Meus estudos lacanianos demonstraram que na psicose é preciso pensar cada caso como uma singular forma de relação dos três registros borromeanos. Diferentemente da neurose − em que o que foi inscrito retorna no recalcado −, na psicose, o significante que não ficou inscrito pela via simbólica reaparece como exterior à realidade psíquica.
Que se passa, pois, no momento em que o que não é simbolizado reaparece no real? Tem sua serventia empregar a esse respeito o termo defesa. É claro que o que aparece, aparece sob o registro da significação [...] Uma significação essencial que diz respeito ao sujeito [...] Mas por que será aqui que o recalque não cola, isto é, não tem como resultado o que se produz quando se trata de uma neurose? (Lacan, 1955-6, p. 103).
Explica-se a pergunta:
Quando alguma coisa aparece no mundo exterior que não foi primitivamente simbolizada, o sujeito se vê desarmado, incapaz de fazer dar certo a verneinung (negação) com relação ao acontecimento. O que se produz tem o caráter de ser excluído do compromisso simbolizante da neurose, e se traduz em outro registro, por uma reação em cadeia ao nível do imaginário [...] O sujeito por não poder fazer uma mediação simbólica entra [...] em outro modo de mediação [...] por uma proliferação imaginária. (Lacan, 1955-6, p. 104).
O acesso do psicótico ao simbólico é singular. Lacan (1955-6) diz que o psicótico fica de testemunha aberta do inconsciente, do discurso do Outro, por não ter ele o véu do recalque que protege o neurótico da sua relação com o Outro.
Calligaris (1989) lembra:
Um universal positivo próprio da psicose é extremamente problemático, porque, se não existe uma amarragem central para todos, seguramente não há uma significação que seja a mesma para todo psicótico [...] o certo é que não existirá uma significação que seja a mesma para todo sujeito psicótico, se houvesse não seriam psicóticos. (Calligaris, 1989, p. 33).
Ao analisar os casos, com frequência pendi para o diagnóstico estrutural de psicose, ainda que o considerasse insuficiente para justificar a passagem ao ato parricida. Como já dissera: nem todo psicótico comete o parricídio.
Exceto para Otto, em vários momentos da feitura desta tese estive em dúvida sobre o enquadre de Atílio e Conrado em uma estrutura psicótica. Se fosse uma psicose, seria um tipo fora de crise, que se assemelharia mesmo à neurose?
Calligaris (1989) aborda o assunto.
Estrutura psicótica fora de crise é a de um sujeito psicótico que nunca enfrentou uma crise, nunca encontrou uma injunção que o forçasse a referir-se a uma função paterna e então a construir uma metáfora delirante. (Calligaris, 1989, p. 41).
A partir dessa afirmação, posso presumir que Atílio e Conrado não exemplificam a psicose fora de crise: interpreto que ambos se encontraram com uma injunção de apelo ao nome-do-pai. O cometimento do crime − confirmação da foraclusão da inscrição do nome-do-pai na estrutura psíquica dos mesmos −, configura, nesse sentido, uma psicose, ainda que sem constituição da metáfora delirante.
Nos anos 1950, no seminário sobre as psicoses (1955-6) e no texto “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose” (1957-8b), entendia-se a amarração do sujeito neurótico pelo significante nome-do-pai: a ocorrência da foraclusão desse significante organizava uma subjetividade psicótica.
Figura 6
Em contrapartida a tais concepções, encontrei a proposta de Dunker (2009, 2010) de uma psicopatologia não-toda. Essa sugestão é uma tentativa de ler o sujeito de uma maneira não integrativa.
Dunker (2006) considera que a diagnóstica psicanalítica é muito mais extensa que a diagnóstica da estrutura. O autor empreenderá denso caminho para sustentar essa afirmativa retomando conceitos lacanianos:
O sujeito se apoia na estrutura, ou seja, a estrutura não é o sujeito, o sujeito se apoia nela. Portanto, o tratável pela análise se reduz ao fantasma ($ a), às relações com o desejo e o sintoma e à organização narcísica (i(a)- moi) [...] Há pontos de apoio do sujeito na estrutura, mas há também dimensões do sujeito que ex-sistem à estrutura. (Dunker, 2006, p. 136).
Dunker (2009) examina a hipótese de uma psicopatologia não-toda, derivada de quatro elaborações de Lacan: a teoria das estruturas, a proposição dos quatro discursos, as formulações sobre a sexuação e a teoria dos três registros. Lembra o autor que a teoria dos discursos foi feita para tratar do impossível, inferido para as profissões
impossíveis: governar (discurso do mestre); educar (discurso universitário); analisar (discurso do analista).
Para Dunker (2009), a psicopatologia de orientação lacaniana encontra-se em dois eixos. A estrutura como algo da ordem do necessário, como uma condição, cujo ponto de necessidade se fundaria na existência de “ao menos um que não se escreve na função fálica”, representado pela figura do pai da horda primitiva, aquele que escaparia à castração, aquele que está fora da função fálica.
Uma segunda leitura da estrutura − e a partir daqui entramos no campo da nossa hipótese − é a de que esse necessário se relaciona tanto com o possível como com o impossível. Por quê? Porque o problema desse modelo é nos permitir pensar diferenças estruturais no homem e na mulher [...] ou seja, aqui para todo que se escreve na função fálica nós subdividimos: aqueles que se inscrevem na via do ter e aqueles que se inscrevem na via do ser [...] Essas são subdivisões secundárias, no fundo homem e mulher são só diferentes posições em relação ao falo. (Dunker, 2009, p. 9).
Dunker apoia-se nas quatro categorias lógicas de Aristóteles, reinterpretadas por Lacan no seminário XX. O Necessário (ao menos um que não se escreve em função fálica); o Possível (para todo que se escreve em função fálica); o Impossível (não existe nenhuma que não se escreva em função fálica); e a Contingência (não todo um se escreve em função fálica).
Especificamente para esta tese, utilizei parte do raciocínio de Dunker para o diagnóstico do parricídio. Em seu decorrer, discuti o conceito de estrutura psicótica, demonstrei a posição subjetiva dos entrevistados nas fórmulas da sexuação e resgatei o debate sobre a amarração do nó-borromeu.
Não incluí aqui a teoria dos discursos, porque tive conhecimento da hipótese de Dunker somente na reta final. Deixo indicada para futuro próximo a discussão sobre o parricídio com o quaternárioconceitual proposto por Dunker.