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Ao abordar as políticas de saúde no Brasil, Silveira diz que, na busca da operacionalização do modelo pretendido pelo SUS e por meio da construção dos distritos sanitários, alguns municípios têm procurado se basear na experiência de países cujos sistemas de saúde são reconhecidos mundialmente. Os três modelos estrangeiros que mais têm inspirado as experiências nacionais na construção da estratégia de saúde da família são o cubano, o canadense e o inglês 56.

Ao traçar as principais características de cada exemplo, o autor mencionado comenta sobre o modelo de saúde em Cuba. Nesse país, a responsabilidade pela saúde da população é do Ministério de Saúde Pública, o qual, desde 1983, tem tentado cumprir o objetivo estabelecido na Conferência de Alma-Ata, de ”Saúde para todos”, introduzindo a figura do médico de família, um elemento importante para esse sistema. A saúde é fundamentada na concepção humanística, a qual prioriza o homem como sujeito de sua história, a partir de determinantes sociais. Em termos de programação, o conceito de medicina familiar não estabelece uma relação de subordinação entre partes ou níveis, mas sim uma matriz de inter-relações de apoio e fortalecimento, o que não é confundido com a quebra de hierarquização dos níveis de atenção.

55 BAGRICHEVSKY, M. et.al. Saúde coletiva e educação física: aproximando campos, garimpando sentidos. In: A saúde em debate na educação física. Org. Palma, A; Estevão, A.

Já o modelo Canadense aproxima-se do Movimento de Cidades Saudáveis, da Organização Mundial de Saúde, no qual se verifica a ênfase da saúde como política central de governo e a articulação intersetorial como principal estratégia de atuação. O médico de família é responsável pela saúde das famílias vinculadas ao seu trabalho. Independentemente dos seus locais de residência e dos pacientes, ele utiliza o método clínico – centrado no paciente – chamado de diagnóstico abrangente. Esse tipo de atenção exige seis intercomponentes, que são: a exploração da doença e da experiência de adoecer, a compreensão integral do indivíduo, a busca de um campo comum, a incorporação da prevenção e da promoção de saúde, a melhora da relação médico-paciente e a percepção realista das situações. O médico de família incorpora, em sua prática, quatro princípios de medicina familiar: competência clínica, prática que leve em conta a idéia da população de risco, respeito pela comunidade e vínculo estreito com seus pacientes.

No modelo da Inglaterra, a partir da crítica ao modelo americano, sistematizado por Flexner – tecnificado, especializado, medicalizado, hospitalocêntrico, medicocêntrico e de alto custo –, Dawson propõe a reestruturação dos serviços ingleses de saúde. Ele percebia o Estado como provedor e gerenciador de políticas de saúde executadas por serviços que tinham por objetivo, a aplicação de ações curativas e preventivas em regiões geograficamente determinadas. Por isso, defendia ações coordenadas, realizadas por médicos generalistas que atuassem sobre indivíduos e comunidades. Os serviços para as famílias de uma região específica possuíam como base um centro primário de saúde, ou seja, serviços de medicina curativa e preventiva, a cargo de médicos generalistas. Os médicos, em sua maioria, são do distrito, sendo possível que os seus pacientes os sigam. Cada centro primário de saúde tem, por sua vez, um centro secundário como base e este deve estabelecer vínculo com um hospital. Um médico especialista só atenderá a um paciente se ele for encaminhado por um médico geral comunitário. Este último é pago por um sistema de captação e deve trabalhar junto a uma enfermeira comunitária, com fisioterapeutas e outros profissionais da saúde. O médico geral comunitário – que,

em média, tem mais de 7.000 pacientes cadastrados – deve manter contrato com hospitais e com especialistas, para garantir a atenção em todos os níveis. Isso força os hospitais a melhorar a qualidade da atenção e a baixar o custo do atendimento.

O que é possível observar em comum na abordagem dos três modelos, é a presença fundamental do médico generalista como profissional pilar do sistema, que referenda os cuidados primários de saúde e a racionalização de recursos.

No caso do Brasil, há uma tentativa de compartilhar responsabilidades entre seus membros, fundamentando-se em duas vertentes de pensamento: a medicina comunitária e o planejamento em saúde. A programação em saúde destinou a atenção primária a esta, integrando atividades de promoção, prevenção e cura em uma mesma unidade.

Esse modelo embasou a construção do enfoque programático na operacionalização da saúde pública. Assim, o Programa de Saúde da Família, no Brasil, nasce como uma estratégia de governo, sob a perspectiva de transformar o processo de trabalho na atenção básica, fundamentando-o em equipes multiprofissionais de saúde.

O programa originou-se em 1993, como resposta a uma demanda dos municípios que solicitavam ao Ministério da Saúde apoio financeiro para mudar a operacionalização da rede básica de saúde. Tem o objetivo geral de contribuir para a reorientação do modelo assistencial, a partir da atenção básica de acordo com os princípios do SUS, e atribuir às Unidades Básicas de Saúde uma nova forma de atuação, com definição de responsabilidades entre serviço e população. As práticas devem ser organizadas atendendo tanto a lógica da prevenção quanto a atenção à demanda, sem perder de vista a integralidade das ações. Quanto aos processos de trabalho, são os “fazeres” que enfrentam problemas que se concretizam nas “tecnologias de trabalho” utilizadas para produzir saúde. Dessa forma, o acolhimento – universalização do acesso –, o vinculo/responsabilização – estabelecimento de referência entre equipe e usuário e responsabilidade quanto à produção do cuidado –, e a autonomização – produção de cuidado que leva à

autonomia do usuário –, são tecnologias fundamentais para a formação de uma nova subjetividade entre os profissionais da saúde.

O desenvolvimento dos estudos em atenção básica e o fomento de novas políticas públicas, como a criação da Política das Práticas Integrativas e Complementares (Portaria GM 971/2066), acabaram por proporcionar a criação dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família – NASF –, no início de 2008 (D.O. 18/03/08). Reunirão profissionais de diversas áreas no atendimento à população, sendo eles fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, médicos – ginecologistas, pediatras, acupunturistas, homeopatas e psiquiatras –, profissionais de educação física, nutricionistas, farmacêuticos, assistentes sociais, fonoaudiólogos e psicólogos.

2.2 PRINCÍPIOS DE TRABALHOS MULTIDISCIPLINAR, INTERDISCIPLINAR E

Benzer Belgeler