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O principal posicionamento contrário à admissibilidade da psicografia como meio probatório é a alegativa de que tal documento fere o princípio da laicidade estatal, previsto no art. 5º, inciso VI, da Constituição Federal, sendo, portanto, uma prova ilícita, por desrespeitar uma norma constitucional.

O texto constitucional, no artigo acima referido, dispõe:

É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. 86

Nessa toada, elucida o mestre Nucci:

A psicografia é um fenômeno particular da religião espírita kardecista, significando a transmissão de mensagens escritas, ditadas por espíritos, aos seres humanos, denominados médiuns. Cuida-se, por evidente, de um desdobramento natural da fé e

48 da crença daqueles que exercem as funções de médiuns, como também dos que acolhem tais mensagens como verdadeiras e se sentem em plena comunicação com o mundo dos desencarnados. Não temos dúvida em afirmar tratar-se de direito humano fundamental o respeito a essa crença e a tal atividade, consequência de uma das formas em que o espiritismo é exercitado. Aliás, como outras religiões também possuem variados modos de se expressar, postulados e dogmas transmitidos a seus seguidores e todos os fiéis, igualmente, merecem o respeito e a tutela do Estado. Entretanto, ingressamos no campo do Direito, que possui regras próprias e técnicas, buscando viabilizar o correto funcionamento do Estado Democrático de Direito laico. 87

O argumento acima explicitado pressupõe que a psicografia é um elemento de cunho restritivamente religioso, um dogma da religião Espírita. Entretanto, conforme já explanado anteriormente, percebe-se a fragilidade desta justificativa, pois não há menção ao caráter científico do fenômeno.

A análise acerca da admissibilidade da psicografia como meio de prova baseia-se em critérios racionais, tanto pelas experiências históricas em que se objetivou a comprovação da natureza científica da mediunidade, como pelo exame pericial, na citada perícia grafotécnica.

Ademais, em recente caso de aceitação de psicografia em juízo, na ocasião do julgamento de recurso de apelação, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, por seu Desembargador-Relator Manuel José Martinez Lucas, entendeu que a elaboração do referido documento e sua utilização como prova encontra amparo no próprio texto constitucional, como se vê:

[...] fazem-se necessárias algumas considerações em torno da questão da carta psicografada [...] e que foi utilizada pela defesa em plenário de julgamento, a qual mereceu as maiores críticas do assistente, assim como da Dra. Procuradora de Justiça, que sustenta, inclusive, sua ilicitude como meio de prova.

A matéria, naturalmente, é interessante, pitoresca e polêmica, mesmo porque refoge ao usual no quotidiano forense, ainda que não seja inédita, e envolve uma provável comunicação com o mundo dos mortos, com reflexos numa decisão judicial. Desde logo, consigno que não vejo ilicitude no documento psicografado e, consequentemente (destaquei), em sua utilização como meio de prova, não obstante o entendimento contrário do sempre respeitado Prof. Guilherme de Souza Nucci, em

49 artigo transcrito integralmente no parecer da douta representante do Ministério Público.

Na realidade, o art. 5º, VI, da Constituição Federal dispõe que “é inviolável a

liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas

liturgias”.

A fé espírita, que se baseia, além de outros princípios e dogmas, na comunicação entre o mundo terreno e o mundo dos espíritos desencarnados, na linguagem daqueles que a professam, é tão respeitável quanto qualquer outra e se enquadra, como todas as demais crenças, na liberdade religiosa contemplada naquele dispositivo constitucional.

Só por isso, tenho que a elaboração de uma carta supostamente ditada por um espírito e grafada por um médium não fere qualquer preceito legal. Pelo contrário, encontra plena guarida na própria Carta Magna, não se podendo incluí-la entre as provas obtidas por meios ilícitos de que trata o art. 5º, LVI, da mesma Lei Maior. É evidente que a verdade da origem e do conteúdo de uma carta psicografada será apreciada de acordo com a convicção religiosa ou mesmo científica de cada um. Mas jamais tal documento, com a vênia dos que pensam diferentemente, poderá ser tachado de ilegal ou de ilegítimo. 88

Logo, resta evidente que a mera alegação de que se trata de uma crença religiosa e que, por conta disso, se torna impossibilitada a sua aceitação como prova em juízo, ante a laicidade estatal, deve ser afastada, haja vista que a psicografia não está atrelada exclusivamente à doutrina espírita, assim como a nenhum outro seguimento religioso, além de que tal entendimento desconsidera a natureza científica da psicografia.

Aliado a isso, como exposto, a afirmação de que o Estado é laico deve ser entendida como o fato de o Estado não possuir uma religião oficial. Todavia, a própria Carta Magna protege a liberdade de crença e o livre exercício religioso. Destarte, insistindo-se, ainda, na predominância do caráter religioso da psicografia, o referido princípio da liberdade de culto abre possibilidade para sua utilização como prova.

Outra questão levantada por juristas defensores da impossibilidade da aceitação da psicografia como prova judicial é o argumento de que o aludido documento afronta o princípio do contraditório, pois, em razão da natureza da mensagem, não haveria como contrapor tal prova.

88

BRASIL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Acórdão de nº 70016184012. Relator Manuel José Martinez Lucas. 11 de novembro de 2009. Disponível em : < http://www.tjrs.jus.br/busca/?tb=proc> Acesso em: 20 out 2014.

50 Entretanto, os estudiosos favoráveis à aceitabilidade da carta psicografada entendem que a sua apresentação em juízo não ofende o contraditório nem a ampla defesa. O mestre Renato Marcão, membro do Ministério Público de São Paulo, posiciona-se no sentido de que, quando da produção da carta, não é possível se estabelecer o contraditório. Todavia, a prova estaria assim exposta ao princípio no momento de sua apresentação em juízo. 89

Ademais, havendo reconhecimento da autenticidade da prova psicografada por meio de exame grafotécnico, o conteúdo trazido na mensagem pode ser contestado, confrontando-o com outras provas e evidências já sustentados na instrução probatória. Logo, não fere os princípios do contraditório e da ampla defesa.

Benzer Belgeler