“Um significante que perdeu seu significado se transforma com isso em imagem.”
(Jameson)
A expressão pós-moderno aparece nas conversas e em situações cotidianas. O que indica que ela está presente e tem valor referencial em nossa sociedade. Paralelo a isso, as manifestações culturais exibem uma crescente nostalgia pelas várias formas de vida do passado, num ecletismo histórico. Isto pode ser observado nas artes, no cinema, na literatura e na cultura de massas, sinalizando uma decadência da criatividade no capitalismo tardio. Trata-se de um pastiche, uma imitação ou mimetismo do que já foi experimentado no passado. O pastiche “se aproveita da singularidade dos estilos passados para incorporá-la numa imitação que simula o original.”119
Ocorre que o pastiche pós-moderno não é feito de forma unificada e catalizadora. Ao contrário, os atos de reprodução cultural e social ocorrem em cada grupo específico, que passa a falar uma linguagem privada própria. Assim como cada profissão passa a adotar seu ideoleto ou código privado, da mesma forma cada indivíduo passa a ser uma espécie de ilha lingüística, separado das demais. E o que é imitado é feito de forma neutra, sem motivações ocultas, sem uma intenção específica imbuída, sem haver um reconhecimento de que se lida com reproduções de coisas que uma vez teve rosto, sangue, suor ou sentimento. Hoje “ninguém mais possui essa espécie de mundo privado e único, nem um estilo para expressá-lo.”120 A reprodução é feita às custas da falência da estética, a falência do novo e a reapropriação do passado em mero formalismo. Há só ordens heterógenas.
119 IDEM. Ibid., p. 18 120 Ibid., p. 19
Além do mais, a sensação cultural que experimentamos é a de que não conseguimos mais inventar novos estilos e mundos. Parece que tudo já foi inventado. O número de combinações possíveis é restrito. A influência do passado moderno, agora morto, nos pesa como assombros de fantasmas. No nosso mundo de pastiche a inovação não é mais possível. Resta-nos imitar estilos mortos, ressuscitar velhas músicas, recopiar antigas gravuras ou reviver antigos seriados – façamos um museu de nosso imaginário.
Basta perceber como a música sucumbiu quase toda ao consumo com a presunção de ter descoberto a fórmula eficaz. O minimalismo, a monotonia, a repetição indefinida de tons, acordes e palavras, com mudanças não requintadas na repetição. Temos uma música pasteurizada, de relaxamento e com tempo de distensão. Basta perceber também como que, em nossos filmes atuais, utensílios, carros, aparatos e especulações, apesar de pertencerem à contemporaneidade, à sociedade de consumo, ao mundo material do capitalismo avançado, tudo nos filmes conspira para nos arrancar dessa referência contemporânea, propiciando sua apreciação como uma obra de nostalgia também. É como se estivéssemos numa ambientação de algum passado nostálgico indefinível travestida de atualidade. Uma década de 30 ou 40 eterna, fora da história.121 Isto pode ser visto em filmes como Guerra nas Estrelas, O Destino Bate à Porta (The postman always rings twice), Corpos Ardentes (Body Heat), Pacto de Sangue (Double Indemnity) e outros.
Além da música e do cinema, o mesmo se dá nas peças de teatro, nos programas televisivos, na moda, etc. Este procedimento nostálgico tem sido a marca das produções culturais de nossa época, invadindo e estabelecendo a forma de suas reproduções, como se, por alguma razão, fôssemos incapazes de focalizar nosso próprio presente ou estivéssemos inaptos de expressar nossas experiências atuais. Isto indica um sintoma alarmante de uma sociedade que não mais consegue se relacionar com sua situação, com o tempo e com a história. Nas palavras de Jameson, “nos vemos condenados a buscar o passado histórico através de nossas imagens pop e de nossos estereótipos a seu respeito, sendo que o próprio passado permanece, para sempre, fora de alcance.”122 No pastiche
ocorre uma apropriação sim, mas indiscriminada e necessariamente às custas do esvaziamento do passado. É como se vivêssemos finalmente na crença de já ter-nos tornados deuses, num mundo que acha ter, enfim adquirido a condição de espacializar o tempo, tornando a vida real num grande museu, onde que, com apenas um passo, nos apropriamos de um século depois. Dessa forma, o passado é forçado a se prostrar diante de nossos pés, mas encarcerado e amordaçado. Em outras palavras, o passado deve ser recuperado continuamente para poder ser continuamente perdido. À
121 Ibid., p. 21 122 Ibid., p. 21
cada nostalgia, um aborto de continuidade. À cada aproximação, um distanciamento e um embaralhamento. Os anos 60 foram reduzidos à mini-saia e o bambolê. No pastiche, tudo vira uma caricatura simplificada. O passado deixa de ser tensão e riqueza. E enterrando o passado, acabamos nos enterrando de vez.
Ocorre que toda esta trama cultural é feita numa pós-modernidade que investe na dissolução de fronteiras, na quebra de divisões ou distinções entre cultura erudita e cultura popular ou de massa. O dileto, o requinte, o universitário e o clássico devem ser misturados com o kitsch, a porcaria, os espetáculos, os seriados, a paraliteratura, e as formas comerciais. O pós-moderno “não é apenas mais um termo para a descrição de determinado estilo. É também um conceito de periodização cuja principal função é correlacionar a emergência de novos traços formais na vida cultural com a emergência de um novo tipo de vida social e de uma nova ordem econômica.”123
Podemos dizer que, culturalmente, vivemos na exaustão. Não uma exaustão fruto de uma intencionalidade forte dos movimentos culturais, mas o despertar de um sentimento ou de uma percepção de fim de linha – tudo está dito, tudo está visto. Resta-nos apenas fazer combinações. Assim, o experimentalismo expressivo da linguagem recuou-se à linguagem coloquial prosaica, imediatista, sem pretensões e banal. Como vimos, a linguagem ficou impotente. Incapaz de remeter a algo além dela, a linguagem não consegue ficar prenha de subjetividade de sentido romântico. Ela agora expressa, quando muito, fragmentos subjetivos esvaziados. Toda esta nostalgia pelo passado e delirante busca abusiva por tradições a se recuperar, e mesmo o fascínio pelas culturas pré- modernas e primitivas, seriam indício de mais uma fórmula adotada pela frivolidade de nossas instituições culturais para perpetuar a necessidade de espetáculo e ma nter seu big business? Ou seriam expressões de uma genuína insatisfação com os frutos da modernidade?
Na pós-modernidade, o livro impresso foi substituído pela tela da televisão, do computador ou por visual aids. A palavra migrou para a imagem e o discurso ficou submerso pela representação. O logocentrismo tornou-se iconocentrismo.124 O capitalismo consumista pós-guerra é um cumprimento paródico dos esforços da vanguarda em transformar o mundo numa obra de arte. Uma nova moeda com valor de troca surgiu – a imagem. Ela vale tanto quanto dinheiro. E por que? Simplesmente porque a finalidade da imagem é assassinar o real,125 ou pelo menos desafiar-lhe alegando possuir o mesmo status de realidade. A imagem conclama à uma equivalência de teor de realidade. E quando a imagem torna-se cada vez mais a única realidade que possivelmente pode
123 Ibid., p. 17
124 LYON, David. Pós-modernidade. Op. cit., p. 17
haver, ela passa a ter um valor altíssimo. Políticos, top models, atores, cirurgiões plásticos e pregadores religiosos contemporâneos sabem disso muito bem.
Baudrillard nos mostra a caminhada de ascensão da imagem na subversão do real126:
- Ela é o reflexo de uma realidade profunda. Aqui ela é uma boa aparência e a representação é o domínio do sacramento.
- Ela mascara e deforma uma realidade profunda. Aqui ela é uma má aparência. É a imagem ruim, maléfica, que desvirtua.
- Ela mascara a ausência de realidade profunda. Aqui ela se complexifica ainda mais: finge ser uma aparência. É o domínio do sortilégio.
- Ela não tem relação com qualquer realidade: ela é o seu próprio simulacro puro. Aqui ela deixa completamente de pertencer a qualquer referência quanto à questão ou domínio da aparência. Torna-se simulação pura. Toda expectativa de sair do mundo imagético cessou. A imagem em si mesma basta. Finda-se a possibilidade da produção da realidade. Tudo o que pode haver é reprodução fluída de imagens num caleidoscopismo sem fim.
Na civilização imagética, passamos a viver mergulhados numa reprodução “desenfreada de real e de referencial, paralela e superior ao desenfreamento da produção material: assim surge a simulação na fase que nos interessa – uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real, que faz por todo o lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão.”127 As imagens retiram seu poderio ante o real por meio de seu pujante moto dinâ mico de reprodução e trituração amalgamadora de tudo que for possível. Frivolamente embate-se numa mistura desenfreada e frenética de imagens, fundindo tudo que se encontrava separado: distâncias se encurtam, sexos se diluem, pólos opostos são dissolvidos, atores e platéias se confundem, sujeitos e objetos são irreconhecíveis, a ponto de nenhum juízo mais ser possível.128 O que temos, então, é uma imagem de segunda-mão, que já não leva nenhuma marca da subjetividade.
A imagem adquiriu um tipo de interação e poder de infiltração em nós mais ou menos semelhante à forma como a ciência se infiltra no código genético para transformar desse modo o próprio corpo.129 A partir daí, cada um fica solto para fazer o que quiser com a imagem interativa.
126 Ibid., p. 13 127 Ibid., p. 14
128 IDEM. Tela total. Op. cit., p. 129 129 Ibid., p. 130
Mas o preço dessa fusão é a submissão ao seu caráter de reprodução ilimitado, além de qualquer controle. Neste sentido, até os textos se diluíram em imagens, não sendo mais percebidos como tais.
O poder da imagem, após conquistado o real em sua lógica de reprodução fragmentadora, extermina a autonomia empirista do olho humano que capta e organiza suas percepções. O empirismo humano é substituído pelo empirismo da imagem: é ela que nos capta e nos organiza desorganizando-nos. A oração sacerdotal da imagem é finalmente atendida: “peço-lhe que todos sejam um, assim como o real e eu (imagem) somos um.” Como reprodução, a imagem deixou de ter a função de espelho. No espelho há algo além do vidro, separado. Nas imagens reprodutoras não há como haver algo além delas mesmas pois a dinâmica de sua reprodução ostensiva instaura uma nova dimensão de espaço e tempo. Nossa vontade sucumbe à uma vontade de reprodução infinita130 e, à medida que um certo ritmo de reprodução imagética mostrar sinais de enfado, um outro mais acelerado é imediatamente acionado, visto que a aceleração é a única saída contra a tendência enfadonha da reprodução. A imagem tem a lógica de um narcótico: nossa relação com ela não é polar, mas a da vertigem. A diferença entre as imagens produzidas pelo “real” e as imagens de reprodução é que as primeiras causam impactos de algo para alguém; enquanto as últimas, por terem corroído a dualidade algo-alguém, perdem seu poder de impacto, restando-lhes como única alternativa a exploração da intensidade quantitativa de sua interação indiferenciada.
As imagens reprodutivas não possuem matizes, segredos, não escondem nada atrás nem retratam nada à sua frente. São puro espetáculo sensório a um observador paralisado. As imagens de hoje adquiriram o papel de fornecer uma liberdade simulada para a cultura humana, pois, nelas, as respostas não procedem mais das perguntas – são as perguntas que procedem das respostas previamente iconizadas numa realidade cujas fronteiras não vão além deste jogo de reprodução visual. Dessa forma, a reprodução imagética transformou a cultura num circuito fechado.
É óbvio que os sacerdotes do mundo da imagem retrucam dizendo que as máquinas e tecnologias telemáticas atuais não passam de máquinas de escrever ou de conveniências práticas, embora mais complexas. Tudo tão longe do que são. Esta alegação falaciosa não quer ver que tanto no mundo prático quanto em frente a uma máquina de escrever, a relação físico-distinta do homem ainda está preservada. O que não ocorre na telemática, pois nela, nos é exigida uma relação plasmática, incubadora e intersensorial. Prova disso é que uma falha num computador não é
encarada como mero problema técnico ou de atividade prática, mas antes de uma falha do nosso próprio corpo. É a vitória do poder da imagem sobre o poder do corpo.
A pós-modernidade como reprodução cultural pode ser caracterizada, então, como uma tendência que, devido à exaustão, procura transformar a realidade em imagens, fragmentar o tempo em uma série de presentes perpétuos, ao mesmo tempo em que também o reproduz a partir de apropriações nostálgicas imitadoras e esvaziadoras do passado. É também uma tentativa de dissolução da distinção da cultura em níveis; a situação de aliança entre o capitalismo, a tecnologia e a cultura e a atitude descomprometida da arte.
Mas o que parece ficar patente é que, para a pós-modernidade, a cultura não pode mais ser entendida como super-estrutura, apesar da insistência inútil dos marxistas ortodoxos. O esquema infra-estrutura (economia, política, recursos naturais e organizacionais) e superestrutura (arte, consciência, valores, moral, cultural) precisa ser repensado pois não valem como antes. E já houve quem dissesse: “quando penso em cultura, tiro o talão de cheques!”