3. BULGULAR
3.4. Heterozigotluk Kaybı Bulguları
3.4.7. D15S153 STR Belirleyicisine Ait Bulgular
37 Diegues (2004, p. 9) define os caiçaras como comunidades formadas pela mescla da contribuição
étnico-cultural dos indígenas, dos colonizadores portugueses e, em menor grau, dos escravos africanos. Os caiçaras apresentam uma forma de vida baseada em atividades de agricultura itinerante, da pequena pesca, do extrativismo vegetal e do artesanato.
Barra do Camaratuba foi constituída, em sua formação, basicamente por pescadores e agricultores, devotos de São Pedro, que tinham como sistema de manejo os recursos naturais baseados na atividade da agricultura e pesca artesanal38 e de subsistência.
É, era agricultura e pescaria. Era como o povo vivia aqui (Maria José, E4 em 16/02/2001).
Figura 8 – A pescaria
Fonte: Desenho feito por seu Antônio da Arraia
A gente trabalhava na agricultura (...) agora num tinha futuro de nada, sabe, era mermo pra que comer pra viver, pra num morrer de fome. Nasci e me criei aqui. Nasci nesse lugarzim e me criei... Aí eu, quando saía daqui era pra trabalhar e voltava de novo, nera... Casei duas vezes, todas duas vezes fiquei viúvo. Ainda hoje moro aqui. Só saio daqui quando for pro cemitério (...)A pesca eu pesquei faz uns trinta e oito pra quarenta ano que eu pesquei no mar, no alto mar lá pra (...) Aqui no canto do rio mermo já
tarrafiei
, por aqui eu pesquei muitos ano (...) Pesquei até lá no rio há uns cinco ano atrás, eu pesquei demais. Mas deixei de pescar. Pesquei muitas vezes. Peguei muito peixe bom no mar... Aqui no rio eu mermo um dia eu peguei um camurupim, deu oitenta quilo. (...) No rio... Agora peixe miúdo eu peguei muito viu, pegava... Tainha eu peguei demais. Hoje em dia eu vou comprar um peixe, a gente vai comprar e num compra. A vida é assim mermo. A gente tem que viver do jeito que Deus quer... e eu fico satisfeito quando tenho, graças a Deus (...) Fora a pesca eu, o que eu fazia , eu pesquei muitas veis, e deixei de pescar. Mas já trabalhei na agricultura também, muitas vezes. Dei muito roçadinho, bom de roça. Plantei muitas veis, trabalhei muitas veis na agricultura ... Agora que eu achava melhor a pesca eu achava, melhor do que a38 Simone Maldonado (1986, p.15) define esse tipo de pesca pela sua caracterização simples de
tecnologia e pelo baixo custo de produção [...] produzindo com grupo de trabalho formado por referenciais de parentesco, sem vínculo empregatício entre as tripulações e os mestres dos botes. Esse tipo de pescador tem na pesca a sua principal fonte de renda e a produção volta-se para o mercado, sem perder, contudo, o seu caráter alternativo, podendo destinar-se tanto ao consumo doméstico como à comercialização”.
agricultura. Dava mais resultado, né (Manuel Madeiro, E7 em 10/04/2001
).
Eu comecei a pesca, olhe! Eu comecei, peguei peixe com catorze anos. Eu e meu pai, aí meu pai chegou levava eu, eu comecei (...) Eu sou pescador profissional. Aprendi a pescar de pequeno (Antônio Arraia, E51, 28/06/2005).
(...) A agricultura daqui todo mundo trabalhava e todo mundo vivia. O povo vivia
aperriado
, mas vivia (Olegário, E56 em 28/12/05).Antigamente trabalhava muito, muito, muito, muito. Muita gente trabalhava para vender. Trabalhava com a usina e a roça que ele fazia aqui, quando ele fazia aquele roçado, arrancava mandioca, fazia, aí fazia aquela farinha e vendia (...) aquilo que mantinha (Elisandro, caderno de campo, 24/06/2005).
O meu pai foi comerciante por muito tempo. Trabalhou na agricultura, plantou agave e coqueiro. Teve uma época que ele vendeu coco e agave, mas o agave não apareceu mais ninguém que quisesse comprar, então ficou só no coco e trabalhava muito na agricultura (Mãe Santa, E49 em 23/06/2005).
Vivia num mangue pegando um aratuzinho, um negócio, trabalhava quando achava um bico (Liquinha, E52 em 28/06/2005).
É comum comunidades litorâneas desenvolverem duas ou mais atividades simultaneamente, cujas fontes garantam, basicamente, o seu sustento. Afirma Porpino (1997, p. 32) que “as populações em grande parte do litoral [nesse caso se
referindo às praias do Rio Grande do Norte] desde seus primeiros povoadores, se
dão por meio de dois importantes recursos oferecidos pela natureza: o mar e terra, representando os espaços de trabalho da pesca e da agricultura” [grifos nossos].
Esta não é uma constância, somente no litoral Potiguar, mas também no litoral paraibano, inclusive em Barra do Camaratuba, onde podemos perceber a
pesca, tanto no mar como no rio, e a agricultura, em alguns momentos na história local, pelo menos até meados de 90, aparecendo como as principais atividades econômicas de subsistência, assim como uma forma de obter a renda familiar, a partir da venda do peixe, da farinha, frutas, coco, agave, entre outras, para pessoas da localidade ou comunidades vizinhas.
Figura 9 – Toro mostrando seu instrumento de trabalho.
Figura 10 - Zé do Doce mostrando os caranguejos que “pescou” no mangue. Fonte: Gekbede Silva, em 29/12/2005
(...) Que pescava, que a gente trabalhava no roçado, pescava, tirava caranguejo no mangue pra vender, pegava caranguejo no mangue pra vender, era só isso... Se fazia farinha toda a vida aqui, né. Se fazia farinha. A gente trabalhava na agricultura, né. Aí isso era uma riqueza pro povo. Passava meses inteiro trabalhando fazendo farinha. Às vezes meu pai fez muitas vezes, dois, três meses fazendo farinha na casa de farinha. Agora num tinha futuro de nada, né. Sabe, era mermo pra que comer pra viver, pra num morrer de fome. O futuro era pouco. Mas com tudo isso, quando meu pai morreu [Antonio Madeiro] Ele deixou umas coisinha ainda. Ele deixou três bote de pesca, três barco de pesca, e deixou uma casa de farinha e deixou... três casinha. Eu vi ele muitas e muitas vezes ele encher a casa dele de farinha, cheinha de saca de farinha de saca de farinha, fazia pra vender. O povo comprava pra levar pro norte, pelo mar, viajava pelo mar, embarcado em navegação, em bote que vinha aqui pra Barra, que viajava. E num era barco motorizado não, era barco de vela (...) (Manuel Madeiro, E7 em 10/04/2001). Segundo Maldonado (1993, p. 29), a alternância das atividades econômicas se torna um fato comum como forma de manter sua sobrevivência. A isto, ela dá o nome de “prática do pluralismo econômico” pois, é bastante comum, em grupos pesqueiros, essa prática que consiste na coexistência ou alternância da pesca com a agricultura.
Por ter se formado em bases econômicas assentadas nessas duas atividades - a pesca e a pequena agricultura familiar - Barra do Camaratuba ainda é reconhecida como vila de pescadores.
A pesca de Barra do Camaratuba foi estudada por André Gondim do Rego39,
que procurou analisar e escrever histórias sobre essa atividade a partir da narração, suportada pela memória dos pescadores. Em seu trabalho, mostrou que apesar de ser a atividade pesqueira uma das principais fontes de renda local no passado, nessa comunidade, sempre apresentou uma grande dificuldade de realização. Por isso os pescadores se referem a ela como uma “pesca difícil”. Foram vários os elementos que convergiram para isso: a violência na rebentação marítima de sua costa, o pequeno nível tecnológico das embarcações ali existentes e, por tudo isto, a baixa produção de pescado. Esta baixa produção é um dos fatores que levaram essa atividade a ser chamada, pelos pescadores locais, de pescariazinha. Rego (2004) observou que
Estando atualmente os pescadores sob tipos diversos de condições de produção e reprodução social, foi visto que é a pescariazinha tal qual caracterizada localmente, o elemento tencionador principal entre o passado e o presente do grupo [...] A pesca aí praticada, apesar de reproduzir-se segundo uma série de referências comuns a outras comunidades costeiras, apresenta, segundo este próprio entorno, história particulares, uma série de significações bastante específicas. Assim, tanto o trabalho em jangadas, como a pesca de linha e rede, e os conhecimentos relativos à marcação, a mestrança e ao segredo pesqueiro, se articulam na formação de uma estrutura simbólica capaz de dizer que a pesca local é diferente em vários elementos da praticada, por exemplo, no município de Cabedelo“ (REGO, 2004, s/p).
Mesmo sendo uma pescaria difícil, os moradores/pescadores lembram desse tempo como um “tempo bom”, pois essa atividade também propiciava os laços comunitários e tinham uma atividade de qualidade, em que se pescava uma diversidade de peixes, porém sem ter para quem vender. Como também aponta Rego,
Naquele tempo a pesca era boa porque havia qualitativa e quantitativamente muito peixe. Mas era fraca porque o peixe não valia nada: não podia ser vendido, apenas trocado, quando não dado, pois poderia perder-se. [...] Ao mesmo tempo não era uma pesca grande, era pouca, pois o mar de sua costa era bastante violento, muito mais que hoje, o que dificultava a atividade. Entretanto os pescadores eram corajosos, pois apesar de todas as
39 REGO, André Gondim do. Pesca e pescadores em Barra de Camaratuba (PB): reflexões sócio-
antropológicas sobre um viver costeiro. 2004. Monografia (Graduação em Ciências Sociais), Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa.
dificuldades, diariamente pescavam. [...] O número de pescadores era bastante alto: dez jangadas era uma porção delas (REGO, 2004, s/p).
Segundo os narradores/pescadores, a pesca no mar se dava com jangadas, botes, e a maior parte das embarcações do local pertenciam a seu Tota Madeiro. Com um mar de arrebentação violenta, alguns preferiam pescar no rio Camaratuba e no mangue40. Outros saíam em busca de outros mares, mas depois voltavam.
Seu Antônio Amaro, também conhecido como Antônio da Arraia, é um dos poucos pescadores que ainda vivem na comunidade, entre idas e vindas, e lembra bem dessa época.
Nasci aqui em Barra do Camaratuba. Tenho 44 anos. Minha mãe nasceu aqui também. (...) Me chamam assim porque eu pegava muita arraia. Na minha infância eu rapazinho cansei de trabalhar, eu ia pegar uns
aratu
[crustáceo encontrado no mangue] pra vender. Saía cedinho. Aí a gente chegava antes das onze (...) tinha que chegar umas nove para dez hora, se chegasse mais atrasado o pessoal já tinha almoçado, aí mamãe brigava. (...) Trabalhava só no siri, no caranguejo pra pegar em algum dinheiro (...) Era pra vender pra daqui da comunidade. Aí na época completei quinze anos, eu disse:Papai eu vou trabalhar
. A na ânsia de trabalhar peguei uma camisa e vesti e fui embora (...) Aí papai foi me procurar (...) Fui embora pra Cabedelo. Saí da Barra pra pescar em Cabedelo. (...) Quando cheguei na Baía da Traição de pés, encontrei um rapaz e ele disse:- De onde você é?
Eu disse:-
Venho da Barra do Camaratuba.
Aí ele me levou pra casa dele em Cabedelo. Fui pra casa dele e a esposa dele comprou de tudo pra mim, só sei que quando deu meio-dia comecei a chorar. Saudade de casa? Não, pensei olhando pra comida (...), mesa farta tinha de um tudo, cheirei... pensei nos meus irmãos que estavam em Barra, tudo morrendo de fome (Antonio da Arraia, E51 em 28/06/2005).Trabalhando em Cabedelo, também litoral paraibano, encontrou Toro,
40 Nesses locais pescava-se peixes, mas principalmente crustáceos como camarão, caranguejo, siri
Fiquei dez anos em Cabedelo, aí juntei com um menino, e passando perto de Barra do Camaratuba ele disse: -
Eu
conheço
. E ele:_Tu conhece
? [perguntou Toro a seu Antônio] _Eu conheço, vamo arriar os barcos da lagosta e vim pra cá
[respondeu ele] Eu não conhecia mais ninguém. Só a família de seu Moíses Coelho. (...) E ele num conhecia seu Moíses... era pescador. Então viemo pra cá (Antônio da Arraia, E51 em 28/06/2005).
Toro, pescador nascido em Cabedelo, veio para Barra atraído pela atividade pesqueira. Não havendo nenhum tipo de organização de pesca, fundou com outros pescadores a colônia Walfredo Madeiro da Costa - Z17, em homenagem a seu sogro também pescador, falecido nos anos 80. A colônia foi registrada em 1997 e presidida por Toro desde sua fundação. Apesar de existir há nove anos, a colônia dos pescadores ainda funciona na sua casa, pois ainda não teve condições financeiras para construir o prédio da colônia e são poucos os associados que pagam a taxa mensal. Em 2003 realizou a compra de um terreno com a ajuda da LYONDELL para construção da nova colônia, mas a efetivação do prédio ainda não aconteceu.
As narrativas sobre a atividade da pesca no rio ou no mar, o trabalho nas casas de farinha, entre outras atividades também trazem em seu entorno momentos de descontração, diversão, como os banhos no rio Camaratuba, ou quando todos se encontravam em coletividade para fazer farinha, ou ainda quando nos momentos livres, de não trabalho, brincavam e dançavam coco de roda, lapinha, entre outras brincadeiras até o dia amanhecer.
Trabalho e lazer são esferas unificadas pelas narrativas agregadas e aliadas à memória. Já não são impermeáveis às mudanças rápidas que se desenvolvem entre o mangue e o rio, entre a praia e os coqueiros. Como relatou seu Manuel Madeiro, pescador aposentado, irmão de Tota Madeiro, em entrevista a André Gondim do Rego41.
(...) A gente aqui... o trabalho daqui é pouco também. Num tem. Hoje em dia é que isso, aqui as vistas do que foi, já tá uma cidade, é mermo que ser uma cidade. Só que isso aqui, eu
alcancei quando eu era garoto novo, depois que eu me entendi de gente, que a gente só pode falar depois que se entende de gente, né. (...) Eu sabia que tinha umas 14 ou 15 casa, casinha (...) E hoje tem essa porção de casa aí, já é mais adiantada, hoje menos, pelo menos tem ônibus pra gente viajar, quando vai quer, que até um dia desse num tinha, até nessa prefeita agora, até chegar essa prefeita num tinha nada, nada! (...) o camarada podia chegar aí... qualquer hora do dia, da noite, se deitar em qualquer canto, podia se deitar sem medo (...) Veio aparecer algumas coisa mais temerosa de uns anos pra cá, de uns seis, oito anos pra cá, de uns dez anos pra cá. Que pegô se criando gente, pegô se misturando gente, com gente de todos os lugares, mas era um lugar calmo demais, calmo... demais mermo. Eu mermo saía toda hora pra pesca, que toda noite eu pescava no rio, no tempo que eu era mais moço, que eu podia fazer era trabalhar, onde eu, eu ficava era mermo eu num podia mais trabalhar, toda noite eu pescava, toda noite, pra mim era o maior, melhor esporte do mundo, era pescar de tarrafa, que de fato é uma pescaria boa, é um esporte mermo, a pescaria de tarrafa, de repente, no lugar que tem peixe, o senhor de repente pega peixe, só é chegar e pegar de repentezinho, é... a tarrafa é uma rede boa demais. Eu tenho um filho que pesca, direto, tarrafiando (...) Pega muito peixe, chama ele de Tonhão, é... tá com trinta anos. (...) Ele tá com quase com trinta anos. Joca tá com vinte. Ele tá com trinta, ele é mais velho que Joca dez anos (Manuel Madeiro, E7 em 10/04/2001).
Os moradores contam que o crescimento populacional e, com ele, transformações, falta de embarcações suficientes e com condições de entrar no mar, entre outros fatores de conflitos internos (REGO, 2004) a atividade pesqueira de Barra se encontra diferenciada da exercida antigamente. Assim, o pescado vai se encontrando numa escala ainda menor de produção, pois também os pescadores daquele tempo estão velhos e aposentados, outros, como os mestres, foram morrendo e os mais jovens não mostram interesse pela pesca, segundo os pescadores mais antigos que ainda vivem na comunidade.
Dessa forma, muitos passaram a exercer outras atividades (como veremos no próximo capítulo) mas não abandonaram totalmente a pesca. Alguns fazem baiteras, nome também dado as jangadas (figs. 11), pequenas embarcações (fig. 12), como
seu Antônio da Arraia e outros que continuam pescando no rio e no mangue. A agricultura também foi decaindo, pois muitos já venderam as terras que tinham. A narrativa de seu Augusto, pescador aposentado, permitiu-nos conhecer mais sobre essa realidade,
Fonte: Gekbede Silva em 23/06/2005
Figuras 11 – Baiteras
Fonte: Gekbede Silva, em 23/06/2005
Figura 12 - Pequenas embarcações
Fonte: André G. Rego, 2002.
Eu sou Augusto. Tenho 78 anos. Fui pescador hoje não sou mais mode a idade e a doença. Só quando eu era feliz, quando eu era quando era pescador (...) Aprendi a pescar por cadência [observando outros pescadores], passei quatro anos em pesca de lagosta, depois descendo vim pra Baía da Traição. Eu nasci num lugar aqui embaixo nos Coelho [comunidade vizinha] Sou filho natural dos Coelho, mas me criei aqui na Barra. (...) e ainda tô aqui e pretendo morrer aqui, faz uns setenta anos que estou aqui. Já pesquei muito aqui, na Baía. (...) Homi a Barra aqui no tempo da pescaria, no outro tempo, era de navegação maior que era de jangada. Pescava três pessoas numa jangada e só dava peixe graduado, aí depois o pessoal foram morrendo. Papai mermo, entre eu e papai tinha três jangadas, desses botezinho, cada um tinha dois bote de remo. Papai tinha dois paquete. E então nós vivia bem. Papai era contrator desses pescador e vendia na rua, saía no meio do mundo que naquele tempo não tinha frize, não tinha geladeira, era no sal, e no sol. (...) Saía no meio do mundo, quando eu não ia pra maré sai com ele. Passava o dia no meio do mundo (risos) Era difícil, mas era tempo de fartura. Mas hoje em dia, os mais velhos foram se acabando, foram se acabando e hoje só tem umas baiterazinhas desse tamanho não dá para entrar mais. Diz um: Olhe, vamos fazer um anoitada!? Passa a noite no mar, num bote menor e não sabe procurar o peixe. Hoje acabou o peixe, mas quando vem um peixe maior e acabou-se o peixe. Hoje quando vê um peixe maiorzinho é uma cavalinha, só. Um serrazinha. Mas quando vê um peixe maiorzinho é da Baía ou vem de fora. O pessoal tá indo comprar fora (Augusto, E55 em 28/12/05).
Ainda encontramos histórias sobre a atividade da pesca de Barra narradas em forma de versos de coco de roda (brincadeira popular). Isto mostra a multiplicidade e riqueza da oralidade, e como na memória os sujeitos reconstroem fatos a partir de uma “visão de mundo”, em que se condensam o vivido e o imaginário. Essas narrativas foram cantadas e contadas por seu Epitácio, que nos permitiu deixar gravar sua voz na condição de poder ouvi-la posteriormente.
Vou cantar um coco pra você. Vou cantar um coco aqui, de um coco que aconteceu... Tá gravando? Vou cantar esse coco viu para levar gravado.
Oh mestre cadê a lancha?
Minha lancha se perdeu
De frente a casa amarela
O contra mestra morreu.
Resposta pra mulher:
Vala mi nossa senhora
Meu Deus que grande agonia
Só tenho medo da multa que vem da capitania
Da multa que vem da capitania né. É ou não é? [explicava]. Se a lancha se perdeu? Olhe escute!
Oh mestre cadê a lancha?
Minha lancha se perdeu
De frente a casa amarela
o contra mestra morreu.
Vala mi nossa senhora
Meu Deus que grande agonia
Só tenho medo da multa que vem da capitania.
Num é embarcação? Se perdeu... aí levou multa. Tem mais algum que fale de pesca? Coco de pesca eu tenho demais... mas vamos deixar esse negócio de pesca pra lá(...) Eu já trabalhei muito em pesca... Canta? Eu vou contar um negócio de pesca aí, que aconteceu comigo. Agora grave isso e me traga.
Num é o ofício? [explicava]
Quando os bote estão na amarra dos caçuar
Preparado pra botar no outro dia.
Cabo Chico era o mestre.
João de Caná o proeiro.
Só falta seu Pimenta que é um homi verdadeiro.
Mataram,
um camurupim
Cabo Chico disse:
_Logo tamo feito na peixada.
Na zuada, você diz:
_ Não senhor! Vocês vão comer cação que desse peixe eu não
dou.
De baixo da caiçara
Aurélio gritou assim:
_Vamos tomar uma pro conta do camurupim
_Vamos tomar uma pro conta do camurupim
Vamos tomar a miota
Companheiros queridos.
Pro causa desse peixe cabo Chico está mordido.
(Epitácio, E56 em 28/12/2005)
As histórias sobre o lugar, a pesca e a agricultura, a descrição dos espaços, entre outros, foram importantes para conhecermos Barra do Camaratuba, que é caracterizada e identificada pelos próprios nativos como comunidade pesqueira ou vila de pescadores. Procuramos contextualizar a história do desenvolvimento local, entrecruzando passado e presente, que, em alguns momentos, fazem referência às brincadeiras populares, sobre as quais falarei a seguir.