Na economia islâmica, o Estado desempenha duas funções importantes: em primeiro lugar, fornece segurança social para o seu povo e, em segundo, mantém o equilíbrio social na sociedade168. É possivel perceber que há uma visão de Estado de bem-
estar social para o autor, talvez não formado da mesma forma em que temos estes conceitos na atualidade.
Os autores islâmicos irão compreender o Estado com um papel maior, não somente o que supre o sentido material, mas cabendo a este Estado também suprir em sentido espiritual e moral169.
O Estado, de acordo com Assadr, fornece segurança social em duas fases. Na primeira fase, oferece diferentes oportunidades de trabalho para o seu povo, para que eles
166 “O Islã permite a interferência do Imam na produção com as seguintes bases de justificação:
Primeiro, a fim de capacitar o estado a garantir o limite mínimo de produção da mercadoria necessária e o limite máximo que seja possível se ultrapassar. É evidente que a gestão dos projetos privados em conformidade com a vontade e o capricho de seus donos de maneira não-dirigida centralmente por uma autoridade legal levará a períodos de complicação e concentração da produção expondo-a a extravagância e ao desperdício por um lado e à escassez em relação ao mínimo por outro, é direito do Estado garantir a produção social gerindo seu curso entre esses dois limites de excesso e escassez, supervisionando-a.” (ASSADR. 2012, p.588.)
167 “[...] a legislação islâmica concernente à distribuição das matérias primas (riquezas naturais)
cria, por natureza, espaço para que o Estado interfira e supervisione toda a vida econômica, uma vez que a legislação a esse respeito faz do trabalho direto uma condição básica para a apropriação sobre as riquezas naturais e a aquisição de algum direito especial de acordo com a declaração jurídica mencionada em algumas estruturas superiores as šari‘ah, o que significa a impossibilidade de que em indivíduo estabeleça um grande projeto de investimento sobre a matéria prima ou riquezas naturais, quaisquer que sejam seus recursos, enquanto não adquirir o direito sobre esta matéria prima pelo trabalho direto.” (ASSADR, 2012, p.589)
168 “O princípio da responsabilidade pública recíproca é a primeira base do princípio da seguridade
social. O Islã a prescreveu aos muçulmanos como uma fardul kifayyah (ato obrigatório). Constitui o auxilio e a manutenção de alguma pessoa a outra e é dever de um muçulmano dentro dos limites de seus recursos e capacidade. Ele deve cumpri-lo da mesma maneira que todos os seus outros deveres”. (ASSADR, 2012, p.592)
169 “But the Islamic concept the Welfare State differs fundamentally from the prevailing notion of
the same. Because its concept is so comprehensive in nature that the Welfare State in Islam aims at achieving the total welfare of mankind of which economic welfare is merely a part”. (Mannan, 1995, p.371)
possam ganhar seu próprio sustento170. No entanto, quando um indivíduo é incapaz de
executar o trabalho ou quando o Estado não lhe fornece qualquer oportunidade de trabalho171, então vem a segunda fase, em que o estado faz pronta disponibilidade de uma
quantidade adequada de dinheiro para que a pessoa possa cumprir suas necessidades básicas172.
O autor afirma que a segurança social tem sua base em dois princípios doutrinários da economia islâmica. Um deles é a responsabilidade recíproca pública e o segundo é o direito das sociedades sobre os recursos naturais do Estado. Com base no princípio da responsabilidade recíproca pública, é obrigatório para um muçulmano ajudar seu irmão muçulmano em tempos de necessidade, e essa ajuda é obrigatória, mesmo após o pagamento do zakat 173.
Assadr enfatiza que um muçulmano não pode deixar outro muçulmano em isolamento se possui potencial para ajudá-lo. Se isso acontecer, então o Estado pode obrigá-lo à força, com base no princípio da responsabilidade pública recíproca, a fornecer suporte e manutenção para os muçulmanos necessitados. No entanto, tal compulsão será confinada somente até a satisfação das necessidades básicas174.
170 “Ele foi Quem vos criou tudo quando existe na terra; então, dirigiu Sua vontade até o
firmamento do qual fez, ordenadamente, sete céus, porque é Onisciente.” (Corão 2:29) “ Esse direito significa que todo indivíduo da sociedade tem o direito ao benefício decorrente das riquezas naturais e uma vida honrada por meio disso. Portanto, qualquer um que seja apto a trabalhar em qualquer setor público ou privado, constituirá uma função do Estado proporcionar a ele uma oportunidade de trabalho, dentro os limites de sua capacidade, e aquele que não tiver esta oportunidade ou estiver incapacitado para utilizá-la, disporá do beneficio das riquezas naturais e dos meios de sua subsistência num honrado padrão de vida, o que será responsabilidade do Estado”. (ASSADR, 2012, p. 597)
171 Não só de trabalho, mas Mannan (1995, p.373) irá abordar que deverá implantar o sistema
através da área educacional, já que a habilitação irá oferecer as oportunidades de trabalho adequadas ao homem.
172 “Aqui cabe ao Estado satisfazer as necessidades básicas do indivíduo tais como: alimentação,
moradia e roupas, e a satisfação dessas necessidades estará junto ao tipo e na quantidade de manutenção do padrão de vida de acordo com as circunstâncias da sociedade muçulmana. De modo idêntico, cabe ao Estado satisfazer todas as necessidades de um indivíduo, além de suas necessidades básicas, necessidades que entram no sentido islâmico de manutenção de acordo com a elevação do padrão de vida da sociedade islâmica”. (ASSADR, 2012, p.595)
173 O zakāt é o imposto já direcionado pelo Estado para o auxilio, sendo um dos pilares do Islã,
mas será colocado por Qtub (2000,p.167) como: “For, in fact, the zakat is the lowest limit of statutory duties on property, and it stands alone only when society does not require any additional income. But when zakat is not enough, Islam need not feel that its hands are tied; on the contrary , it gives the ruler wide power to assign levies on capital- that is to say, forced contributions from capital at a reasonable rate – subject always to the permanent limitations of its own welfare”.
174 “Há uma tradição fiel de fonte em Sama’ah que relata que ele perguntou ao Imam Jafar (A.S.):
Quanto à segurança social com base no princípio das sociedades do direito sobre os recursos naturais do Estado, o autor observa que a base teórica deste princípio reside na crença islâmica sobre a criação de recursos naturais e que esses recursos foram criados para a sociedade como um todo e não para qualquer seção particular de classe ou grupo175.
Assadr chega à conclusão de que todos os indivíduos da sociedade têm o direito de obter os recursos naturais do Estado. No entanto, ao contrário da segurança social com base no princípio da responsabilidade pública recíproca do Estado, baseada no princípio de "povo", o Estado tem direito sobre os recursos naturais e é diretamente responsável pelo suporte e manutenção de seus sujeitos carentes e desamparados.
Ele afirma ainda que o Estado, com base neste princípio, não é apenas responsável para satisfazer as necessidades básicas de seus súditos, mas tem também o dever de estabelecer um padrão mínimo de vida na sociedade e proporcionar facilidades para cada indivíduo até esse padrão de vida. Ele observa que os textos legislativos relativos ao Estado a respeito de responsabilidade direta sobre a segurança social são muito claros em sua ênfase na responsabilidade direta do Estado e sobre o fato de que esta é uma garantia de manutenção. Apesar de se manter o equilíbrio social em uma sociedade islâmica, Assadr afirma que o Islã procede de duas verdades básicas, uma universal e outra doutrinária. Quanto à verdade universal, é a diferença que existe entre os membros individuais da espécie humana quanto às suas diversas aptidões mentais, intelectuais e
severa necessidade e o zakat não lhes é suficiente. Podem comer até se satisfazerem enquanto seus irmãos estão famintos? É uma época difícil”. Respondeu o Imam: “Um muçulmano é irmão de outro muçulmano, não será injusto com ele, não o abandonará numa má situação, nem o privará. É dever de um muçulmano se esforço ( no auxílio), manter as relações fraternas, cooperar um com o outro e ser solidário com aqueles que estão em necessidade”. Em outra tradição (declara-se que) Imam Jafar Assadeq (A.S.) disse: “Quem quer, dentro os fiéis, que negue a um fiel algo de que esteja necessitando, quando pode dar a ele daquilo que possui, será ressuscitado no Dia do Juízo com sua face enegrecida, cego e com as mãos atadas à seu pescoço. E então será dito: “Este é um fraudador que agiu desonestamente para com Deus e Seu Mensageiro”. Em seguida será enviado ao Inferno”. (ASSADR, 2012, p.593)
175 “Tudo quanto Deus concedeu ao Seu Mensageiro, (tirado) dos bens deles (dos Bani Annadhir),
não tivestes de fazer galopar cavalo ou camelo algum para conseguir (para transportar). Deus concede aos Seus mensageiros o predomínio sobre quem Lhe apraz, porque Deus é Onipotente. Tudo quanto Deus concedeu(1625) ao Seu Mensageiro, (tomado) dos moradores das cidades (1626), corresponde a Deus, ao Seu Mensageiro e aos seus parentes, aos órfãos, aos necessitados e aos viajantes; isso, para que (as riquezas) não sejam monopolizadas pelos opulentos, dentre vós. Aceitai, pois, o que vos der o Mensageiro, e abstende-vos de tudo quanto ele vos proíba. E temei a Deus, porque Deus é Severíssimo no castigo.” (Corão 59:6-7) Os versículos relacionados da surata especificam a função de “fay” e sua parte na sociedade islâmica em sua competência de setor público. Encontramos aqui a declaração da base na qual a ideia de seguridade social se estabelece a base no direito de toda sociedade aos bens naturais (para que as riquezas não sejam monopolizadas pelos opulentos).
físicas, sendo que essas diferenças são vistas pelo Islã como naturais176. Portanto, de
acordo com Assadr, não é nem possível para uma teoria realista descartá-la, nem por qualquer ordem social para aboli-la por meio de legislação.
Quanto à segunda verdade da lógica islâmica para o tratamento da questão do equilíbrio social, é lei doutrinal (econômica) da distribuição, que afirma que é o trabalho a base da propriedade privada e de todo e qualquer direito sobre ela, portanto, de acordo com o autor, o Islã incide sobre o padrão de vida e não a parcela da renda entre os membros individuais da sociedade177.
O sentido da norma é que a riqueza deve circular entre as pessoas em um grau que iria dar a cada membro individual da sociedade um padrão comum de vida. Isso, entretanto, afirma que Assadr não quer dizer que o Islã ordena criar este estado em um momento, mas que aponta o equilíbrio social do padrão de vida como meta e objetivo que o Estado deve esforçar-se a alcançar dentro dos meios à sua disposição. O Islã procurar facilitar o alcance deste objetivo, colocando pressão no alto padrão de vida, proibindo práticas extravagantes e fornecendo formas e meios178 para a elevação de pessoas que
vivem um padrão mais baixo de vida. Desta forma, diferentes padrões são trazidos para mais perto um do outro, até se fundirem em um padrão comum.
176 “[...] os indivíduos são diversos no que tange a seus talentos e potencialidades, antes de cada
diferença entre eles na ordem de classes da sociedade; com o intuito de explicar as diferenças entre os indivíduos na ordem de classes e na designação de cada indivíduo a um papel particular nessa ordem, com base na diferença de seus talentos naturais e potencialidades; de modo que será uma afirmação errada dizer que um homem é inteligente porque ocupa de senhor na ordem de classe e que um homem é obtuso porque desempenha o papel do servo na ordem de classe, porque para que o segundo ocupe a posição de servo e o primeiro chegue a posição de senhor, a existência de um diferencial entre eles capacite o senhor o outro contente ( com a posição de servo) na distribuição dos papéis é indispensável. Portanto, somos levados afinal à conclusão positiva da designação da causa aos fatores psicológicos de onde surgem as diferenças com respeito as suas peculiaridades e aptidões.” (ASSADR, 2012, p.600)
177 “Disso o Islã deduz a declaração efetiva de que o equilíbrio social será um equilíbrio do padrão
de vida e não da renda dos indivíduos da sociedade; e o significado de padrão é que o dinheiro deve estar presente e circular entre as pessoas num grau que proporcione a cada indivíduo da sociedade um padrão comum de vida, isto é, a todo indivíduo da sociedade é permitido gozar de sustento num único padrão de vida com a preservação do grau de acordo com o qual os meios de subsistência sejam diferentes dentro de um mesmo padrão de vida. Porém será uma diferença de grau, do padrão de vida e não uma diferença de padrões contraditórios de vida, como os escandalosamente contraditórios padrões de vida existentes na sociedade capitalista.” (ASSADR, 2012, p.601)
178 “O essencial desses poderes pode ser apresentado com respeito às seguintes questões: 1.A
imposição de tributos permanentes a serem gastos no propósito do equilíbrio social. 2.A obtenção dos setores de propriedade estatal e a dedicação do estado ao investimento lucrativo desses setores com o propósito do equilíbrio social. 3. A natureza dos decretos legislativos do Islã que regulam os diversos campos da vida econômica”. (ASSADR, 2012, p.604)
Para Assadr, além de fazer cumprir as leis da šari‘ah, garantindo satisfação das necessidades e mantendo o equilíbrio social, o Estado tem uma função importante de empreender nova legislação para regular e orientar assuntos econômicos da vida deixados de ser regulamentados pela šari‘ah. Esta esfera é aberta à nova legislação, principalmente no tocante às relações entre o homem e a natureza, que é distinta das relações entre os homens, pois essas relações mudam com o conhecimento, a descoberta de novos recursos, capacidade produtiva, etc.
O Islã tem regulamentado a propriedade privada, criando diversas regras, a fim de garantir a justiça e proteger os interesses da sociedade, e cabe ao governo legalmente constituído preencher essa lacuna.