No feudalismo europeu, pessoas que não dispunham de terras procuravam senhores para acessarem um meio de trabalho e proteção em que pudessem ter uma vida segura. Segundo Castel (2013), é importante notar que a condição de vassalo não imputava a este sujeito alguma condição que suscitasse vergonha, muito pelo contrário. Os contratos de vassalagem eram procurados por quem não tinha condições de se sustentar e se proteger:
Generosidade necessária: a assistência aos carentes não é uma opção a cargo da iniciativa pessoal, mas a consequência obrigatória do lugar ocupado num sistema de interdependências. Por volta do século VIII, quando essa sociedade fundada sobre laços de vassalagem começa a impor-se, não constitui fato extraordinário que homens
livres (proprietários de alódios) peçam voluntariamente para se tornar homem de um senhor: a independência ameaça-lhes a existência, porque os priva de proteções. (Castel, 2013, p. 54)
Osà p op iet iosà deà al dios à e a à sujeitosà o side adosà p op iet iosà inalienáveis de uma terra. Ao citar que eles espontaneamente pediam para se tornar vassalos, Castel retoma a questão de que em um mundo de conflitos não basta apenas ter meios alimentícios de subsistência, pois a falta de uma inserção social pode gerar
tanta insegurança que não permite que se estabeleça um conceito de liberdade. Dessa
forma, é compreensível o porquê de alguém com terra e capacidade de subsistência ser visto como sendo aisàliv e àap sàu à o t atoàdeàvassalage àpe a teàu àse ho .àOà argumento de Castel é claro neste ponto: a segurança é parte orgânica do conceito de liberdade.
As antigas corporações de ofício (carpinteiros, tecelões etc.) possuíam o monopólio da produção nas cidades, e o trabalho era extremamente regulado para que esses monopólios se mantivessem de forma estruturada na sociedade. Os mestres artesãos eram donos de suas ferramentas e possuíam dois ou três aprendizes. Os aprendizes não eram remunerados, mas havia a possibilidade de se contar com a figura doà o pa hei o ,àu àa tes oàe à o diç oàdeàseàto a à est e,àpo àse à o diç esà de estar oficializado neste status.45 Osà o pa hei os à e a à e u e adosà eà suaà o diç oà assala iada à e etia,à aà elho àdasàhipóteses, a um estado transitório entre aprendiz e mestre.
Mesmo o mestre artesão, que apresentava um rompimento com a condição servil presente no campo, encontrava nas cidades uma certa liberdade que devia ser pensada enquanto ligada ao ofício em si, e não tal como uma liberdade concebida para u à p ofissio alàli e al àdaàatualidade.à
Segundo Castel (2013):
45 Segundo Castel (2013, p. :à Naàidadeàdeàou oàdoàa tesa atoàu a o,àoà o pa hei oà oà
tinha sequer o direito de se casar sem a autorização do mestre e, amiúde, devia esperar até alcançar a situaç oàdeà est eàpa aàte àtalàp e ogativaàdeài depe d ia. à
[…]àtais privilégios são prerrogativas do ofício, e não da pessoa do trabalhador. O artesão não é, absolutamente, livre em seu trabalho, não é independente senão no quadro do sistema rígido das sujeições do ofício, cujas regulamentações limitam por todos os lados suas iniciativas. Sua independência é, de fato, o usufruto de sua participação nas coerções da guilda. Ademais, enquanto inaugura uma forma fundamental de condição de assalariado, a dos companheiros, o artesanato urbano transpõe para ela um modelo de relação empregador-assalariado que permanece marcado pela tutela feudal. (p. 202).
[…]àpara o companheiro, o estado de assalariado é uma forma de aluguel de sua pessoa mais do que a venda de sua força de trabalho. (p. 203)
Dessa maneira, a condição moderna do assalariado não se desenvolve a partir da noção de contrato estabelecido entre dois sujeitos livres. O assalariamento não se deriva da liberdade ou do contrato, mas da tutela eminentemente feudal, e acaba por deixar vestígios,à t açosàdeàse vid o àe à elaç esàe o i asàposte io es.
O trabalho assalariado estaria ligado à uma conversão da corveia46 ao longo do tempo. A corveia, inicialmente oposta ao trabalho assalariado livre, pois gratuita e imposta, passa a dar espaço a pessoas cuja produção é insuficiente que se veem obrigadas aà li e a àpa teàdeàseuàte poàaàout oàse ho àouà o e ia teàdeàfo aàaà obter mais recursos. Nesse sentido, o assala iadoà seàaluga àaàalgu àeàdispo i ilizaàsuaà força de trabalho.
I dig aà o diç oà deà assala iado:à e eteà aà u aà e t e aà diversidade de situações mas que caracterizam quase exclusivamente atividades sociais impostas pela necessidade e enquadradas por relações de dependência. (...) Se ela se liberta com dificuldade de a tigasà fo asà deà depe d ia,à à pa aà e o t a à out asà ovas à (p.205).
46 A corveia é o mais tradicional modelo dentro do feudalismo, em que o senhor feudal concede
ao servo a possibilidade de viver em suas terras e ter proteção. Em troca, o servo deve trabalhar para este senhor durante alguns dias por semana.
O modelo mais estável de assalariamento neste momento, condizente à o diç oà deà o pa hei o à de t oà daà o ga izaç oà dosà estres artesãos, era justamente aquela que mais continha traços de servidão. Entretanto, existiam relações sala iaisà aisà liv es ,àpo à otada e teà o à e osà ga a tias.à Esteàse iaà u à dosà paradoxos da consolidação dessa relação salarial rudimentar: a condição salarial menos indigna é justamente aquela que conservava mais elementos de servidão. Os mais livres, entretanto, costumeiramente se apresentavam em praças públicas e ofereciam-se a quem quisesse alugá-los.àOà ueà aisàseàasse elhavaàaàu à e adoàdeàt a alho àpa aà a época dizia respeito às praças nas cidades onde trabalhadores se apresentavam de ad ugadaà àp o u aàdeàe p ego:à Éàoà aso,àe àPa is,àdaàp açaàdeàG ve,à ueàest à aà o ige à doà te oà g evista à po à u à o t asse so:à t atava-se de concentrações de ope iosà ueà oàt a alhava ,à asà ueàestava àe à us aàdeàt a alho à Castel,à2013, p. 203). Trabalho livre e assalariado conjugava-se, neste momento, com o cotidiano lançado ao aleatório.
A sociedade salarial, entretanto, terá também os assalariados de prestígio, caracterizados pelos funcionários públicos (Castel, 2013; Bourdieu, 2005). Porém, estes oà seà e uad a à o oà i dig os ,à as,à aoà o t io,à s oà o diç esà sala iaisà revestidas de autoridade com o decorrer do tempo.
A grande massa de assalariados ligados ao que se constituía como nascente mercado de trabalho, entretanto, sofreu diversas restrições. Segundo Castel (2013), em ,à elatosà deà supe viso esà essalta à ueà osà t a alhado esà e a à ap i hosos à eà abandonavam o trabalho quando não estavam contentes. Logo, novas regulamentações fo a à la çadasà pa aà segu a à esses trabalhadores em seus devidos lugares. Assim, prolongam-se antigas formas de coerção de forma que o paradigma do trabalho forçado se mantém como uma lógica viva, mesmo perante novas formas de organização do trabalho.
O que pode ser perfeitamente entendido: as condições de trabalho são tais nas primeiras concentrações industriais, que é preciso estar sob a mais extrema sujeição da necessidade para aceitar semelhantes ofertas de emprego, e os infortunados assim
recrutados aspiram somente a deixar o mais rápido possível esses lugares de derrelição. (Castel, 2013, p. 206)
Se a coerção da miséria não bastava, regulamentos surgiam por toda a Europa para obrigar os indigentes a trabalhar. Mediante a apresentação de diversas leis, Castel (2013àde o st aà ueàosài dige tesàeà vaga u dos à o stituí a àaà uest oàso ial à durante longos períodos da Idade Média na Europa e, a partir de regulamentações, só podia àe e e àsuaà vadiage àem no máximo meia légua em média de onde haviam nascido. Após esse limite territorial, eram considerados criminosos e obrigados a aceitar qualquer trabalho que lhes fosse oferecido ou então ir para a prisão ou para as galeras.47