A pesquisa pretende prescrever estratégias existentes na literatura internacional, avaliadas comparativamente a partir de aspectos para a redução de emissões de gás carbônico no transporte, de modo a auxiliar na escolha de medidas que mais se adequam ao contexto brasileiro, mais especificamente à cidade de Natal no Rio Grande do Norte.
O transporte proporciona a mobilidade de pessoas e cargas, no entanto, um número significativo de custos ambientais, econômicos e sociais, ou "externalidades negativas", são muitas vezes subavaliadas ou não internalizadas no preço do seu uso.
Externalidades negativas associadas ao transporte incluem: poluição do ar, gases de efeito estufa (GEE), acidentes, ruído e congestionamento. Esses custos gerados por utilizadores privados, impostos à sociedade como um todo, são designados como custos "não-mercadológicos". Eles não são negociados através de mecanismos de mercado e muitas vezes são ignorados pelos usuários, mesmo podendo ser internalizados nos custos dos bens e serviços mercadológicos, e difíceis de serem quantificados.
Assim, a atual conjuntura global relacionada à busca de estratégias para a redução das emissões de CO2 no setor dos transportes não possui uma resposta objetiva, mas sim um complexo modelo de interesses, objetivos divergentes e alternativas de ação. A escolha do método de avaliação foi feita a partir do estudo de análise comparativa de técnicas de avaliação de políticas de transporte de Browe e Ryan (2011) e da análise dos métodos multicritério de Miah, Oltean-Dumbrava e Watts (2013). Primeiramente a pesquisa de Browe e Ryan (2011) define as principais técnicas, são:
- Análise Benefício-Custo (ACB): é um método relativamente direto de fornecer ao tomador de decisão uma ordem de prioridade de projetos, na medida em que a cada projeto é atribuída uma nota aparentemente “objetiva”, que é a relação entre benefício e custo em unidade monetária;
- Análise Custo-Efetividade (ACE): também compara o benefício e o custo de um projeto, mas aquele é expressos em unidade de resultado. Neste caso, o avaliador simplesmente apresenta os resultados aos responsáveis pelo projeto, que então decidem se os resultados valem o custo sacrificado;
- Apoio Multicritério à Decisão (AMD ou Análise Multicritério): pode ser definido como um conjunto de técnicas que auxiliam um determinado decisor, que pode ser uma pessoa, um grupo político ou um grupo de técnicos a tomar uma decisão a respeito de um problema complexo, com múltiplas possibilidades de solução, avaliando e buscando alternativas de resolução, de acordo com diversos critérios.
O quadro a seguir demonstra o resumo das principais características dessas ferramentas de avaliação de medidas nos transportes.
Quadro 25 – Resumo das principais características das ferramentas de avaliação.
ACB ACE AMD
Aplicação Predominância da
avaliação de projeto rodoviário, mas tem
sido aplicada ao gerenciamento da demanda e opções políticas de tecnologia Predominância da tecnologia e opções de política de combustíveis alternativos. Predominância no âmbito do projeto Tendências
de uso Amplamente utilizado, firmemente embutido em avaliação de projeto
Cada vez mais utilizadas como parte das curvas de
abatimento marginal de custo (MAC), mas não ampla
e formalmente integradas à avaliação política Não é amplamente utilizado na prática, mas elementos qualitativos do AMD
são cada vez mais utilizados Indicador Relação custo-benefício Relação custo-efetividade Ranking de Decisão Impactos positivos considerados Predominância da economia de tempo, viagem e redução de acidentes e mortes Redução de emissões de
GEE Potencializar todos os benefícios Participação
dos Stakeholder
Possível, mas não é
obrigatório Possível, mas não é obrigatório Parte formal do processo Facilidade de
comunicação Simples - valor único Simples - valor único Dificuldade de interpretar Transparência Pouco transparente -
Pressupostos escondidos atrás de um
único resultado
Pouco transparente - Pressupostos escondidos atrás de um único resultado
e outros benefícios não quantificados
Claro desde que as múltiplas facetas sejam apresentadas Facilidade de
uso monetizar todos os Dificuldade de impactos
Relativamente fácil de usar, embora difícil estimar todos
os custos
Necessário um prolongado consenso para valorar impactos
e pesos Outros
comentários Não pode quantificar todos os impactos corretamente
Exclui impactos não-GEE Critérios de ponderação pode ser
subjetivo
Fonte: (BROWNE; RYAN, 2011).
A conclusão dos autores é de que ambos ACE e ACB são úteis para estimar os custos e/ou benefícios associados a políticas de transporte, mas são limitados pela dificuldade em quantificar os impactos não-mercadológicos e rentabilizar os custos totais e benefícios. Além disso, a ACE é limitada a identificação da "política de custo- benefício", mas somente para alcançar um único objetivo estritamente definido. O modelo pode ser usado, por exemplo, para estratégias de redução de gases de efeito estufa (GEE) de maneira pura e simples, portanto, não é adequado para a avaliação de opções de políticas com variedade de potenciais benefícios. Assim, a avaliação ACB ou ACE deve ser complementada por uma abordagem de avaliação de impacto ambiental e socioeconômico como a AMD. Este método permite a análise participativa
e avaliação qualitativa, mas está sujeito a advertências, tais como subjetividade e juízo de valor dos decisores. Pesquisas na literatura listam os principais métodos multicritério, são eles:
- Utilidade Multiatributo – MAUT (KEENEY E RAIFFA, 1976);
- Processo Analítico Hierarquizado (Analytical Hierarchy Process – AHP) (SAATY, 1977);
- Technique for Order Preference by Similarity to Ideal Solution –TOPSIS) (HWANG E YOON, 1981);
- Preference Ranking Method for Enrichment Evalution – PROMETHEE (BRANS, MARESHAL e VINCKE, 1984);
- Abordagem de Decisão Fuzzy (Fuzzy Decision Approach – FDA) (LIANG E WANG, 1992);
- Métodos ELimination Et Choix TRaduisant la rEalité – ELECTRE (ROY E BOUYSSOU, 1993);
- Measuring Attractiveness by a Categorical Based Evaluation Technique – MACBETH (BANA E COSTA E VASNICK, 1994);
- Método de Análise em Redes (Analytic Network Process – ANP) (SAATY, 1996);
O uso dos métodos de Apoio Multicritério à Decisão vem aumentando ao longo dos anos (Figura 17), especificamente em estudos envolvendo o meio ambiente. Este é um demonstrativo do crescimento de como o enfoque de auxílio à tomada de decisão, em que o problema exige um grande esforço para se chegar a um consenso.
Figura 17 – Índice total de Publicações AMD na área ambiental na WOS banco de dados normalizado ao valor de 1990. Dados de 2010 são estimados com base em publicações do
primeiro trimestre.
É notável também, na Tabela 7, que dos assuntos mais estudados com uso dos métodos multicritério estão: Impacto ambiental, Avaliação energética e Qualidade do ar/emissões.
Tabela 7 – Distribuição de publicações AMD por área de aplicação, entre 2000 e 2009.
Área Número de artigos Estratégia 6 Impacto Ambiental 42 Avaliação Energética 33 Stakeholders 33 Espacial/GIS 30 Gerenciamento de lixo 30
Manufatura Sustentável/ engenharia de águas 28
Qualidade/ Gerenciamento 21
Remediação/ Restauração 15
Recursos naturais 14
Qualidade do ar/ emissões 10
Total 132
Fonte: (HUANG; KEISLER; LINKOV, 2011).
O método AHP é um dos mais utilizados na atualidade (Figura 18). Nos continentes europeu, asiático e norte americano seu uso é intenso, mas na Figura 18, apesar de ser o mais utilizado, é evidente a pouca utilização dos métodos multicritério no continente sul-americano, sendo este, um dos fatores que impulsiona a escolha do método AHP para a realização da pesquisa.
Figura 18 – Distribuição geográfica dos métodos MCDA por continente. Fonte: (HUANG; KEISLER; LINKOV, 2011).
Dentre outros fatores, os autores Miah, Oltean-Dumbrava e Watts (2013) demonstram os prós e contras dos principais métodos multicritério (Quadro 26). É importante ressaltar que as informações postas no quadro que se segue objetivam-se a realizar um comparativo entre algumas ferramentas de Análise Multicritério à Decisão, podendo diferenciar de algumas informações do Quadro 25.
Quadro 26 – Avaliação de ferramentas AMD para análise de medidas de redução de ruído sustentáveis.
Ferramenta AMD Prós Contras
AHP (The Analytical Hierarchy Process
– Processo Analítico Hierarquizado)
- Modelo simples para construir - Processo lógico
- Eficiente em lidar com atributos qualitativos e quantitativos - Os resultados são fáceis de
entender
Dúvidas têm sido levantadas sobre fundamentação dessa teoria. Existe
uma forte visão de que os axiomas em que o AHP se baseia não são suficientemente claros a ponto de
ser empiricamente testado. TOPSIS (Technique for Order Preference by Similarity to Ideal Solution - Técnica da Ordem Preferência por Similaridade para a Solução Ideal)
- A consistência interna e solidez lógica
- Fácil de seguir - Intuitivamente atraente - Não há cálculos complicados - Pode ser facilmente configurado
em MS Excel
- Os resultados são fáceis de entender
- Valor do índice simples dado - Os resultados podem ser
facilmente demonstrados graficamente
- Grande número de procedimentos - Grande número de cálculos - Fornece um resultado geral
ELECTRE (Elimination et
Choice Translating Reality)
- Os defensores argumentam que o seu conceito outranking é mais relevante a situações práticas do
que o conceito de dominação restritiva
- Pode ser usado para escolher, classificar, e ordenar alternativas.
- Muito conhecimento necessário - Não é transparente - Muito provavelmente será necessário um especialista em AMD para ajudar / realizar a análise PROMETHEE (Preference Ranking Organization Method for Enrichment Evaluations)
- Incentiva mais interação entre o decisor e o modelo na procura de
boas opções
- Os defensores argumentam que o seu conceito outranking é mais relevante a situações práticas do
que o conceito de dominação restritiva
- Muito conhecimento necessário
Fonte: (MIAH; OLTEAN-DUMBRAVA; WATTS, 2013).
Uma revisão do processo de tomada de decisão realizada por Miah, Oltean- Dumbrava e Watts (2013) encontrou um fim comum do procedimento: definir o objetivo; selecionar critérios e indicadores; coletar os dados necessários e realizar a análise multicriterial. Cada passo desse influencia na escolha do método que é
avaliado a partir das características inerentes ao estudo, como a necessidade de tempo, recursos computacionais, financiamento, profissional especializado para analisar os resultados, entre outros.
Apesar disso, a escolha do AHP dependeu, exclusivamente, de apenas um fator: como não há uma medida pré-estabelecida dos critérios e das estratégias ora utilizados pelo presente estudo, o AHP é um dos poucos métodos multicritério que pode quantificá-los qualitativamente de acordo com as preferências dos decisores da pesquisa. Além disso, para avaliação do estudo é preciso o emprego de um método multicritério compensatório já que busca agrupar as preferências dos decisores em uma única função. Tal abordagem considera a transitividade de preferências e indiferenças, exclui sua incomparabilidade, e assume que o decisor é capaz de explicitar suas preferências racionalmente.
Dadas as informações, devido à sua prevalência na literatura e sendo um dos mais utilizados nas análises sócio-econômico-ambiental, não só consolida a escolha do uso de um método multicritério para avaliação do estudo, mas ratifica a escolha do AHP, pois apesar das dúvidas que o perseguem, ele se apresenta como um modelo simples de se construir, trabalhando com atributos qualitativos e quantitativos e com fácil entendimento dos resultados. Por esses motivos, foi a ferramenta escolhida para esse estudo e que será apresentada na próxima seção.