A. MİHRİMAH SULTAN İLE BAHR-I SEFİD MUHAFIZI FERİK MEHMED
A.3. DAVETLİLER
Esse construto teórico da análise do discurso, diferente do estilo, manteve suas bases na retórica grega clássica. Embora esse enfoque clássico não faça parte de nosso cabedal teórico, faremos uma breve apresentação.
No cenário da retórica aristotélica, o ethos destaca-se no triângulo retórico criado (ethos, pathos e logos) para explicar um discurso eficaz. São pilares considerados imprescindíveis para o sucesso com a persuasão. Nessa sistemática, o ethos seria a atitude que o orador deveria assumir visando ganhar a confiança do auditório. O pathos seria a paixão, a emoção e os sentimentos que o orador teria de despertar no auditório com seu discurso. Finalmente, porém não menos importante, o logos são fatos lógicos, o lado mais racional do discurso; em outras palavras, as provas que o orador apresenta, por exemplo.
Em palavras mais contemporâneas, Roland Barthes vê o ethos como parte constituinte dos “[...] traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar boa impressão: é o seu jeito [...]. O orador enuncia uma informação e ao mesmo tempo diz: sou isto, não sou aquilo”. (BARTHES apud AMOSSY, 2005). Amossy ao escrever sobre o tema ainda diz: “O modo como as ciências da linguagem resgatam a retórica, mas às vezes também a abandonam, aparece
nas reformulações e debates nos quais surge a noção de ethos.” (AMOSSY, 2005, p. 15). A construção da imagem de si, como denomina Amossy, é engrenagem principal que faz funcionar a máquina da retórica e, consequentemente, está ligada a toda e qualquer enunciação seja oral ou escrita.
Chegamos, portanto, a uma conclusão simples sobre as aspirações greco-latinas (aristotélicas), as afirmações de Barthes e o acabamento dado por Amossy (2005) ao ethos como categoria teórica: é preciso agir e argumentar estrategicamente para poder atingir a moral do debate. O ethos, constituído por alguns elementos essenciais ao procedimento retórico, objetiva dois movimentos no jogo argumentativo: persuadir e promover adesão às teses pelo discurso.
Amossy ainda vai colocar essa categoria como um “princípio transcendental concreto e contrafactivo” (AMOSSY, 2005, p. 45), isso significa dizer que todo orador, do ponto de vista retórico, deve apresentar essa imagem ao seu auditório e buscar defendê-la de maneira eficaz. Vejamos as palavras da autora:
Compreendemos por que a noção de ethos é retomada nos manuais de retórica da idade clássica sob a denominação de “caracteres oratórios”, esclarecida por estudos como os de Aron Kibédi-Vaga e de Michel Le Guern. A questão da autoridade moral ligada à pessoa do orador se recoloca: em um primeiro sentido, trata-se realmente dos seus caracteres reais. Assim, Bourdaloue afirma que “1. o orador convencerá por argumentos, se, para, bem dizer, ele começar por pensar bem. 2. Ele agradará pelos seus modos, se, para, pensar bem, Maingueneauele começar por bem viver”. Bernard Lamy fala das qualidades que devem possuir aqueles que querem ganhar os espíritos. (AMOSSY, 2005, p.18).
Assim, nas palavras em destaque nesse trecho – destaques da própria Amossy – podemos observar que a categoria do ethos vai se encaminhando, cada vez mais, para essa imagem que o enunciador busca construir, em relação ao seu público-alvo, na intenção de provocar a adesão dos espíritos, ou seja, criar certa legitimidade durante a enunciação. Observemos que, para os estudos do discurso, essa noção se torna fundamental, pois a elaboração de um construto teórico desses ajuda a mostrar, na maneira de dizer, se cada discurso pode assumir uma função pré-estabelecida e ideológica.
Sobre o ethos na análise do discurso, Amossy (2005) aponta para os trabalhos de Dominique Maingueneau. E elucida a importância do ethos para essa área de pesquisa:
A elaboração dessa noção como construção de uma imagem de si no discurso é pesquisada nos trabalhos de pragmática e de análise do discurso de Dominique Maingueneau. Em Genèses du discourse foi inicialmente apresentada uma “semântica global” que tenta inserir em um modelo integrativo as diversas dimensões do discurso[...] Na verdade, o enunciador deve se conferir, e conferir a seu destinatário, um certo status para legitimar seu dizer: ele se outorga no discurso uma posição institucional e marca sua relação com um saber. (AMOSSY, 2005, p. 16).
Ainda falando dessa noção para Maingueneau e concebendo-o como um dos teóricos que discute a incidência dessas imagens nos textos escritos e traz a categoria do ethos para a análise dos discursos, e que tem publicações nessa área, nos associamos à sua afirmação de que: “a questão essencial é que o ethos – traduzido em português, mais frequentemente, de maneira bastante infeliz, por “caráter” – está ligado à enunciação, não a um saber extradiscursivo sobre o enunciador”. (MAINGUENEAU, 2008, p. 265). Em seus estudos, o teórico ainda chama a atenção para a construção de uma imagem prévia a que ele denomina de “ethos pré-discursivo (ou prévio)” que nada mais é do que a construção da figura do enunciador antes mesmo dele falar, ou no nosso caso escrever.
A distinção pré-discursivo/discursivo deve, contudo, levar em conta a diversidade de tipos, de gêneros do discurso e de posicionamentos, não podendo ter pertinência em algum plano absoluto. De qualquer modo, mesmo que o destinatário nada saiba antes do ethos do locutor, o simples fato de um texto estar ligado a um dado gênero do discurso ou a um certo posicionamento ideológico induz expectativas no tocante ao ethos. (MAINGUENEAU, 2008, p. 269).
Assim se dá com a autora-criadora em análise nesta dissertação: nós reconstruímos, por meio do percurso histórico da protagonista em questão, o envolvimento dela com movimentos revolucionários, sua nacionalidade cheia de influências da cultura indígena e a beleza exterior a algumas imagens que se dissociaram através de suas telas, sendo estas verdadeiras ou não. Não queremos dizer, com isso, que as imagens a que pretendemos dar acabamento aqui sejam incontestáveis e únicas. No entanto, elas são carregadas de valor expressivo, discursivo e ideológico. Por isso, o mapeamento que nos propomos a fazer é tão importante, pois ele é essencialmente analisado partindo da materialidade linguística e se encaixa na abordagem maingueneauniana que renova o padrão retórico do ethos e o inscreve nas teorias enunciativas, uma vez que traz para o plano do texto essa categoria outrora vista somente na oralidade e permite-nos utilizá-lo para uma caracterização do corpo enunciador.
Para embasar essa afirmação, eis as contribuições de Maingueneau:
[...] optamos por uma concepção primordialmente “encarnada” do ethos, que, dessa perspectiva, abrange não apenas a dimensão verbal, mas igualmente o conjunto de determinações físicas e psíquicas vinculadas ao “fiador” pelas representações coletivas. Este vê atribuídos a si um caráter e uma corporalidade cujo grau de precisão varia de acordo com o texto. (MAINGUENEAU, 2006, p. 271). Diante das assertivas maingueneaunianas, não podemos deixar de compreender o ethos como o resultado da mistura de duas imagens – a que vem do que se ouve dizer, e a que nasce do processo de interação verbal, em outras palavras, da relação eu e o outro – que desembocam em uma única imagem axiológica a que chamamos de ethos. Como ele mesmo afirma, o enunciador ganha atribuições de caráter moral e uma corporalidade carnal.
Portanto, nosso trabalho utilizará a noção de Maingueneau para ethos, pois ele consegue desassociar essa noção da abordagem clássica grega e potencializa sua estrutura na cadeia discursiva dos enunciados. Nessa perspectiva, Maingueneau assevera:
Fui levado a trabalhar essa noção de ethos no quadro de análise do discurso e sobre corpora de gêneros “instituídos”, que oponho aos gêneros “conversacionais”. A perspectiva que defendo ultrapassa em muito o domínio da argumentação. Para além da persuasão por meio de argumentos, essa noção de ethos permite refletir sobre o processo mais geral de adesão dos sujeitos a um certo discurso.
E continua:
Fenômeno particularmente evidente quando se trata de discursos como a publicidade, a filosofia, a política etc., que – diferentemente dos discursos que revelam de gêneros “funcionais”, como os formulários administrativos e os manuais de instrução – devem ganhar um público que está no direito de ignorá-los ou recusá-los. (MAINGUENEAU, 2008, p. 20).
Por conseguinte, e também nessa mesma tônica, Charaudeau (2006) afirma que o ethos também faz parte de um imaginário social, ou seja, a identidade do sujeito passeia por representações sociais que nada mais é do que a realidade permitida por relações que circulam em determinados grupos sociais em volta do sujeito “fiador” e que Charaudeau também chama de “imaginários sociodiscursivos”, pois
[...] a visão que uma sociedade tem do corpo depende dos imaginários coletivos que ela constrói para si. Diremos que o ethos apóia-se em um duplo corporal e moral ou que é um imaginário que, aqui, se “corporifica”. [...] Na medida em que o ethos está relacionado à percepção das representações sociais que tendem a essencializar essa visão, ele pode dizer respeito tanto a indivíduos quanto a grupos. (CHARAUDEAU, 2006, p.117).
Vale salientar que a imagem construída do enunciador por seus coenunciadores não é necessariamente espontânea e que por muitas das vezes pode não coincidir com aquilo que o enunciador pensa e até mesmo formula para si. Em sua grande maioria o ethos é construído e reconstruído por causa dessas pessoas que oscilam na cena enunciativa, sendo assim o enunciador pode sim construir uma “imagem de si” que não era pretendida por este. A respeito disso Charaudeau (2006, p. 120) alerta: “[...] o ethos não é totalmente voluntário [...], tampouco necessariamente coincidente com o que o destinatário percebe”.
Diante de tal implicatura nos cabe pontuar que não trataremos como verdade absoluta as imagens que o discurso, presente nas Cartas de Frida Kahlo, constrói, mas que é por esse rastro escrito deixado pela autora que mapearemos os ethé passionais que este recorte nos possibilitar.
Ainda versando sobre a categoria teórica da análise do discurso – o ethos – achamos pertinente colocar ainda que essa camada discursiva está situada dentro de um paradoxo gerado pela filosofia contemporânea e que Charaudeau explica muito bem quando afirma:
O ethos encontra-se no centro desse paradoxo que sustenta a filosofia contemporânea, que, mesmo sabendo que o sujeito não é um (Nietzsche), que ele é dividido (Lacan), quer fazer como se fosse de fato um todo. Trata-se de uma concepção idealizada da existência do sujeito, que pode ser aplicada ao sujeito do discurso e que (é a nossa hipótese) guia a comunicação social na qual se constrói o ethos. (CHARAUDEAU, 2006, p. 116).
Assim, buscamos, ao utilizar a categoria teórica ethos, as marcas que poderiam nos auxiliar em sua investigação. Inúmeras são as saídas que poderíamos tomar diante dessa necessidade, dentre elas podemos citar os tipos de comportamentos dos sujeitos – que enxergamos no tom do dizer, nos gestos e nas maneiras de falar – e o conteúdo de seus horizontes discursivos, suas propostas comunicativas. A esse respeito, Charaudeau (2006, p. 118) assegura:
Não se pode separar o ethos das ideias, pois a maneira de apresentá- las tem o poder de construir imagens. Desse ponto de vista, [...] às vezes, os atores políticos, para explicar a derrota eleitoral de seu líder, dizem: “Suas ideias são boas, mas o personagem não tem carisma suficiente”. Separar as ideias do ethos é sempre um álibi que impede de ver que, em política, aquelas não valem senão pelo sujeito que as divulga, as exprime e as aplica.
Aqui, especificamente, o teórico esboça sua ideia analisando o discurso político na modalidade oral. Em nosso caso, trabalharemos com enunciados escritos, mas uma modalidade não neutraliza a outra, pelo menos não do ponto de vista enunciativo. São apenas modalidades que se realizam de maneiras distintas, mas que permitem essa investigação.
Dessa forma, por encabeçarmos uma pesquisa que se instaura nos terrenos de teorias enunciativas, e mais especificamente bakhtiniana, é que optamos por aliar ao ethos a noção de estilo individual. Na busca por acompadrar a noção teórica de ethos ao estilo individual, concepção alicerçada em Bakhtin (2003), é que focaremos em alguns aspectos como: o registro linguístico, a macroestrutura do gênero, o planejamento discursivo, as modalizações do dizer, o estilo, entre outras. São essas características que nos darão as pistas para perseguimos o ethos nas cartas de Frida Kahlo.
Por outro lado, a interpretação dessas pistas podem, em alguns casos, não agradar o enunciador. Elas podem não atender aos interesses de quem enuncia. Não devemos esquecer jamais que essa imagem social – consciente ou inconsciente, voluntária ou involuntária –, por ser de adesão, favorece o status e o papel atribuídos ao enunciador no jogo dialógico da enunciação.
Assim, vai nos preocupar, nesta pesquisa, observar e elucidar a relação entre essas marcas do estilo individual e o ethos discursivo, que ganha vida nas definições do coenunciador e pode ser mostrado no texto, nesse caso, escrito. Preocupa-nos, também, destacar que perscrutar o estilo individual, para a ADD, é investigar também os diferentes ethé que se manifestam nessas cartas pessoais. Em outras palavras, é a maneira como Frida organiza esses enunciados, o modo que ela escolhe para falar estabelece relações dialógicas com a materialidade linguística. Dessa forma, tanto o ethos quanto o estilo individual estão fundidos em cada enunciado.
Assim sendo, essas duas categorias discursivas terminam criando imagens diante da sociedade, e desembocando em imagens que transitam nas rodas sociais. Essas imagens, que são singulares por causa da carga ideológica que as rodeia, são construídas através do estilo individual e confirmadas pelo ethos discursivo, sendo, por fim, guiadas
pelo sujeito produtor, ou, como chama Bakhtin (2003), o autor-criador. Em nosso caso, autora-criadora.
Para finalizar, gostaríamos de trazer a voz de Bakhtin (2003, p. 366), quando este afirma:
A grande causa para a compreensão é a distância do indivíduo que compreende – no tempo, no espaço, na cultura – em relação àquilo que ele pretende compreender de forma criativa. Isso porque o próprio homem não consegue perceber de verdade e assimilar integralmente nem a sua própria imagem externa, nenhum espelho ou foto o ajudarão; sua autêntica imagem externa pode ser vista e entendida apenas por outras pessoas, graças à distância espacial e ao fato de serem outras.
Pretendemos, aqui, amparados pelas vozes de Bakhtin, Maingueneau, Charaudeau, Amossy, Paz, Bauman, e tantos outros sujeitos que pensam o funcionamento social através da linguagem, dar acabamento estético às imagens verbo- axiológicas de Frida Kahlo. No entrecruzamento do estilo individual e ethos discursivo é que buscaremos as respostas para nossas indagações epistêmicas. Não pretendemos apontar para a única imagem valorada, mas esperamos encontrar, ao menos, um ethos discursivo, colorido pelas escolhas estilísticas, que tenha sustentação na materialidade linguística – no nosso caso nas cartas pessoais.
4 EM BUSCA DOS ETHÉ DE FRIDA: A CONSTRUÇÃO DAS IMAGENS VERBOAXIOLÓGICAS DIANTE DOS SEUS AMORES
Figura 6 – Foto do acervo pessoal de Frida, publicada no livro Frida Kahlo: suas fotos10
Neste capítulo trataremos da noção de enunciado embasados pela teoria bakhtiniana e explicaremos, de uma maneira mais detalhada, como fizemos as escolhas que resultaram no corpus dessa dissertação.