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Raros foram os casos em que as cartas psicografadas foram apresentadas para serem juntadas aos autos como meio de prova. No âmbito criminal, a grande maioria se deu perante o Tribunal de Júri.

Considerado o primeiro e um dos principais casos de utilização como psicografia no processo penal ocorreu em Goiânia/GO, no ano de 1976. Na ocasião, investigava-se o assassinato do jovem Maurício Garcez Henrique, tendo sido o seu amigo, José Divino Nunes, então com 18 anos, indiciado pelo Ministério Público como incurso no crime de homicídio doloso.

57 Na época, os pais da vítima tomaram conhecimento da possibilidade de entrar em contato com seu filho por intermédio da psicografia e, na busca de consolo, visitaram o médium Francisco Cândido Xavier. Após alguns dias, o médium recebeu uma mensagem que dizia ser de Maurício Henrique, e transmitiu aos familiares da vítima. Após dois anos, a família recebeu outra carta do médium, do mesmo remetente.

As cartas, além das mensagens de conforto, traziam também detalhes e peculiaridades do possível acidente que teria provocado a morte da vítima, afirmando que o então denunciado não tinha culpa do acontecido, não havendo, assim, crime. A psicografia foi levada a juízo. Com base nas demais provas produzidas nos autos, na ocasião da primeira fase do júri, o magistrado Dr. Orimar de Bastos prolatou sentença de improcedência da denúncia e absolveu o acusado.

Após, o Ministério Público interpôs recurso ao Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, que reformou a decisão, mandando José Divino a julgamento perante júri popular. A decisão do júri, então foi pela absolvição do réu, por seis votos a um. Houve recurso de apelação por parte da promotoria, porém, o Tribunal negou provimento à apelação e confirmou, por unanimidade, a decisão do júri popular, absolvendo o acusado.

Destarte, cumpre salientar que no caso em tela, o juiz de primeiro grau, ao reconhecer a psicografia como prova jurídica, o fez pelas demais provas que coadunaram os relatos trazidos na mensagem, formando o convencimento do juiz. Até mesmo por isso não houve necessidade de realização de exame grafotécnico, pois o entendimento do magistrado já estava sedimentado.

Por fim, o caso mais recente de utilização da psicografia no processo penal, ocorrendo também no âmbito do Tribunal do Júri, já foi citado no tópico 4.1., e trata-se do caso Iara Marques Barcelos, acusada de ser a mandante do assassinato do tabelião Ercy da Silva Cardoso, morto em 2003, em Viamão/RS, tendo sido denunciada pela prática de crime de homicídio qualificado, de acordo com ao art. 121, §2º, incisos I e IV do Código Penal.

Em 2005, já tendo sido a acusada pronunciada pelo crime descrito na denúncia, foi psicografada uma carta pelo médium Jorge José Santa Maria, da Sociedade Beneficente Espírita Amor e Luz, tendo sido a autoria do texto atribuída à vítima. Em seu teor, a mensagem mediúnica relatava que Iara Barcelos era inocente, não tendo participado da conduta delituosa.

Em julgamento perante o júri popular, o Conselho de Sentença absolveu a ré por cinco votos a dois. Houve interposição de apelação pelo Ministério Público e, após tórrida

58 batalha judicial, prevalece no momento a recente decisão do recurso de apelação nº 70016184012, julgada em 11 de novembro de 2009, em que foi mantida a decisão do Tribunal do Júri. Em seguida, sucessivos recursos foram interpostos, encontrando-se os autos pendentes de julgamento.

Logo, ressalte-se o entendimento prevalecente quando do julgamento do recurso de apelação nº 700161840012, no qual a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, pelo seu Desembargador-Relator Manuel José Martinez Lucas, expressou-se no sentido de não haver ilicitude na utilização do documento psicografado como meio de prova, não podendo ser tachado de ilegal ou ilegítimo, haja vista que encontra pela guarida na própria Constituição. 100

Conclui-se, assim, que a prova psicografada, em virtude de sua natureza, não pode ser considerada ilícita. Como visto sua aquisição não viola nenhuma regra material ou processual. Desta maneira, não ofende o princípio da inadmissibilidade da prova ilícita, disposto no art. 5º, inciso LVI da Lei Maior.

Partindo-se do pressuposto de que se trata de um meio probatório possível, a psicografia, embora à primeira vista possa ser classificada como prova inominada, entendemos que, analogicamente, conforme demonstrado, pode ser especificada como um documento particular. Em decorrência disso, a comprovação de sua autenticidade se dá com a realização da perícia grafotécnica que, como analisado, é o meio mais adequado para a demonstração da veracidade e da certificação do aspecto científico do documento.

Uma vez evidenciada a sua licitude, a apreciação e valoração da prova psicografada fica a cargo do magistrado que, com amparo no princípio do livre convencimento motivado, tem liberdade para analisar a prova de acordo com sua consciência, mas devendo respeitar os princípios norteadores do processo penal.

No caso do Tribunal do Júri, a avaliação dos meios probatórios que compõem o processo e o posterior exame do mérito é de competência dos jurados. Estes, por sua vez, são livres para apreciar os fatos em virtude de vigorar, neste procedimento, o sistema da íntima convicção, complementado pelas prerrogativas constitucionais informadoras deste rito especial.

Observa-se, portanto, que o procedimento do júri popular, em razão dos motivos acima explanados, torna-se o meio mais adequado para a aplicabilidade da psicografia como instrumento probatório.

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Benzer Belgeler