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A construção do imaginário de um povo dá-se de um modo coletivo, a partir da associação das várias manifestações/expressões subjetivadas de cada pessoa. O imaginário como fenômeno individual e coletivo simultaneamente tem sido tema recorrente de reflexões contemporâneas. Tal construção está sempre intrinsecamente ligada a uma dimensão simbólica do ser humano.

Desde os primórdios da humanidade, o simbólico faz-se presente. Um exemplo disso é a incorporação de elementos simbólicos nas mentes das pessoas efetivadas por suas vivências religiosas, embora ele não se restrinja a estas. A criação simbólica, a produção e o consumo de imaginários fazem parte das necessidades básicas humanas. Em função disso, para entender o imaginário sociocultural de um povo, faz-se necessário adentrar a vida cotidiana de uma coletividade. Os imaginários

são sentimentos coletivos, estando estes ligados à idéia de fazer parte de algo (GASTAL, 2005).

O imaginário é um processo criador, por meio do qual as imagens que se têm da realidade são reconstruídas. Isso não chega a ser uma transformação do real, ou mesmo uma modificação, porém, ao libertar-se das imagens reais, o imaginário tem o poder de inventar, fingir, estabelecer relações improváveis. Assim, não se trata de uma negação do real, mas de uma reconstrução. Segundo Laplantine e Trindade (2003, p.24), “o imaginário, portanto, [...] é a faculdade originária de pôr ou dar-se, sob a forma de apresentação de uma coisa, ou fazer aparecer uma imagem e uma relação que não são dadas diretamente na percepção”. Os autores afirmam, ainda, que a vida social é impossível fora de uma rede simbólica, posto que os símbolos envolvem as ações humanas de maneira afetiva. O imaginário utiliza-se do simbólico para poder expressar- se. Ao mesmo tempo, o simbólico pressupõe a capacidade imaginária. Assim, vale ressaltar que o símbolo remete à representação, sendo passível de conter uma pluralidade de interpretações. Assim, é o imaginário o fomentador dos sistemas de relação social e o estruturador da atividade humana, a partir da criação de universos simbólicos.

A partir desse poder de simbolização do homem, a vida social surge rodeada de símbolos e ritualizações, as quais irão dar sentido às sociedades. A partir daí, compreendem-se suas manifestações, suas relações sociais, que ocorrem em espaços concretos, mas repletos de representações simbólicas. Isso ocorre porque, de acordo com Fernandes (1999, p.56), “os homens têm necessidade, para poderem viver, de um mundo onde o sonho se expanda e se realize”. Dando forma ao imaginário, estão produzindo cultura. Fernandes (1999, p.57) acrescenta:

Se as sociedades não podem viver sem imaginário, via aberta a mundos possíveis, também não conseguem existir sem simbolização. Toda a interacção social é mediatizada por gestos ou por símbolos. Desde o fundo dos tempos, o homem procura objectivar a ideação e dar forma ao seu imaginário. Desse modo, produz espontaneamente símbolos e constrói sinais, isto é, elabora cultura. Enquanto os símbolos são o resultado da função efabuladora colectiva, criados de forma natural pelo homem, os sinais exprimem a objectivação das imagens tornadas convenções sociais e por estas perpetuadas. Se a ideação é o processo de produção do imaginário, a simbolização – sob a forma de símbolos, de mitos, de utopias ou de outras expressões culturais – é a sua representação.

As imagens são construções criadas em função do pensamento dos indivíduos em relação a algo e têm como base de sua formação as informações obtidas através de experiências visuais, sendo marcadas por sensações. Em função disso, a imagem criada não corresponde ao seu objeto em realidade e difere do símbolo, caracterizado pelo seu caráter convencional. Na verdade, imagem e símbolo tratam-se de representações construídas em função da atribuição de significados que lhes são dados. A imagem é particular para cada pessoa, enquanto o símbolo apresenta uma idéia genérica da coletividade. Ele emerge do inconsciente e possibilita uma pluralidade de interpretações a respeito de algo, de acordo com o que é afirmado abaixo:

Os símbolos são esquemas de ações intencionais produzidas nas interações entre os homens em uma dada situação social ou no interior do texto de um discurso. De outro lado, imaginário e símbolo são sinônimos que emergem do inconsciente universal, doador de significados e, ao mesmo tempo, irredutível aos significados históricos e culturais que os homens atribuem a esses símbolos. (LAPLANTINE; TRINDADE, 2003, p.19-20).

Nesse sentido, Durand (apud FERNANDES, 1999) disserta acerca da existência de duas formas de representar o mundo. Segundo ele, uma é a maneira direta, quando se tem uma tradução verdadeira do real; outra apresenta uma realidade através de símbolos e imagens. É mister entender, segundo Maffesoli (2001), que o imaginário ultrapassa o indivíduo. Sendo assim, só há imaginário coletivo, pois ele funciona pela interação. O imaginário é o estado de espírito de um grupo e o seu cimento social. Quando se ouve falar do imaginário de uma pessoa, este corresponde ao imaginário do grupo no qual ela está inserida.

Da mesma forma dá-se com a identidade. Ela é, de acordo com Hall (2005), algo formado através do tempo, sendo um processo inconsciente, em constante transformação. A globalização tem um impacto plural sobre as identidades. Ela cria uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação, fazendo com que as identidades tornem-se ainda mais posicionais, políticas, plurais e diversas. Nessa linha de pensamento, Hall distingue 03 (três) concepções de identidade. A primeira maneira de entender a identidade é a do sujeito do Iluminismo, tido como um indivíduo unificado, cuja identidade era a essência do eu, que nascia com o sujeito e nele se desenvolvia,

permanecendo basicamente o mesmo durante sua existência. A segunda concepção tratada por Hall é a do sujeito sociológico cuja identidade constitui-se em função das relações estabelecidas com outras pessoas, com a cultura do mundo em que ele vive. A terceira noção de identidade abordada é a do sujeito pós-moderno, que é composto por identidades diversas e distintas, não-unificadas - formadas e transformadas de maneira contínua. Segundo o autor, à medida em que “[...] os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente” (HALL, 2005, p.13). A noção de identidade adotada para o desenvolvimento desta pesquisa é esta última, a de que o sujeito pós-moderno apresenta múltiplas e mutáveis identidades.

Na pré-modernidade, eram os princípios religiosos, políticos e de parentesco que regiam os sistemas de mitos e crenças da coletividade. Por sua vez, eles determinavam as identidades dos sujeitos, até então rígidas e impostas. A fase posterior traz consigo as transformações sociais necessárias para a ocorrência de uma mudança na configuração da identidade estabelecida até então. A partir daí, muda a compreensão a respeito da formação das identidades, quando se entende que estas são frutos de fatores internos e externos aos sujeitos. Assim, tem-se o entendimento de que as ações cotidianas das pessoas sofrem interferência de suas competências identitárias. As vivências diárias são tidas como frutos das escolhas individuais e não mais vistas como determinações dos sistemas, como ocorria na fase anterior. O contexto atual revela identificações capazes de mostrarem-se momentâneas e desordenadas. A identidade moderna retrata sociedades cada vez mais mutáveis e complexas (FORTUNA, 1999).

Assim, a identidade não é mais tida como sendo estável e rígida, como ocorria na pré-modernidade. Ela é resultado de um processo contínuo, que a torna transitória e plural. As velhas identidades, responsáveis pela idéia de sujeito unificado, apresentam-se em declínio, dando lugar, agora, ao indivíduo moderno, capaz de fragmentar a si mesmo, bem como às suas diversas configurações identitárias. De acordo com Fortuna (1999), as identidades são feitas e refeitas em função das mudanças sociais e das novidades culturais. Trata-se de uma construção que se dá a

todo o momento pelo sujeito. Os traços identitários desse sujeito dão lugar a processos de identificação. Isso ocorre porque, na atualidade, o que se tem é uma complexificação da sociedade, seja no plano simbólico, seja no social. Há uma nova maneira de viver, bem como do indivíduo ver e avaliar a si mesmo e aos outros.

Para Haesbaert (1999), a identidade apresenta alguns aspectos marcantes: refere-se a pessoas ou objetos; provoca, de certa forma, relação de semelhança ou igualdade, no sentido de haver um significado comum; é abstrata e implantada pela construção simbólica. O autor destaca ainda a existência de uma base material da identidade, que, quase sempre, apresenta-se como restrita ao campo das representações, tomando como exemplo a questão da identidade territorial. “Determinadas identidades ou, caso se preferir, facetas de uma identidade, manifestam- se em função das condições espaço-temporais em que o grupo está inserido” (HAESBAERT, 1999, p.175).

Hoje, as sociedades vivem uma realidade de mudanças rápidas e constantes – um dos impactos da globalização – que afeta diretamente a identidade cultural das pessoas. Hall (2005) defende o argumento de que as identidades nacionais são uma das principais fontes de identidade cultural, à medida que são imaginadas como parte da natureza social do grupo. Pensando assim, a nação é capaz de produzir um sistema de representação cultural, daí porque as nações são tidas como comunidades simbólicas. As culturas nacionais não só vão além das instituições culturais, abrangendo o campo dos símbolos e das representações, como são capazes de construir identidades a partir da elaboração de imagens identitárias, quando histórias são contadas para os sujeitos e a memória deles faz conexões entre passado e presente.

Hall (2005) reflete sobre a construção das narrativas de uma cultura nacional, segundo quatro noções. A primeira delas é a de narrativa da nação. Trata-se da forma como são narradas as histórias da sociedade na literatura ou na mídia, ou mesmo através da cultura popular. As pessoas sentem-se integrantes da história, dando significado e importância à existência delas. A segunda é de ênfase nas origens,

na continuidade, na tradição e na intemporalidade. Assim, é verificada, nas narrativas de uma cultura nacional, a idéia de que a identidade nacional é trazida como algo

eterno, imutável ao longo do tempo e das mudanças que ocorrem. Além disso, a identidade nacional é representada como sendo algo primordial. A penúltima noção é a de invenção da tradição. Trata-se, agora, da busca, através da representação, de levar à sociedade a idéia de um passado histórico adequado; trata-se de um conjunto de práticas que pretende inserir valores e normas de comportamento em uma sociedade. A última das quatro noções é a de povo puro, que se refere ao fato de argumentar em defesa da idéia de um povo original, superior. Contudo, nas realidades do desenvolvimento nacional, é difícil acontecer deste povo exercitar o poder.

Consoante à percepção de Hall, tem-se o discurso da cultura nacional como construtor de identidades colocadas entre o passado – quando a cultura nacional é tentada a reviver os tempos de glória em identidades passadas – e o futuro, no sentido de seguir em busca da modernidade. A cultura nacional é uma fonte de identificação dos indivíduos para com a sociedade. Assim, na busca de sentido identitário, os referenciais dos sujeitos diversificam-se, e, conseqüentemente, suas identidades têm fragilizadas sua capacidade de auto-identificação. O que existe, então, é uma busca pelo passado cultural como uma resistência à descaracterização cultural. Para Fortuna (1999), porém, este primitivismo cultural é contrário ao espírito desenvolvimentista. Nesse sentido, afirma que “reler a história como reinvenção da nossa própria cultura pode fazer-nos cair no logro de imaginarmos que no exótico, no distante e no passado reside uma harmoniosa sociedade perdida” (FORTUNA, 1999, p.18). É mesmo, contudo, através de interpretações do presente que essas comunidades têm a possibilidade de reconstruir seu passado coletivo.

Essa é uma questão a ser pensada em Mossoró, pela maneira como vêm sendo abordados os seus fatos históricos nos espetáculos. Há uma releitura da história para que ela seja passada de maneira atraente no momento da festa. Isso pode levar a população a criar imagens de uma história que talvez só exista em seu imaginário.

Como o dualismo é uma propriedade marcante das atuais sociedades, o indivíduo que vive nessa realidade está sempre dividido – ou se dividindo – entre questões como a objetividade e a subjetividade. Através dos símbolos constrói-se e se expressa o imaginário. Este, por sua vez, trata-se da forma subjetiva como os sujeitos relacionam-se com a realidade na qual vivem, atribuindo-lhe significados. A partir do

conhecimento do imaginário coletivo de um povo, pode-se ter um maior conhecimento acerca de sua cultura. Vive-se em uma época de abertura à criação do imaginário, havendo uma revalorização no sentido de despertar grupos sociais para a simbolização. Isso porque, em uma realidade de massificação mundial, valoriza-se, ou se quer valorizar, cada vez mais, a questão da identidade de uma sociedade.

2.4 A FESTA COMO PROCESSO DINAMIZADOR E IDENTITÁRIO DE UM ESPAÇO

Benzer Belgeler