… it is not difference which immobilizes us, but silence. And there are so many silences to be broken
(Audre lorde)
Escrever esta dissertação foi um processo de auto-reflexão sobre minha prática docente do início ao fim, desde o momento em que iniciei as discussões com a professora orientadora sobre minha inquietação a respeito do modo como as famílias eram apresentadas nos livros didáticos até a elaboração do material didático e seu uso em sala de aula.
Também vejo como sendo, de certa forma, uma maneira de prestar contas às minhas inquietações desde que comecei a lecionar Inglês e percebi como o tema família era tratado de modo homogêneo no LD. Ressalto, também, que elaborar o material didático não foi um processo fácil e muitos foram os momentos de insegurança.
Nesse processo, um dos maiores desafios foi pensar o que significava estar apoiada no paradigma crítico e transgressivo de fazer pesquisa. A resposta que encontrei foi pensar em um material que não apagasse as identidades dos sujeitos e não deixasse à margem as discussões que deveriam estar no centro, como, por exemplo, a existência de diversos tipos de família, incluindo as compostas por casais homossexuais, bem como os conflitos que podem fazer parte do ambiente familiar.
Outro aspecto fundamental foi pensar na elaboração de um material que desse voz aos alunos, para que eles tivessem a oportunidade de colocar seus pontos de vistas, suas concordâncias e divergências. Para que isso acontecesse, não bastava simplesmente que imagens de diferentes famílias constassem no material, mas elas teriam que ser problematizadas e discutidas.
Dessa forma, penso ser importante que nós, professores e professoras que estamos em sala de aula com crianças e adolescentes, proponhamos uma agenda crítica de ensino de línguas que vise, de fato, romper com estereótipos e preconceitos. Isso se dará por meio de materiais didáticos e práticas docentes que se constituam em espaços de constituição de cidadania e de empoderamento, em que alunos e alunas tenham voz e sejam ouvidos. Nesse sentido, cabe destacar a necessidade de se ter espaço para discussões sobre os atravessamentos
identitários, constituintes de todos os sujeitos
Penso ser importante ressaltar que vivemos um momento na história do Brasil em que segmentos conservadores organizam-se e avançam no sentido de marginalizar determinados tipos de famílias por meio de propostas de criação de leis que visão deslegitimar qualquer família que não seja aquela formada por um homem e uma mulher. Assim, trazer para a sala de aula a possibilidade de se discutir essa questão parece-me fundamental, pois, em última instância, diz respeito à vida dos alunos.
Nesse contexto, é importante lembrar que estamos respaldados pelos documentos oficiais e por leis federais que nos legitimam para fazer essa discussão no contexto escolar. Assim, como educadores, devemos ter a atitude de ativistas críticos, de modo a garantir que nossos alunos e alunas ajam criticamente e possam falar de suas famílias sem ter vergonha, medo, constrangimento ou, como bem disse o aluno Renato, para que sejam “livres”.
Portanto, é importante que nós, professores e professoras, criemos espaços para o exercício da alteridade, para que a realidade familiar de muitos alunos não seja silenciada no contexto escolar. Também destaco que esse processo de elaborar o material didático trouxe à tona minhas lacunas, minhas inseguranças, meu medo de errar, mas, também, minha ousadia e coragem de tentar fazer algo novo .
Para além disso, destaco o percurso árduo que foi, a partir da banca de qualificação de mestrado, aceitar o desafio de mudar o rumo da pesquisa e focalizar as interações em sala de aula e não mais o material didático e o livro em si. Isso demandou um tempo novo, em uma nova fase da pesquisa, que incluía a expansão do arcabouço teórico e outros instrumentos para analisar os dados.
Nesse contexto, destaco a minha transformação como professora e pesquisadora, a partir das reflexões após me deparar com as transcrições da aulas, dos vídeos, da redação da dissertação e da revisitação dos dados. Só então, compreendi o significado do que fizera, mas, também, do quanto ainda poderia ter sido feito. Penso que se tivesse que recomeçar hoje, faria diferente, não quanto à proposta de pesquisa em si, mas quanto ao ato de perguntar e expandir. Acredito que, embora tenha criado um contexto em que os alunos tiveram voz e propiciado um fórum de discussão crítica na construção do conhecimento e na constituição de cidadania e empoderamento, poderia ter trabalhado mais enfaticamentea expansão das vozes nas sequências argumentativas.
importante. Isso implica dar espaço para o outro se colocar como sujeito construtor de seu pensamento crítico e oferecer e receber suporte do outro. Assim, reconheço que poderia ter ido além e aprofundado mais os meus questionamentos a respeito de alguns posicionamentos dos alunos durante as atividades.
Também destaco que, nesse contexto, me coloco como uma estudante- pesquisadora de minha práxis, sabedora do muito que ainda tenho de aprender. Todavia, percebo, ao olhar os dados, o quanto avançamos enquanto aprendizes, tanto eu quanto os alunos. Relembro que estes eram alunos de uma sala considerada problemática na escola e que, no decorrer do projeto, os alunos foram se transformando e se organizando, inclusive no sentido de ajudar uns aos outros durante as atividades.
Todos, sem exceção, finalizaram o projeto e participaram da Mostra Cultural, organizando uma galeria de suas famílias, intitulada “Different Families”. Ressalto que todos os pôsteres foram organizados em Língua Inglesa, o que indica um processo de apropriação da língua em um contexto significativo, em que os alunos puderam falar de suas famílias.
Deste modo, ressalto a importância da metodologia de pesquisa com foco na colaboração-crítica, que propiciou um movimento de transformação por meio de conflitos e contradições que impulsionaram o desenvolvimento e a criação de um novo espaço onde todos puderam falar de suas famílias. Nesse sentido, pode-se dizer que a escolha da metodologia propiciou um espaço de constituição de cidadania.
Por fim, destaco a relevância da pesquisa intervencionista no contexto escolar, pois, como observei, a escola é um espaço político, informado pela historicidade dos sujeitos que dela fazem parte. Intervir nesse contexto significa vislumbrar possibilidades de transformação de modos de agir, para que todos repensem seus posicionamentos e construam, com o outro, espaços mais justos e igualitários, em que todos tenham o direito de falar e de posicionar-se diante das questões que estão postas na vida. Isto é, para que todos sejam responsáveis por suas ações, empoderem-se quanto a seus processos educativos e à transformação de suas vidas.
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