2.6. Örgütsel Özdeşleşmenin Boyutları
2.6.3. Davranışsal Boyut
As propostas de Segurança Alimentar e de Soberania Alimentar compartilham princípios políticos que orientam suas respectivas ações que pertencem ao âmbito do contexto político. As duas propostas partem do pressuposto de que a fome mundial pode ser eliminada e destacam como critérios orientadores de suas ações: o reconhecimento do papel relevante da mulher na produção, distribuição e no consumo dos alimentos; o reconhecimento da capacidade produtiva dos camponeses, das organizações populares e dos trabalhadores Sem Terra; e a proteção do meio ambiente. Também ressaltam como elemento determinante na implementação de suas estratégias e na conseqüente concretização de seus propósitos a necessidade de um ambiente pacífico e estável, onde os alimentos não sejam utilizados como arma de pressão política.
Desde a Primeira Conferência Mundial de alimentação, de 1974, a proposta de Segurança Alimentar já afirmava que a sociedade tinha os recursos, além da capacidade organizativa e tecnológica para solucionar o problema da fome no mundo, algo que foi reiterado pela Cúpula Mundial de Alimentos de 1996, quando se declarou que a disponibilidade de alimentos suficientes para todos era um objetivo que se poderia conquistar, porém, no ano de 2007, o objetivo de reduzir à metade o número de pessoas famintas estava longe de ser conquistado. Também quanto à proposta de Soberania Alimentar, desde os primeiros pronunciamentos, afirma-se que “o problema global da insegurança alimentar pode e deve ser resolvido” (VÍA CAMPESINA, 1996, s.p., tradução nossa), e depois, no Fórum de 2001, reitera-se tal princípio quando se diz que acabar com a fome e a desnutrição se pode conquistar de forma permanente em todos os países, premissa que se manteve ao longo dos encontros que se realizaram no período estudado.
Tanto a proposta de Segurança Alimentar como a proposta de Soberania Alimentar destacaram, na problemática de partida, a feminização da fome e da pobreza e a discriminação da mulher, e reivindicaram a necessidade de adotar a perspectiva de gênero nas políticas e estratégias. Ambas consideram que a eliminação da discriminação da mulher em todos os âmbitos é uma condição prévia, tanto para a conquista de Segurança Alimentar e nutricional das famílias como para a Soberania Alimentar dos territórios e a construção de uma nova sociedade.
Vale destacar que na proposta do capital para a produção e comercialização de alimentos consta o reconhecimento do papel da mulher na produção, distribuição e consumo dos alimentos, a necessidade de garantir o acesso igualitário de homens e mulheres à educação e à capacitação em temas referentes à produção e
comercialização de alimentos, bem como o acesso das mulheres a recursos produtivos, como crédito, tecnologia, terra e água. Tanto é assim que faz parte dos objetivos intermediários do Plano de Ação elaborado na Cúpula Mundial de Alimentos de 199612 para garantir o
entorno político, social e econômico propício à conquista da Segurança Alimentar. Do mesmo modo, o reconhecimento do papel da mulher na agricultura, na pesca, na distribuição e no consumo dos alimentos, como também o acesso e controle dos recursos produtivos e a adoção da perspectiva de equidade de gênero são os princípios mais defendidos na proposta dos movimentos sociais para a concretização da Soberania Alimentar. Com a diferença de que, além do acesso a recursos produtivos, também se fala do direito das mulheres à produção e ao consumo local e se destaca o papel da mulher na preservação e reprodução das culturas alimentares dos povos.
Apesar dos documentos centrais das duas propostas afirmarem reiteradamente sua preocupação com a situação de discriminação da mulher, comprometerem-se a realizar a reparação das desvantagens sociais e econômicas a que historicamente elas foram submetidas, e saberem que nos países pobres as mulheres são as encarregadas da produção dos alimentos e de prover o sustento da família, na prática, o problema da insegurança alimentar das mulheres e de suas famílias ainda permanece. Conforme os dados da FAO, apresentados pelo Relator Especial do direito à alimentação:
Pese a su papel determinante en la seguridad alimentaria, el 70% de los hambrientos del mundo son mujeres o niñas. Las mujeres sufren con frecuencia discriminación en el acceso y control de otros recursos productivos como la tierra, el agua y el crédito pues no suelen ser reconocidas como productoras ni como iguales ante la ley. Según la FAO, aunque la proporción de mujeres cabezas de familia rurales continúa creciendo y supera el 30% en algunos países en desarrollo, las mujeres poseen menos del 2% de la totalidad de la tierra. Pese a sus derechos legales e incluso
12O plano de ação inclusive estabelece a tarefa de “reunir informação sobre os
conhecimentos e práticas tradicionais das mulheres na agricultura, pesca, silvicultura e ordenação dos recursos naturais.” (CMA, 1996, Objetivo1.3. letra h, s.p., tradução nossa).
constitucionales en muchos países, las mujeres siguen tropezando con obstáculos considerables en materia de sucesión, adquisición y control de la tierra. En muchos países, pese a la protección oficial contra la discriminación, las mujeres carecen de acceso real a la tierra, problema que se agrava por la ausencia de derechos sucesorios. (ZIEGLER, 2008, p. 15).
Doze anos depois do Plano de Ação da Segurança Alimentar e do primeiro Fórum de Soberania Alimentar, nos quais este princípio foi reivindicado como chave das ações de ambas as propostas, as mulheres continuam sem ter acesso a terra e a outros meios de produção de alimentos, mantendo-se mais vulneráveis à fome em relação aos homens.
Também há convergência entre as duas propostas no que diz respeito ao reconhecimento da capacidade produtiva dos pequenos agricultores, pescadores artesanais, de comunidades indígenas e de trabalhadores Sem Terra, e da importância de sua contribuição na solução do problema da fome. Contrariando o argumento do monopólio internacional da produção de alimentos, o qual defende que a agricultura camponesa é ineficiente e não satisfaz à demanda local e mundial de alimentos, a proposta de Segurança Alimentar apresentada na declaração de 1974 incentiva os Estados a eliminar os obstáculos que atrapalham a produção de alimentos, realizar reforma agrária, conceder créditos e promover a criação de cooperativas de produtores e consumidores, afirmando que sua participação é determinante no propósito de aumentar a produção de alimentos e de empregos para satisfazer as necessidades alimentares do mundo. Por seu lado, a proposta de Soberania Alimentar também defende o acesso a créditos e a criação de cooperativas, com a diferença de que põe ênfase na capacidade e vontade dos movimentos e das organizações de trabalhadores rurais para produzir alimentos nutritivos, de qualidade e suficientes para responder à demanda local conservando, recuperando e protegendo o conhecimento ancestral que possuem sobre alimentos e agricultura.
Em relação à proteção do meio ambiente, este é um princípio político que, com o nome de “sustentabilidade ambiental”, se encontra presente desde as origens da proposta de Segurança e Soberania Alimentar, com a diferença de que nesta última este princípio tem relação direta com o sistema de produção agrícola promovido, e na primeira não se estabelece este tipo de relação. De acordo com a Vía
Campesina (1996), para manter uma sustentabilidade ambiental precisa- se de “sistemas diversificados, naturais e equilibrados” que substituam modos de produção concentrados nos monocultivos de exportação e dependentes de insumos químicos. Já para a proposta de Segurança Alimentar os problemas ambientais são conseqüências da fragilidade da infra-estrutura e das instituições rurais, do desperdiço de insumos e produtos, da implantação de tecnologias de produção inapropriadas e do uso ineficiente da água e de outros recursos naturais que não se encontram vinculados ao sistema de produção agrícola industrial difundido por eles. Ainda que a Segurança Alimentar também destaque a necessidade de proteger os bosques, as bacias hídricas, a diversidade biológica, esse princípio encontra-se subordinado às diretrizes da OMC. Para a proposta de Segurança Alimentar é importante “tentar garantir o apoio mútuo das políticas relativas ao comércio e ao meio ambiente em favor da Segurança Alimentar sustentável” sempre e quando estas medidas “não interfiram no acesso ao mercado das exportações de alimentos e produtos agrícolas nos países em desenvolvimento”. (CMA, 1996, s.p., tradução nossa).
Por sua vez, ter um contexto político pacífico e estável, em que os alimentos não sejam utilizados como arma de pressão política, é condição prévia para a conquista dos propósitos de ambas as propostas. Para a Segurança Alimentar, é um imperativo fundamental que significa garantir um entorno político, social e econômico propício para os investimentos da iniciativa privada e coletiva na produção de alimentos.
Destaca-se que, segundo a Cúpula Mundial de Alimentação de 1996, garantir condições econômicas e políticas estáveis é imprescindível para a conquista de uma “Segurança Alimentar sustentável para todos” e para acabar com pobreza, por isso, é o primeiro compromisso do Plano de Ação. No documento, solicita-se aos governos a implantação de políticas e estratégias de desenvolvimento econômico e social que propiciem um entorno nacional e internacional favorável aos investimentos da iniciativa privada e pública que, ademais, tenham presente as preocupações demográficas e ambientais.
Desde 1996, a proposta de Segurança Alimentar também defende que os alimentos não devem ser usados como instrumento de pressão política e econômica, e reafirma “a importância da cooperação e solidariedade internacional, assim como a necessidade de evitar implantar medidas unilaterais que não sejam coerentes com o direito internacional, com a carta das Nações Unidas e que não ponha em risco a Segurança Alimentar”. (CMA, 1996, s.p., tradução nossa).
Este princípio foi reiterado posteriormente, com as mesmas palavras, em todos os documentos relacionados ao direito à alimentação, até o ano de 2007, porém, contrariamente aos documentos produzidos pela Soberania Alimentar no mesmo período, não faz alusão específica ao caso cubano. A proposta de Soberania Alimentar denunciou a política norte-americana de bloqueio econômico a Cuba e ao Iraque, assim como a pressão exercida contra os movimentos populares e povos indígenas, restringindo o acesso aos alimentos, rejeitando as guerras e proclamando a paz como uma condição fundamental para a garantia do direito a estar protegido contra a fome e de produzir os próprios alimentos.
Em síntese, as convergências nos critérios orientadores das ações na proposta de Segurança Alimentar e Soberania Alimentar não estão relacionadas com o controle dos meios de produção ou com as características dos processos produtivos nem de comercialização dos alimentos e produtos agrícolas. Por conseguinte, os movimentos sociais que defendem a proposta de Soberania Alimentar deveriam ter presente que não adianta dedicar esforços nem o tempo dos encontros internacionais em discussões e reivindicações de princípios políticos que pertencem ou já foram adotados nas políticas dos organismos multilaterais. Esses movimentos deveriam, sim, concentrar-se em lutar pelos assuntos estruturais que diferenciam drasticamente as duas propostas e dos quais o capital resiste em abrir mão.
1.4 CONDIÇÕES POLÍTICAS E ECONÔMICAS PARA A