A ação civil pública foi trazida ao ordenamento jurídico brasileiro pela Lei n.º 7.347/85, e tratou-se de uma das maiores revoluções no âmbito do processo civil pátrio até então vista.
Hugo Nigro Mazzilli ensina o seguinte:
A rigor, sob o aspecto doutrinário, ação civil pública é a ação de objeto não penal proposta pelo Ministério Público. Sem melhor técnica, portanto, a Lei n.º 7.347/ 85 usou a expressão ação civil pública para referir-se à ação para defesa de interesses transindividuais, proposta por diversos co-legitimados ativos, entre os quais até mesmo associações privadas, afora o Ministério Público e outros órgãos públicos.32
Em razão da confusão feita pelo legislador, explicada com maestria por Hugo Nigro Mazzilli, durante muito tempo foi alvo de discussão a possibilidade de o Ministério Público propor ação civil pública para tutelar o interesse de um único indivíduo, já que estava enraizado o pensamento de que esse tipo de ação seria exclusivo para a tutela de interesses transindividuais ou coletivos lato sensu.
A discussão acima foi superada diante dos Estatutos já mencionados acima, que expressamente concederam ao Ministério Público a competência para instaurar a ação civil pública para a defesa dos interesses individuais indisponíveis dos menores e dos idosos.
Acontece que restou outra discussão, a qual ainda é polêmica a nível doutrinário: trata-se da possibilidade de proposição de ação civil pública para defender o interesse de um único indivíduo, fora das hipóteses do Estatuto do Idoso
32
MAZZILLI, Hugo Nigro. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. 18ª ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Saraiva, 2005, pp. 69-70.
e do Estatuto da Criança e do Adolescente. Entretanto, a jurisprudência, em especial do Superior Tribunal de Justiça, já vem se posicionando de forma favorável33.
Ora, como já defendido algumas páginas atrás, o Ministério Público pode tutelar de forma individual, os interesses indisponíveis de pessoas sem recursos suficientes, estando legitimados para tais situações da mesma forma que estão no que tange à defesa dos menores e dos idosos. Dessa maneira, os mesmos instrumentos que podem ser utilizados para a defesa destes também podem ser para a de outras pessoas igualmente hipossuficientes.
33 AgRg no REsp 1045750/RS, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em
23/06/2009, DJe 04/08/2009; REsp 817.710/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 17/05/2007, DJ 31/05/2007 p. 364.
Negar a legitimidade ministerial para as ações que visam tutelar direitos individuais indisponíveis significaria agravar, ainda mais, o difícil acesso à Justiça daquelas pessoas mais carentes e cujos direitos são mais vulnerados.
Impende lembrar que a prestação da tutela jurisdicional pelo Estado-Juiz deve se dar com a efetivação das normas materiais, através de um instrumento célere e eficaz: o processo. Aqui é de se ressaltar, então, que essa tutela jurisdicional, de modo a respeitar o princípio basilar da igualdade, preconizado constitucionalmente no art. 5º, caput, deve estar ao alcance de todos, inclusive daqueles hipossuficientes economicamente.
A realidade social do nosso país, com francas desigualdades sócio- econômicas e com omissão estatal de suas obrigações básicas, como a prestação de assistência jurídica e judiciária gratuita, deve ser superada.
Neste cenário surge a importância do Ministério Público como instituição voltada para uma finalidade social, tendo relevante papel na salvaguarda de direitos da população, especialmente quando se tratar de direitos indisponíveis. É cristalina, então, a legitimatio do MP para a propositura de ações diversas – obviamente enquadráveis nas latitudes de sua função de defensor de interesses sociais -, tanto como de interesses transindividuais quanto de individuais indisponíveis, a fim de permitir e viabilizar o acesso à justiça.
Por outro turno, não se pode olvidar que o Judiciário detém o poder – e dever – de apreciar toda e qualquer lesão ou ameaça a direito (art. 5º, XXXV, Constituição Federal), mas que em razão da inércia natural deste Poder - não sendo possível cumular as funções postulatória e decisória num mesmo órgão -, urge existir um órgão para promover em juízo medidas necessárias a desencadear a atividade judiciária, quando se tratar de direitos de cunho coletivizado ou individual de natureza indisponível.
Exsurge, assim, a figura do Ministério Público, como Instituição essencial à justiça e, nessa perspectiva, guarda enorme relação com a questão do acesso à justiça. Afinal de contas, este é o órgão que pode obter junto ao Judiciário decisões capazes de solucionar conflitos e proteger bens e valores de interesse da sociedade. Qualquer raciocínio em contrário somente afrontaria o caput do comando 5º de nossa Lex Mater, que proclama a igualdade de todos perante a lei.
Por meio do Parquet significativa parcela da sociedade – especialmente aquelas pessoas mais carentes cujos direitos indisponíveis estejam sendo infringidos ou ameaçados de violação e que, naturalmente, teriam dificuldade em chegar ao Judiciário – é levada à Justiça, com vistas a ter seus direitos reconhecidos e assegurados, imprimindo efetividade às disposições constitucionais.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3% A7ao.htm>. Acesso em: 20 de outubro de 2008.
CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil. Vol. 1. 16ª ed., rev. e atual. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2007.
CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido R.. Teoria geral do processo. 23. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2007.
CRUZ, Manoel Martins da Costa. A Instituição do Ministério Público. Revista Jurídica do MP/MG, n.º 15, 1993.
DIDIER Jr., Fredie. Curso de Direito Processual Civil, Vol. I. 9ª ed. rev., atual. e ampl. Salvador: Editora JusPodivm, 2008.
GONÇALVES, Edílson Santana. O Ministério Público no Estado Democrático de Direito. Fortaleza: ABC Fortaleza, 2000.
LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 11ª ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Método. 2007.
MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Interesses difusos. 5ª ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.
MAZZILLI, Hugo Nigro. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. 18ª ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Saraiva, 2005.
MAZZILLI, Hugo Nigro. Manual do Promotor de Justiça. 2ª ed. São Paulo: Saraiva, 1991.
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 18ª ed. São Paulo: Atlas, 2006. NOVELINO, Marcelo. Direito Constitucional. 3ª ed. ver., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2009.
SARLET, Ingo Wolfang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001.
SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das Normas Constitucionais. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, 2002.
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 24ª ed. rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 2005.
THEODORO JR., Humberto. Curso de Direito Processual Civil – Teoria Geral do direito processual civil e processo de conhecimento. 47ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007.