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1.4. DAVRANIŞSAL NİYET

1.4.3. Davranışsal Niyet Yaklaşımı

Raul Fernandes teve sua obra A marcha de Lampião: assalto a Mossoró prefaciada por Câmara Cascudo que rendeu inúmeros elogios ao autor e ao livro. Segundo Cascudo (2007) o livro deveria ser lido como obra de investigação e ternura, de estudo e conclusão, raciocínio e entendimento sociológico, um livro, enfim, de quem sabe olhar e ver. O tom vanglorístico e hiperbólico do livro de Raul Fernandes, em todo caso uma construção discursiva, é antecipado ao leitor por Cascudo que vê na obra um testemunho, um depoimento à História baseado na memória do autor e na veracidade dos fatos, algo que segundo Cascudo serviria ao patrimônio emocional da Terra e da gente que o autor amava, filho mossoroense como era Raul Fernandes. É assim que vamos ler Câmara Cascudo27 insinuar-se na mesma narrativa de engajamento que compõe o livro que prefacia, atualizando as imagens, as representações e as ideias que os anos iriam sacralizar como basilares de uma semântica da Resistência, e ao seu modo, Cascudo (2007) vai explicar por referência aos meios sociais, climáticos, psicológicos e mesmo econômicos, o episódio contra os cangaceiros, tática narrativa usada em uníssono pelos escritores que buscam se posicionar como historiadores de Mossoró.

O prefácio escrito pelo folclorista natalense termina assim:

Creio, lendo esta “MARCHA” admirável, que Raul Fernandes ouvia a confidência sonora e persistente de Luís de Camões. Não me mandas contar estranha história,

Mas mandas-me louvar dos meus a glória! Natal, janeiro de 1978.

Luís da Câmara Cascudo (CASCUDO, 2007, p.21)

Enquanto escrita não estranha porque prestou-se a louvar as glórias do passado de Mossoró, em especial o episódio da Resistência, o livro prefaciado por Câmara Cascudo de autoria de Raul Fernandes é uma escrita engajada em edificar uma memória e deve ser lido em suas condições de produção, em meio às relações

27 No livro Notas e documentos para a história de Mossoró, Câmara Cascudo registra o episódio no

qual foi convidado a escrever uma história da cidade, por ocasião de sua ida à cidade em 1953 para proferir aula inaugural no curso de Antropologia cultural. Escreve Câmara Cascudo: “Antes do jantar, Vingt-un mostrou-me o convite oficial para escrever uma história de Mossoró. Havia convite anterior, mas fora impossível troca de correspondência. Quando fui fumar e olhar as estrelas na Praça Souza Machado, já estava nomeado historiador de Mossoró”. (CASCUDO, 2010, p.07).

de saber e poder que o possibilitaram e que ainda hoje o mantém como livro de referência que vai ser retomado, parafraseado e criticado em diversas outras formas de expressão com a temática da Resistência, na cidade.

A obra A marcha de Lampião foi publicada na época da comemoração dos cinquenta anos da defesa da cidade contra o mítico cangaceiro. Em tons épicos, temos na produção de Fernandes (2007) uma narrativa da resistência mossoroense ao bando cangaceiro que se confunde com a escritura das glórias de uma cidade que teve um passado de conquistas, vanguardas e liberdades, cidade que possuía líderes políticos fortes, verdadeiros heróis locais, e cujos herdeiros políticos e ideológicos atuam na manutenção de uma ordem de discurso memorialista que produz efeitos em múltiplas práticas pela cidade, legitimando-se como uma estratégia narrativa que identifica a cidade com seu passado valorado.

Na sequência do prefácio, encontra-se um texto escrito pelo próprio Raul Fernandes, cuja transcrição a seguir constitui materialidade de análise.

(M12)

RAZÕES DO LIVRO (transcrição)

“... você não pode deixar que se perca a história do assalto de Lampião a Mossoró”. Inúmeras vezes ouvi esse apelo de amigos, do homem comum e de intelectuais.

Em 1927, cursava as Faculdades de Direito e Medicina da Bahia. Nas férias de junho, ao visitar meus pais em Mossoró, encontrei nossa casa tumultuada. Bandidos do interior do Nordeste, liderados por Lampião, planejavam assaltar a cidade - a mais rica do Estado. Ninguém acreditava! A nova chocava a opinião geral. A descrença dificultava os preparativos da defesa idealizada por meu pai, Rodolfo Fernandes, então prefeito.

E aconteceu. A horda de malfeitores invadiu o Rio Grande do Norte, sem dificuldade. Às portas da cidade, exigiu grande soma, a fim de poupá-la dos mais terríveis vexames. O Prefeito revida a ameaça. Os bandidos investem contra sua residência. Inicia-se a luta. Fragorosamente derrotados, são expulsos para além das fronteiras potiguares. A seu exemplo, os Estados vizinhos desencadearam tenaz campanha de extermínio ao banditismo. Eliminaram a possibilidade de organização de novos grupos de salteadores, forçando-os a se deslocarem para outras regiões.

O assalto a Mossoró despertara a Nação para o grave problema, marcando o declínio do cangaceirismo nessa faixa do Nordeste.

Pesava-me, contudo, deixar perder-se, no tempo, o grande feito dos mossoroenses.

Em 1965, o escritor Raimundo Nonato enfeixou no livro "Lampião em Mossoró" valioso documentário - artigos de jornais, depoimentos, processos, entrevistas, folclore, roteiros e fotografias enriquecido de correções. Salvou precioso acervo. Com o passar dos anos, distorções sobre o fato histórico tomaram corpo.

Cedi, finalmente, ao imperativo dos amigos. Durante mais de quinze anos, aprofundei-me nas pesquisas, trazendo à luz fatos inéditos. Preocupei-me, sobremodo, com a imparcialidade. Anotava depoimentos lógicos. Confrontava-os com outros sobre o mesmo assunto. Repetia visitas aos locais maculados pelo bando, em suas tropelias nos Municípios de Mossoró e Apodi. Sem pressa, esclarecia as dúvidas. Tomava o testemunho das pessoas que viveram o drama. Na falta, recorria aos parentes das Famílias, marcadas pela passagem da malta. Ouvi guias, reféns, vítimas, prisioneiros, cangaceiros e componentes das trincheiras - um mundo de gente. Colhia a confirmação dos acontecimentos por mim presenciados. O documentário fotográfico é da época e, em parte, exclusivo. Levantei mapas e roteiros. Desprezei o romance de leitura amena pela história comprovada. Acautelei-me das narrativas distanciadas do verismo dos fatos.

Os bandidos palmilharam quatro Estados, implantando o terror. Cobriram no percurso de ida e volta mais de mil e quinhentos quilômetros. No Rio Grande do Norte, fizeram cerca de quatrocentos, em quatro dias e meio. Foi uma cavalgada sem precedentes, na crônica do Cangaço. Daí, o nome do livro - A MARCHA DE LAMPIÃO.

A vitória de Mossoró, em prol do bem comum, fixou o heroísmo de seus filhos. Feito proclamado nos quatro cantos do País. Lição de grandeza de um povo pleno de civismo consciente, do qual todo o Nordeste exultou agradecido.

Reverencio a memória de meu pai Rodolfo Fernandes. Louvo a coragem daqueles que o ajudaram - a Polícia e a população, em geral. Nesse trabalho não desejei desmerecer pessoas. Cabe à História o julgamento.

Raul Fernandes.

(FERNANDES, 2007, p.23-24)

O livro de Raul Fernandes talvez seja a peça mais lapidada desse mosaico das memórias do ataque lampiônico à Mossoró. O prefácio acima é a ilustração em síntese da prática memorialista que o livro tão bem representa, ou sustenta, inscrevendo na cultura local toda uma lexicografia dos resistentes, contribuindo decisivamente na formalização dos elementos da narrativa da defesa do dia 13 de junho de 1927, tornando possível uma semântica da grandeza e do heroísmo de um

povo e de seus líderes, organizados em uma resistência cívica possível nas camadas do tempo, na contação dessa vitória contra os afamados cangaceiros.

Essas notas introdutórias sustentam um efeito de verdade sobre o passado que se produz ao passo que o autor faz valer suas lembranças da época do ataque, lembranças legitimadas por ter sido filho do prefeito da época. Tal efeito, como se lê, é assumir o lugar de guardião da memória mossoroense, lugar autorizado e legitimado para narrar o passado, e o faz pelo jogo retórico de atribuir o que narra às fontes que consultou, às pessoas que ouviu e aos lugares que visitou, como se quisesse livrar sua escrita do caráter engajado e parcial de interpretação do mundo, algo inerente a toda manifestação de discurso. Nessa forma de organizar a justificativa do livro, o que se lê é a materialização de uma vontade de verdade, a expressão de um engajamento que produz efeitos, sentidos, correlações e uma forma de lembrar, atado como está tal vontade a todo uma ordem discursiva e a dispositivos que regulam e ordenam aquilo que pode e deveria ser dito sobre o acontecimento de 1927. O livro de Raul Fernandes foi produzido numa memorialística iniciada nos anos 1950 na qual os sentidos da Resistência deveriam ser oficializados, e suas tonalidades, formas e personagens validados, numa dinâmica do que persiste, do morto que não morre.

A própria organização do livro dá mostras de como essa narrativa se estrutura na escrita desse autor. A divisão dos capítulos organiza numa sequência narrativa o que podemos chamar de temas do discurso da Resistência, a saber, a cidade de Mossoró, o bando de Lampião, o povo mossoroense ou os resistentes e o assalto ou ataque, sequência repleta de descrições, representações e caracterizações que marcam até hoje os modos de dizer, ver e fazer lembrar o episódio.

Já no primeiro capítulo, Raul Fernandes descreve Mossoró como uma cidade de muitas particularidades.

(M13)

O comércio dos mais lisonjeiros. Possuía o maior parque salineiro do País. Três firmas descaroçavam e prensavam algodão. Centro comprador de peles, algodão e cera-de- carnaúba. Exportava pelo Porto de Areia Branca. Longos comboios de mercadorias chegavam do interior da Paraíba e do Ceará. Voltavam levando Sal e variados produtos. Os estalos de chicotes de arrieiros, guiando tropas de burros, anunciavam a chegada e a saída desses transportes.

A energia elétrica alimentava várias indústrias nascentes. Havia repartições públicas federais e estaduais. A agência do Banco do Brasil era o único estabelecimento de crédito da região. Mossoró tomara o lugar da vizinha cidade de Aracati, no Ceará, que em época mais recuada liderava essa área. Sem dúvida tornara-se a mais rica do Estado, conhecida como a “Capital do Oeste”.

(FERNANDES, 2007, p.27).

A cidade já era representada à época como uma cidade em pleno desenvolvimento, destacando-se o comércio em plena expansão na época da passagem de Lampião pela cidade. Essa descrição deve ser lida em correlação com todo o livro e na relação com outros fragmentos dessa formação discursiva e, deste modo, o efeito de sentido passa a ser o de um enredo memorialístico valorizando a cidade ao passo que insere na narrativa possíveis causas do interesse de Lampião em atacar a cidade. Por outro lado, encontramos aí um ponto na dispersão enunciativa para este modo de dizer a cidade hoje visto em outras práticas pela cidade, promovendo Mossoró enquanto cidade do futuro, capital cultural e outros títulos que o poder local busca sustentar.

Produzir discursivamente a cidade, idealizá-la e promover no imaginário e na cultura uma dada visibilidade para a cidade é uma prática antiga e largamente difundida. E, nestes termos, percorrer os significados de uma cidade da Resistência é descrever o modo como, desde a escrita desses autores, Mossoró tem sido representada, pois como iremos mostrar, o tema da cidade é central na constituição dessa discursividade da Resistência. Em todo caso, essa imagética da cidade, enquanto lugar desenvolvido e de pessoas fortes e aguerridas, já esboçada na escrita de autores como Raul Fernandes, é algo que a prefeitura e diversos setores da economia local exploram também como mola propulsora de uma espécie de turismo do regional, em tempos de globalização.

Neste sentido, lembremos que trabalhamos com a ideia de cidade como texto ou construção semiótica, algo já discutido por diversos autores, a exemplo de Susana Gastal, mostrando-nos que os conceitos de urbano e de cidade, hoje, não podem ser vistos fora de uma visão interdisciplinar, levando-se em conta, sobretudo, que a contemporaneidade faz surgir uma imagética das espacialidades, uma cultura dos artefatos visuais, perspectiva que nos possibilita pensar a cidade como “aquela que se dá aos nossos sentidos como imagem”. (GASTAL, 2006, p.26). Em relação à

cidade de Mossoró, tal produção imagética é sobretudo atravessada pela própria imagética do passado, uma sustenta sentidos para a outra, tornando o passado um significante móvel e rarefeito, mutante, para os sentidos da cidade na atualidade. Por sua vez, Barthes (1990), em La aventura semiológica, oferece-nos alento teórico para pensar nas tematizações da cidade como formas de escritura, literárias ou não, mostrando-nos que a sociedade se estrutura como linguagem. Analisar tais escrituras, segundo Barthes (1990), implica descrever não apenas uma estrutura de signos, mas vê tais signos em uma movência de sentidos, contextualizada historicamente, dispersa. Nos domínios da semiologia, os acontecimentos, assim como as práticas, as instituições e as demais relações sociais são produções de discurso, são escrituras, posto que o real se estrutura por meio da linguagem (BARTHES, 1993). Mantendo-nos nos termos do semiólogo francês, buscamos entender como a cidade e seu passado foram pouco a pouco se tornando objeto de um discurso que desde a escrita desses memorialistas não cessa de se reinventar, de funcionar a partir de outras formas, agregando outras linguagens, gêneros e discursividades.

Há uma escritura da cidade que atravessa a própria narrativa da Resistência. Posteriormente à escrita de Raul Fernandes e de outros memorialistas, este discurso sobre a cidade, enquanto um lugar de gente ordeira, trabalhadora e corajosa, entre outros predicativos, passa por redefinições e/ou ampliações e cada vez mais vem sustentando o discurso urbano mossoroense. Atualmente, encontramos outras formas de significar a cidade, pela cidade, na prática de outras posições-sujeito, ou tal qual propõe pensar Orlandi (2003, 2004), outras formas de textualizar a cidade que muitas vezes tem no próprio espaço urbano, nas ruas, nos monumentos públicos, nos prédios e outros locais, o meio em que acontecem e se estruturam as formas significantes da cidade ou o discurso sobre a cidade.

Ainda na Marcha de Lampião, o memorialista Raul Fernandes segue dando os primeiros contornos desse discurso urbano como forma de sustentar sua narrativa da resistência mossoroense. Nisso, a cidade por ele aparece ainda como uma espacialidade de contrastes, pois além de retratá-la como uma cidade desenvolvida, com estabelecimentos comerciais, escolas, jornais, igrejas e uma loja maçônica, o autor a representa como uma terra assolada pelo clima incerto, compondo o autor uma paisagem ora de clima quente e com periódicas secas, ora como localidade que sofre com constantes inundações.

Julgamos que essa representação da cidade em muito se relaciona com as velhas representações do nordeste enquanto lugar de geografia, vegetação e clima hostis, imagética encontrada em outras produções nacionais da época.

Por exemplo, (M14)

Mossoró é a cidade dos extremos, de clima paradoxal. Sol a pino, a atmosfera fica imobilizada. Raios candentes causticam a região e intensificam a evaporação do solo sequioso. O ar torna-se extremamente quente e sufocante, numa calmaria desalentadora, obrigando sua gente à sesta, em redes. Invertem-se os papéis, ao findar o dia.

[...]

O Rio Grande do Norte é o mais seco Estado da federação, de clima semiárido e quente. Na parte oeste, esses rigores se acentuam. Dois grandes rios periódicos, o Jaguaribe (no Ceará) e Açu (no Rio Grande do Norte) - rios da carnaúba - limitam essa zona, em cujo centro corre o Mossoró (ou Apodi). Aí, o fenômeno é mais agudo. A caatinga de espinho espraia- se nessa área. Sedenta, emerge do interior distante. Aniquila a cinta verde do litoral e alcança o mar. Única faixa nordestina onde o sertão adusto atinge a costa.

No estio, a flora atrofiada, desnuda e semimorta, semelha-se a um traçado de garranchos desordenados. Escassas são as árvores de sombra. Tabuleiros infindáveis tapetados de cactos, fechados de macambiras acúleas, salpicados de arbustos venenosos e um sem número de plantas agressivas. Ao meio dia, a pira solar amolece a resistência dos seres animados. O município mossoroense assenta-se, justo, no centro desse inferno esbraseado. Padece duramente a falta d'água. Enquanto os desertos noutros continentes são arenosos e montanhosos, os do Nordeste caracterizam-se pela vegetação de espinho. O sertão, sob o aspecto naturalista, é um deserto espinhoso. E Mossoró, paradoxalmente, é sua capital.

Durante a estação chuvosa processa-se extraordinária metamorfose. Plantas mirradas e agonizantes renascem. Um amiudado de folhas verdes desponta da noite para o dia, sobremaneira impressionante. Processa-se o milagre da natureza - a vida! Os rios, dantes de leito à mostra, alargam o bojo a perder de vista, com imensuráveis massas líquidas, formando alagadiços sem fim. O declive suave e desmedido da Chapada do Apodi leva veloz as quedas pluviais para o mar. Torrentes impetuosas arrasam vazantes, roças e casas ribeirinhas, gerando um quadro desolador. Atoleiros perigosos formam-se, insulando núcleos populacionais. As estradas ficam intransitáveis. O mar doce, de água barrenta, paralisa o trabalho. Prejuízos, desolações e mortes são os saldos da

avalanche catastrófica. Secas e inundações são os constantes flagelos dos sertanejos. Situa-se Mossoró nesse páramo.

Além desses fatores, o porte da cidade e a localização na faixa litorânea eram motivos suficientes para excluir quaisquer possibilidades do assalto enunciado. Sua geografia afastava tal idéia. Falar na vinda de Lampião, era absurdo.

(FERNANDES, 2007, p.33-37)

A paisagem paradoxal mossoroense assim retratada pelo memorialista recorre às velhas representações do sertão nordestino, tal como são projetadas em outras produções discursivas nacionais. Em parte, projeta-se na escrita de Raul Fernandes a produção discursivo-imagética que desde o início do século 21 institui uma semântica do regional e a própria ideia de Nordeste, enquanto recorte espacial (ALBUQUERQUE JR. 2011). As memórias que constituem a narrativa acima parecem não se largar das velhas imagens da seca, do sol escaldante, da vegetação típica e do solo rachado, compondo um quadro de desolação que se confunde com outro, o das inundações, imagética que a memória do autor retoma para caracterizar a cidade mossoroense como obstáculo à invasão dos cangaceiros. Para Raul Fernandes, Mossoró padece dos dois maiores flagelos dos sertanejos, a seca e a enchente, e nisto, o retrato da geografia e do clima desfavoráveis se compõe como forma de mostrar as adversidades que à época deveriam ter inibido o plano de Lampião de atacar a cidade, efeito narrativo que se marca explicitamente ao final do fragmento transcrito.

A narrativa encontrada Na marcha se aproxima do naturalismo e do realismo, como é possível apreender dessas estéticas na literatura nacional e, dadas as descrições esmiuçadas de lugares e pessoas, o detalhamento de ações ou as interpretações do caráter ou da psicologia das figuras tidas como centrais na defesa da cidade, ou mesmo pelas explicações que vertem modos de vida ou situações a justificativas climáticas, patológicas ou mesmo religiosas, beirando o determinismo, a escrita de Raul Fernandes se correlaciona a essas estéticas, sendo marcadamente engajada com a produção de uma memória coletiva. Contudo, esse engajamento ou movimento de reminiscências em prol de uma ideia da Resistência teve início em outras falas dispersas, em depoimentos de pessoas envolvidas, sobretudo os de líderes políticos da cidade, como o próprio prefeito ou o Pe. Mota, assim como também no já clássico diário escrito por uns dos reféns feitos pelo grupo no Rio Grande do Norte, ou ainda, no depoimento de um dos cangaceiros presos durante o

assalto e na própria cobertura da imprensa local à época, dispersão enunciativa que foi compilada por Raimundo Nonato e publicada no livro Lampião em Mossoró, cuja primeira edição data do ano de 1955, pelas edições Potengi/Rio de Janeiro, como parte da série “C” da Coleção Mossoroense. Contudo, há uma relação muito específica entre o precursor livro de Raimundo Nonato, um verdadeiro inventário da produção discursiva sobre o acontecimento, e estas próprias produções, que consiste na formalização de uma semântica em torno da ideia de Resistência, e não em torno de outras ideias que a leitura da produção da época de 1927 pode evidenciar, tais como as ideias de assalto, invasão, ataque e defesa.

De início, o que chama atenção no livro Lampião em Mossoró, de Raimundo Nonato, são as pretensões do livro em ser uma obra documental. É inegável o valor que a pesquisa de Raimundo Nonato teve para os estudiosos do assunto, e mesmo para além de sua condição de materialidade discursiva na produção e formação de

Benzer Belgeler