no romance de Zola na França ou nos poemas de Augusto dos Anjos no Brasil, ou antes ainda, no final do século XIX, no romance de Aluísio de Azevedo O homem, na epígrafe do qual se lê: « Quem não amar a verdade na arte e não tiver a respeito do Naturalismo idéias bem claras e seguras, fará, deixando de ler este livro, um grande obséquio a quem o escreveu ».

332 Em “La vie: l’ expérience et la science” Foucault cita Nietzsche para falar da relação entre o erro e a vida e, em seguida, cita seu mestre Canguilhem para mostrar que a separação do verdadeiro e do falso pressupõe a eventualidade do erro próprio à vida. A questão da verdade, fundamental na filosofia moderna do Discurso do método de Descartes à Fenomenologia do espírito de Hegel, pode ser recolocada no jogo da discussão filosófica: “Est-ce que toute la théorie du sujet, ne doit pas être reformulée, dès lors que la connaissance, plutôt que de s’ouvrir à la vérité du monde, s’ enracine dans les ‘erreurs’ de la vie?”. FOUCAULT, M. “La vie: l’ expérience et la science”. Dits et écrits, IV, pp.763- 776.

333 Cf. FOUCAULT, M. A verdade e as formas jurídicas, p.85: sobre o nascimento da noção de

periculosidade, escandalosa em termos de teoria penal, nos fins do século XIX: « o indivíduo deve ser

considerado pela sociedade ao nível de suas virtualidades e não ao nível de seus atos; não ao nível de suas infrações efetivas a uma lei efetiva, mas das virtualidades de comportamentos que elas representam ». Ibidem.

334 Título original: A Clockwork Orange / Ano: 1971 / Direção: Stanley Kubrick / Roteiro: Stanley Kubrick, baseado no livro de Anthony Burgess.

335 Para Agambem o objeto da biopolítica é a “vida nua” (zoe), o “simples fato de viver” entre os gregos, e não diretamente a “vida qualificada” (bios), “a forma ou o modo de viver próprios a um indivíduo ou grupo”. O conceito de campos é o novo nomos moderno. Diz Agamben: « Toda a tentativa de repensar o espaço político do Ocidente deve partir da clara consciência de que da distinção clássica entre zoe e

bios, entre vida privada e existência política, entre homem como simples vivente, que tem seu lugar na

casa, e o homem como simples vivente, que tem seu lugar na cidade, nós não sabemos mais nada (...) Dos campos não há retorno em direção à política clássica; neles, cidade e casa tornaram-se indiscerníveis, e a possibilidade de distinguir entre o nosso corpo biológico e o nosso corpo político,

de biopoder: uma técnica de governo que cuida da vida e daquilo que a vida produz ou é capaz de produzir, saúde, beleza, prazer, desejo, comportamentos... e mesmo a morte, no limite, é funcionalmente recebida por tal poder segundo aquilo mesmo que se pretende dela evitar: a dor, o medo, a decrepitude. Questão para a qual Norbert Elias dedicou uma obra cujo título me parece significativo, A solidão dos

moribundos, quando, no mundo contemporâneo, a morte se distancia da vida, e dos

vivos, a ponto de se tornar um mau gosto morrer.336 A morte perde o caráter

singular da vida que ela leva: “Quem, hoje, dá valor a uma morte bem executada?”, pergunta Rilke no início do século XX, em seus Cadernos de Malte Laurids Brigge: “faz-se cada vez mais raro o desejo de ter uma morte particular. Mais um pouco e será tão raro quanto ter uma vida particular (...) morre-se das mortes oferecidas pela instituição”.337

No caso de Foucault, a genealogia da vontade moral de verdade exige a compreensão do modo como os poderes cercam estrategicamente o sujeito, para conhecê-lo e controlá-lo, para fazer dele a experiência e a produção de uma verdade

Benzer Belgeler