O referencial teórico desta dissertação trás discussões acerca do ciclo de vida organizacional, inovação, fatores condutores e habilitadores da inovação. Partindo disso, esta seção busca unir esses temas e fazer reflexões de como eles se relacionam.
As discussões nesse capítulo se iniciaram tendo como alvo temático o ciclo de vida organizacional. Esse ciclo representa o funcionamento das organizações, por meio das características que elas possuem para lidar com o ambiente em constante transformação e a adaptação para sobreviver no mercado. Cinco fases ou estágios do ciclo de vida organizacional são descritos: nascimento; crescimento; maturidade; renovação, e; declínio (MILLER; FRIESEN, 1994). Essas fases são mutáveis e adaptáveis, portanto sofrem influência do ambiente interno e externo.
Entender o ciclo de vida organizacional é entender como as organizações lidam com a mudança do ambiente no qual estão inseridas. Diversos autores (GREINER, 1972; ADIZES, 1979; QUINN; CAMERON, 1983; MILLER; FRIESEN, 1984; LESTER; PARNELL; CARRAHER, 2003; LESTER et. al., 2008; CHURCHILL; LEWIS, 1983; SCOTT; BRUCE, 1987; HANKS et. al., 1993) direcionaram estudos para compreender o desenvolvimento das organizações, e as principais contribuições desses estudos estão no fato de que momentos de crise e de problemas antecedem os períodos de crescimento. Ou seja, há sempre um fator-problema que impulsiona as organizações a tomarem decisões para sua sobrevivência no mercado. Caso esses fatores não viessem a existir as organizações permaneceriam num mesmo estágio sempre. Então, a importância atribuída ao estudo do ciclo de vida organizacional está, sobretudo, atrelada à capacidade de proporcionar à organização crescer e se desenvolver.
A inovação surge, por conseguinte, como promotora de vantagem competitiva e capaz de influenciar a forma como as organizações são estruturadas e gerenciadas (SCHUMPETER, 1985). Neste trabalho, a relação entre inovação e ciclo de vida organizacional parte da ideia de que cada fase do ciclo de vida possui um conjunto de características e inovações específicas que, uma vez consideradas, podem alavancar o desenvolvimento das organizações. Para isso, a discussão teórica empreendida aborda a inovação sobre diversas perspectivas, quanto ao grau (GILBERT, 1994), incremental e radical, e; quanto ao tipo (MANUAL DE OSLO, 2006), de produto, processo, organizacional e de marketing, que podem ser combinadas de forma a potencializar as atividades das organizações e inseri-las no mercado com força competitiva.
Abernathy e Utterback (2012) evidenciaram que as inovações seguiriam determinados padrões ao longo do tempo. Assim, é possível combinar a inovação e suas perspectivas (quanto ao grau e tipo) para cada fase do ciclo de vida organizacional e, por conseguinte, possibilitar as organizações desenvolverem inovação de forma coerente com o
estágio em que estejam, além de potencializar a exploração e utilização de seus recursos para a inovação.
A partir da compreensão de que o ciclo de vida organizacional e a inovação estão intimamente ligados, este trabalho aprofunda as discussões acerca da inovação, a partir dos fatores que são capazes de conduzir as organizações a desenvolverem inovações e os fatores capazes de habilitar as organizações explorarem as inovações. Dada a complexidade desses fatores, os mesmos foram descritos em seções separadas.
Por meio das evidências decorrentes da análise bibliográfica empreendida, foi possível constatar que há distintos entendimentos a respeito do significado dos elementos precedentes (condutores e habilitadores). Os trabalhos de Leite, Dutra e Antunes (2006) e Lacerda (2015) os entendem como sendo sinônimos; Sousa e Bruno-Faria (2013); Valadares (2008); Vasconcellos e Parolin (2006) e Sousa (2006) compreendem ambos os elementos como fatores facilitadores da inovação; e Carayanis e Gonzales (2003) e Koch e Hauknes (2005), embora utilizem o termo condutores de forma semelhante ao do presente estudo, entendem habilitadores como sinônimo de facilitadores.
Para os propósitos dessa pesquisa, os fatores condutores da inovação são aqueles que pressionam o desenvolvimento de inovações (KOCH; HAUKNES, 2005), são os que despertam na organização o interesse pela inovação, motivam e estimulam a sua criação (CARAYANNIS; GONZALES, 2003). São destacados diversos autores (DIONNE et. al., 2004; MANZ et. al., 2000; SCHREIBER, 2012; TÁLAMO; CARVALHO, 2010; AHUJA, 2000; DAMANPOUR; GOPALAKRISHNAN, 1998) que trazem fatores que contribuem para a inovação.
A contribuição de se estudar os fatores condutores é compreender o que está por trás da inovação, o que leva as organizações a inovarem. Dentre os fatores elencados, está o papel da liderança, enquanto direcionador de práticas que possam estimular à inovação. Além dele, a atuação conjunta, que amplia as possibilidades de gerar novos conhecimentos potenciais de inovação e o ambiente externo, com suas subdivisões, que pressionam as organizações a tomarem decisões direcionadas à sua sobrevivência no mercado, seja se antecipando a ele, seja reagindo às suas pressões.
São considerados como fatores habilitadores os recursos possuídos pelas organizações, sejam eles humanos, financeiros, tecnológicos, reputacionais, físicos e organizacionais (BARNEY, 1991; GRANT, 1991; PENROSE, 2006; BARNEY; HESTERLY, 2007; HITT; IRELAND; HOSKISSON, 2008). A combinação desses recursos é o que dá condição da organização explorar ideias potenciais de inovação. Vê-se, portanto, que
há certa dependência entre os fatores condutores e os fatores habilitadores e uma necessidade de inter-relação entre esses fatores para que, de fato, a inovação aconteça. Afinal, uma organização que possui elementos condutores, mas que não possua recursos capazes de explorá-los terá dificuldades em inovar, da mesma forma que possuir recursos habilitadores sem elementos que motivem e estimulem a organização inovar, compromete o processo inovativo.
Diante do exposto, observa-se a integração entre os diferentes elementos temáticos desenvolvidos no presente capítulo e os objetivos específicos propostos no capítulo introdutório, na medida em que as discussões buscaram relacionar o ciclo de vida das organizações com a inovação, e seus respectivos fatores condutores e habilitadores.
3 METODOLOGIA
Este capítulo descreve os procedimentos metodológicos seguidos para a concretização desta pesquisa, que tem como objetivo: analisar o comportamento das inovações empreendidas por organizações produtoras de cachaça do Estado da Paraíba e seus precedentes (condutores e habilitadores) ao longo do Ciclo de Vida da Organizacional. O percurso metodológico deste trabalho segue uma abordagem de métodos mistos sequenciais, um método que combina a pesquisa quantitativa com a pesquisa qualitativa. Numa primeira fase, o pesquisador coleta dados de forma quantitativa, analisa os resultados e então usa esses resultados para iniciar a segunda fase, a qualitativa. A intenção desse método é fazer com que os dados qualitativos ajudem a explicar em mais detalhes os resultados quantitativos iniciais (CRESWELL, 2013).
A utilização dessa abordagem se justifica neste trabalho, pois, em um primeiro momento foi realizado um estudo exploratório, por meio do Survey, com o objetivo de identificar a fase do ciclo de vida em que as organizações produtoras de cachaça da Paraíba se encontram. As informações obtidas na fase exploratória serviram de subsídio para a pesquisa qualitativa, tendo esta segunda fase a intenção de identificar as inovações empreendidas pelas organizações produtoras de cachaça ao longo do tempo e os fatores que levaram ao seu desenvolvimento. Assim, as pesquisas foram separadas em fases, I e II, e serão descritas conforme suas particularidades.