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Nas últimas décadas, a doutrina neoliberal determinou, com uma certa hegemonia, os rumos das políticas públicas no Brasil, subordinando as funções do Estado aos interesses do mercado e reduzindo em muito os investimentos em políticas sociais que pudessem superar os elevados níveis de desigualdade social.

Essa política neoliberal não apenas manteve práticas conservadoras de gestão pública, como fortaleceu paradigmas e modelos tecnocráticos e clientelistas de administração da vida pública, através de mecanismos que inibiram ainda mais a participação da sociedade na construção de suas políticas. A gestão do interesse público passa a ser entendida como prerrogativa de técnicos e especialistas, sendo negado à população o direito de discutir, analisar e acompanhar os rumos das políticas a serem implementadas pela administração local. (ROMÃO, 2000; GADOTTI, 2000a).

O fato é que, além da pouca tradição democrática e de participação da população brasileira na gestão da esfera pública da vida, por conta de regimes autoritários, as políticas neoliberais consolidadas neste período recente nunca priorizaram o efetivo desenvolvimento da cultura da participação da população na gestão do interesse público.

É neste contexto que a escola pública brasileira vem tentando efetivar os princípios da gestão democrática estabelecidos na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Contudo, não são poucos os embaraços e dificuldades que enfrenta para, de fato, se constituir espaço efetivamente público e democrático comprometido com os interesses da população.

Os colegiados escolares constituídos na escola devem ser entendidos como agentes estratégicos para a efetiva democratização da gestão escolar e

consequente consolidação da sua autonomia político-pedagógica expressa num amplo projeto escolar. Esse processo, ao nosso ver, contempla alguns desafios.

Transformar o projeto político-pedagógico da escola em objeto de estudo e acompanhamento do colegiado escolar, que deve ampliar a sua participação na gestão política e pedagógica da escola, além da tradicional atuação sobre os aspectos administrativos e disciplinares aos quais historicamente está associada.

O processo de fortalecimento do conselho de escola inclui atitudes e ações internas tomadas pela equipe pedagógica – diretor, coordenador pedagógico e professores –, que favoreçam uma maior participação dos demais segmentos na tomada de decisões sobre os assuntos estratégicos da escola, não apenas os relacionados a processos secundários e pouco relevantes, quase sempre de ordem meramente burocrática.

Os representantes de pais, de alunos e de funcionários de apoio escolar devem participar, no âmbito do conselho de escola, das decisões diretamente relacionadas às funções sociais atribuídas à escola. Mas, para isso, é fundamental que o próprio conselho, quando reunido, garanta uma pauta de reunião não apenas deliberativa, mas, prioritariamente, formativa, prevendo momentos de estudo e aprofundamento de entendimentos relacionados ao projeto da escola, capaz de qualificar a participação e envolvimento de todos os segmentos nos assuntos políticos e pedagógicos dela. Com isso, a escola pública cria condições para a comunidade usuária dos seus serviços vivenciar a cidadania através do controle social que passa a exercer sobre a escola e sobre o seu sistema de ensino.

A realização de encontros regulares entre o Conselho Municipal de Educação (CME) e colegiados escolares para avaliação da rede ou sistema de ensino e ainda acompanhamento dos investimentos em educação, deve ser considerada no planejamento institucional de uma rede ou sistema de ensino que busca, de fato, o fortalecimento da autonomia da escola. E este aspecto se apresenta como um segundo importante desafio.

No processo de construção de uma gestão pública democrática, ao Conselho Municipal de Educação, pelas atribuições que lhe são conferidas, está reservado importante papel não só de natureza fiscalizadora e deliberativa, mas também formativa, através de movimentos e iniciativas que deem maior visibilidade ao seu próprio trabalho e importância no município e estimulem uma maior participação da

população nas discussões e acompanhamento das políticas educacionais em desenvolvimento na cidade, no âmbito de cada unidade escolar.

A aproximação do Conselho Municipal de Educação com os colegiados escolares de cada unidade se apresenta como uma promissora oportunidade formativa que pode favorecer uma melhor compreensão e entendimento dos relatórios de prestação de contas e de investimentos em educação aprovados pelo CME e ainda o acompanhamento da execução do Plano Municipal de Educação, que podem ser estudados pelos colegiados escolares através de fluxos internos criados pela própria rede ou sistema, levando a escola a potencializar o seu projeto, enquanto a rede, e ou sistema de ensino, alimenta o seu planejamento estratégico das indicações formuladas nos projetos político-pedagógicos de cada escola, validando as prioridades da rede a partir das demandas indicadas pelas unidades.

Perseguir uma convivência escolar que se revele democrática e promova o desenvolvimento da autonomia das pessoas deve ser considerado nesse processo de construção de um projeto de escola como um terceiro importante desafio.

As oportunidades de aprendizagem escolar devem ser garantidas a todas as pessoas, sejam eles crianças, jovens, adultos, estudantes, profissionais e usuários da escola. A construção de uma ambiência escolar que promove amplas oportunidades de aprendizagem a todos exige a revisão da estrutura de poder e autoridade nela instituída, conduzindo os personagens que historicamente detiveram maior poder de decisão sobre os assuntos estratégicos da escola a uma atitude de abertura para a participação de outros sujeitos que protagonizam o cotidiano escolar, viabilizando assim o cumprimento dos princípios constitucionais de uma gestão pública democrática. (ROMÃO, 2000).

Aos sujeitos adultos que da escola fazem parte, estão reservados importantes papéis e oportunidades educativas, quando inseridos numa gestão democrática. Pais e funcionários de apoio educacional ampliam sua fluência e interferência nos assuntos pedagógicos da escola. Professores e equipe gestora desenvolvem habilidades e práticas pedagógicas e sociais mais democráticas quando assumem uma maior atitude educadora junto à comunidade local.

Mas também estão reservadas às crianças e adolescentes, estudantes da escola, inúmeras possibilidades educativas quando vivenciam uma ambiência onde os adultos assumem compromissos mais democráticos de participação, podendo manifestar de forma direta ou por representação suas vontades e desejos para com

os diversos aspectos que envolvem o cotidiano da escola. Desse modo, a escola passa a reconhecer a infância como portadora de direitos fundamentais, que incluem a participação na esfera pública da vida, se transformando num importante espaço para o exercício da cidadania desde a infância.

É possível pensar um projeto de escola que valorize a subjetividade da vida e não apenas planifique ações e estratégias para a melhoria de determinados processos pedagógicos. Dialogar com a comunidade sobre as concepções que todos querem ver impregnadas no cotidiano escolar, vivenciando a experiência da Leitura do Mundo numa perspectiva crítica e utópica, formulando planos de ação conjunta para a construção de uma escola que se apresente como a imagem e semelhança de todos os adultos e crianças que dela fazem parte, possibilita o fortalecimento de uma intersubjetividade crítica e mobilizadora, exercício fundamental da ação transformadora. Neste sentido, quando a escola ousa pronunciar a sua própria palavra, construindo um projeto que expressa o desejo da sua comunidade, cumpre um importante papel social no bairro e na cidade e desafia o próprio Sistema de Ensino a se rever e a se recriar, de modo a potencializar a autonomia de cada unidade educacional que o compõe. (GADOTTI, 2000a; PADILHA, 2007b; ROMÃO, 2000).

Benzer Belgeler