Edgar Nahoum, conhecido como Edgar Morin, nasceu em Paris em 1921; formou-se em direito, história e geografia e trabalhou no Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS) como pesquisador emérito. Hoje, atua como antropólogo, sociólogo e filósofo, e é tido como um dos principais teóricos da teoria da complexidade, tendo escrito mais de 30 livros.
Em sua obra Os sete saberes para a educação do futuro (MORIN, 2002), sobre a qual esta seção discorrerá, ele coloca em questão a estrutura da atual educação, enfatizando que seu buraco negro está na expressiva valorização do aspecto racional e em uma formação de cunho individualista. Como mudança, propõe uma formação que leve em conta a emoção, as incertezas, o sentimento de coletividade, de alteridade no atual cenário de globalização e informatização.
Nessa obra, ressalta que seu objetivo não é prescrever normas de como se deve ensinar, mas repensar a complexidade do conhecimento, seus paradoxos, suas congruências e incongruências no espaço escolar, a fim de que os sujeitos sejam mais sábios e hábeis para lidar com as incertezas do mundo pós-moderno. É oportuno salientar que Morin escreveu. Os sete saberes para a educação do futuro a partir de uma demanda da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que pretendia estabelecer as novas diretrizes para a educação futura. Sobre essa instituição, convém informar que:
A Unesco é a agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Educação, a Ciência e a Cultura. Foi criada em 1945 na
Conferência de Londres, e desde sua criação seu objetivo inicial era elaborar programas de ajuste ao ensino; fomentar o desenvolvimento científico e a repatriação de objetos culturais pós-guerra. Posteriormente, no contexto da chamada guerra fria, a Unesco posicionou-se a favor da segurança e do estilo de vida americano. Todavia, até 1980, essa organização ainda se constituía em uma referência importante para o debate da educação mundial e, em especial, para o incentivo à democratização da escola pública, voltada ao aprendizado e ao acesso do conhecimento nos países pobres, dominados e explorados economicamente. (JIMENEZ; MENDES, 2007, p. 120)
No que concerne ao aprender a aprender, Morin (2002) insiste em que o ser humano não está isento de enganos, erros, mesmo que se valha da ciência, de dados científicos. Na defesa de tal concepção, argumenta que o ato de conhecer se faz por meio de percepções que são interpretadas, traduzidas, reformuladas, mediadas pela linguagem, em função dos sentidos que atribuímos ao mundo, às coisas, às pessoas.
Na tentativa de analisar os enganos humanos, o autor discorre sobre alguns tipos de erros que os sujeitos estão propensos a cometer. O primeiro, classificado como self- deception, diz respeito à capacidade que cada mente tem de mentir para si mesma. De acordo com o autor, os indivíduos têm inconscientemente poderes para selecionar as melhores memórias em seu cérebro, embelezá-las, mas podem também apagar as lembranças desfavoráveis, modificá-las e, por conseguinte, criar falsas recordações.
Além dos erros ilusórios, destaca igualmente os erros intelectuais, que se manifestam mediante a tentativa de o ser humano proteger suas doutrinas como verdades absolutas. Ainda que haja teorias adversas, sedimentadas em estudos científicos, Morin acredita que elas se tornam muitas vezes imperceptíveis ao olhar de pesquisadores, que ficam fechados em suas ideias e teses.
Para a identificação dos erros, das informações enganosas, considera fundamental que o sujeito coloque o conhecimento sempre em contínuo questionamento. Frisa que o ser humano tem tendência a preservar suas teorias, pois teme o inesperado, que o desestabiliza e lhe exige a reavaliação das ideias. De acordo
com o autor, a educação do futuro deve estimular esse posicionamento crítico, autocrítico, não apenas do sujeito em relação à sociedade, ao mundo externo, mas também seus mitos, suas crenças e suas concepções racionalizadoras, que cegam os indivíduos e os imobilizam.
O autor ainda explana que, com a industrialização, os progressos científicos e os conhecimentos foram divididos em especialidades: cientistas, médicos, educadores que dominam determinado campo de forma intensa, sendo, porém, incapazes de articulá-lo a outros saberes. Na perspectiva moriniana, em uma era marcada pela informatização e pela tecnologia, a interação entre as pessoas e os campos se mostra fundamental e não pode mais ser negligenciada.
Diante de tal realidade, postula que o sistema educacional proponha outra maneira de abordar seus saberes. Condena a divisão de disciplinas trabalhadas isoladamente, argumentando que tal organização não se coaduna com a proposta de uma educação cujo objetivo reside na construção de uma consciência complexa, coletiva, planetária.
Em suma, compreende que:
O conhecimento especializado é uma forma particular de abstração. A especialização “abs-trai”, por outras palavras, extrai um objeto do seu contexto e do seu conjunto, rejeita os laços e as intercomunicações com o seu meio, insere-o num setor conceitual abstrato que é o da disciplina compartimentada, cujas fronteiras quebram arbitrariamente a sistemicidade (relação de uma parte com o todo) e a multidimensionalidade dos fenômenos; conduz a uma abstração matemática que opera em si mesma uma excisão com o concreto, privilegiando tudo quanto é calculável e formalizável. (MORIN, 2002, p. 46)
Porém, com relação à bandeira educativa, “aprender a aprender”, é contundente salientar que os lemas aprender a fazer e aprender a aprender remetem ao educador John Dewey, cuja ideologia era formar indivíduos em função das necessidades sociais e
econômicas do século XX. No ensino, suas ideias estão presentes na metodologia direta (MD), centrada em atividades que exigem do aprendiz uma atitude mais ativa no processo do aprendizado.
A respeito do “aprender a aprender”, essa filosofia educacional foi a divisa do
movimento escolanovista no Brasil e, posteriormente, dos construtivistas, e se mantém na atualidade no contexto tanto externo quanto interno por meio da pedagogia de competências, vicejando a ideia de progresso e de inovação; no entanto, vem servindo para a manutenção da hegemonia burguesa e dos interesses neoliberalistas.
Como metodologia de ensino, a ideologia “aprender a aprender” se faz presente
nas tarefas, nos projetos pedagógicos, na atual orientação pedagógica da perspectiva acional (PA), a qual passou a predominar sobre as outras abordagens e metodologias no ensino-aprendizado de FLE. Para a PA, o sujeito aprendiz é concebido como ator social, que deve dominar conhecimentos comunicativos e não comunicativos (saber-ser, saber- fazer, saber-conviver, saber-aprender).
Nessa perspectiva, o sistema escolar e o professor devem propor situações- problema aos alunos com as quais eles possam se deparar no dia a dia. Seguindo essa linha de pensamento, os legados culturais, conhecimentos científicos, conteúdos acumulados ao longo da história, fulcrais para que os sujeitos possam refletir sobre o presente, o futuro e entender melhor sua própria existência e a do mundo, perdem
espaço em nome de uma “realidade”.
Sobre o “aprender a aprender”, Newton Duarte faz esta declaração:
O lema “aprender a aprender”, ao contrário de ser um caminho para a superação do problema, isto é, um caminho para uma formação plena dos indivíduos, é um instrumento ideológico da classe dominante para esvaziar a educação escolar destinada à maioria da população, enquanto, por outro lado, são buscadas formas de aprimoramento da educação das elites. (DUARTE, 2000, p. 43)
Para Libâneo (2009), o papel da educação deve ser o de promover a interação entre o conhecer, o fazer, o ser e o criticar. Sabe-se que a escola não tem a capacidade de tudo transformar, mudar; contudo, sua atuação de maneira crítica pode ser concebida como uma forma de reação às injustiças, de luta por uma sociedade mais igualitária e, por conseguinte, mais democrática.
No que diz respeito à ciência, ainda que ela não seja capaz de dar ao ser humano todas as respostas e soluções para sua angústia e tenha cometido erros, suas contribuições ao longo da história não podem ser negligenciadas. É oportuno frisar que as pesquisas científicas permitiram ao ser humano se questionar, intervir no mundo, em sua vida e renegar o fatalismo determinista dos fatos. Nas reflexões de Morin, os males da humanidade recaem sobre a ciência, sobre o pensamento racional.
Segundo Duarte, o ponto recorrente no pensamento pós-moderno consiste em anunciar uma crise da ciência, dos paradigmas da razão. Com base em Marilena Chauí, o autor faz uma síntese de como é apresentada a crise do pensamento pós-moderno.
Negação de que haja uma esfera da objetividade. Esta é considerada um mito da razão, em seu lugar surge a figura da subjetividade narcísica desejante;
Negação de que a razão possa propor uma continuidade temporal e captar o sentido imanente da história. O tempo é visto como descontínuo, a história é local e descontínua, desprovida de sentido e necessidade, tecida pela contingência;
Negação de que a razão possa propor captar núcleos de universalidade no real. A realidade é constituída por diferenças e alteridades, e a universalidade é um mito totalitário da razão; Negação de que o poder se realiza à distância do social, através de
instituições que lhe são próprias e fundadas tanto na lógica da dominação quanto na busca da liberdade. Em seu lugar existem micropoderes invisíveis e capilares que disciplinam o social. (DUARTE, 2000, p. 90)
Segundo Morin, o ser humano deve ter quatro tipos de consciência: a antropológica, que significa o reconhecimento da unidade dentro da diversidade; a
ecológica, que diz respeito ao habitar com todos os seres mortais, respeitando a biosfera, pois sem ela não há vida; a cívica terrestre, que exige do sujeito uma atitude de responsabilidade e de solidariedade com as crianças da Terra; e a consciência espiritual da humana condição, que se instaura nos indivíduos a partir de um exercício contínuo de (auto/inter)reflexão, de (auto/inter)crítica.
Na preservação da coesão social, discorre sobre a importância da democracia em uma sociedade diversificada e faz esta análise desse tipo de sistema:
A democracia supõe e alimenta a diversidade dos interesses, assim como a diversidade das ideias. O respeito da diversidade significa que a democracia não pode ser identificada como a ditadura da maioria sobre as minorias; deve conter o direito das minorias e dos proletariados à existência e à expressão, e deve permitir a expressão das ideias heréticas e desviantes. Da mesma maneira que é necessário proteger a diversidade das fontes de informação e dos meios de informação (imprensa, mídia) para salvaguardar a vida democrática. (MORIN, 2002, p. 116)
É necessário comentar que a democracia se impõe, de fato, quando os sujeitos começam a lutar por seus direitos. A simples existência das leis não garante um Estado democrático. Em face de tal situação, conclui-se que a equidade se estabelece em contextos nos quais as pessoas são esclarecidas e críticas. Para completar esse pensamento, José Carlos Libâneo assevera que o conhecimento é a condição para a democratização. Acrescenta ainda que:
Valorizar a escola pública não é, apenas, reivindicá-la para todos, mas realizar nela um trabalho docente diferenciado em termos pedagógico- didáticos. Democratizar o ensino é ajudar os alunos a se expressarem bem, a ter gosto pelo estudo, a dominarem o saber escolar; é ajudá-los na formação de sua personalidade social, na sua organização enquanto coletividade. Trata-se, enfim, de proporcionar-lhes o saber e o saber- fazer críticos como precondição para sua participação em outras instâncias da vida social, inclusive para melhoria de suas condições de vida. (LIBÂNEO, 2009, p. 12)
Como comentários finais sobre o pensamento moriniano, não se pode deixar de observar que, embora suas orientações pareçam responder às angústias da atualidade e ser transformadoras, elas vão ao encontro dos interesses políticos, econômicos, ideológicos de quem detém o poder em nossa sociedade, bem como geram certo sentimento de fracasso humano. O autor não faz uma crítica pertinente sobre as acentuadas desigualdades econômicas e sociais presentes em determinados países e sociedades.
No que diz respeito às críticas morinianas sobre a ciência, este estudo discorrerá no próximo capítulo sobre o papel dos estudos científicos no ensino de LE, os questionamentos em torno da formação especializada e da divisão do conhecimento em disciplinas, bem como tratará do forte movimento, em especial, no âmbito acadêmico pela multi/inter/transdisciplinaridade, com caminhos de mudança, de ruptura para apreensão e difusão do conhecimento. Com o intuito de verificar se as ações pedagógicas moderna e pós-moderna são ainda de natureza reprodutora, esta pesquisa tomará como teóricos Cipriano Luckesi, Louis Althusser, Karl Marx, Emile Durkheim, Max Weber, Antonio Gramsci, Pierre Bourdieu, Jean-Claude Passeron e István Mészáros.
2 INVESTIGAÇÃO DAS AÇÕES E DOS PRINCÍPIOS DA EDUCAÇÃO