Observamos que a relação estabelecida entre os professores e alunos é mediada pelo diálogo, em que se evidencia a procura por uma construção conjunta dos trabalhos a ser desenvolvidos. A afetividade e a confiança também perpassam essa relação, por meio da escuta, da compreensão e do incentivo dos professores. Os alunos são estimulados a usar seus argumentos, a expor seus pontos de vista e a assumir um posicionamento frente aos impasses.
(...) a voz não, é o olhar, é o gesto, é... eles tão dizendo, a todo momento, pra gente alguma coisa. O que a gente tem aprendido é ouvir, ver, sabe, sentir esses alunos. (...) Eu acho que a sensibilidade é fundamental. E quando eu falo sensibilidade, num é o ser bonzinho, não, é chegar cara a cara com... com... Porque eles também têm muito essa característica, de... do enfrentamento mesmo. “O que que é que tá pegando? Por que que é que num tá... num tá assistindo?”, “Ah, é o trabalho, beleza, então vem [ ] vê como é que pode ser feito.” Agora, num é o trabalho, não, vem pra escola, tem sim um momento de... isso é formação, é formador, esse momento de... do bate-papo aqui no... no banco, num me incomodo nem um pouco com isso. Mas, se ele vem pra aula, e a todos os dias ele tá batendo papo no banco, essa aula tá com problema, né, e é isso que eu observo muito, se num... onde é que tá localizado, sabe, sou eu que num tô dando conta de falar a mesma linguagem? Ou de fazer essa... essas.... [ ] fazer, me fazer entender por uma outra linguagem? É isso que eu observo (trecho da entrevista com a professora Sueli – Grupo “A”).
Essa professora nos fornece um exemplo de como a sensibilidade para o aspecto humano dos jovens e adultos também propiciou aprendizagens em sua prática docente:
Foi muito engraçado, porque eu começava assim, eu começava pelo aparelho reprodutor. Num era nada disso que o povo queria, aí minha aula ficava [vaziinha] no aparelho reprodutor. Vazia mesmo. Quando chegava [em] métodos... (...) Anticoncepcionais, discussão de aborto, chovia aluno na minha sala pra tudo quando é lado, entendeu? Por que começar, quem é que falou que tem que começar? Aí eu inverto a ordem, porque ele saber também o que que se passa dentro dele, faz parte, entendeu? Aí eu inverto a ordem, começo hoje pelos métodos, aí os professores, né, das disciplinas específicas, [ ] ficam meio doidos comigo, sem entender por que que eu faço isso, mas tem uma razão, é porque a demanda é essa, num é outra. Através disso, eu consigo chegar de sala cheia até a discussão que antes era de pouco interesse, por que a outra, pra eles era escolarizada, e cá pra nós era mesmo, porque o corpo num é corpo de papel, nós tamo falando de um corpo que existe, um corpo que sente, é o corpo deles. Quando eu tô discutindo, nós tamo discutindo sobre o meu corpo e o corpo deles, uma coisa... um corpo vivo, né? Mas quando cê começa do jeito que a escola ensina, aquele é um corpo morto, aí o povo não fica, entendeu? É... e aí as perguntas são mil, assim, são perguntas que ocê num... num espera que vá aparecer em EJA, e que aparece, né? (...) (trecho da entrevista com a professora Sueli – EJA – EMAF).
De acordo com essa professora, um dos diferenciais do projeto de EJA na escola diz respeito ao interesse do professor pelo aluno, por meio da aproximação, da conversa e da tentativa de conhecê-lo melhor:
(...) Por que ele tá aqui com a gente [ ] a conversa com eles que eu tenho ela sempre vai no sentido seguinte: “Olha, nós temo um projeto aqui que é diferente da maior parte das escolas, cê vai chegar lá, em muitos lugares, o professor num vai querer saber... saber de nada a seu respeito”. Ainda que eu acho que a gente... peque por muitas coisas, é... num consiga fazer de um jeito que cerque mais a questão afetiva, que... que dê conta, eu acho que to ... e aí eu acho que são todos os professores, ou a maior parte deles. Se tem um aluno que cê vê que ele num tá legal, senta e conversa. Porque a gente tem esse procedimento, só num consegue fazer disso uma... uma coisa do... ter espaço no projeto, entendeu? (...) (trecho da entrevista com a professora Sueli).
Os alunos demonstram uma relação de carinho e gratidão para com os professores e reconhecem que o interesse que os professores demonstram por eles é motivador.
(...) e o carinho que as professora tem, igualzinho a [ ] num é... num é da nossa sala, mas é uma pessoa exemplar, adoro ela, que ela sabe explicar [com carinho,] parece que ela faz [o trem] com carinho, num é aquele trem que tá recebendo salário, “É assim, assim, assim que faz”, não, ela faz com carinho, explica, entendeu? (trecho da entrevista com o aluno Álvaro).
(...) aqui nós não tivemos, aqui nós não temos professores, aqui a gente tem amigo, certo, os professores que nós tivemos, tanto os da noite, e os de dia, eles são nossos amigos, porque tanto é que eles ajuda nós, sem interesse nenhum, né, porque eu chamo eles de amigo por causa disso, porque eles ajuda nós sem interesse nenhum... (...) (trechos da entrevista com o aluno Mauro).
Tanto os professores quanto os alunos agem e se percebem além de seus ofícios escolares. Estamos querendo dizer que eles não são só professores e alunos, mas também pais, mães, filhos, trabalhadores, desempregados, pertencem a uma classe social, têm uma crença religiosa, pertencem a uma etnia, estão numa faixa etária, têm diferentes culturas, sentimentos, interesses, expectativas, sonhos, planos, objetivos, esperanças, ou seja, são humanos, e, por isso, acertam e erram, se expressam por gestos, silêncios, olhares, palavras, atos e por toda a complexa gama de ações que constitui o ser humano.
Em vários momentos, as aulas são voltadas para uma discussão de um assunto pessoal, o que pode ser propiciado pela ilustração de um exemplo de vida ou por meio do relato de um caso que ocorreu próximo àquele aluno ou professor. Às vezes, um comentário ou até mesmo uma brincadeira são motivos para uma conversa que procura abrir espaço para outras demandas: a de escuta da história pessoal que marca a trajetória de vida de cada um e que requer um momento para se revelar, a subjetividade se descortina mostrando os sujeitos que compartilham tempos e espaços de formação.
Podemos exemplificar alguns momentos que revelam a interação humana na EMAF:
Um aluno chega atrasado e a professora pergunta se é por causa do trabalho e ele confirma. Ela comenta que aqui é assim, qualquer hora é hora. Como ele havia faltado na aula do dia anterior, a professora passa para ele o que estão fazendo. (...) Num dos textos que lê surge a expressão tempo perdido e a professora acha que precisam conversar sobre isso. Diz que nós não vamos recuperar o que já passou, e que com certeza eles estavam fazendo coisas importantes e necessárias quando tiveram que deixar a escola. Que a gente aprende também fora da escola... (diário de campo, 05/08/2003). Os alunos pedem o horário para prepararem uma festa surpresa para o aniversário de um dos professores. Alguns que haviam se comprometido a trazer alguma coisa para a festa não vieram à aula, e outros que não estavam sabendo da festa porque faltaram no dia que combinaram estavam presentes hoje. Uma das alunas fez o bolo e um outro professor buscou em sua casa. Outra aluna trouxe um prato de salgados e uma outra trouxe um refrigerante. A aluna [ ] é que organizou tudo e contou que mesmo tendo passado um dia difícil, pois tinha sido assaltada, fez questão de fazer o bolo, que teve que ser refeito por três vezes, já que deixou queimar devido ao seu estado emocional. Suas filhas também vieram. Precisariam de contribuições para a compra de mais refrigerantes e pão de queijo a ser assado na cantina da escola. [ ] preparou uma lista e mesmo aqueles que não tinham dinheiro no momento poderiam contribuir pra pagar depois. Compraram velas, e todo o horário foi destinado a preparação da festa. Escreveram mensagens no quadro, enfeitaram a sala com balões, colocaram som, etc. (diário de campo, 15/09/2003).