• Sonuç bulunamadı

A $ 7 1 B * >

Com o fim do Regime Militar, a eleição indireta de Tancredo Neves, seu falecimento e a posse de Sarney, disseminou-se a crença de que poderíamos discutir questões sobre educação de uma forma democrática e aberta.

A diretora Jahel, em seu depoimento, assim refere-se a acontecimentos dessa época.

No dia 27 de maio de 1983 foi a última vez que falei com Dr. Tancredo Neves [...] Em 1984 ele se candidata a presidente da república através da eleição indireta. Em março de 1985 ele fica doente e morre no dia 21 de abril de 1985 [...] em 07 de setembro do mesmo ano nós da Escola Estadual “Monsenhor José Paulino” resolvemos fazer uma homenagem ao Dr. Tancredo Neves no desfile cívico [...]. Trabalhamos com os alunos das mais diferentes formas, fizeram pesquisas, debates sobre a situação do país que inspirava agora uma atmosfera de esperança na Nova República. A Escola Estadual “Monsenhor José Paulino” tinha mais de 2000 alunos, todos se preparavam para o desfile [...] preparamos faixas com diversos dizeres de Tancredo Neves tais como: Nova República, a nação inteira comunga deste ato de esperança – O primeiro compromisso de Minas Gerais é com a liberdade – Não vamos nos dissipar, conciliação para o bem de todos – Enquanto houver nesse país um homem sem teto, sem pão e sem letras toda prosperidade será falsa. [...] quando os alunos estavam a postos na avenida Dr. Lisboa para desfilar com as faixas, havia uns militares nos palanques e outros passando revista [...] neste momento foi dada a ordem que retirassem as faixas das mãos dos meninos (..), eles ficaram frustradíssimos, eles choraram [...] eu os recolhi no pátio da escola e falei com eles: não podemos desfilar, mas nós estamos dando a maior demonstração de democracia, [...] eu peço encarecidamente que cada um vá para sua casa e vamos esquecer o que aconteceu [...]. Os alunos ficaram agrupados na avenida Dr. Lisboa [...] e quando o regimento passou desfilando, os meninos deram a maior vaia [...] aquela situação ficou muito desagradável [...] em maio de 1986 fui exonerada.

A Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, tendo Ulysses Guimarães6 como patrono político em todo o processo de discussão e

promulgação da mesma na “Assembléia Constituinte”, revela as conquistas dos DIREITOS FUNDAMENTAIS E SOCIAIS, inscritos nos artigos 5º e 6º.

Há no seu primeiro título, um relevante núcleo chamado “OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS” (artigos 1º ao 4º), de onde partem as normas principiológicas que servem de esteio para todo seu conteúdo normativo, a saber, a cidadania e a dignidade da pessoa humana:

A República Federativa do Brasil foi formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em estado democrático de direito e tem como fundamento

[...]

II - a cidadania;

III - a dignidade da pessoa humana (BRASIL, 1988).

A Constituição de 1988 estabelece a educação, a saúde, o trabalho, o lazer e a aprendizagem como direitos sociais garantidos pelo Estado. A educação é particularmente detalhada nessa Constituição Federal (1988), representando um considerável avanço em se comparando com a legislação anterior, pois até mesmo os instrumentos jurídicos são definidos para a sua garantia. Assim, no art. 6º, temos que “São direitos sociais a educação, [...]na forma desta Constituição”, de modo que, pela primeira vez, a educação é tratada enquanto um direito social. Mais que isso, o artigo 205 é claro na definição de (co) responsabilidades, ao prescrever que a “educação é um direito de todos e dever do Estado e da família”.

No art. 206, está o princípio central em que o ensino será ministrado: “[...] IV - gratuidade do ensino público nos estabelecimentos oficiais”, sendo essa assegurada em todos os níveis na rede pública, ampliando a sua oferta, progressivamente, para o ensino médio. Nas cartas constitucionais, nem o ensino médio, tampouco o

6 Ulysses Silveira Guimarães foi, antes de qualquer coisa, um estadista brasileiro. Nascido no Município de Rio Claro-SP, no dia 06/10/1916, e morto em Angra dos Reis-RJ, no dia 12/10/1982, é considerado um grande político brasileiro, tendo liderado a Campanha pela redemocratização em 1982. Exerceu também a Presidência da Câmara dos Deputados em três períodos (1956- 1957;1985-1986; e 1987-1988), presidindo a Assembléia Nacional Constituinte, no último período. A nova Constituição Federal, na qual Ulysses teve papel fundamental, foi promulgada em 5/10/1988, e foi chamada Constituição Cidadã, assim conhecida até os dias atuais.

superior, tinham sua gratuidade assinalada (havia uma tática omissão quanto a esta questão).

No art. 208, define-se a forma como o Estado vai efetivar o direito do cidadão, ou seja, através da garantia de:

I – Ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;

II – progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio; III – atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;

IV – atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;

V – acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;

VI – oferta do ensino noturno regular, adequada às condições do educando; VII – atendimento ao educando, no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde (BRASIL, 1988).

A menção a esses preceitos expressos na Carta Constitucional de 1988 justifica-se por anunciarem, ao menos no plano político das intenções, novas perspectivas de atuação do Estado na definição das políticas públicas educacionais. A partir de então é esperado que o Estado busque implantar políticas de educação voltadas para a garantia desses direitos, inclusive no que se refere à gestão democrática do ensino público, conforme prescrito no art.206.

Desse modo, a antiga administração escolar mudou profundamente sua face: passou de autoritária e tradicional à participativa e democrática (ao menos na política educacional que se instaurou a partir de 1996, tendo a Lei de Diretrizes e Bases Nacional como um marco regulatório).

A gestão democrática veio então a ser o principal mote dos debates e das reflexões nas diferentes Secretarias de vários estados brasileiros. A gestão escolar na perspectiva da administração individual, da hierarquização e da fragmentação de tarefas foi perdendo seu espaço para a gestão democrática, entendida como compartilhamento de responsabilidades no contexto escolar, onde cada sujeito com sua subjetividade pode contribuir para sua melhoria, configurando-se como um grande desafio para os gestores de hoje que, na maioria das vezes, necessitam reconstruir suas concepções de gestão.

Cada gestor escolar, dentro da especificidade de sua instituição educativa, além de planejar, programar, coordenar, dirigir, verificar e controlar as atividades previstas, depara-se, por vezes, com necessidades novas que lhe impõem experiência e competência para providências ou soluções adequadas.

São a experiência e a competência, aliadas ao bom senso e a procedimentos racionais, que evitam o desequilíbrio administrativo desgastante entre o decidir e o agir, conceitos estreitamente associados em uma gestão escolar.

Por isso, temos o interesse em saber das memórias desses diretores que viveram noutra época política e que estiveram sob a égide da administração tradicional para que, de certa forma, possamos igualmente entender como se deu esta transição.

Benzer Belgeler