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D ENETİM S ONUÇLARININ

Lyons (1977, p. 823) afirma que a modalidade deôntica está relacionada com a necessidade ou a possibilidade de atos realizados por sujeitos moralmente responsáveis. Acrescenta ainda que, se X reconhece ser obrigado a executar uma ação, é porque existe alguém ou alguma coisa que X reconhece como tendo autoridade para fazer recair sobre ele a obrigação de agir nesse ou naquele sentido, podendo ser uma pessoa ou instituição a cuja autoridade X se submete, podendo ser um corpo moral ou legal de princípios mais ou menos explicitamente formulado, ou até uma compulsão pertinente à mente ou ao espírito. Os valores deônticos, portanto, emanam de uma fonte e recaem sobre um alvo.

Nascimento (2010, p. 36) afirma que “o caráter de obrigatoriedade, proibição ou permissão expresso através da modalização deôntica, no momento da interação, se manifesta de diferentes formas, gerando diferentes efeitos de sentido”. O autor assevera, ainda, que, do ponto de vista argumentativo, interessa perceber de que maneira se dá essa manifestação e como ela se processa linguisticamente através das diferentes estruturas da língua.

A respeito dessa modalidade, Palmer (2001) apresenta dois tipos: o diretivo e o comissivo. O comissivo revela uma promessa ou ameaça feita pelo falante; o diretivo é marcado quando o falante chama a atenção de alguém ou tenta convencê-lo a fazer algo. O

autor postula ainda que a expressão de desejo ou volição encontra-se abrigada também na modalidade deôntica.

Na pesquisa empreendida por Castilho e Castilho (2002), foram constatados apenas os advérbios modalizadores deônticos obrigatoriamente e necessariamente. A razão para isso, segundo os autores, deve-se ao gênero analisado, a saber, entrevistas tematicamente orientadas. Nesse tipo de gênero – em que prevalece a função referencial da linguagem às condições para o surgimento da modalização deôntica são precárias. Na leitura desses autores, os modalizadores deônticos são mais presentes na interação espontânea em que o falante deseja atuar sobre o interlocutor.

De acordo com Castilho e Castilho (2002 p. 236), “a modalização deôntica (de dever) considerada amplamente compreende a obrigação, proibição, permissão e a volição”. Apesar de considerar que a modalização deôntica implica essas quatro noções, Castilho e Castilho discutem apenas os deônticos de obrigatoriedade. Os demais tipos (proibição, permissão e volição) não são aprofundados por estes estudiosos. Veremos, mais adiante, que os conceitos relativos a esses tipos de modalizadores foram aprofundados por Nascimento e Silva (2012), a partir da discussão do quadrado deôntico apresentado por Cervoni (1989).

Para exemplificar a ocorrência da modalização deôntica de obrigatoriedade, Castilho e Castilho (2002 p. 236), analisam o exemplo (3) a seguir:

(3) toda e qualquer cirurgia... no campo médico... [...] implica obrigatoriamente em despesas

Nesse exemplo, o conteúdo proposicional é expresso como uma obrigação, “como algo que necessariamente tem de acontecer”, conforme Castilho e Castilho (2002, p. 203). Para mostrar o efeito causado por esses modalizadores sobre o conteúdo proposicional, os autores constroem paráfrases da ocorrência em (3). Vejamos:

(3a) toda cirurgia tem de implicar em despesas

(3b) é obrigatório que toda cirurgia implique em despesas.

Dessa forma, os mesmos autores assinalam que a modalização deôntica corresponde à função desiderativa da linguagem, decorrendo disso a noção de futuridade que acompanha essa modalização.

Na mesma linha de raciocínio, Neves (2011) conceitua a modalidade deôntica como aquela relacionada com obrigações e permissões. Para esta estudiosa, “uma proposição p é

obrigatória se não é permitido que p’ e é permitida se não é obrigatório que p” (p. 160). Sobre as condições dessa modalidade, é dito que, por um lado, ela está condicionada por traços lexicais específicos por parte do falante e, por outro lado, necessita de que o ouvinte aceite o valor de verdade do enunciado para que tal modalidade seja executada.

Neves (2011) denomina os graus básicos de modalidade deôntica em obrigatório e permitido e faz essa denominação resenhando Klinge (1996). Eis os exemplos desses graus, respectivamente:

Assim é que você deve fazer. Bem, você pode usar a minha sala.

Ao analisar a modalidade deôntica no eixo da conduta, a autora classifica dois tipos principais: (i) a obrigação moral, interna, ditada pela consciência; (ii) a obrigação material, externa, ditada por imposição de circunstâncias externas. Vejamos dois exemplos representativos desses tipos, respectivamente:

Temos que admitir que esta não é a realidade do artista brasileiro.

Aqueles que receberam ajuda da associação têm por obrigação plantar uma árvore.

Conforme afirma Neves (2011, p. 174), “na obrigação interna, o componente de modalização tem base numa necessidade alética, mas o predicado envolve o traço [+ controle], permitindo que se opere a modalização deôntica do enunciado”. O efeito de obrigação, ou seja, o caráter deôntico de um enunciado expressa-se por meio de diferentes verbos modais, tais verbos são, mais, ou menos, intercambiáveis em determinados sentidos.

Nessa mesma linha, Koch (2011, p. 75) nos diz que as “modalidades deônticas referem-se ao eixo da conduta, isto é, à linguagem das normas, àquilo que se deve fazer”. Na perspectiva dessa autora, os modos deônticos referem-se, também, a conceitos que constituem sua fase subjetiva, a saber, disposições do sentimento, no caso dos valores, disposições normativas, no caso dos imperativos.

Para derivar as modalidades deônticas (assim como as demais), é necessário apelar para as informações contextuais, ou seja, aos contextos pragmáticos. Segundo a mesma autora, no “eixo deôntico, revela-se a força ilocucionária (por ex., quem ordena cria

obrigações para o outro): tem-se, aí, a semântica dos atos de linguagem” (KOCH, 2011, p. 83).

No que diz respeito a esse tipo de modalidade, Cervoni (1989, p. 61) afirma que

[...] as modalidades deônticas fornecem um modelo para todo tipo de ampliação se retivermos como traço essencial de sua definição o fato de que elas implicam uma referência a normas, e se considerarmos como não definidora de seu caráter modal seu estreito paralelismo com as modalidades aléticas; com efeito, nestas hipóteses não cabe limitar a denominação de “modalidade” às quatro noções que figuram no quadrado deôntico (obrigatório, permitido, facultativo e proibido).

Nascimento e Silva (2012) mostram que os quatro eixos da modalidade deôntica, apresentados por Cervoni (1989), a saber, o obrigatório, o permitido, o facultativo e o proibido, sinalizam para algo que vai muito além da simples obrigatoriedade. De modo que tais modalizadores podem expressar desejo ou vontade, proibição, possibilidade, muito embora grande parte dos estudos sobre esta temática ainda persistirem em tratar deste tipo de modalidade como aquele utilizado para expressar somente obrigatoriedade e, às vezes permissão. (NASCIMENTO, 2010, p. 33).

Em estreito diálogo com estudos de Neves e Cervoni, Nascimento e Silva (2012, p. 84) ampliam a discussão sobre os deônticos de obrigatoriedade, de proibição, de possibilidade e volitiva. Vale salientar que Castilho e Castilho (2002), conforme citado anteriormente, já haviam apresentado esses modalizadores concernentes ao verbo “dever”, no entanto, os conceitos de cada um desses modalizadores foram, sistematizados e exemplificados por Nascimento (2005), Nascimento (2010) e por Nascimento e Silva (2012), conforme veremos a seguir.

3.4.3.1 Deôntica de Obrigatoriedade

A modalização deôntica de obrigatoriedade para Nascimento e Silva (2012) ocorre quando o conteúdo do enunciado representa algo que deve ocorrer obrigatoriamente, e que o

provável interlocutor deve obedecer a esse conteúdo. Para exemplificar essa ocorrência, os autores analisam o exemplo a seguir:

É obrigatório que você faça a tarefa de casa.

Nesse exemplo usado por Nascimento e Silva (2012, p. 84), verifica-se que o locutor expressa uma obrigatoriedade por parte do interlocutor de realizar a tarefa de casa, ou seja, o interlocutor é obrigado a cumprir com a ordem impressa pelo enunciado.

3.4.3.2 Deôntica de Proibição

Esse tipo de modalizador expressa o conteúdo como algo proibido e deve ser considerado como tal pelo provável interlocutor. Nascimento e Silva (2012) exemplificam essa ocorrência da seguinte forma:

Você não pode fumar nesse ambiente.

Nesse enunciado, o locutor expressa uma proibição ao interlocutor deixando explícito um caráter de ordem de que naquele ambiente não é permitido fumar. Percebe-se que o locutor modaliza o discurso porque imprime no enunciado um sentido de proibição a algo que não pode acontecer de forma alguma. A expressão não pode é um exemplo de modalizador deôntico de proibição.

3.4.3.3 Deôntica de Possibilidade

A modalização deôntica de possibilidade ocorre, conforme Nascimento e Silva (2012), quando o locutor responsável pelo enunciado expressa algo facultativo ou dá uma permissão, deixando, muitas vezes, a cargo do interlocutor a escolha em realizar o que lhe é pedido pelo conteúdo do enunciado. Os autores utilizam o seguinte exemplo para explicar esse modalizador:

Você pode entrar nessa sala.

Percebe-se nesse enunciado que o locutor dá uma permissão para que o conteúdo do enunciado ocorra. Segundo a análise de Nascimento e Silva (2012), a permissão emitida pelo locutor neste enunciado não garante que ele ocorrerá de fato, cabe ao interlocutor decidir se irá ou não entrar na sala. Dessa forma, o interlocutor tem a permissão para entrar no ambiente, e isso é facultativo.

3.4.3.4 Deôntica Volitiva

A modalização deôntica volitiva expressa um desejo ou vontade do locutor. Neves (2011), ao discutir o fenômeno da modalização, apresenta a modalidade bulomaica ou volitiva e afirma que esta está relacionada com a necessidade e com a possibilidade no que se refere aos desejos do falante (no fundo, uma necessidade deôntica).

Para Nascimento e Silva (2012), no entanto, esse tipo de modalizador, além de deixar materializado, no enunciado, a vontade ou desejo do falante, pode funcionar como uma estratégia argumentativa-pragmática através da qual um locutor pode pedir ou solicitar a seu interlocutor que realize algo que deseja. Para exemplificar esta modalidade, os autores usam o seguinte exemplo:

Eu gostaria que você fosse comigo.

A expressão “eu gostaria que” diz respeito à necessidade ou à possibilidade relacionadas ao desejo ou vontade do locutor de que o interlocutor realize algo. Conforme a análise realizada pelos autores, a modalização deôntica volitiva, por apresentar o conteúdo do enunciado como um desejo ou uma vontade, pode funcionar como uma estratégia argumentativa bastante eficaz, já que preserva tanto a face do locutor como a do interlocutor.

Em comparação com a modalização epistêmica, cujo foco é com o teor de verdade ou as condições de verdade da proposição que estão em questão, na modalização deôntica o foco está no conteúdo da proposição em que o locutor o considera como algo obrigatório e que precisa ocorrer; como algo proibido que não pode acontecer; como algo facultativo e como uma vontade ou desejo do falante.