A produção de um filme não é marcada por escolhas involuntárias (NAPOLITANO, 2008). A construção desses sentidos ocorre por meio da interação entre as escolhas de quem produz e os conhecimentos e vivências daquele que o vê e o lê criticamente. Desse modo, as imagens fílmicas estabelecem uma interação entre quem as vê/lê e quem as produz/cria e entre os vários elementos que as compõem (NAPOLITANO, 2008).
Nesta seção observei a interação dos educandos com o personagem Robert Neville (interpretado pelo ator Will Smith) do filme I am Legend (Eu sou a lenda), verificando a imagem desse personagem construída pelos educandos-leitores.
Em relação ao personagem Neville, os educandos revelaram uma identificação com o personagem, em virtude do papel que este desempenha no filme, trazendo à tona mais uma vez alguns valores sociais:
Ester: No começo do filme, na cena de abertura mostra que esse vírus que dizima toda a humanidade surge da experiência que uma médica faz em busca da cura do câncer, modificando geneticamente o vírus do sarampo para o desenvolvimento de uma vacina. Quem é, na história, o doutor Neville?
Jasper: Um cientista Ester: Um cientista?
Rosalie: Um cientista que salvou... foi ele quem fez a cura pro vírus.
Ester: Ok! Agora se eu pedisse pra vocês contarem a história dele pra os seus colegas do segundo ano, como é que vocês contariam a história dele... do cientista? Victoria: Alguém que quis salvar a família, mas mesmo depois de muito esforço não conseguiu.
Ester: E o que mais? Vamos lá, pessoal!
Victoria: Alguém que passa o resto da vida sozinho com a Sam... até que a cadela morre.
Carlisle: Morre não, Victoria... ele se vê obrigado a matá-la. Victoria: É isso mesmo, Carlisle. Valeu!
Ester: E por que ele tem que matar a Sam? Victoria: Porque ela foi infectada
Carlisle: Porque ela tá contaminada, professora! Ester: E por que ele também não foi contaminado?
Renée: Porque ele era a cura... porque a cura tava no sangue dele.
Na fala de Renée – “Porque ele era a cura [...]” – , o personagem de Will Smith é apresentado como um tipo de heroi. Essa ideia é compartilhada com Victoria – “Alguém que
quis salvar [...] mas não conseguiu” – e Carlisle – “[...] se vê obrigado a matá-la” –, que
ressaltam algumas fragilidades na trajetória de Neville.
Há ainda, nas considerações de Victoria, inferências às frustrações de Neville, enquanto cientista, por não conseguir salvar a família e Sam, sua cadela de estimação.
Victoria e Carlisle fazem referência à cena em que Neville, fragilizado e pesaroso, mas com o instinto de sobrevivência falando mais alto, mata Sam, sua única companheira naquela cidade devastada.
Percebo, por parte dos educandos, a compreensão de uma interessante dualidade apresentada por Neville, personagem principal da narrativa fílmica, pois o reconhecem como um homem que assume dois papeis sociais – militar e cientista – que convergem para um mesmo objetivo, conforme posso depreender do trecho abaixo:
Ester: Agora, por que é que vocês acham que Neville se dedica tanto ao exercício da sua profissão na tentativa de encontrar a cura pra esse vírus-mutante?
Rosalie: Ah, professora, acho que é porque ele perdeu a mulher e a filha pra essa doença que aquela médica criou no laboratório, mesmo que sem a intenção, né? Então vocês acham que a tentativa dele em achar a cura pra modificação genética causada pelo vírus-mutante do sarampo era por conta da mulher e da filha? Mas...
antes dele tentar colocar a mulher e a filha dele no avião pra retirar as duas da cidade e isolá-las em um lugar seguro, ele já não demonstra a sua necessidade de encontrar uma solução pro problema?
Victoria: É... agora que a senhora falou, eu acho que sim!
Ester: Mas pra vocês, por que ele chama essa responsabilidade pra ele mesmo? Ester: No início eu percebi que alguns de vocês ficaram em dúvida quanto ao que ele era e até comentaram entre si que ele era um militar e... depois observaram que ele era um cientista. Por que será, então, que ele se assume como responsável por encontrar uma solução para aquele problema?
Ester: Vamos lá, gente! Ninguém arrisca um palpite? Alguém pensou nisso enquanto assistia ao filme?
Jasper: Não sei... pode até ser que eu teja errado, mas acho que é porque como militar é dever dele defender a pátria. E isso é muito forte lá nos Estados Unidos, né, professora? Todo americano é muito patriota. A gente vê pelos filmes.
Verifico, a partir da fala do Jasper, que este reconhece a responsabilidade com a pátria como sendo um papel do cientista, que é também um militar, e assume a missão de encontrar a cura para o vírus-mutante. Sabendo do interesse de Jasper pela carreira militar, cogito que talvez faça essa leitura com base nos conhecimentos de mundo que possui sobre a vida militar, trazendo à tona e compartilhando conosco, por uma perspectiva freireana, aspectos referentes à leitura que faz do mundo, levando-se em conta essa temática.
O fato de Neville, na figura do cientista, empenhar-se na busca da cura para um vírus- mutante que devastou toda a cidade de Nova Iorque, sendo ele o único humano sobrevivente a residir nela, reforça a identificação dos educandos com o personagem, que possui características heroicas, o que é enfatizado pelas cenas que fragilizam a trajetória do personagem, produzindo efeito sobre os educandos.
A interação entre as escolhas do produtor e os educandos, nas imagens do personagem Robert Neville é movida pelos valores sociais que este representa: militar (defensor da pátria) e cientista. Desse modo, as reações dos educandos são produzidas pela identificação destes com o personagem em relação às características morais e psicológicas de Neville.
As análises que apresentei nesta seção verificam as relações que os educandos foram capazes de estabelecer com as obras fílmicas trabalhadas, em especial em I am Legend (Eu
sou a lenda), e apontam para a observação de que os conhecimentos, as vivências do educando-leitor e as leituras que fazem do mundo auxiliam os educandos na compreensão das construções textuais, fazendo com que as escolhas do produtor sejam compreendidas e acrescidas de novos significados.
Assim, fundamentada nas ideias freireanas e em Mortimer e Scott (2002), reconheço que a compreensão dos sentidos contidos nas obras fílmicas trabalhadas emergiu de um processo dialógico de socialização e construção coletiva de significados na sala de aula.
6.3.4 A leitura de filmes comerciais como proposta pedagógica para o ensino