• Sonuç bulunamadı

1.2. DIŞ KAYNAK KULLANIMI

1.2.4. Dış Kaynaklardan Yararlanma Nedenleri

1.2.4.2. Dışsal Nedenler

A coleta de dados se deu por meio de uma pesquisa de campo de inspiração etnográfica com duração de 1 ano e 4 meses, de janeiro de 2013 a abril de 2014, em duas favelas cariocas com UPPs, selecionadas com base nos seguintes critérios: localização em duas diferentes regiões da cidade (zona norte e zona sul); acessibilidade. A escolha de duas favelas em regiões diferentes da cidade, marcadas por uma discrepância em termos de renda média de seus habitantes (enquanto a zona Sul é considera uma zona rica da ciada, a zona Norte é considerada uma zona pobre), foi ao encontro da noção de amostragem teórica proposta por Strauss e Corbin (2008), segundo a qual é válida a procura por locais, pessoas ou fatos que maximizem as oportunidades de descobrir variações entre os conceitos, tornando as categorias mais densas. O trabalho de campo teve o propósito de investigar, a partir da realidade diária das favelas, o campo burocrático do Estado em ação nas favelas e a forma como produzem o espaço social de favelas. Em suma, busca-se, via um olhar etnográfico, identificar como os processos de organizar (re)produzem e são produzidos no espaço social das favelas.

A pesquisa de campo foi realizada por meio de observação participante, de inspiração etnográfica. Conforme explicam Emerson, Fretz e Shaw (1995, p. 1), a etnografia “involves the study of groups and people as they go about their everyday lives”. Portanto, para a realização de uma pesquisa etnográfica, o pesquisador precisa se aproximar de seu objeto de pesquisa, o que significa não apenas uma proximidade física e social, mas também uma verdadeira inserção no mundo daqueles outros que se está pesquisando (EMERSON, FRETZ e SHAW, 1995). Segundo Cunliffe (2010), a etnografia diz respeito à compreensão da experiência humana, da vida de uma comunidade específica, e por isso requer uma interação com a comunidade, a construção de relações.

Nesse sentido, a imersão etnográfica não pressupõe um pesquisador passivo, um pesquisador que procure se manter como “a fly on the wall” (EMERSON, FRETZ e SHAW, 1995, p. 3). Ela envolve um pesquisador com ativa participação nas atividades diárias, cuja presença tem inevitável interferência nos acontecimentos do campo (EMERSON, FRETZ e SHAW, 1995).

Não obstante as inúmeras descrições sobre o método etnográfico, Van Maanen (2010) lembra que não existe nenhuma técnica específica atrelada à etnografia, e ela permanece aberta ao improviso e a modos situados de pesquisa. Humphreys, Brown e Hatch (2003) a comparam ao jazz, e mostram como o trabalho do etnógrafo no campo envolve um improviso

42 semelhante ao da conversação musical presente no gênero musical. Músicos do jazz e etnógrafos, mostram os autores, buscam assumir uma identidade, passam por um processo de auto-descoberta e de descoberta do outro, e estão envolvidos em atividades coletivas e sociais. Tudo isso requer uma grande dose de espontaneidade e de intuição por parte do músico e do pesquisador etnográfico (HUMPHREYS, BROWN e HATCH, 2003).

As etnografias estão enraizadas na observação (ZICKAR e CARTAN, 2010). A observação participante, em particular, é caracterizada por uma abordagem em que o pesquisador insere-se em um campo, e passa a participar de suas rotinas diárias para observá- las de perto (EMERSON, FRETZ e SHAW, 1995). O pesquisador que adota a técnica de observação esforça-se para enxergar os eventos a partir da perspectiva daqueles que estão sendo estudados (ANGROSINO, 2000). Adotamos a observação participante, que, segundo Angrosino (2000), baseia-se no estabelecimento de uma relação harmônica entre o pesquisador e a comunidade estudada, e por isso requer um período relativamente longo de imersão do pesquisador na vida diária daquela comunidade.

Embora a etnografia seja amplamente adotada principalmente nas áreas de antropologia e sociologia, Van Maanen (2010) lembra que, no contexto atual, as pesquisas de inspiração etnográfica, pautadas na observação participante, têm sido realizadas em várias e diferentes áreas do conhecimento, como estudos culturais, jornalismo, tecnologia, medicina, dentre outras. Entretanto, segundo Cunliffe (2010), pesquisas etnográficas ou de inspiração etnográfica não são adotadas com muita frequência em estudos organizacionais. Alcadipani (2008) lembra que embora a etnografia tenha tido, no passado, uma presença importante na área de estudos organizacionais, a tendência ao seu uso vem diminuindo na área. Assim como outros métodos qualitativos, a etnografia carrega, às vezes, um sentido pejorativo na área, pois é associada a resultados que não são generalizáveis (CUNLIFFE, 2010). Para Cunliffe (2010), a impopularidade do método na área de estudos organizacionais está também associada ao longo tempo que precisa ser empregado em uma pesquisa etnográfica, o que vai de encontro às atuais pressões por publicação. Zickar e Cartan (2010) ressaltam, ainda, que o crescente interesse por métodos estatísticos, fortemente disseminados na área a partir da crença de que estes fornecem um maior senso de precisão, contribui para afastar os pesquisadores organizacionais de métodos qualitativos, dentre os quais se destaca a pesquisa etnográfica.

Como lembra Agar (2010), as organizações também são feitas de pessoas que percebem, que interpretam, que possuem afetos e pensamentos e, portanto, as análises deste mundo humano que compõe as organizações precisam investigar as perspectivas e as relações

43 sociais que nele estão em jogo, para que não se restrinjam apenas a aspectos superficiais. A observação participante apresenta-se, assim, como uma alternativa apropriada para a análise organizacional, especialmente quando as organizações são pensadas a partir de seus processos de organizar, “as they happen” (SCHATZKI, 2006), sob uma ótica processual.

Embora no trabalho de campo que venho desenvolvendo eu não tenha “empacotado minha escova de dente” (CUNLIFFE, 2010) e mudado para a favela, meu esforço em investigar os processos de organizar de agentes do campo burocrático do Estado envolve uma observação que se dá de forma ativa, no sentido de que minha presença traz consequências para as atividades que ali se desenvolvem. Fui muitas vezes chamada “a colocar a mão na massa”, seja ajudando a tirar fotos para a elaboração de um relatório, seja ajudando a cuidar das crianças na UPP Mirim, e algumas vezes, até mesmo, a minha opinião foi solicitada, e tentei expressá-la sem gerar controvérsias ou grandes alterações no curso natural dos eventos. Com vistas a me capacitar neste tipo de abordagem metodológica, que não envolve “receitas de bolo” ou listas de instruções, segui, primeiramente, as recomendações de Zickar e Cartan (2010) que sugerem aos pesquisadores a leitura de outras pesquisas etnográficas. Preparei-me para meu trabalho de campo lendo pesquisas de áreas alheias aos estudos organizacionais (ex: WHYTE, 2005), de outras áreas, mas que também adotam a favela como campo (ex: GRILLO, 2013; CAVALCANTI, 2007; ZALUAR; 2000), e, embora mais escassas, etnografias em estudos organizacionais (ex: ALCADIPANI, 2008).

Busquei, em um primeiro momento, me inserir na vida das favelas estudadas por meio de contato com os moradores locais, e a partir deles identificar os agentes do campo burocrático do Estado que se inserem no cotidiano da favela e realizam processos de organizar. Conforme ressaltou Alcadipani (2008), uma grande dificuldade da observação está em decidir para onde olhar, e é preciso tomar decisões neste sentido. Portanto, para selecionar aqueles agentes cujos trabalhos eu iria acompanhar mais de perto, pautei-me na visão dos próprios moradores e esperei que eles me indicassem os agentes com quem interagiam e que transformam seu espaço, e muitas vezes até mesmo que me apresentassem para eles. Além disso, também procurei selecionar aqueles que têm maior circulação pelo espaço das favelas, ampliando as minhas possibilidades de compreender o processo de produção do espaço. Ressalto, entretanto, que também interagi e acompanhei, embora de forma mais eventual, o trabalho de outros agentes do campo burocrático do Estado, na medida em que existia uma interação entre os próprios agentes do campo burocrático do Estado que me conduziam uns

44 aos outros, e que em alguns momentos era convidada pelos próprios moradores para participar de eventos de outros agentes.

Inicialmente fazia visitas semanais às favelas, e aos poucos a frequência de visitas foi sendo intensificada, conforme apareciam eventos, reuniões ou atividades para os quais era convidada. Em muitos momentos foi necessário, inclusive, escolher entre um evento e outro, pois alguns eventos se sobrepunham, especialmente entre as duas diferentes favelas. Minhas visitas eram sempre acompanhadas de notas de campo, que consistem em anotações sistemáticas a respeito daquilo que se observa, com vistas a acumular um registro escrito das vivências no campo (EMERSON, FRETZ e SHAW, 1995).

Entretanto, como apontam Emerson, Fretz e Shaw (1995), o pesquisador precisa saber identificar quando e como é possível fazer notas de campo. Logo de início percebi que as anotações raramente poderiam ser feitas dentro das favelas. Primeiro, porque podem gerar constrangimentos e desconfortos, e até mesmo interferência de traficantes. E, ainda, porque, em geral, estava envolvida em algum tipo de atividade, como festas, caminhadas, recreações ou conversas informais, que não me permitiam parar e fazer anotações. Portanto, foi necessário trabalhar com a memória e passei a fazer minhas anotações de campo no momento em que chegava em casa, logo após alguma visita. Em situações em que participava de reuniões algumas notas de campo podiam ser ali realizadas, já que outras pessoas também estavam com seus cadernos anotando algumas questões referentes à reunião. Vale ressaltar que recebi autorização para gravar algumas reuniões e eventos, o que facilitou o registro dos acontecimentos do campo.

A observação participante é, em geral, complementada com outras formas de coleta de dados, que permitem ao pesquisador conferir os resultados obtidos por meio da observação (SANDAY, 1979). Assim como o olhar, o ouvir também é importante, e a realização de entrevistas, paralelamente às conversas informais, pode ser uma boa complementação na medida em que possibilita obter e aprofundar explicações fornecidas pelos próprios membros da comunidade investigada (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1996). Nesse sentido, realizei entrevistas com agentes do campo burocrático do Estado que realizavam processos de organizar nas favelas, para também ouvir seus relatos a respeito de suas ações dentro e fora das favelas. Para obter mais observações neste sentido, também foram realizadas entrevistas com agentes do campo burocrático do Estado que assumem posição hierárquica superior em algumas organizações que possuem representantes inseridos na favela, mas que não estão lá presentes em seu dia a dia de trabalho, os quais geralmente estão inseridos em atividades de

45 planejamento dos processos de organizar em favelas. As entrevistas possibilitaram, ainda, um conhecimento mais profundo da ação de agentes que realizam intervenções esporádicas no campo, que não estão inseridos rotineiramente nas favelas, e que, portanto, não tem suas ações observadas com tanta frequência, ou daqueles agentes que estão inseridos nas favelas, mas que possuem pouca interação com os moradores e cujo trabalho eu acompanho apenas de forma esporádica por meio da observação. Alguns moradores também foram entrevistados, no sentido de obter informações sobre a interface que se estabelece entre moradores e os representantes do Estado dentro daquele espaço do qual também são parte importante. As entrevistas também se mostraram importantes no sentido de obter informações a respeito de um momento anterior, em que eu ainda não estava inserida no campo. As comparações entre as favelas antes e depois do processo de “pacificação” foram surgindo naturalmente nas entrevistas realizadas, e trouxeram informações que não podiam ser captadas apenas por meio de observação. Nesse sentido, 91 pessoas foram entrevistadas, e as entrevistas tiveram duração média de 2 horas. A distribuição de entrevistados de acordo com o programa ou favela está especificada nas Tabelas 1, 2 e 3 abaixo:

Tabela 1. Entrevistados Favela da zona Sul

Categoria de Entrevistado Quantidade

Morador 18

Representantes da UPP 10

Representantes do PAC 5

Representantes da UPP Social 2

Representantes do Territórios da Paz 2

Representantes do CRAS 2

Representantes da Clínica da Família 1

Representantes do CIEP 1

Representantes da Comlurb 2

Representantes do ITERJ 4

Total 47

Tabela 2. Entrevistados Favela da zona Norte

Categoria de Entrevistado Quantidade

Morador 14

Representante da UPP 11

Representante da UPP Social 2

46

Representante do CRAS 6

Representante da Comlurb 2

Total 37

Tabela 3. Entrevistados Gerais

Categoria de Entrevistado Quantidade

Representante da UPP 2

Representante da UPP Social 3

Representante do Territórios da Paz 2

Total 7

Vale ressaltar que as entrevistas seguiram um roteiro semi-estruturado. Embora tenham sido construídos roteiros específicos para cada entrevistado, a base dos roteiros encontra-se em Anexo (sendo um roteiro relativo a agentes do campo burocrático do Estado e outro a moradores). Os moradores entrevistados foram selecionados a partir da observação, que possibilitou identificar lideranças comunitárias, e pessoas que possuíam maior interação com alguns agentes do campo burocrático do Estado. Além disso, ao final de cada entrevista foram pedidas indicações de pessoas a serem entrevistadas. Os agentes do Estado foram selecionados também por meio de observação, e nos casos em que os programas possuíam poucos representantes nas favelas buscou-se entrevistar todos eles (este é o caso do PAC, UPP Social e Territórios da Paz). Foi adotado o critério de saturação para selecionar a quantidade de pessoas entrevistadas, ou seja, os dados foram coletados até que todas as categorias estivessem saturadas e nenhum dado novo ou relevante parecesse surgir (STRAUSS e CORBIN, 2008). Vale ressaltar, que a diferença na quantidade dos agentes do campo burocrático do Estado entrevistados em cada um dos programas se dá também pela quantidade destes agentes presentes em campo. Programas como a UPP Social e o Territórios da Paz, por exemplo, possuíam apenas 2 representantes em cada favela, e portanto todos os agentes dos programas em campo foram entrevistados. Já a UPP destaca-se como o programa com maior número de entrevistas devido à grande quantidade de policiais em cada favela (cada UPP possuía em torno de 120 policiais), e devido à minha dificuldade inicial de “aprender” a linguagem policial. Dentre todos os agentes que participaram da pesquisa, os policiais eram aqueles que se destacavam por possuir uma linguagem própria, um vocabulário muito particular, e no início tive dificuldades para compreender a sua língua. Usavam termos como “guarnição”, “grupamento”, “peixes”, “FEM”, “RUMBI”, “bico”, nomes de armas,

47 nomes de uniformes, referiam-se às escalas e às divisões internas às UPPs por meio de códigos, e para que eu aprendesse a “falar a língua” dos policiais foi preciso uma interação mais intensa e um maior número de entrevistas. Ao final, os policiais já brincavam que eu deveria fazer concurso para a PM, porque eu já falava muito bem a língua deles. A diferença no número de entrevistados entre a favela da zona Norte e a favela da zona Sul se deu devido ao reduzido número de agentes do campo burocrático do Estado da segunda em relação à primeira. Este dado também servirá para embasar a análise apresentada nos próximos capítulos.

Vale ressaltar, que também recebi autorização para gravar algumas reuniões entre UPPs e moradores, reuniões do Territórios da Paz e audiências públicas. Entretanto, ao todo apenas 6 reuniões foram gravadas, no início da minha pesquisa de campo, tendo em vista o clima acalorado das reuniões. As reuniões do PAC, por exemplo, sempre muito conflitivas, nunca foram gravadas, porque temia pela integridade do meu gravador. Com o decorrer da pesquisa de campo, o “clima” em ambas as favelas foi ficando mais tenso, e as reuniões refletiam esta mudança. Acabei optando por encerrar as gravações, e me pautei em minha habilidade de fazer anotações rápidas para registrá-las.

De forma a possibilitar a análise de dados, foi necessário, primeiramente, a organização dos dados coletados ao longo da pesquisa de campo e a transcrição de todas as 91 entrevistas realizadas e das 6 reuniões gravadas. Para isso, contei com a ajuda de alguns profissionais que foram instruídos por mim para me auxiliar nas transcrições literais das entrevistas, embora eu mesma tenha realizado parte das transcrições. O auxílio externo foi necessário devido à grande quantidade de entrevista e o tempo limitado para a finalização da pesquisa de tese. As notas de campo e as entrevistas transcritas totalizaram mais de 3.200 páginas de dados.

Benzer Belgeler