DESAFIOS E NOVOS CAMINHOS PASTORAIS PARA BELO HORIZONTE E OS GRANDES CENTROS URBANOS
A sorte histórica do cristianismo está vinculada à cidade.
(LIBANIO, 2001, p. 10)
No capítulo anterior, destacamos a presença missionária do metodismo em Belo
Horizonte. Sua inserção e expansão se deram no contexto histórico marcado por significativas transformações, quando o desejo de modernização, paralelo ao rompimento com o passado colonial, impulsionou as oligarquias mineiras a construírem uma nova capital para Minas Gerais. Motivados por esta nova dinâmica social e política, caracterizada por uma certa abertura religiosa, os metodistas estabeleceram sua presença por meio das ênfases evangelizadora e educacional. Hoje, a presença metodista na realidade urbana se torna mais desafiadora diante da complexidade e dinamismo que caracterizam os grandes centros. Vivem-se nos dias atuais profundas mudanças, diferentes daquelas encontradas no contexto inicial de inserção do metodismo em Belo Horizonte. Portanto, o desenvolvimento de uma práxis pastoral no contexto das grandes cidades deve contemplar tais transformações demandando uma renovação do pensamento, sem perder de vista o legado identitário do metodismo histórico. O objetivo deste capítulo é, exatamente, apontar novos caminhos pastorais para uma nova realidade urbana, redimensionando as ênfases do metodismo, à luz da leitura histórico-missionária desenvolvida nos primeiros capítulos, a fim de que sua presença seja relevante na realidade urbana.
Os conceitos de missão e evangelização utilizados nesta análise serão trabalhados na perspectiva da teologia prática, e tomam como referencial teórico as obras dos pastoralistas Cassiano Floristan (1998) e David J. Bosch (2002), e, também, os documentos Plano Para a
Vida e Missão da Igreja 1e Linhas de Vida e Missão na Faculdade de Teologia. O estudo pretende identificar, em cada um deles, elementos que irão clarear a leitura histórico- missiológica que este trabalho se propôs desenvolver, também apontar novos caminhos para a missão da Igreja nos grandes contextos urbanos. O fenômeno urbano será analisado a partir dos trabalhados desenvolvidos por José Comblin (1996) e João Batista Libanio (2001). Eles nos fornecerão os fundamentos teóricos da cidade, seu valor teológico e pistas para a construção de uma pastoral urbana. Nesse sentido, objetivando uma melhor compreensão e
1 Documento oficial da Igreja Metodista, aprovado em 1982 pelo 13° Concílio Geral. Documento norteador da
solidez da pesquisa, refletir-se-á sobre a definição de alguns conceitos, como a modernidade, o liberalismo, o positivismo.
Para fundamentar teoricamente as contribuições missiológicas do metodismo ao mundo atual, trabalhar-se-ão as análises desenvolvidas por Justo L. González (2003) e Theodore W. Jennings (2007). Tais autores procuram reinterpretar Wesley, apontando sua contribuição e relevância para a América Latina e o mundo atual, destacando o fato de que Wesley soube articular diferentes faces da herança cristã com práticas missionárias compatíveis com desafios enfrentados por uma sociedade em acelerado processo de transformação. Utilizar-se- ão também os estudos de teólogos metodistas, os quais têm atualizado as contribuições missiológicas desse grupo ao mundo atual, e outros autores, os quais trabalham com pastoral urbana. Pretende-se apontar como as ênfases do metodismo nascente e brasileiro podem ajudar a construir uma proposta atual de missão para as cidades na realidade urbana como é o caso de Belo Horizonte.
Procurar-se-á elaborar uma pastoral que corresponda ao contexto urbano caracterizado por desafios, complexidades e oportunidades. É um olhar da missão dentro da perspectiva do urbano, relacionando a Igreja e o ser humano dentro do contexto da cidade.
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3.1 Trabalhando o conceito de missão e evangelização
O Plano Para a Vida e Missão da Igreja (PVMI), documento que fundamenta a
identidade missionária metodista, faz uma clara distinção entre o conceito de missão e
evangelização, embora estabeleça os dois aspectos como vitais para a vida da Igreja, O
primeiro diz respeito ao aspecto mais abrangente da ação da Igreja, que visa estabelecer o Reino de Deus no mundo. Já a evangelização, implicada na missão, coloca-se como parte desta, e por meio do amor encarnado, proclama Jesus como Senhor, Salvador e Reconciliador. De acordo com o PVMI:
A missão de Deus no mundo é estabelecer seu Reino. Participar da construção do Reino de Deus em nosso mundo, pelo Espírito Santo, constitui-se a tarefa evangelizante da Igreja.
A missão é de Deus Pai, Filho, Espírito Santo. O objetivo é construir o Reino de Deus(...).
A Missão acontece quando a Igreja sai de si mesma, envolve-se com a comunidade e se torna instrumento da novidade do Reino de Deus.
A missão acontece na promoção da vida e do trabalho. Para que haja vida, são necessárias comunhão e reconciliação com Deus e o próximo, direito a terra, habitação, alimentação, valorização da família, saúde, educação,
participação na vida comunitária, política e artística e preservação da natureza.
A evangelização, como parte da missão, é encarnar o amor divino nas formas mais diversas da realidade humana, para que Jesus Cristo seja confessado como Senhor, Salvador e Reconciliador (PVMI, 1982, p. 11,15,17,31).
O documento Linhas de Vida e Missão da Faculdade de Teologia vai na mesma direção do PVMI quanto à definição do conceito de missão e evangelização, entretanto pode ser mais facilmente compreendido. Ele esclarece que:
Missão e evangelização são dois aspectos fundamentais da vida da Igreja. Missão é envio; evangelização é o conteúdo do projeto contido no envio. Jesus Cristo é o centro do evangelho. A graça de Deus é a origem, a possibilidade e a força dinamizadora da missão e da evangelização. Missão e evangelização estão implicadas uma na outra. O sentido determinante é o de evangelização. Na missão e na evangelização podemos visualizar, de forma abrangente, o essencial da ação da Igreja.
O sentido mais abrangente de Evangelização tem a ver com a pessoa, os eventos e a mensagem de Jesus Cristo para todo o mundo. Evangelizar quer dizer transformar e formar continuamente no evangelho, pessoas, comunidades, sociedades e a própria criação.2
O documento enfatiza que a evangelização é dirigida ao ser humano dentro do contexto social e cultural, compreendendo todos os aspectos da dimensão da vida. Portanto, a ação da Igreja não acontece dentro do vazio cultural, mas a cultura constitui, tanto para a missão da Igreja quanto para a reflexão teológica, uma referência fundamental.
Esses documentos, ao definir seu conceito de missão e evangelização, deixam bem claros que a teologia de missão e evangelização do metodismo é caracterizada por uma visão evangélica integral, contextual, transformadora, crítica e profética. A missão e a evangelização constituem aspectos essenciais da vida da Igreja. Embora sejam distintas em seus conceitos – missão é envio e evangelização é o conteúdo do projeto contido no envio –, estão intimamente relacionadas. A razão de ser da Igreja é o compromisso com a mensagem do Reino de Deus, e todo o projeto desenvolvido pela Igreja deve ser sempre orientado para a missão. A origem e essência da missão são divinas, a partir da ação do Deus trino, a Missio
Dei. A missão transcende a ação da Igreja, pois, embora seja a parte mais consciente e
privilegiada pela graça de Deus, ela é apenas parte da missão. A missão do próprio Deus é maior do que a missão da Igreja.
2 Linhas de Vida e Missão na Faculdade de Teologia. Documento não publicado. Pode ser encontrado na íntegra
Na análise de David Bosch3, o conceito “evangelizar” e seus derivados ocorrem com relativa freqüência no Novo Testamento e são muito anteriores à palavra “missão”. Entretanto, ambos os termos caíram quase em completo desuso durante o período da Idade Média. Como exemplo, aponta o fato de que as versões da Bíblia inglesa preferem adotar, hoje, o termo inglês gospel (2002, p.489). Somente no início do século 19 é que houve a redescoberta, em círculos da Igreja e da missão, do verbo “evangelizar” e seus derivados “evangelismo” e “evangelização”.
Depois de um declínio temporário nas décadas de 1920-60, os termos atingiram ponto de destaque e têm sido amplamente empregados em círculos protestantes (ecumênicos e evangelicais), assim como católicos, desde 1970. Um “divisor de águas decisivo” para tal fato, enfatiza Bosch, foi a publicação, em 1975, da Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, do Papa Paulo VI, a realização da Assembléia do Concílio Mundial de Igrejas (CMI) em Nairóbia, realizada também em 1975, e a publicação, em 1982, de Missão e evangelização:
uma afirmação ecumênica (ME). Certamente, esses encontros e documentos despertaram
novamente o interesse de católicos e protestantes, proporcionando o resgate do termo
evangelização (p.489).
Embora o reavivamento do termo evangelização tenha sido uma realidade, existem preferências nos círculos de discussão da missão quanto ao seu conteúdo e suas implicações. David Bosch observa que, quanto ao substantivo, o movimento evangelical protestante e os católicos romanos preferem o termo “evangelização”, enquanto os protestantes ecumênicos optam por “evangelismo”. Segundo sua compreensão, Bosch interpreta da seguinte maneira o conteúdo dos termos e faz seu emprego do seguinte modo:
“Evangelismo”: (a) às atividades implicadas na difusão do evangelho; b) à reflexão teológica sobre essas atividades. “Evangelização”: (a) o processo de propagação do evangelho; (b) a extensão em que ele se encontra propagado. Permanece difícil, todavia, determinar com exatidão o que os autores querem dizer com evangelismo ou evangelização. Barrett enumera 79 definições, às quais se poderiam somar muitas outras (p. 489-490).
Na análise de Bosch, questões como a diferença entre evangelismo e missão e o conteúdo e a abrangência do evangelismo ainda estão sem repostas. As definições apontadas pelos
3 David J. Bosch foi um proeminente missiólogo protestante na África do Sul. Morreu num acidente de carro em
15 de abril de 1992, deixando uma imensa contribuição e marcante influência nos estudos sobre a missão. Foi professor de Missiologia na Universidade da África do Sul a partir de 1971. Foi secretário-geral da Sociedade Missiológica desde sua fundação, em 1968, e editor de sua revista missionária desde 1972.
meios católicos, protestantes e protestantes ecumênicos são complexas. Além do mais, essas questões, de certa forma, estão vinculadas. Ou seja, a controvérsia prevalece.
Em busca de uma compreensão construtiva de evangelismo que possa de alguma maneira contribuir para o tipo de missão que seja relevante, David Bosch está convicto de que “missão e evangelismo não constituem sinônimos, mas, a despeito disso, estão indissoluvelmente vinculados e inextricavelmente entretecidos na teologia e na práxis” (p.492). Ele assim afirma:
A missão inclui a evangelização como uma de suas dimensões essenciais.Evangelização é a proclamação da salvação em Cristo às pessoas que não crêem nele, chamando-as ao arrependimento e à conversão, anunciando o perdão do pecado e convidando-as a tonarem-se membros vivos da comunidade terrena de Cristo e a começar uma vida de serviço aos outros, no poder do Espírito Santo (p.28).
Portanto, no entendimento de Bosch, a missão é mais ampla do que a evangelização. Embora a evangelização seja missão, esta não é meramente aquela. Missão diz respeito à “tarefa global que Deus incumbiu a igreja para a salvação do mundo, mas sempre relacionada a um contexto específico do mal, desespero e perda de norte” (BOSCH, 2002, p.28).
Em síntese, Bosch compreende que: “missão é a igreja enviada ao mundo, para amar, servir, pregar, ensinar, curar, libertar” (p.28).
Bosch também ressalta que o evangelismo não pode ser equiparado à missão. Ele é parte integrante da missão, embora distinto, não separado dela. Seu entendimento é que “o evangelismo autêntico está inserido na missão global da igreja” (BOSCH, 2002, p. 493). Portanto, o evangelismo “pode ser visto como uma ‘dimensão’ essencial da atividade global da igreja” (p. 493). Sua definição para evangelismo é:
O evangelismo implica testemunhar o que Deus fez, está fazendo e fará. É assim que Jesus iniciou seu ministério evangelístico, de acordo com os evangelhos sinóticos: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.15). Evangelismo é anunciar que Deus, Criador e Senhor do universo, interveio pessoalmente na história humana e o fez derradeiramente através da pessoa e do ministério de Jesus de Nazaré, que é o Senhor da história, o Salvador e Libertador. Nesse Jesus encarnado, crucificado e ressuscitado, o reinado de Deus foi inaugurado. O evangelismo inclui, portanto, os “eventos do evangelho” (p. 493).
Dentro dessa reflexão, o evangelismo não pode ser definido em termos de seus resultados ou de sua eficácia, como se ele somente tivesse ocorrido onde há “conversos”. Não. Ele é sempre fruto de algo que Deus já realizou em Cristo. É mister entendê-lo em “termos de
sua natureza, como mediador da boa nova do amor de Deus em Cristo que transforma a vida, proclamando, pela palavra e pela ação, que Cristo nos libertou” (p.493).
Cassiano Floristan (1998) argumenta que o termo evangelização tem sido ampliado e generalizado no vocabulário pastoral. Remete à sua procedência do verbo evangelizar, o qual corresponde, no Antigo Testamento, a “proclamar boas notícias” ou “anunciar atos salvadores”. Traz sempre um sentido de vitória e salvação. Já no Novo Testamento, evangelizar é anunciar e levar adiante o evangelho de Jesus ou a “boa notícia" em torno do Reino de Deus; é proclamar o kerigma às nações (p.369). Em sua concepção, evangelizar tem um duplo sentido: a ação de proclamar a salvação e a atividade total da Igreja.
O termo missão, em sua consideração, deriva de apostello, que significa enviar. O verbo enviar compreende duas coisas: o ato de enviar e o conteúdo do envio, ou em outros termos, a relação entre o que envia e o enviado. Nesse sentido, a missão é, pois, um envio da Igreja ao mundo, o missionário um enviado do apóstolo. Na missão cristã, somente Deus pode enviar, pois Ele é o criador da ordem natural e doador da graça (p.370).
Da análise realizada, pode-se observar que os conceitos de missão e evangelização trabalhados nos documentos Plano Para a Vida e Missão e Linhas de Vida e Missão na
Faculdade de Teologia se alinham com os conceitos desenvolvidos na teologia de Bosch e
Cassiano Floristan. Em todos eles, os conceitos de missão e evangelização são diferenciados, embora estejam entrelaçados. Eles constituem aspectos fundamentais na vida da Igreja. Embora evangelização seja missão, esta não se resume àquela. Missão é envio e
evangelização é o conteúdo do projeto contido no envio. Tanto para Bosch, Floristan e
conforme está registrado nos documentos, a evangelização é parte da missão, mas a missão é mais ampla que aquela, dizendo respeito à tarefa global que Deus confiou à Igreja para a salvação do mundo.
No estudo histórico-missiológico que se desenvolveu, constatou-se que as vertentes do protestantismo de missão que se afirmaram em solo brasileiro, em especial a metodista, foram: a vertente conversionista ou proselitista, cuja principal ênfase encontrava-se no anúncio do Evangelho ou na evangelização por meio da pregação, e a vertente educacional, caracterizada por um tipo de evangelização indireta, em que a cultura protestante, por meio da educação, seria agente de transformação da sociedade e a tornaria mais cristã (MENDONÇA e VELASQUES FILHO, 2002, p.32). Tal mudança na sociedade se fundamentava na conversão do indivíduo, pois ele era o instrumento de transformação da sociedade, e por meio da instrumentalidade indireta da educação, pretendia-se chegar ao avanço cultural do País. Outrossim, a participação na esfera pública, em regra, foi marcada por uma dicotomização
entre o espiritual e o temporal, considerados como esferas distintas e inconciliáveis.Portanto, o conceito de missão e evangelização se mostra confuso e limitado, na medida em que a conversão reflete mais um caráter individualista e desconectado com a realidade humana. O evangelho assume dimensões individuais, pois se volta apenas para a salvação de almas, não assumindo seu caráter de transformação das estruturas. Não é mais um elemento de confrontação do ser humano e das estruturas sociais com os valores do Reino de Deus e da fé em Cristo.
Nesse sentido, os pastoralistas Cassiano Floristan, David Bosch e os documentos metodistas desafiam e oferecem pistas para a construção de uma práxis missionária anunciadora de um Evangelho que seja revestido de ações transformadoras. Trazem elementos importantes para a construção de uma pastoral urbana que contemple todas as implicações pastorais das definições de missão e evangelização, e desemboque numa ação que rompa com o individualismo, a espiritualidade descomprometida e hedonista e se insira no espaço público, promovendo a construção de uma sociedade com mais justiça, amor, restauração e salvação.
3.2 Modernidade, liberalismo e positivismo
O processo de construção da capital de Minas Gerais simbolizava uma nova era e marcava uma tendência mundial do final do século XIX e início do século XX no que se refere às transformações na esfera econômica, política, nas concepções urbanístico- arquitetônicas e, também, nos aspectos socioculturais. É dentro de uma macroesfera modernizadora que se pode compreender o impulso inovador e empreendedor que moveu as elites mineiras nos primeiros anos da República (COUTO, 2003, p.58). Segundo Higuet (2005, p.9) a modernidade como um modo de civilização se desenvolveu na Europa Ocidental a partir do século XVI, com o Humanismo Renascentista e a Reforma Protestante e encontrou seus fundamentos filosóficos e políticos nos séculos XVII e XVIII, com o pensamento empirista, racionalista e iluminista. Na concepção de Giddens (1991), o caráter transformador da modernidade pode ser percebido na consolidação de instituições como o Estado Moderno, nas relações capitalistas de produção, na emergência de um novo modo de vida da sociedade e até nas transformações nas esferas mais privadas da vida. Já Habermas (1998) assevera que as características da modernidade, também anteriormente apontadas por Max Weber, podem ser compreendidas através do conceito de modernização:
O conceito de modernização refere-se a um feixe de processos cumulativos que se reforçam mutuamente: à formação do capital e mobilização de recursos; ao desenvolvimento das forças produtivas e ao aumento da produtividade no trabalho; ao estabelecimento de poderes políticos centrados e à formação de identidades nacionais; à expansão de direitos de participação política de formas urbanas de vida e de formação escolar formal: refere-se à secularização de valores e formas (p.14).
Paula (2000) cita um importante texto escrito por Henri Lefebvre, no qual analisa o significado da modernidade, dando-lhe consistência conceitual. Utilizando Marx, Baudelaire e Nietzche, Paula argumenta que Lefebvre constrói um conceito de modernidade em que são decisivas as idéias de Estado, de vida cotidiana, de fugacidade, de moda e mundanidade, de velocidade e vida urbana, de alienação e inautenticidade, de diversidade cultural em que ressalta o caráter contraditório da modernidade. Assim diz ele:
Muito mais do que por uma “estrutura” estabelecida ou estabelecendo-se por tendência constatável uma coerência, a modernidade caracterizar-se-ia pelo esforço impotente pela estrutura e pela coerência. Tudo se passa como se a “desestruturação” atingisse as estruturas antes mesmo que elas tivessem conquistado equilíbrio e coerência internos, integrando-as em novos conjuntos já ameaçados pelas contradições e pelo negativo (p.21).
Como se pode analisar, a modernidade como processo histórico está aberta a diversas dimensões e admite inúmeras caracterizações, periodizações e conceituações. Na verdade “é um processo aberto, pluridimensional, polissêmico” (PAULA, p. 15).
Nas últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX, intelectuais, políticos e grandes proprietários rurais enfrentaram e debateram intensamente os problemas do crescimento econômico do País, a transição para o trabalho livre, a construção de uma identidade nacional, a modernização da sociedade e o progresso da nação. As novas configurações econômicas, marcadas pelo processo de industrialização e pela produção agrícola em alta escala, estimularam os ideais do progresso e da modernização no final do século XIX e início do XX.
Historicamente, é dentro deste contexto, que se dá o ingresso do metodismo na realidade latino-americana e, por seu turno, no Brasil e em Minas Gerais. Acontece como fruto do projeto “civilizador” e “modernizador”, gestado pelas elites liberais e caracterizados pela passagem da sociedade tradicional para a moderna. Míquez Bonino enfatiza que:
Reconhece-se o protestantismo como portador, no plano regional, dessa modernidade – liberdade, democracia, cultura, ciência – a que se aspira. É a religião da transição da sociedade tradicional para a moderna. E o protestantismo assume essa identidade, não só por atribuição, mas também por convicção. Tanto as propostas das sociedades missionárias como os concílios evangélicos latino-americanos são fartos em afirmações da missão
evangélica que coincidem inteiramente com o projeto liberal modernizador (1983 p. 6).
Em Minas Gerais, os ideais de modernização foram uma marca presente. As elites, no âmbito político, concentravam seus esforços em torno do republicanismo de inspiração, por um lado, liberal e federalista – influência americana – e, por outro, positivista – influência das doutrinas positivistas de Augusto Comte. As idéias do liberalismo já eram uma realidade no continente latino-americano, como visto no movimento literário da Inconfidência Mineira. Do mesmo modo, foi o positivismo, outra corrente filosófica, de forte influência, principalmente na formação dos novos militares brasileiros. A matriz positivista se encaixa perfeitamente em