Segundo a jurisprudência dominante na Corte Superior Eleitoral, o mandatário deve pertencer ao partido incorporado para que mude de partido sem ser considerado infiel, mantendo o mandato. 44
O TRE Ceará acompanhou entendimento da Corte Superior:
Não há como considerar o argumento de incorporação do PAN ao PTB quando o mandatário infiel não era filiado ao PAN, mas ao PTB, pelo qual concorreu nas Eleições 2004. Precedente do TRE-CE.” (EXPEDIENTE SEM CLASSIFICAÇÃO nº 11727, Acórdão nº 11727 de 24/06/2008, Relator(a) ANASTÁCIO JORGE MATOS DE SOUSA MARINHO, Publicação: Diário de Justiça, Volume 126, Data 07/07/2008, Página 204)
Porém, evoluindo na interpretação da norma e extraindo da mesma sua ratio, o TRE reconheceu a possibilidade de considerar a existência de justa causa de desfiliação aos mandatários do partido incorporador quando a ideologia partidária antes defendida, após a união das duas agremiações, sofrer alterações substanciais e configurar mudança significativa no programa partidário.
Neste sentido foi decidido no Acórdão nº 11.343, quando da incorporação do PAN (Partido dos Aposentados da Nação) pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). (EXPEDIENTE SEM CLASSIFICAÇÃO nº 11343, Acórdão nº 11343 de 05/12/2008,
Relator(a) GIZELA NUNES DA COSTA, Publicação: DJ - Diário de justiça, Tomo 04, Data 08/01/2009, Página 101). Porém, entende-se que neste caso, o fundamento da desfiliação não seria a incorporação do partido em si, mas a mudança significativa no programa partidário.
Outro aspecto a ser abordado é que a fusão e a incorporação de partidos não afastam a responsabilidade do filiado em comunicar à Justiça Eleitoral sua nova filiação, sob pena de incorrer em dupla filiação, com o cancelamento de ambas, nos termos do artigo 22 da Lei nº 9.096/95. A criação de um novo partido, em face de fusão ou incorporação, não implica em cancelamento automático das filiações efetivadas anteriormente.
ELEIÇÕES 2008. RECURSO EM REGISTRO DE CANDIDATURA. FUSÃO DE PARTIDOS. FILIAÇÃO PARTIDÁRIA. DUPLICIDADE. NULIDADE DE INSCRIÇÕES DECRETADA EM PROCESSO AUTÔNOMO. CANDIDATO QUE NÃO CUMPRIU A OBRIGAÇÃO PREVISTA NO ARTIGO 22, PARÁGRAFO ÚNICO, DA LEI Nº 9.096/1995. REGISTRO DE CANDIDATURA. INDEFERIMENTO. SENTENÇA MANTIDA. IMPROVIMENTO DO RECURSO.
1 - De acordo com o disposto na Resolução - TSE nº 21.377, de 8/4/2003, a fusão ou incorporação de partidos políticos não gera o automático cancelamento das filiações anteriormente realizadas, ocorrendo sua migração para a nova agremiação partidária. Cumpre assim ao filiado insatisfeito comunicar ao partido e à Justiça Eleitoral seu ingresso em outra legenda partidária, até o dia seguinte ao da nova filiação. 2 - A fusão ou incorporação de partidos não elide as obrigações previstas nos arts. 21 e 22 da Lei nº 9.096/1995. 3 - "(...) A nova agremiação, resultante da fusão de partidos políticos, manterá como seus, os filiados das agremiações que se fundiram, devendo estes, no caso de novas vinculações, comunicarem seu desligamento, sob pena de incidirem em duplicidade. (...)" (TRE/BA - RE 4.808, Rel. Juiz Pedro Braga Filho, DJ - 27/09/2000, p. 61) 4 - Sentença mantida. 5 - Recurso improvido. (RECURSO ELEITORAL nº 13662, Acórdão nº 13662 de 20/08/2008, Relator(a) ANASTÁCIO JORGE MATOS DE SOUSA MARINHO, Publicação: PSESS - Publicado em Sessão, Data 20/08/2008 ).
A jurisprudência do TSE se manifesta nos mesmos termos.45
Analisando as decisões, a Justiça Eleitoral cearense se posicionou pacificamente no sentido de indeferir os pedidos de decretação de perda de mandato por infidelidade partidária feitos pelos partidos por ocasião da fusão ou da incorporação de partidos, reconhecendo a justa causa para desfiliação e permanecendo o mandato com os eleitos.
Demonstra-se alguns julgados:
PETIÇÃO. INFIDELIDADE PARTIDÁRIA. FUSÃO DE PARTIDOS. PROCEDÊNCIA DO PLEITO. 1. Constitui justa causa, aferível de forma estritamente objetiva, sem margem para disceptações, a desfiliação de mandatário de Partido Político após a sua fusão a outra agremiação partidária. 2. Ao Partido da República, resultado da fusão operada entre o Partido da Reedificação da Ordem Nacional e o Partido Liberal, não se pode assegurar o direito à preservação do
45 Recurso Especial Eleitoral nº 12823, Acórdão nº 12823 de 17/04/1997, Relator(a) Min. José Neri Da Silveira,
RJTSE - Revista de Jurisprudência do TSE, Volume 9, Tomo 2, Página 170.
Agravo Regimental Em Recurso Especial Eleitoral nº 18849, Acórdão nº 18849 de 26/04/2001, Relator(a) Min. Nelson Azevedo Jobim, RJTSE - Revista de Jurisprudência do TSE. Volume 12, Tomo 4, Página 346.
mandato eletivo, por não se deflagrar, na espécie, situação de infidelidade. 3. Injurídico vislumbrar a infidelidade partidária de um mandatário que deixa partido que, a rigor, ao tempo dessa mudança, não é mais aquele pelo qual fora eleito. 4. [...] 5. Procedência dos pedidos. (PETIÇÃO nº 11921, Acórdão nº 11921 de 05/12/2008, Relator(a) GIZELA NUNES DA COSTA, Publicação: DJ - Diário de justiça, Tomo 04, Data 08/01/2009, Página 99/100 )
EXPEDIENTE SEM CLASSIFICAÇÃO - DECRETAÇÃO DE PERDA DE CARGO ELETIVO - INFIDELIDADE PARTIDÁRIA - VEREADOR - MÉRITO - JUSTA CAUSA - INCORPORAÇÃO ENTRE AGREMIAÇÕES PARTIDÁRIAS - INCISO I, § 1º, DO ART. 1º DA RESOLUÇÃO TSE Nº 22.610/2007 - IMPROCEDÊNCIA DA REPRESENTAÇÃO. 1. O artigo 17 da Constituição Federal assegura fusão, incorporação e extinção dos partidos políticos, resguardados os princípios do pluripartidarismo, soberania popular, regime democrático e direitos fundamentais da pessoa humana. 2. Decisão do TSE, consubstanciada na Res.-TSE nº 22.519/2007, resultou no deferimento do pedido de incorporação do Partido dos Aposentados da Nação - PAN ao Partido Trabalhista Brasileiro - PTB. 3. A despeito da desfiliação ter ocorrido somente em setembro de 2007, a referida Resolução não estabeleceu qualquer prazo aos que se desfiliaram em casos de fusão ou incorporação de partidos, razão pela qual inconteste é a justa causa verificada nos presentes autos. (EXPEDIENTE SEM CLASSIFICACAO nº 11448, Acórdão nº 11448 de 06/05/2008, Relator(a) HAROLDO CORREIA DE OLIVEIRA MÁXIMO, Publicação: DJ - Diário de justiça, Volume 091, Data 16/05/2008, Página 215/216 )
As decisões significam que, quando um partido se funde ou se incorpora a outro, assume o risco de perder integrantes mandatários, pois surge para os que não concordarem com a fusão ou com a incorporação o direito de mudar de partido, mantendo o mandato.