Quem vai fazer compras hoje na rua da Alfândega ou em qualquer outra das ruas adjacentes que compõem a S.A.A.R.A, está procurando variedade de produtos e os preços baratos que são oferecidos pelo comércio local. Nesta região – que também é um corredor de passagem para uma população que vem da Es- tação de Ferro Central do Brasil em direção aos centros de trabalho e financeiro da cidade – passam milhares de pessoas por dia, que andam pelas ruas de pe- destres e disputam as estreitas calçadas com as bancas colocadas na frente das lojas, onde se exibem uma infinidade de mercadorias, de diferentes tipos e gos- tos.35
Os passantes também disputam espaço com os pregoeiros que, com mi- crofones ou alto-falantes nas mãos ou com o bater de palmas, anunciam as pro- moções do dia. Há também o que chamam de “olheiros”, que ficam sentados em um banco ou em uma escada colocados na calçada, na frente da loja, para con- trolar a clientela e a possibilidade de furto de mercadorias. Um comércio popular, de aparência simples, feito no pavimento térreo das lojas, atrai as pessoas para um tipo de comércio que segue uma certa lógica, instituída, há algumas décadas, pelos imigrantes de origem árabe e judaica que ali se estabeleceram. Uma ativi- dade comercial feita de forma “diferente”, “tumultuada”, “bagunçada”, como dizem
35 A inexistência de vitrines em algumas lojas do Saara e as bancas – que passaram a existir quando se introduz, na década de 1960, o comércio varejista na região –, é um dado importante no Saara pois permite o contato direto entre consumidor e mercadoria tão comum à espacialidade comercial árabe e, sem dúvida nenhuma, aos códigos culturais desse grupo. Em 1987, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro legaliza a exposição de mercadorias nas ombreiras e bancas coloca- das nas ruas de pedestres do Saara, e justifica aprovação da lei, por considerar aquela uma práti- ca “compatível com o tipo de comércio local”. Cf. Lei 960/87.
alguns consumidores cariocas que transitam por ali sem poderem imaginar que aquele já foi um lugar bem menos eclético e confuso, onde as ruas eram tranqüi- las, as lojas eram “à meia porta” e vendiam basicamente artigos por atacado para uma clientela masculina que vinha de todo país para abastecer seus comércios com as compras no atacado de tecidos e armarinho da rua da Alfândega, a “rua dos turcos”.
Saara, 1996. Acervo Projeto Memória do Saara, CIEC/ECO/UFRJ.
As práticas cotidianas vivenciadas por árabes e judeus e as relações soci- ais que mantiveram com os outros habitantes da cidade definiram os contornos do Saara. E, numa relação complexa de sociabilidade, criaram formas próprias de organização, de trabalho, de vida e de comércio. Ao instituírem esse comporta- mento de natureza étnica-social tão próprio a eles, possibilitam a identificação das fronteiras dessa cultura particular. Assim, a rua da Alfândega passa a ser o seu território, o seu pedaço da cidade, que foram demarcando e defendendo como uma “estratégia de sobrevivência, que aparecia nas mais variadas práticas de seu
cotidiano” e que se tornou “ponto de referência para o grupo”, que passou a identi- ficar esse espaço com “a sua própria identidade cultural”.36
Segundo Mônica Velloso, a noção de territorialidade está estritamente liga- da à questão da identidade cultural e das experiências e vivências dos grupos so- ciais que lutam por um espaço na cidade, porque essa luta significa também uma forma de luta “para ter reconhecida a sua própria existência”. Para a autora, a ter- ritorialização “aponta para a especificidade, revelando como o homem entra em ação com o meio imprimindo nele as suas marcas”. Assim, ao constituírem uma territorialidade, os grupos demarcam espaços e fronteiras na cidade e, com isto, estão “estabelecendo a sua diferença em relação aos outros”.37
Ao problematizarmos as trajetórias desses sujeitos urbanos, compreende- mos que a cidade é parte constitutiva dessas trajetórias e, ao percebermos a cida- de dessa forma, nos aproximamos de uma visão proposta por Marcel Roncayolo, que a conceitua como uma “categoria da prática social” e um lugar de transforma- ções mas também de apropriações dos distintos grupos sociais que se distanciam um dos outros, mas também convivem nesta, que é um centro de “convergência que domina e atenua, tanto quanto possível, os efeitos da distância” entre os dife- rentes grupos.38
A constituição desse espaço, deve ser compreendida considerando-se si- multaneamente aspectos econômicos e culturais do lugar e do grupo que dele se apropriou. Aquela que era uma área desvalorizada da cidade, nas proximidades da estação de ferro, do cais do porto, ponto de comércio de atacado e de varejo, caracterizou-se como uma área propícia para ser ocupada pelos imigrantes de origem árabe e judaica ligados às atividades econômicas urbanas. É importante atentar, no entanto, para o fato de que esse espaço nunca foi um gueto – árabes e
36 VELLOSO, M.P. “As tias baianas tomam conta do pedaço. Espaço e identidade cultural no Rio
de Janeiro”, op., cit., p. 208-209.
37 Id., ibid., p. 207.
38 RONCAYOLO, M. “Cidade”. In: Região. Enciclopédia Einaudi. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa
judeus não eram forçados a viver nessa área – mas ali foram reelaborando práti- cas sociais e culturais, reproduzindo uma forma de concentração urbana comum a esses imigrantes, também observada em outras cidades do país. Nesse sentido, podemos dizer que o Saara é fruto de uma “prática sociocultural” comum a eles e que se deu nesse lugar, historicamente situado.39
Uma análise puramente econômica, além de simplista, tenderia a ter um ca- ráter discriminatório, como foram as várias correntes políticas e mesmo teses de alguns intelectuais da década de 1930 que, ao abordarem a questão imigratória brasileira, definem a presença desses grupos étnicos40 – sírios, libaneses e judeus de diferentes origens – “fora da categoria” dos imigrantes “desejáveis” no Brasil. A forma cultural de concentração urbana dos árabes e dos judeus e suas ocupações econômicas, contribuíram para as reações negativas a esses imigrantes no país. Este episódio é analisado por Jeffrey Lesser que aponta que “à medida que os imigrantes libaneses, sírios e judeus investiram seu próprio trabalho e capital no crescimento da economia brasileira, e se concentraram em ocupações e bairros específicos nas maiores cidades brasileiras, cresceram entre as elites as preocu- pações de que sírios, judeus e libaneses fossem inassimiláveis, de que eles nunca se tornariam brasileiros no espírito ou no caráter”. Apesar desta oposição, o Brasil recebeu milhares desses imigrantes que depois, os anos têm mostrado, além de se assimilarem (muitos se aculturaram), se inseriram completamente na vida eco
39 Cf. ELHAJJI, M. Espaços da etnicidade. Estudo desenvolvido no contexto do Projeto Memória do
Saara. Rio de Janeiro: digitado, 1994, p. 116-137.
40 Para uma problematização acerca dos conceitos etnicidade e grupos étnicos cf.: CONZEN, K. N.
et al. “The Invention of Ethinicity: a Perspective from the U.S.A”. In: Journal of American Ethnic
History, Fall 1992, p. 5.; SEYFERTH, G. “Etnicidade” e “grupo étnico”. In: SILVA, B. (coord.) Dicio- nário de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1986, p. 436-437,
530-532; BARTH, F.” Introducción”. In: BARTH, F. (comp.). Los grupos étnicos y sus fronteras: la
organización social de las diferencias culturales. México: Fundo de Cultura Econômica, 1976, p.
18. A etnicidade se tornou um conceito importante para a análise da adaptação do imigrante e o processo cultural e social de mudanças que vivem no novo país, e que influencia as gerações se- guintes. Nesta pesquisa, está sendo empregada segundo o que propõe Kathleen Conzen; para a autora, a etnicidade é vista como uma “construção cultural” elaborada com o tempo histórico. Um processo de constante reinvenção, que “incorpora, adapta e amplia uma solidariedade comunal pré-existente, atributos culturais e memórias históricas”. Os grupos étnicos estão freqüentemente “recriando”, “reinventando” a etnicidade como resposta às mudanças tanto no interior do grupo, como na sociedade maior que os “hospeda”. Assim, as fronteiras desses grupos são constante- mente “renegociáveis”, enquanto os “símbolos expressivos da etnicidade – as tradições étnicas – , repetidamente reinterpretadas”. [tradução nossa].
nômica e política do país. E, como afirma Lesser, “as elites nunca resolveram re- almente a contradição de que, para elas, árabes e judeus eram cultural, étnica e religiosamente indesejáveis e, ao mesmo tempo, economicamente desejáveis”. Apesar de todos os preconceitos esses imigrantes ajudaram a criar, exatamente, “a sociedade multiétnica que as elites pretendiam evitar”.41
No caso específico do Saara, os imigrantes que ali se estabeleceram, con- tribuíram justamente com sua diversidade cultural, para a formação plural da soci- edade carioca. O Saara sintetiza o local onde muitos deles se realizaram social e economicamente, sem deixar de serem sujeitos e “praticantes” da cidade do Rio de Janeiro.
Ao longo de sua formação, a presença de imigrantes sírios e libaneses cristãos (sempre em maior número) e de imigrantes judeus sefarditas e asquena- zitas, configurou um Saara de unidades e diferenças. Os imigrantes de origem síria e libanesa possuem traços culturais diferentes e diversos, e imprimiram ao local marcas que ali permaneceram. Na sua maioria, são cristãos maronitas ou ortodoxos e, em menor número, católicos melquitas e muçulmanos. Os judeus, por sua vez, não devem ser analisados apenas sob o prisma da religião mas sim, pela diversidade de origem, de costumes e de línguas. Possuem, no entanto, uma identidade judaica, que imprimiram ao local e que os distingue.
Os imigrantes judeus sefarditas reconheciam na rua da Alfândega e cerca- nias, uma região de similaridades e criaram mais afinidades com os brasileiros e com os comerciantes árabes vizinhos – com quem se comunicavam em árabe ou francês –, do que com os judeus de origem asquenazita, estabelecidos na então praça Onze e que falavam o ídiche.42 Por ocuparem o mesmo lugar e nele terem
41 Cf. LESSER, J. “ “O judeu é o turco da prestação”: etnicidade, assimilação e imagens das elites
sobre os árabes e judeus no Brasil”. In: Revista Estudos Afro-asiáticos, n. 27, 1995, p. 78.
42 A praça Onze e o quarteirão da rua da Alfândega, entre a praça da República e avenida Passos,
podem ser considerados como sendo os dois centros nevrálgicos da vida judaica no Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. Cf.: SZKLO, G.S. “Mémoires juives à Rio de Janeiro: art narratif et histoires de vie”. In: MATTOSO, K.Q. et al. (dir.). Matériaux pour une histoire culturelle du Brésil
– objets, voix et mémoires. Séminaire du Centre d’Etudes sur le Brésil. Paris: Ed. L’Harmattan,
1999, p. 129. Sobre a presença judaica asquenazita na praça Onze cf. MALAMUD, S. Recordando
criado uma estreita rede de relações sociais e comerciais, árabes e judeus sefar- ditas são vistos, de modo geral, como membros de um mesmo grupo e a interação entre eles, que, a princípio, poderia ser vista como “competitiva e conflituosa”, é, ao contrário, “componente essencial para o processo de formação e de definição” do espaço Saara.43
Apesar do fato de que cada grupo tenha constituído uma rede de relações próprias, estabelecidas através de vínculos étnicos, religiosos e familiares, as condições de chegada na região da rua da Alfândega e o início da vida na cidade apontam para certas semelhanças de situações, e para o estabelecimento de re- lacionamentos constituídos entre imigrantes de diferentes etnias e religiões que, naquele espaço, acabaram por vivenciar um conjunto de experiências similares.
Os imigrantes contam que era só saltar no cais do porto do Rio de Janeiro que sabiam para onde ir, pois só havia um lugar na cidade onde se reuniam os sírios e libaneses – cristãos e judeus – como relembrou o Wadih Bedran em seu depoimento. Bedran veio sozinho para o Rio no início da década de 1920 e é um dos últimos imigrantes de primeira geração ainda trabalhando no Saara, patriarca de uma família numerosa que vive até hoje atrelada ao comércio desse espaço, que, como afirma ele, o “acolheu” e pelo qual tem gratidão, pois ali se realizou so- cial, econômica e afetivamente:
(...) Eu era criança, ...vim sozinho (...). Quando vi a baía [de Guanabara], eu fiquei maluco. Fiquei feliz e satisfeito. Navios... gente correndo... Coisa maravilhosa! Era muito bonito. Quando cheguei ninguém foi me buscar. Porque..., meus irmãos não escreveram que eu vinha. E eu não sabia. Cheguei lá, no porto 18. É, no Cais 18 (...) é onde todos os navios que vêm lá do Líbano param. Aí cheguei lá, nada. Fiquei louco! (...) Comecei a brincar, brincar e chorar.... ”quero minha mãe”. Depois, gente que vinha pra cá [Saara] disseram: – “vem com a gente.” Peguei e vim com eles. Cheguei no Hotel aí..(...) esqueci o nome, mas tinha um hotel aí, de patrício mesmo. Aqui, na praça da República. Quando cheguei ela [minha mãe] estava vendendo prestação na rua.(...) Ah, e todo mundo disseram [sic]:– “praça da República, onde tem mais é libanês” (...)!
43 Cf. RIBEIRO, P. “Multiplicidade étnica no Rio de Janeiro: um estudo sobre o ‘Saara’”. In: Acervo:
revista do Arquivo Nacional – Imigração. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, v. 10, n. 2, 1998, p.
A experiência de Wadih que chegou no Rio ainda menino, ao encontro da mãe que havia imigrado anteriormente é fascinante, pois, como narrou, chegou sem o endereço dela que, aliás, nem sabia de sua chegada. Mas segundo seu depoimento nem precisava, pois era só descer do navio e seguir o fluxo dos imi- grantes sírios e libaneses dirigindo-se para a rua da Alfândega e arredores do Campo de Santana, e perguntar na rua pela mãe e pelas tias, e seria imediata- mente levado a elas. O que nos dá uma idéia da configuração dessa espacialida- de na cidade, considerada, por alguns imigrantes, como tendo sido “uma exten- são” do Líbano no Brasil. E realmente temos uma imagem que mais parece a de um menino mandado de um bairro para outro, para visitar um parente.44
Wadih não deixou mais o Saara, lugar onde se realizou plenamente: casou com a filha de um patrício também comerciante na praça da República, fez um bom patrimônio a partir de seu trabalho no Saara e, ao abrir sua loja na rua Se- nhor dos Passos, chamou-a de ‘Casas da Mamãe’. Ainda hoje a loja pertence à família, e nela trabalham um de seus filhos e netos.
Ou, o exemplo da família Sufan, de imigrantes libaneses cristãos ortodoxos, que depois de um período no Espírito Santo, retorna “obrigatoriamente” à região do Saara, como recordou Romeu Sufan em seu depoimento. Romeu nasceu em 1941 em um sobrado da rua da Alfândega onde residia e comerciava a sua famí- lia; seu pai, libanês de Beirute, chegou ao Brasil por volta de 1921 e teve, como primeira parada, a rua da Alfândega:
(...) O Saara porque o meu pai quando chegou – a gente voltando pra trás... – quando ele veio para o Brasil a primeira parada dele foi no Saara; então ele tinha aqui no Saara uma estrutura... além de uma estrutura dentro da comunidade libanesa, tinha a estrutura da própria família dele. Ele tinha irmãs... que já estavam aqui, já viviam, já tinham família aquela coisa toda. Já tinham um comércio, já tinham uma vida definida. Era, vamos dizer, um ponto de identidade dele seria logicamente o Saara. Mesmo se ele não fixasse posição no Saara, ele obrigatoriamente teria que vir ao Saara para poder, a partir daqui, ver o rumo da vida dele. Por... questões da comunidade, por questões dos parentes, dos familiares, então ele desconhecendo as coisas, não conhecendo as coisas do Brasil, do Rio de Janei- ro, essencialmente, ele tinha que ter alguém para orientá-lo.
Percebe-se, neste trecho da entrevista, a ênfase que Romeu atribui ao lu- gar no momento de chegada dos imigrantes árabes no país. Ele aponta que para muitos deles, como foi o caso de seu pai, a então rua da Alfândega era como se fosse um ponto obrigatório em suas trajetórias e tem uma importância que é fre- qüentemente expressa nos depoimentos, e que explica em parte os aconteci- mentos e rumos dados às suas vidas. O início da vida no Rio de Janeiro é sempre articulado em suas narrativas às experiências que viveram ali, pois aquele espaço era marcado fortemente por várias referências de sua cultura de origem, o que contribuía para amenizar as rupturas tão comuns nos processos imigratórios.
Este espaço se configura, e se assemelha, em muito, a um bairro étnico, apesar de espacialmente ser um espaço da área central da cidade do Rio de Ja- neiro. Nele percebemos, como nos bairros, uma relação entre o espaço público e o espaço privado reforçado pela própria atuação que os imigrantes exerciam na- quela localidade. A apropriação daquele espaço urbano, com as práticas cotidia- nas daqueles usuários, configurou um espaço privado particularizado, para usar um termo proposto por M. de Certeau. Nele, sírios e libaneses imprimiram marcas, que permitiam assumir, perante os grupos com que conviviam e o ambiente maior da cidade em que estavam estabelecidos, a sua diversidade. A vida cotidiana des- ses imigrantes e as manifestações socioculturais características deles, permitiu a fixidez do grupo que se reconhece ainda hoje naquele espaço. A coexistência en- tre eles, o sentimento de identificação e as relações de reciprocidade particulari- zam o Saara, que pode ser diferenciado dentro do contexto da cidade.45
Quase um século se passou e o Saara, embora seja ainda ocupado por imigrantes árabes e judeus e seus descendentes, é disputado por outros grupos de diferentes procedências – como os chineses e mais recentemente os imigran- tes coreanos. Em meio às mudanças ocorridas na localidade, árabes e judeus
45 CERTEAU, Michel de et alii. A invenção do cotidiano: 2. morar, cozinhar Petropólis, Rio de Janei-
ainda lutam por esse espaço urbano conquistado e socialmente construído, procu- rando mantê-lo como referência simbólica de suas identidades culturais.
O Saara já não recebe imigrantes de origem árabe e judaica, e os poucos que chegam à cidade já não o têm como local e referência para seu estabeleci- mento inicial. Joseph Salloum Ghanem, que emigrou do Líbano para o Rio em 1947, é proprietário de uma pequena loja de roupas na rua Senhor dos Passos, e é um dos poucos comerciantes que mantém, no toldo, à frente da loja, grafado em caracteres árabes, o seu sobrenome, que também é o nome de sua firma comer- cial. Para ele esta é uma das formas de ter, e manter, reconhecida sua origem dentro de um Saara múltiplo que se transforma cotidianamente, como relatou em seu depoimento concedido a nós:
(...) Para divulgar a nossa língua, a nossa tradição. E através deste nome, como tem muita gente que vem de fora, param na frente da loja e olham: – “aqui tem patrício”, aí entra. Conversam, dialogam comigo, tudo isso. Quer dizer, já é um ponto de referência dos patrí- cios. Quem chega de viagem, por exemplo, que não sabe falar o português e passa na- quela rua para comer comida árabe, tudo isto, olha e vê o nome em árabe. Diz: – “ ah, este é patrício, não pode ser chinês”. (ri)
É interessante notar nessa fala, que o fato de manter seu nome escrito em árabe na frente da loja, mais do que assinalar a sua origem e, como disse, sua vontade de “divulgar” a sua língua, a sua “tradição”, é a forma de Ghanem refe- renciar publicamente a sua cultura e a do grupo do qual faz parte. Mais do que isso, tenta particularizá-la num contexto de mudanças que ocorrem no Saara onde a heterogeneidade étnica aos poucos suplanta o predomínio de décadas da co- munidade árabe e judaica. Em seu depoimento, sugere um olhar particularizado sobre o Saara e nos aponta para uma rede de relações que aquele espaço público revela. Ao afirmar que tendo seu nome escrito em caracteres árabes não se pode confundi-lo com um chinês, demonstra que no Saara muitos ainda se reconhecem, e se diferenciam, a partir de sua origem étnica. Aponta também para uma correla- ção de forças entre os antigos e os novos ocupantes e para a tentativa de seu grupo de lutar para se diferenciar e se manter predominante.
O Saara está se transformando e se, anteriormente, ter o nome escrito em árabe significava se sentir e ser reconhecido como parte de um grupo com o qual tinha referências culturais, hoje, no entanto, é uma forma de se diferenciar, e parti- cularizar uma origem que não deseja que seja confundida dentre tantas outras.