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BÖLÜM 3: MEDİKAL TURİZM

3.2. Dünya’ da ve Türkiye’ de Medikal Turizm

Essa "subjetivação" progressiva da experiência, que ocorre quando passamos da percepção pura à percepção consciente e à afecção pode ser exemplificado pela famosa afirmação de Bergson de que "eu vejo o ponto P em P". Essa afirmação aparece no primeiro capítulo de Matéria e memória, e é, a nosso ver normalmente bastante mal compreendida (quando não associada simplesmente a uma manifestação tardia de pensamento mágico). Pensamos, de nossa parte, que ela se torna mais clara se tivermos em mente a passagem constante que efetuamos em nossa percepção entre diversos graus de extensão e diversos graus de duração. Lembremos, portanto, dos termos da afirmação:

Seja, por exemplo, um ponto luminoso P cujos raios agem sobre os diferentes pontos a, b, c, da retina. Nesse ponto P a ciência localiza vibrações de uma certa amplitude e de uma certa duração. Nesse mesmo ponto P a consciência percebe luz. Nós nos propomos a mostrar, ao longo deste estudo, que tanto uma como outra têm razão, e que não há diferença essencial entre essa luz e esses movimentos, com a condição de que se devolva ao movimento a unidade, a indivisibilidade e a heterogeneidade qualitativa que uma mecânica abstrata lhe recusa, com a condição

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também de que se vejam nas qualidades sensíveis outras tantas contrações operadas por nossa memória: ciência e consciência coincidiriam no instantâneo. 230

A questão toda aqui se resume, em princípio, à suposta diferença entre movimento materiais aparentemente homogêneos e qualidades conscientes heterogêneas, ou seja, à suposta irredutibilidade da diferença entre matéria e consciência. Como vimos ao longo de toda nossa análise do quarto capítulo de Matéria e memória, essa separação é fruto antes de tudo da ciência e da metafísica moderna do que de uma característica intrínseca do real: a verdade é que a própria mudança material já é qualitativa, heterogênea: a diferença que há entre ela e nossas sensações é uma diferença de graus de heterogeneidade e não uma diferença de natureza entre uma homogeneidade absoluta e uma heterogeneidade absoluta. Logo, entendemos porque, para Bergson, ambas - ciência e consciência - estejam igualmente certas": uma expressa o fenômeno da visão a partir dos abalos da matéria, a outra, a partir da sensação. A última diz: "eu vejo o vermelho", a primeira diz "não, você vê trilhões de oscilações eletromagnéticas": ambas afirmações podem estar igualmente com a razão, pois menos do que uma questão de verdade ou falsidade, o que vemos aqui é uma variedade de pontos de vista sobre o mesmo fenômeno, com a diferença de que a primeira sentença expressa um fenômeno que sentimos de forma interior e absoluta, a segunda, o mesmo fenômeno visto de forma exterior e relativa.

Mas se ambas expressam o mesmo fenômeno, porque são tão diferentes? Sem precisar o sentido dos termos, podemos dizer que é porque a consciência vê este fenômeno

contraído, a ciência o vê distendido. Se a consciência vê uma sensação de vermelho e a

ciência, trilhões de oscilações, é porque a experiência de que parte a primeira dura mais, a experiência de que parte a segunda dura menos, porque a experiência da primeira é menos extensa, a experiência da segunda, mais extensa. O que equivale a dizer que a experiência da primeira é "subjetiva", a da segunda "objetiva". Por que ambas, ciência e consciência, "coincidiram no instantâneo"? Porque ali a subjetividade do fenômeno deixaria de existir: a duração do fenômeno coincidira com a da matéria, a extensão do fenômeno coincidira com a da matéria. O que equivale a dizer que não haveria mais fenômeno: nesse momento, nós coincidiríamos com esse contínuo extenso, com o campo de imagens. E nesse caso, veríamos o ponto P em P, e não em outro lugar:

230

De fato, não há uma imagem inextensiva que se formaria na consciência e se projetaria a seguir em P, A verdade é que o ponto P, os raios que ele emite, a retina e os elementos nervosos interessados formam um todo solidário, que o ponto P faz

parte desse todo, e que é exatamente em P, e não em outro lugar, que a imagem de P é formada e percebida. 231

Mas aqui surge um grande problema: ao bem da verdade, não pode haver ponto P num contínuo. Teria Bergson simplesmente misturado alhos e bugalhos, ou espertamente tornado sua matéria discreta ou contínua quando lhe aprouvesse? Pensamos que nenhuma das duas alternativas: ele mesmo afirma que "o ponto P, os raios que ele emite, a retina e os elementos nervosos interessados formam um todo solidário", logo, que há uma continuidade

extensiva da matéria que abrange ponto P, raio, retina, etc. Mas permanece, entretanto, a

questão: se a matéria é um contínuo, como surge um fenômeno particular como o ponto P no meio dela? A resposta só pode consistir na afirmação de que o ponto P surge na medida em

que passamos do contínuo material extensivo a um grau mais alto de duração: é nesse

momento específico que um fenômeno se torna algo de localizado no universo, em que o ponto P surge no contínuo extensivo. Mais especificamente, isso ocorre quando passamos da esfera da matéria para aquela do discernimento prático do organismo, pois é por meio desse discernimento que selecionamos em meio ao campo de imagens uma imagem específica:

A única questão é portanto saber por que e como essa imagem é escolhida para fazer parte de minha percepção, enquanto uma infinidade de outras imagens permanece excluída. 232

A percepção consciente é, portanto, algo que subtrai um elemento à totalidade extensiva, uma escolha de uma imagem em meio às demais imagens (apenas virtualmente dadas, ressaltemos), o que equivale a dizer, uma delimitação do contínuo extensivo que exclui uma infinidade de outras imagens, o que equivale a dizer, o resto do contínuo. A questão agora é saber: como se efetua essa escolha, essa delimitação do contínuo? Para compreendê- lo, temos de nos lembrar que a matéria é caracterizada antes de mais nada pela igualdade da ação e da reação: se podemos falar de imagens, certamente não atuais, mas virtualmente dadas na matéria, temos então de dizer que o que as caracteriza é que cada ação sua é acompanhada de uma reação igual e contrária, que não é senão a interação universal que observamos no contínuo extenso: 231 Id. p. 41. 232 Id. ibid.

O que a distingue [a matéria], enquanto imagem presente, enquanto realidade objetiva, de uma imagem representada é a necessidade em que se encontra de agir por cada um de seus pontos sobre todos os pontos das outras imagens, de transmitir a totalidade daquilo que recebe, de opor a cada ação uma reação igual e contrária, de não ser, enfim, mais do que um caminho por onde passam em todos os sentidos as modificações que se propagam na imensidão do universo. 233

O que caracteriza o ser vivo, nesse caso, é que ele é um centro de ação que se destaca nesse contínuo de ação e reação recíprocas: ele é uma ação local cuja intensidade prevalece sobre o fluxo de ações e reações do contínuo, que interfere nessa interação universal da matéria por meio das ações reais que ele pratica por meio de seu sistema sensório-motor. E ao agir de forma mais intensa sobre a matéria do que a matéria sobre ele, o organismo necessariamente "refreia" a ação do todo material sobre ele. Ora, afirmará Bergson, a percepção consciente não é senão o resultado dessa diminuição da eventual ação das coisas sobre ele, assim como sua maior capacidade de agir sobre elas:

Indiferentes umas às outras em razão do mecanismo radical que as vincula, elas apresentam reciprocamente, umas às outras, todas as suas faces ao mesmo tempo, o que equivale a dizer que elas agem e reagem entre si por todas as suas partes elementares, e que, consequentemente, nenhuma delas é percebida nem percebe conscientemente. E se, ao contrário, elas deparam em alguma parte com uma certa espontaneidade de reação, sua ação é diminuída na mesma proporção, e essa diminuição de sua ação é justamente a representação que temos delas. Nossa representação das coisas nasceria portanto, em última análise, do fato de que elas vêm refletir-se contra nossa liberdade. 234

A grandeza relativa das coisas que aparecem, por exemplo, em nosso campo visual mostra exatamente essa diminuição da eventual capacidade das coisas agirem sobre nós: os objetos distantes da capacidade de ação real de nosso organismo aparecem como "menores", os objetos mais próximos e que mais o influenciam aparecem como "maiores". É nesse momento que surge algo como o "ponto P" para nós: ele se destaca do contínuo extenso na exata medida em que mostra, por assim dizer, a diferença entre a ação de nosso organismo sobre ele e dele sobre ele. Tudo isso parece estranho, mas temos de nos lembrar que a matéria é como uma grande consciência onde tudo se neutraliza, onde toda parte reflete o todo: se uma parte dessa consciência se destaca sobre ela, tudo se volta necessariamente para esse centro de ação, o todo é visto a partir daí numa perspectiva particular. Assim, o organismo, ao se destacar dessa extensão universal por causa de sua temporalidade imanente tem

233

Id. p. 33.

234

necessariamente uma apreensão da diferença entre a intensidade de sua ação e da ação do contínuo sobre ele. E essa última apreensão não é senão a percepção consciente.

A interferência do organismo no contínuo material se dá, portanto, seja pelo que poderíamos chamar seja de uma delimitação interna do contínuo (afecções), seja pela delimitação externa do contínuo (percepções). É na apreensão dessa diferença que consiste a seleção das imagens que interessam ao organismo; não é que o organismo aponte o dedo para uma das imagens e diga: "quero essa imagem", mas sim que, a partir do momento em que ação do organismo prevalece sobre a matéria (e isso se chama viver), ele necessariamente tem uma representação seja de sua ação real, seja da diferença de sua ação em relação à ação do todo sobre ele. É essa diferença, simplesmente, que é expressa pela percepção consciente.

Mas então algo fundamental acontece no instante em que passamos da percepção pura à consciente. Se na percepção pura nós coincidimos com a totalidade da extensão material, quando adentramos na percepção consciente, na forma da sensação visual mais elementar que seja, já não coincidimos mais. A coincidência entre a consciência e a matéria, restringe-se agora somente à parte da matéria sobre a qual que agimos realmente - a afecção. Nossa percepção consciente - e esse é um ponto fundamental para se entender o que está em jogo no primeiro capítulo - reflete somente essa diferença entre nossa ação e a das próprias coisas sobre nós. Não há pensamento mágico nesse caso, Bergson não está dizendo que nossa sensibilidade esteja "dentro" das próprias coisas. Ele está dizendo simplesmente que nossa percepção consciente mostra nossa capacidade de reação sobre as coisas. Estaríamos "dentro" das coisas somente se pudéssemos coincidir com o ritmo de duração da própria matéria, se pudéssemos ter uma percepção pura de fato. Mas então não haveria, a bem da verdade, mais "coisas", mas somente uma absorção completa da consciência na interação universal da matéria.

Resumamos então: o universo é um contínuo extenso onde a ação e reação das partes (virtuais) se equivalem, nosso organismo é um centro de ação que prevalece em meio a esse contínuo. Esse organismo tem tanto uma apreensão real de parte desse contínuo extensivo na forma de afecções, quanto uma apreensão da diferença de sua ação em relação à do resto do universo sobre ele, que não é senão a percepção consciente: é somente nesse último caso que podemos falar de um "ponto P". Quando Bergson diz que "é exatamente em

P, e não em outro lugar, que a imagem de P é formada e percebida", ele está afirmando que

toda nossa percepção começa na própria extensão material, mas que aos poucos ela vai se individualizando conforme passamos de um grau de duração menor a outro maior. Nessa

individualização da percepção que se opera a partir da extensão material, a extensão real da consciência se torna progressivamente menor: passamos da percepção pura (universo) à afecção (corpo). Ao mesmo tempo, permanece uma relação entre essa consciência maior e essa consciência menor, ou melhor, entre esse "corpo imenso" e esse "corpo menor", relação essa que é dada pela percepção. E não é senão este o caráter paradoxal da percepção consciente: se ela, enquanto fenômeno, "está" em nós, enquanto percepção pura, ela está na própria matéria, nas próprias coisas (que só são "coisas", entretanto, para nós).

Nosso corpo próprio, entretanto, não é o grau máximo de duração ao qual acedemos: era o que já víamos na experiência do reconhecimento atento, onde o circuito mais interno do reconhecimento habitual, de nosso campo de presença sensório-motor era progressivamente superado por circuitos maiores, de maior expansão e contração da memória. E por isso Bergson anuncia, ao final do primeiro capítulo de Matéria e memória a necessidade da teoria da percepção ser complementada por uma teoria da memória: se restringíssemos nossa análise à pura esfera da sensório-motricidade, teríamos sem dúvida uma teoria de nossa percepções elementares, mas o que faltaria a essa seria contudo a explicação da continuidade de nossos estados subjetivos, da continuidade de nossa pessoa:

Se a tomássemos por definitiva [a teoria da percepção delineada no primeiro capítulo], o papel de nossa consciência, na percepção, se limitaria a ligar pelo fio contínuo da memória uma série ininterrupta de visões instantâneas, que fariam parte antes das coisas do que de nós. 235

O que não equivale a dizer que a própria memória já não tenha feito sua aparição no primeiro capítulo, pois ao falarmos da ação do organismo sobre a matéria, já pressupusemos uma certa capacidade de contração do passado, exigida na mesma medida em que ele se abre para o futuro:

Que nossa consciência tenha sobretudo esse papel na percepção exterior é aliás o que se pode deduzir a priori da definição mesma de corpos vivos. Pois, se esses corpos têm por objeto receber excitações para elaborá-las em reações imprevistas, também a escolha da reação não deve se operar ao acaso. Essa escolha se inspira, sem dúvida nenhuma, em experiências passadas, e a reação não se faz sem um apelo à lembrança que situações análogas foram capazes de deixar atrás delas. A indeterminação dos atos a cumprir exige portanto, para não se confundir com o puro capricho, a conservação das imagens percebidas. Poderíamos dizer que não temos poder sobre o futuro sem uma perspectiva igual e correspondente sobre o passado,

235

que o impulso de nossa atividade para diante cria atrás de si um vazio onde as lembranças se precipitam, e que a memória é assim a repercussão, na esfera do conhecimento, da indeterminação de nossa vontade. 236

É curioso notar como nessa passagem Bergson pensa a temporalidade de um modo bastante próximo daquele que verificamos, por exemplo, na análise heideggeriana. Pois este pensa, ao menos em Ser e Tempo, a instauração do passado a partir do caráter extático do

ser-aí: "o porvir é o fenômeno primordial da temporalidade originária e própria"237

, porvir esse que consiste na antecipação do ser-aí de suas próprias possibilidades. É essa antecipação que permite, por sua vez, a persistência do passado, que ele pensa, de uma forma mais "originária" como gewesenheit, expressão formada a partir do particípio passado do verbo "sein" (gewesen), traduzida para o português como "vigor de ter sido", e que quer indicar, ao menos até onde entendemos, o passado não como algo que foi, mas como algo que persiste no presente, ou seja, o passado retido em nossa consciência (a despeito da repulsa que este último termo provocaria em Heidegger). Desse modo, "[O ser-aí] só pode ser o vigor de ter sido na medida em que é e está por-vir. O vigor de ter sido surge, de certo modo do porvir."238 Ora, o que Bergson está afirmando aqui, num vocabulário que um heideggeriano ortodoxo talvez considerasse ôntico, indeterminado e biologicizante, não é algo muito diferente: parece, à primeira vista, que é então "o impulso de nossa atividade" para o futuro, ou seja, nosso

projeto, que permite a permanência do passado no presente, na medida em que ela cria "um

vazio onde as lembranças se precipitam", o que nos leva então a afirmação de que "que a memória é assim a repercussão, na esfera do conhecimento, da indeterminação de nossa vontade".

Mas essa proximidade possível entre Bergson e análise heideggeriana só se mantém numa primeira aproximação, pois como o próprio Bergson lembra logo depois dessa passagem, "a ação da memória estende-se muito mais longe e mais profundamente ainda do que faria supor este exame superficial." 239 Ou seja: na visão de Bergson, a conservação do passado no presente se opera de uma forma muito mais "profunda" (ou seja, metafísica) do que pareceria pressupor a análise da indeterminação de nossa vontade: lembremo-nos que para ele nosso passado se conserva "automaticamente" no presente, essa é a condição sine qua

non para que ele possa defender a integridade de nossa pessoa desde o nascimento. É essa

236

Id. p. 68.

237

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo, parágrafo 65. Editora Vozes, Petrópolis, 2000. Volume 2. p. 124.

238

Id. p. 120.

239

conservação integral do passado que permite nossa memória interligue "uma série ininterrupta de visões instantâneas" (ou melhor, nem tão instantâneas assim, pois como vimos, já há um trabalho dessa memória mesmo na nossa sensação a mais efêmera, assim como na própria matéria). E será pela rememoração desse passado absoluto que nos permitirá passarmos do nível temporal de nosso corpo próprio aos diversos níveis do reconhecimento atento, como vimos ocorrer em nossa análise do segundo capítulo de Matéria e memória. Assim, nossa percepção concreta não é nunca algo que se processa efetivamente apenas na esfera de nossa sensório-motricidade, mas algo que é sempre enriquecida pela intervenção de nossa memória, num movimento que leva as percepções e afecções corpóreas a uma particularização progressiva: como vimos antes, é por meio dele que passamos da apreensão de um conjunto de sensações (por exemplo, um agregado de manchas dado no nosso campo perceptivo) a um recorte perceptivo específico (uma folha de papel se destaca nessas manchas) e desse ao reconhecimento detalhado de um objeto (por exemplo, o reconhecimento de um poema particular que lemos no passado). Para usar os termos kantianos, podemos dizer que, pela intervenção progressiva do passado, vamos progressivamente de uma síntese de apreensão a uma síntese de recognição em nossa percepção, com a diferença de que Bergson não pensa essas sínteses como sínteses a priori, que possam se operar independentemente da experiência. Se a "síntese de apreensão" já se desenvolve ao nível de nosso corpo próprio, a recognição de um objeto particular, por seu lado, já aponta para a entrada numa esfera mais espiritual. Mas não podemos nos esquecer que todos estes diversos momentos, que vão desde a apreensão sensível de um objeto até sua recognição como um objeto idêntico a algo já visto no passado, estão para Bergson numa continuidade indivisa: se a sensação já é uma contração de nosso passado imediato, o reconhecimento não faz senão levar essa contração muito além: ambos são o resultado de um mergulho cada vez mais profundo na memória, de uma tensão cada vez maior de nossa consciência, que descortina assim um horizonte cada vez maior de nosso passado.

Do ponto de vista da extensão, por sua vez, esse processo de particularização de nossa percepção levará a uma redução da extensão de nossa experiência – da experiência de um corpo que se estende no espaço (ou, melhor dito, na extensão), passaremos à experiência de um sujeito que perdura no tempo, o que equivale a dizer, a uma experiência

inextensa. A percepção, que na matéria estaria nas próprias coisas, está agora completamente

imersa na interioridade do sujeito: não se trata mais, por exemplo, de simplesmente apreender em nosso fluxo sensível um certo biscoitinho que possa matar a nossa fome, mas de

reconhecer uma madeleine que remete a todo o passado longínquo de um indivíduo particular. Não que a nossa experiência extensa não esteja mais presente: ainda vemos o objeto presente, ainda o tocamos em sua materialidade, em sua extensão. Mas ao mesmo tempo, descortinam- se paragens espirituais que já não faz mais sentido remeter à extensão: lembranças distantes da infância se atualizam, lembramo-nos de paragens que já não mais existem, onde elas estão? Em lugar nenhum da extensão recordemo-nos da lição de Proust: Combray não está na

Benzer Belgeler