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Procurando responder ao objetivo da investigação que consiste em “identificar as vantagens

e/ou desvantagens da interdisciplinaridade na recuperação dos utentes na perspetiva dos profissionais”, surgiu o tema “Perceção sobre a interdisciplinaridade na recuperação dos

utentes”, o qual é constituído por duas categorias, designadamente: “Ganhos da intervenção interdisciplinar na recuperação dos utentes” e “Limitações da intervenção interdisciplinar na recuperação dos utentes”.

Relativamente à primeira categoria foi possível identificar cinco subcategorias, denominadas: “Intervenção integral”; “Atingir os objetivos”; “Conhecer o utente noutros contextos”; “Resultados mais positivos” e “Sentimento de segurança”, sendo estes os ganhos referidos pelos entrevistados.

Noutra vertente, quanto às limitações da prática interdisciplinar na recuperação dos utentes, o número de subcategorias é mais elevado, tendo sido identificadas doze: “Ideias divergentes”; “Falta de consenso”; “Falta de comunicação”; “Falta de respeito”; “Ego profissional”; “Desconhecimento da interdisciplinaridade”; Falta de coesão”; “Gestão do tempo”, “Falta de reconhecimento”; “Conflitos”; “Nenhuma”; e “Receção negativa”.

De acordo com os dados apresentados no Quadro 24 (Anexo 42), é possível aferir que a maioria dos profissionais estudados referiu que um dos ganhos da interdisciplinaridade na recuperação dos utentes está relacionado com o facto de, através desta forma de intervenção, a pessoa poder ser cuidada no seu todo. Embora os utentes integrem a Unidade, essencialmente, para reabilitação do foro físico ou da fala, como mencionam alguns profissionais, caso outras áreas não sejam tratadas (como a psicológica e a social), esse objetivo pode não ser totalmente atingido, pois existe interligação entre as intervenções de cada disciplina. Por exemplo, se um utente “sentir que ir para casa é uma barreira (…), isso tudo, se não estiver resolvido e se não estiver minimamente orientado, vai ter repercussões ao nível da reabilitação, isso é bastante notório” (p. I). Assim, existindo interdisciplinaridade, os profissionais consideram que “o utente tem a ganhar”, pois acabam encarando e cuidando “o utente exatamente como um todo e todas as áreas (…) estão sobre a atenção de algum profissional” (p.J), e “Se não houver aquele elemento, há uma área que vai deixar de ser trabalhada” (p. H).

Neste sentido, alguns entrevistados voltam a referir que através da intervenção interdisciplinar, mediante o contributo de cada área, é possível alcançar mais fácil e eficazmente os objetivos definidos para cada utente, cuja finalidade principal é a reabilitação. Face à questão dos ganhos na recuperação dos utentes, alguns profissionais também voltaram a sublinhar o facto de a prática interdisciplinar conduzir a resultados mais positivos na sua saúde e reabilitação, enquanto um profissional acrescenta ainda que se essa prática for mesmo efetiva e eficaz, a adaptação dos utentes poderá ser mais favorável, pois sentir-se-ão apoiados e então, confortáveis e em segurança.

Outro dos elementos da amostra considerou que a existência de interdisciplinaridade contribui para que os profissionais conheçam caraterísticas, vivências e atitudes do utente em diferentes

contextos e circunstâncias, através da partilha de informação entre os profissionais, o que permite uma visão holística acerca do utente e compreender determinadas questões sobre o mesmo. Exemplificando, caso um utente esteja em estado depressivo e desmotivado, e isso for comunicado pelo psicólogo aos restantes elementos da equipa, estes profissionais devem ter esse aspeto em consideração e adequar as suas intervenções, por exemplo, introduzindo- lhe uma componente motivacional.

Na verdade, como verificamos no enquadramento teórico, outros autores chegaram às mesmas conclusões que os profissionais entrevistados para a presente investigação, sendo exemplos Scherer et al. (2013), os quais revelam que vários profissionais de saúde encaram a interdisciplinaridade como contribuinte para uma maior eficácia e eficiência nas intervenções neste âmbito; e Pinheiro et al. (2010), os quais consideraram que este cuidar integral permite chegar ao «todo» da pessoa no seu processo de reabilitação mas também possibilita agir para promover e proteger a sua saúde.

No que concerne à segunda categoria do tema agora abordado, através da análise do quadro 25 (Anexo 43), compreendemos que a subcategoria “ideias divergentes” foi definida pelo facto de alguns profissionais entrevistados identificarem este aspeto como uma das limitações na recuperação dos utentes, uma vez que consideram que tendem a existir divergências de opiniões entre as diferentes áreas disciplinares, e que isso pode conduzir a que cada profissional intervenha da forma que considera mais pertinente, podendo surgir conflitos e não acontecer a integração e complemento entre as intervenções. Neste sentido, dois elementos da amostra estudada mencionam que também a falta de consenso pode prejudicar os utentes, assim como a falta de respeito entre todos os elementos da equipa multidisciplinar, referida apenas por um profissional. De facto, como vimos anteriormente, Bernardo et al. (2010: 765), defendem que estas equipas devem atender os princípios “da igualdade e da diferenciação”, uma vez que cada profissional apresenta uma opinião acerca de determinada questão, a qual deve ser escutada e respeitada.

Para alguns dos entrevistados, a inexistência ou dificuldade em comunicar ou uma comunicação pouco eficaz não permitem que se desenvolva a interdisciplinaridade o que, consequentemente, vai limitar o processo de reabilitação dos utentes. Vários autores defendem o mesmo, afirmando que as competências dos profissionais a nível comunicacional, a utilização de um estilo assertivo e a capacidade de escutar o outro são cruciais para a eficácia de equipa na saúde (Santos et al., 2010), assim como uma comunicação favorável e

frequente, uma vez que também propicia uma maior coesão da equipa e colaboração entre os seus membros (Neves, 2012).

Por outro lado, de acordo com alguns entrevistados (três), quando os profissionais depositam mais importância na defesa da sua categoria laboral, em elevar o seu ego profissional, do que na integração de conhecimentos e intervenções com outras áreas disciplinares, os utentes podem sofrer algumas repercussões, podendo a recuperação não ser tão completa, como também revelam Cunha et al. (2013), afirmando que quando os profissionais assumem uma posição de defesa face à sua área profissional, não permitem que seja efetuadas as alterações necessárias para melhorar os seus resultados.

Dois dos entrevistados consideram que a recuperação dos utentes pode ser comprometida, caso algum dos elementos da equipa de saúde não reconheça no que consiste a prática interdisciplinar e as suas vantagens, ideia, de certo forma, convergente com a de Costa (2007: 111), a qual menciona que um dos motivos que comprometem a prática interdisciplinar na saúde tem a ver com as dificuldades dos profissionais em operacionalizarem “conceitos, métodos e práticas entre as disciplinas”.

Neste âmbito, um dos entrevistados defende também que a falta de compreensão face aos benefícios da interdisciplinaridade por parte de alguns profissionais, pode igualmente conduzir à limitação de determinadas intervenções interdisciplinares a desenvolver por outras áreas que não a sua, por não reconhecerem a relevância dessa ações. Na verdade, também Scherer et al. (2013: 3209) afirmam que o desenvolvimento da interdisciplinaridade na área da saúde é muitas vezes dificultado por fatores associados à “fragilidade do núcleo de competência profissional” e à “não valorização do seu próprio trabalho”. Ainda perante este aspeto, denota-se a importância do intercâmbio de saberes e da assimilação de competências entre os profissionais das diferentes áreas disciplinares, como refere Costa (2007).

A subcategoria “Gestão do tempo” surgiu devido à resposta de um dos entrevistados que relatava que, embora os profissionais tentem gerir o tempo da melhor forma para benefício dos utentes, o facto de um utente beneficiar de intervenção por parte de várias áreas pode prejudica-lo, na medida em que, poderá existir uma sobrecarga de atividades e, consequentemente, um menor aproveitamento de cada uma. Esta opinião vem também salientar o que referem Santos et al. (2010: 54) e Ferreira (2015) acerca da necessidade de os profissionais das equipas de saúde terem de se adaptar e conseguir realizar uma grande quantidade de serviços em tempos reduzidos.

Outra das limitações identificadas está relacionada com a ocorrência de conflitos entre os profissionais, pois dois dos elementos da amostra consideram que o utente pode ser prejudicado se esses cuidadores formais não tiverem a capacidade para aceitar e compreender o outro/a outra área e o discernimento para separar questões da vida pessoal da profissional e vice-versa, acabando por se desviar do principal foco da intervenção que deve ser o utente. Como vimos anteriormente no enquanto teórico, os conflitos podem, efetivamente, refletir-se negativamente nas vivências dos utentes, incluindo nos serviços de saúde (Landau & Borgonovi, 2008. Cit. por Cunha et al., 2013), podendo diminuir a qualidade dos cuidados (Cunha, et al., 2013), pelo que se torna relevante que os profissionais procurem não confundir a vida pessoal com a profissional (Scherer et al., 2013).

Nesta linha, outro dos entrevistados relata que a inexistência de coesão na equipa também pode gerar dificuldades no processo de recuperação dos utentes, de maneira que alguns autores consideram que relacionamentos benéficos no seio da equipa multidisciplinar contribuem para a sua maior eficácia (Mezomo, 2001, 191-192, cit. por Ferreira, 2015; Santos

et al., 2010).

Embora tenha sido apenas referida por um profissional, uma das subcategorias que emergiu da análise de conteúdo sob a presente categoria, é a “receção negativa”, pois de acordo com a opinião deste elemento, se o utente não for acolhido da melhor forma, aquando da sua entrada na Unidade ou noutro serviço de saúde, o seu processo de reabilitação pode ficar comprometido. Afinal, o utente pode sentir-se pouco à vontade e/ou recusar-se a colaborar, podendo mesmo piorar a sua situação face à da data da sua entrada no serviço. Deste modo, é de salientar a importância da aquisição de competências técnico-profissionais para intervir no âmbito da saúde, pois são ferramentas essenciais no estabelecimento de relações de confiança com os utentes, como mencionam Nunes et al. (2005: 146 cit. por Ferreira, 2015).

Finalizando, importa referir que três dos quinze profissionais estudados, não reconhecem qualquer limitação da interdisciplinaridade na recuperação dos utentes.

Benzer Belgeler