sociais que talvez sejam os mais difíceis de serem quebrados, por estarem incurtidos, e serem difundidos em todos os espaços públicos e privados (casa, escola, trabalho, etc.).
3.4. AS SOCIABILIDADES
No espaço de trabalho em ônibus, as sociabilidades se dão por meio das conversas, tanto entre a(o)s trabalhadora(e)s, quanto desta(e)s com os passageiros. Observando a(o)s trabalhadora(e)s no cotidiano de trabalho, nota-se que as conversas possuem dois motivos: descontrair e trocar informações inerentes ao trabalho realizados pela(o)s motoristas e cobradora(e)s, no caso, informações a respeito das linhas, paradas, e informações sobre os chefes e outros colegas.
O momento da conversa é o momento de alívio de tensão no trabalho, onde a trabalhadora informalmente pode falar do trabalho, falar o que sente sem se comprometer com a empresa e ao mesmo tempo, fugir do espaço de trabalho ao adentrar na experiência do seu interlocutor. Percebi isto enquanto realizava a pesquisa de campo. A troca de informação e descarrego de angústias e/ou sofrimento é um momento importante no trabalho, sem ela o trabalhador estaria se sentindo isolado no espaço do ônibus, mesmo estando em um espaço coletivo.
Para as cobradoras e motoristas, a sociabilidade acaba se tornando um pré- requisito para estar no trabalho, dada a quantidade de pessoas que entram nos ônibus e ta necessidade em lidar com os passageiros, a exigência dos cargos é alguém que se comunique, além disso, o cliente tem sempre a razão, segundo elas, o que remete ao saber lidar com pessoas.
Durante a pesquisa de campo uma das formas utilizadas para conseguir uma abordagem inicial com as trabalhadoras, motoristas e cobradoras, era pedindo informação sobre os pontos, horários e trajetos. Em seguida informava sobre a pesquisa. Quando eu me sentava nos bancos ao lado da motorista e cobradora, eu via os trabalhadores iniciarem conversas e brincadeiras com os passageiros que entravam e durante o trajeto.
Alcântara Jr. (2011:23) aponta que os passageiros trazem consigo as marcas do cotidiano urbano, as recordações sociais estão neles registradas, e é esta a troca que podemos afirmar que compartilham com as trabalhadoras e trabalhadores nos transportes:
“As convivências nos pontos e nas viagens de ônibus imprimem marcas sociais sobre os moradores de uma cidade. Isto é fecundado quando na condição de passageiro, ao se vivenciarem, nesse equipamento público móvel, instantes de deslocamentos urbanos. Os passageiros de transportes coletivos urbanos são transeuntes em vias públicas, os quais absorvem as paisagens citadinas e as transformam em lembranças; ao trafegar por entre ruas de uma cidade permite-lhes descortinar e passar em revista a urbe, traçando ‘percursos sociais’ vislumbrados nesses trajetos”.
Fluxo de passageiros no Terminal de Araraquara. Fonte: dados da pesquisadora.
Danilo, motorista da empresa A por exemplo, enquanto realizava o trajeto Ibaté-São Carlos, afirmava “no ônibus conheço mais gente, tenho contato com as pessoas, no caminhão é só estrada e o posto, é ruim sozinho”. As passageiras iam entrando e ele brincava por conta do calor do ônibus: “tá quente moça, mas tem que entrar!”, e dizia também: “aquela ali não me conhece, mas eu conheço ela daqui do ônibus, veio aqui umas duas vezes”, a moça escuta e responde: “conheço sim, peguei ônibus como senhor um monte de vezes”. Assim, seu Danilo reitera: “a gente conhece muita moça, muito rapaz, muita gente!”.
No trajeto da linha de Itirapina-São Carlos, a cobradora Amélia e uma passageira brincam com o motorista enquanto ele dirige e retorna a brincadeira para as duas, que gritam brincando: “Olha pra frente!”. Na hora da volta, Amélia sente vontade de usar o banheiro, então chama rindo o motorista “Sílvio, para que eu quero fazer
xixi!!”, todos os passageiros começam a rir e as passageiras que são mais íntimas dela, falam rindo também: “faz aí Amélia!”. Após lembrar que havia uma pesquisadora dentro do ônibus, Amélia vira-se para mim e fala: “você deve achar que eu sou brincalhona, mas escreve aí que sou séria”.
A motorista Eulália da empresa B, enquanto realizava seu trajeto na cidade de Araraquara, comenta comigo a respeito dos passageiros idosos e contato com eles: “eles são mais carentes, os mais simpáticos. Na verdade não são todos, tem uns mal- educados, mas tem outros muito legais. Aquela senhora ali me adora (e a motorista começa a buzinar freneticamente para a transeunte), “ah, ela não me viu”, afirma após perceber que a senhora não percebeu o barulho.
Fluxo de passageiros no espaço de transportes suburbanos da rodoviária de São Carlos. Fonte: dados da pesquisadora.
Da troca de informações entre os próprios trabalhadores, a motorista Roana da empresa A, que não possui cobradora, estava em um dos trajetos conversando com outro motorista da empresa que pegou carona com ela. Na conversa, eles abordam sobre a garagem e a situação dos ônibus: “o ônibus tem que ser bom, porque senão você não aguenta a linha”, diz a motorista para o colega.
Na linha Itirapina-São Carlos que a cobradora Celestina executa, o ônibus faz uma parada em frente a penitenciária da cidade de Itirapina, o motorista desce e a cobradora fica dentro do ônibus, por conta do calor e do risco do local. Ao sair, ele pergunta: “você quer alguma coisa Celestina? Eu não vou parar em casa porque não vai dar tempo, vou pegar um pastel e um suco só, se você quiser pode descer”. Ao voltar, ele traz uma informação: “Sabe aquela menina que estava pedindo ajuda, perguntando em qual ponto descer, porque pegou ônibus errado? Ela é filha do dono do posto daqui da cidade, o pai dela tem dinheiro”.
O ônibus é um espaço para se fazer amizades, segundo as cobradoras e motoristas da pesquisa. Afinal, é um local onde passa muita gente. Além disso, eu mesma era tida em alguns momentos como pesquisadora, em outros me tornava uma passageira, ora amiga, ora confidente; sendo assim, havia momentos em que eu estava dentro das conversas pessoais com as trabalhadoras e em outros havia certo distanciamento. Conforme Alcântara Jr. (2011:26) comenta acerca de sua infância neste tipo de transporte:
“O ônibus era espaço social de troca de ideias, de momentos, sinônimo de interação social; e também de viagens juvenis nas quais verificávamos a existência de momentos conflituosos entre os estudantes e os trabalhadores desse setor. Sofríamos com constantes constrangimentos, quer pela falta de troco quando do pagamento das passagens, retenção por parte do cobrador de fração monetária, quer pela falta de atendimento ao pedido de parada ou atrito entre passageiros. Nos horários
de pico, nas viagens com ônibus lotado, verificava-se a falta de espaço para nos acomodarmos de forma decente no interior daquelas carrocerias”.