3. PERA’DA RESİM ÜRETİM ORTAMI (1844-1916)
3.2.1. Darüşşafaka Okulu
A revolta do Contestado foi o maior conflito campesino no século XX no Brasil. Milhares de pessoas morreram nos confrontos com os militares O referido conflito aconteceu no planalto catarinense e paranaense entre 1912 e 1916. Nessa região havia muitos monges peregrinos os quais difundiam a religiosidade popular. Dentre eles, havia um chamado João Maria. Este, na segunda metade do século XIX teria profetizado a vinda de gafanhotos de aço que comeriam toda a madeira e dragões que soltariam fogo pelas ventas. O curioso é que no começo do século XX a empresa Brasil Railway10 recebeu do governo uma concessão para
explorar madeira na região do Contestado.
Já no final do século XIX surgiu outro monge também chamado João Maria. A respeito dele, dizia-se que após a Guerra do Paraguai passou a peregrinar no sertão entre Rio Grande do Sul e Mato Grosso a fim de cumprir uma promessa. Para os sertanejos João Maria possuía poderes especiais de cura. Quando os doentes o procuravam, o monge receitava-lhes um chá de vassourinha do campo (QUEIROZ, Maurício, 1977). Para os sertanejos o milagre da cura dependia não do chá, mas no ato do monge em indicar sua ingestão. Também acreditavam que ao tocar determinados lugares como nascentes de águas ou pedaços de chão onde cresciam plantas, esses lugares se tornavam sagrados. Os sertanejos também o consideravam um sacerdote, de modo que o monge realizava batismo e casamentos. Era reconhecido como um profeta.
A região do Contestado era constituída de muitos caboclos e abundavam as expressões religiosas com dimensões extáticas. Era comum encontrar curandeiros, benzedeiros, adivinhos
10 Em 1908, no mesmo ano em que desapareceu João Maria e seus crentes passaram a julgar que ele estivesse
encantado no Morro Taió, o engenheiro norte-americano Achilles Stengel, nomeado superintendente dos trabalhos de construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, montou em Calmon, em plena zona contestada, e ali pôs em funcionamento o escritório central da obra. Dois anos antes, os trilhos partindo de São Paulo, haviam chegado a União da Vitória e tinha sido inaugurada uma ponte sobre o Rio Iguaçu. Até aquela época a concessão da estrada pertencia a uma companhia francesa, mas essa cedera os seus direitos à Brazil
Railway Company, organizada na cidade de Portland, Estados Unidos. Em pouco tempo a Railway, além da
Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, controlava toda a rede ferroviária gaúcha, geria a Sorocabana, possuía vultosos interesses na Paulista, na Mogiana e na Madeira-Mamoré, obtinha os direitos da Vitória-Minas, dirigia a Port of Pará no extremo-norte e a Companhia do Porto Grande do Sul, dispunha de armazéns frigoríficos e indústrias de papel, empresas pecuárias, madeireiras, de colonização (QUEIROZ, Maurício, 1977, p. 69).
e outras práticas sobrenaturais. Os benzedeiros usavam de fórmulas mágicas para curar animais, enquanto as benzedeiras eram responsáveis pela cura de pessoas. Havia milagreiros que também eram profetas e exorcistas. Estes realizavam com frequência reunião nas casas a fim de expulsar os demônios e toda sorte de males. As comunidades sertanejas consideravam essas pessoas possuidoras de uma graça divina especial e, por isso, gozavam de certo prestígio e
status.
João Maria pregava mensagens apocalípticas, pois segundo ele o fim do mundo estava próximo. A destruição deste mundo seria “precedida de muitos castigos de Deus, como pragas de gafanhotos e de cobras, uma epidemia de chagas e uma escuridão que duraria três dias” (QUEIROZ, Maurício, 1977, p. 61). Suas crenças escatológicas eram anunciadas através de profecias que indicavam que antes do fim aconteceria uma guerra que causaria a morte e derramamento de muito sangue. João Maria também dizia que a República era um sistema de governo demoníaco. Apesar das críticas ao modelo republicano, os coronéis não se sentiram incomodados com João Maria e o consideravam mais um vagabundo.
A partir de 1910 não se ouviu mais falar do monge João Maria, tendo em vista que foi considerado desaparecido. Todavia, em 1912 surgiu na cidade de Campos Novos, interior de Santa Catarina, um curandeiro chamado José Maria. Sua fama se espalhou rápido, tendo em vista que muitos milagres de cura lhe foram atribuídos. Não demorou muito para que caravanas de doentes viessem à procura do curandeiro José Maria. Esse monge se “autodenominava ser o irmão do João Maria, logo fazia parte de uma linhagem sagrada” (HERMANN, 2014, p. 150). O monge José Maria conseguiu reunir muitos discípulos e se instalaram em Taquaraçu, cidade próxima a Curitibanos. Essa comunidade possuía suas cerimônias religiosas, mas também um aparato paramilitar. Em seus sermões, José Maria pregava contra a República e pedia a volta da Monarquia.
A maioria dos adeptos do monge era constituída de pequenos agricultores que viviam da plantação do milho e da criação de gado. Havia também negros, italianos, alemães poloneses, paraguaios, argentinos e uruguaios. Não se registravam desavenças relacionadas com a cor da pele. As mulheres, além dos trabalhos domésticos, também trabalham na agricultura no cultivo de milho e feijão; raramente alguma delas ia para os campos de batalha. Todavia, existiam as virgens inspiradoras, as quais iam à frente do grupo para guiá-los na luta (QUEIROZ, Maurício, 1977). Quando José Maria morreu, eram elas que intermediavam o contato entre o monge e seus adeptos.
Havia outras comunidades menores que estavam ligadas ao centro de comando liderado pelo monge, de modo que um dos pré-requisitos para ser aceito era se declarar crente do monge.
Os redutos maiores foram Taquaraçu, Caraguatá, Santa Maria e Tamanduá. Mas além desses verdadeiros centros mais ou menos fortificados, havia grande número de menores, espalhados pelo mato, e servindo em geral de defesa ou de guarda-avançada aos outros: Santo Antônio, Pedras Brancas, Corisco, Timbozinho, Perdizes Grandes, etc (QUEIROZ, Maria, 1965, p. 253).
Essa comunidade religiosa em Taquaraçu despertou a preocupação do coronel Francisco de Albuquerque, chefe político de Curitibanos. O coronel Chiquinho, como era chamado, enviou uma carta ao governo do estado na qual dizia que a comunidade em Taquaraçu era desordeira e antirrepublicana. Desse modo, solicitava a intervenção militar no local. Todavia, José Maria se antecipou e o grupo se deslocou para o município de Palmas, no Paraná, onde prosseguiram com suas atividades. Dia após dia mais pessoas das regiões vizinhas se uniam ao grupo.
Para o governo paranaense esse ato consistiu em invasão do território do Paraná por catarinenses. Desse modo, enviou um aparato policial a fim de expulsar o monge e os demais sertanejos de Palmas. Nesse confronto José Maria foi morto. No final de 1913 o grupo voltou a se agrupar em Taquaraçu, tendo Euzébio Ferreira dos Santos como líder. Sua neta Teodora tinha experiências extáticas e numa de suas visões disse que “viu o monge no céu, o qual lhe ordenara que fundasse uma Cidade Santa em Taquaruçu” (QUEIROZ, Maurício, 1977, p. 250). Esse lugar seria a Nova Jerusalém e ali os adeptos deveriam esperar o retorno do monge José Maria.
Mais uma vez o coronel Francisco de Albuquerque intercedeu junto ao governo do estado para que fosse realizada uma intervenção na comunidade. Em dezembro de 1913 quando os soldados chegaram a Taquaruçu foram surpreendidos pela resistência armada dos sertanejos e abandonaram o local. Entretanto, dois meses depois aconteceu nova intervenção, sendo que desta vez os militares usaram metralhadoras e canhões. Sem condições de manter a resistência os adeptos de José Maria fugiram de Taquaraçu e se estabeleceram em Caraguatá. O governo federal decidiu intervir mais uma vez. O general Mesquita, o mesmo que havia comandado a destruição de Canudos, foi nomeado chefe da expedição militar para por fim à comunidade sertaneja. Os últimos resistentes foram derrotados pelos militares em agosto de 1916.
No limiar do período republicano brasileiro surgiu no Nordeste brasileiro o movimento religioso popular liderado pelo padre Cícero Romão Baptista 11. Poderíamos chamar esse
movimento de messiânico-milenarista? Analisemos. O início da República é marcado por um
11 Padre Cícero nasceu na região do Crato em 1844. Foi ordenado padre em 1870 e dois anos depois chegou a
enorme contingente de pessoas marginalizadas. O monopólio da terra deflagrou uma série de conflitos rurais no Brasil ao longo da história republicana e o movimento de sertanejos em Juazeiro teve na religião popular a expressão de luta contra a exclusão social. Foi através do catolicismo popular que os sertanejos construíram sua identidade, que era ao mesmo tempo autônoma e marginal (HERMANN, 2014).
O Padre Cícero, ainda na época do seminário, já tinha certas tendências místicas, ao passo que teria recebido revelações através de sonhos. Sua ida para Juazeiro é atribuída a um sonho que teria tido onde Cristo lhe apareceu junto com 12 homens. Em março de 1889, conta- se que Padre Cícero celebrava uma missa em Juazeiro, quando uma beata solteira de 28 anos chamada Maria de Araújo desmaiou depois de ter ingerido a hóstia. Momentos depois essa hóstia teria se transformado em sangue em sua boca. Esse ocorrido foi interpretado como sendo o sangue de Cristo e, por conseguinte, um milagre. Todavia, tal ato foi desaprovado pela Sagrada Inquisição Romana. Mesmo assim “o aumento das peregrinações ao lugar transformaram Juazeiro em um centro potencialmente explosivo e, em diversos momentos, fora de controle” (HERMANN, 2014, p. 135).
O milagre trouxe outros desdobramentos para Juazeiro. Mulheres que teriam presenciado a transformação da hóstia em sangue começaram a ter experiências de êxtase como revelações, sonhos e visões, nos quais diziam que o milagre era o prelúdio do fim do mundo; mas antes disso a fé católica estaria sendo restaurada. Como sacerdote e político o Padre Cícero realizou muitas atividades sociais, além do pacto dos coronéis, no qual intencionava o fim dos conflitos armados entre os fazendeiros e não dar apoio aos cangaceiros. Neste contexto, Juazeiro era a Nova Jerusalém e o padre Cícero apóstolo e profeta. Estes são aspectos importantes de movimentos messiânico-milenaristas.
Num documentário produzido pela TV Assembleia do Ceará um dos entrevistados disse que “Padre Cícero representa para os romeiros uma das santíssimas trindades no céu, na expressão dele. Para outros um dos doze apóstolos e para os videntes um daqueles que fazem parte de um dos cinco dedos de Jesus Cristo” (https://www.youtube.com/watc. Acesso em 09/03/2015). Até aqui, percebe-se que a linguagem mítica é um componente importante nos milenarismos. Mas isso não significa que a referida linguagem é irracional. Ela apenas tem uma lógica e dinâmica própria, tendo em vista que a linguagem mítica tem elementos fundados em racionalidades. Talvez uma pergunta aqui seja necessária: os grupos religiosos de mentalidade rural são mais propensos a crenças milenaristas, ao passo que os grupos religiosos de mentalidade urbana estabelecem uma dialética diferente com as especulações escatológicas,
sem deixar, é claro, de falar do paraíso perdido? Há elementos que reforçam esta ideia, de modo que ela será discutida mais adiante.