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31.12.2009 Maliyet Bedeli

26 DĠĞER VARLIK VE YÜKÜMLÜLÜKLER

Os rumos tomados por José Oiticica em sua trajetória social foram constituídos por debates, pelas discussões, entraves e ações na militância anarquista, pelos estudos na área da língua portuguesa, pela sua produção literária e por sua incursão no jornalismo. Atividades estas feitas por escolhas próprias, que o distanciaram de “qualquer ramo do Direito”. Para ele o enfrentamento das questões sociais era incompatível com as atividades de um jurista.

O ano de 1918 foi para José Oiticica um ano de afirmação na militância anarquista, de debates com figuras de destaque do cenário político e intelectual brasileiro, marcando a sua trajetória como cronista da imprensa social. Nesse ano, José Oiticica escreveu uma carta contra Rui Barbosa com investidas provocativas que deixavam ver a sua aversão ao Direito e as atividades decorrentes desse curso.

A carta foi publicada na primeira página do jornal Correio da Manhã, de 26 de fevereiro de 1918, e foi redigida em protesto ao apoio que Rui Barbosa deu à candidatura de Evaristo de Morais, declarado em artigo anterior para o mesmo jornal.

28 O Senador Dr. Francisco de Paula Leite e Oiticica publicou antes do nascimento de José Oiticica duas peças teatrais intituladas: uma Dona Clara Camarão, em 1877, e outra com o título Pai (s/d). No memorial de sua família consta que ele era colaborador da imprensa de Alagoas e do Rio de Janeiro. (ROSA E OITICICA, s/data, p. 118-119).

29 Na carta a Rui Barbosa de 1918, José Oiticica opõe-se a seu interlocutor como jurista em contrapartida a ele como anarquista, dessa forma o subtítulo faz uso das palavras do discurso jornalístico dele.

32 A seguir alguns trechos comentados mostram a posição de Oiticica em relação ao Direito:

V. Exª dá mão-forte ao Sr. Evaristo de Morais, e faz bem. Os operários vêem nisso o apoio justo de um legista ao colega recém-formado.

Desgraçadamente, é quase certo que os operários brasileiros, analfabetos quase todos, se apalermem diante dos conselhos mansos de V. Exª e votem no Sr. Evaristo de Morais. Pagam assim com habeas-corpus e mais serviços grátis. (OITICICA, Correio

da Manhã, 26-02-1918, p.1, apud NEVES, 1970, p.52, grifos nossos).

O candidato apoiado por Rui Barbosa posicionava-se no meio operário como um socialista disposto a ser o porta-voz dos trabalhadores. Essa posição não agradou as lideranças dos grupos libertários das quais José Oiticica era integrante. A disputa com os socialistas intensificou-se com as reverberações nas lutas sindicais do movimento operário brasileiro, dado pelo avanço do bolchevismo no pós-Revolução Russa de 1917.

Rui Barbosa era uma figura destacada, como intelectual, como político, como literato e jurista. Ter o seu apoio potencializava as chances de eleição de Evaristo de Morais. Oiticica já demonstrara antes a sua decepção com o Direito e com as atividades do jurista, a carta foi mais uma oportunidade de ele externar suas idéias e lançar as suas críticas a este intelectual:

(...) a religião e o Direito. São eles os responsáveis que mantêm a organização social ótima para V. Exª e para os de cima, e horrorosa para os de baixo, os trabalhadores. Essa organização permite que V. Ex exija cem, duzentos, trezentos contos por uma causa para mostrar aos tribunais, que os dois mil contos que Fulano tem pertencem a Sicrano. Esse extraordinário trabalho de V. Exª (podia referir, por exemplo, ao engenhoso parecer de V. Exª sobre os bens da mão morta) merece o prêmio de um quinhão farto de riqueza humana. Muito bem, mestre ilustre! Agora respondo eu: Em primeiro lugar, nem todos os advogados são ricos como V. Exª Há muitos cujo capital- talento é reduzido como rabo de cotia. O argumento que poderia valer para V. Exª não vale para a maioria deles, vadios quase na totalidade, chicanistas a pedir basta, trapaceiros à vontade do corpo. (OITICICA, Correio da Manhã, 26-02-1918, p.1,

apud NEVES, 1970, p.48).

Nesta carta Oiticica deixa evidente todo o seu conhecimento sobre as obras de Rui Barbosa e se posiciona em um terreno oposto. Avesso às práticas profissionais do Direito, ele ironiza a figura do jurista:

Extraordinário mestre!

Desde os quinze anos, habituei-me a ler tudo quanto V. Exª escreve ou diz, livros, discursos, conferências, pareceres, artigos, acompanhando o pensamento de V. Exª da campanha abolicionista à civilista, das Lições de calkins às finanças da República, do prefácio de Guliver às Cartas de Inglaterra, de O papa e o concílio ao parecer sobre o ensino, do célebre artigo Pornéa à série de liquidação final, à famosa Réplica, a conferência de Buenos Aires, etc, etc (...) em tudo o mais, diametralmente opostos: V. Exª apesar do prefácio ao livro de Jânus, é católico, apostólico e romano, não sei ainda porque não conde papal; eu, herege e, não sei por que, ainda não excomungado. V. Exª

33 sempre foi, é e será político, e eu sempre detestei, detesto e detestarei política; V. Exª é homem do Direito, das leis, advogado incomparável, eu antijurista, sujeito para quem a fonte das desgraças é o direito, e um dos malfeitores da sociedade o advogado; V. Exª resumamos, é republicano ou monarquista (não sabemos bem, nem eu nem V. Exª), em todo caso conservador, amigo do Estado, defensor da ordem legal, anti-socialista; eu nem republicano, nem monarquista, nem democrata, vendo como vejo na ordem legal a compreensão legal, na democracia a seleção das incompetências. (OITICICA, Correio da Manhã, 26-02-1918, p. 1, apud NEVES, 1970, p.46).

Desse confronto emerge a representação da figura do anarquista para o jurista e os seus “amigos”; em contraposição, outra representação, a do anarquista propagandista da sociedade nova, para isso faz uma alusão indireta aos dez mandamentos bíblicos, uma ironia desdobrada de sua participação nas correntes do anticlericalismo e do livre pensamento30:

“Anarquista”! Gritará V. Exª e, em torno dos amigos de V. Exª, padres e juristas, generais, condes, políticos e comerciantes, ouvirão trons de dinamites, sentirão o fedor de pólvora, verão punhais erguidos. O Sr. Arcoverde benzerá V. Exª, o sr. Chefe de polícia alarmará secretas, o Sr. Modesto Leal reforçará a burra ou as burras.

Peço a todos calma. Nunca surrei ninguém, nunca matei ninguém, honro pai e mãe, não cobiço a mulher do próximo, dou pão a quem tem fome, visto os nus, não cobro a ninguém, obedeço fielmente às leis do meu país, cumpro os meus deveres meticulosamente, não faço operação por quatro contos, não exijo vinte por cento dos inventários, não prorrogo sessões da Câmara remuneradas, não ganho mil réis de cada firma reconhecida, não faço contrabandos, não especulo, não fumo, não bebo, não conheci Bolo-Paxá. Creio-me modéstia à parte, um sujeito sofrível, nem ótimo para santo (tenho bom gosto), nem ruim para o xadrez. [...] (OITICICA, Correio da

Manhã, 26-02-1918, p.1, apud NEVES, 1970, p.47)

Oiticica procura dissipar o estigma dos trons de dinamite31 que pairava sobre a sua imagem como militante anarquista e, ao mesmo tempo, diminuir a imagem de confiabilidade do jurista. Um de seus objetivos era mostrar que Rui Barbosa não estava, nunca esteve, em nenhuma medida, a favor da questão social:

30 As inserções de José Oiticica nas correntes do livre pensamento e do anticlericalismo serão abordadas no próximo capítulo.

31 A expressão trons de dinamite utilizada por Oiticica deve-se ao fato de a militância anarquista em geral ser associada por alguns à corrente conhecida como anarcoterrorismo. Esta era a faceta reconhecidamente mais feroz e brutal do anarquismo na Europa. Nesta corrente, cuja expressividade maior se deu no final do século XIX. Pequenos grupos em situação de isolamento e ilegalidade faziam uso da radicalização da idéias de propaganda pela ação. Para exemplificar as ações desses grupos, um artigo do jornal francês intitulado Produtos

antiburgueses divulgava a necessidade de todos conhecerem as ciências técnicas e químicas e ensinava aos leitores como fabricar bombas: Nós colocamos sob os olhos dos nossos amigos os materiais inflamáveis e

explosivos mais conhecidos, os mais fáceis de manipular e de preparar, e, em uma palavra, os mais úteis. É necessário que, para a luta que se aproxima, cada um seja, um pouco mais químico. As ações de matar membros do governo, políticos burgueses, autoridades eclesiásticas eram vistas como atos ideológicos e havia chamados de luta Viva a dinamite. Viva a Revolução Social. Viva a anarquia. Chegará, chegará. Cada burguês sua bomba

receberá. Em resposta a essas táticas, jornais libertários publicavam artigos censurando a dinamite, as ações individuais e defendendo as ações coletivas dos trabalhadores como impulsionadoras da Revolução Social (VALADARES, 2000, p.28-29).

34 [...] ouso inquirir de V. Exª o seguinte: “Quem sustentava V. Exª enquanto estudava no colégio e na academia?” Meu pai! dirá V. Exª e eu contesto: “Não. O pai de V. Exª pagava o colégio, a academia, Vestia V. Exª, comprava livros, gastava dinheiro. Dinheiro é riqueza, representação social da riqueza produzida pelos trabalhadores. Enquanto V. Exª, felizardo, estudava e desenvolvia o seu espírito, milhares de crianças sem pai rico não podia estudar, e não podiam estudar por que a sociedade os obrigava a trabalhar, para viver nas oficinas, nas fazendas, nas senzalas. É verdade no tempo de V. Exª estudante e acadêmico, era senzala, o negro escravo, os molequinhos que não tiveram a fortuna de nascer brancos com V. Exª e filhos de homem rico e influente. V. Exª se educou com as mortificações desses desgraçados, com o sangue do proletariado negro que sustentava os senhores déspotas. Conheço toda a campanha de V. Exª pela abolição. Confesso que me dá a impressão de uma defesa apenas de jurista que se envergonha de ver a escravidão porque os juristas a condenaram, as leis burguesas a repelem, os Estados a repudiam. Não vejo o homem que sente e se revolta. Exatamente como agora V. Exª reconhece certas reivindicações porque os tratadistas as proclamaram, depois da ameaça coletiva dos trabalhadores, os parlamentos as aceitaram por não ter remédio, os capitalistas as toleram para evitar maior mal. Pois os trabalhadores de hoje são os escravos de ontem.[...]

Sou de V. Exª admirador sincero e perigoso, José Oiticica.

(OITICICA, Correio da Manhã, 26-02-1918, p.1, apud NEVES, 1970, p.52)

Seus argumentos sobre a questão social revelaram uma leitura avançada e marcada pela literatura militante inserida no país32. Os conflitos do capital x trabalho, as injustiças sociais remontando ao passado escravista brasileiro são argumentos de Oiticica para marcar de maneira contundente a distância entre Rui Barbosa e ele. O primeiro distante das questões sociais, e o segundo distante do Direito, da Igreja e comprometido com as causas operárias.

Artigos como os citados anteriormente foram elaborados na fase de maior efervescência do movimento operário, quando os grupos anarquistas estavam na condução das greves que continuaram a ser deflagradas até o episódio de 1918, a insurreição anarquista que ocasionou a sua primeira prisão. O seu interesse pela questão social estava centrado no trabalho de militância, tal como foi verificado pela pesquisa nos registros de suas conferências sociais e nos artigos para a imprensa libertária.33

32 Essa literatura foi introduzida principalmente pelas levas de imigrantes que constituíram as nossas classes operárias e, entre os quais líderes desses segmentos embrenhados no sindicalismo desenvolvido no período. Entre eles os articulistas, simpatizantes e militantes nos jornais anarquistas, estavam em contato com discussões que envolviam concepções de líderes das correntes anarquistas preocupados com a educação, como, por exemplo, os russos Mikhail Bakunin e Pietr Kropotkin, o inglês William Godwin, o alemão Max Stirner, os franceses Pierre-Joseph Proudhon e Paul Robin, o italiano Errico Malatesta. Além desses filósofos anarquistas, havia um intenso debate sobre o racionalismo de Francisco Ferrer y Guardía.

33 A imprensa operária começou a ser criada no Brasil no final do século XIX, atingindo consistente organização nas duas primeiras décadas do século XX. Para o seu desenvolvimento contou com a forte presença da militância anarquista (entre outras correntes de esquerda), e também com a participação de um elemento imprescindível à sua organização, o profissional gráfico. Segundo Maria Nazareth Ferreira, em seu estudo A imprensa operária

no Brasil “estes profissionais, pela exigência de sua atividade, eram alfabetizados, de forma que desenvolveram e utilizaram o jornal com infinitos resultados positivos" (FERREIRA, 1978, p.14). Sobre a imprensa libertária ver: Hardman (1983); Khoury (1988); Giglio (1995); Dutra (2002); Gonçalves (2002), Figueira (2003).

35 A fala de José Oiticica denota a sua visão sobre o trabalho do profissional bacharel em Direito e mostra as suas adesões ao anarquismo. Emergem do seu discurso, argumentos retirados do terreno do adversário. Do qual antes ele, José Oiticica foi um integrante. Essa carta a Rui Barbosa pode ser compreendida como ratificação de sua decisão, do início dos anos 1900 em não seguir o Direito.

Nessa carta a Rui Barbosa, Oiticica criticou o caminho do bacharel recém-formado Evaristo de Morais, por sua opção de aceitar o caráter “amistoso” do jurista Rui Barbosa em troca de futuras concessões possíveis na “utilidade” de porta-voz dos trabalhadores.

Como se verificou até este momento da narrativa, José Oiticica optou por romper com a perspectiva mais confortável da carreira da política institucional, do trabalho nas repartições públicas e das estratégias de construção de relações passíveis de abrirem portas ao êxito profissional. Em lugar disso, a sua trajetória foi construída no magistério carioca e por uma vida voltada à militância anarquista, o que implicava dedicar-se às práticas da educação anarquista, opondo-se a três grandes inimigos: Estado, Capital e Religião.

Benzer Belgeler