2.3. İnternet ve Sosyal Medya ile İlgili Verilerin İncelenmesi (2016-2020)
2.3.2. Dünya’da Sosyal Medya Kullanımı
Compreender a violência conjugal envolve o desafio de pensar nas funções que ela desempenha na dinâmica conjugal e familiar. Por vezes, o recurso à violência parece ser desestruturador e tender a fins destrutivos, por outras, soa como uma tentativa do casal de alcançar um equilíbrio, um rearranjo. As reflexões que se seguem têm o intuito de evidenciar o que tenho observado nas intervenções clínico-sociais que realizo há alguns anos acerca do papel que a violência desempenha na dinâmica conjugal. Há variações no modo como estas funções aparecem nos relacionamentos. Embora uma delas possa se destacar em alguns relacionamentos, elas podem coexistir ou se revelar em etapas distintas da trajetória conjugal.
À luz de uma perspectiva de gênero, destaca-se que a violência conjugal serve à divisão de poderes e à manutenção das desigualdades entre homens e mulheres, no contexto familiar. Posto que esta violência parece pesar de maneira mais drástica sobre as mulheres, pode-se compreender que estas busquem mudanças na situação de subordinação, enquanto os seus parceiros procuram preserva-la, usando a força, se necessário (Connell, 1995; Cortez, Padovani & Williams, 2008). A violência visa resguardar representações tradicionais de gênero e opor-se à mudanças. Mais especificamente, seu uso consiste na tentativa de manutenção do poder masculino (Welzer-Lang, 2001). Não raro, é forma de suprimir expressões do poder das mulheres, ameaçadoras à masculinidade (Cortez, Padovani & Williams, 2008; Wood, 2004). Se de representações tradicionais de gênero.
Em algumas situações, a violência parece atuar como padrão relacional. Pelo hábito; pelo clima de tensão gerado; pelo fato da violência ter se tornado duradoura a ponto de se converter numa condição permanente; pelo desgaste e mágoas que esta provoca; por
sua banalização; o uso da violência se naturaliza. As pessoas podem chegar, inclusive, a não registrar ou perceber violências mais sutis e até mesmo as mais graves no seu cotidiano. Quando isso ocorre, só haverá reação se algo muito grave acontecer. Se os gritos, as agressões verbais, as ameaças são freqüentes, em alguns casos, estas formas de interagir acabam atuando como padrão.
A violência também costuma se constituir como forma de comunicação, ainda que perversa (Espíndola et al., 2004). Por vezes, a comunicação entre o casal está tão bloqueada, distorcida ou superficial, que a violência passa a ser um recurso para falar ou para fazer com que o outro escute. Quando há percepção de que o outro não considera, não dá importância ou desvaloriza a sua palavra, uma pessoa pode acreditar que dizer radicalmente, expressar de modo que o outro sinta-se coagido a prestar atenção, seja o caminho. “Observa-se frequentemente que o casal, na tentativa de achar um culpado para a crise, passa a se acusar mutuamente, e o fato em si, no motivo da discórdia, torna-se secundário, prevalecendo a agressão. É a total impossibilidade de escutar o outro” (Espíndola et al., 2004, p. 224).
A violência se converte em linguagem, talvez a única concebida pelos participantes da interação como possível. Entretanto, ela parece ser mais um movimento para que o outro escute, do que para que ambos se comuniquem. Pois no jogo relacional, sua função pode ser calar, negar, repreender ou desprezar a voz do outro. Pensar a violência como canal de expressão dá lugar à seguinte pergunta: o que se pretende dizer ao outro através da violência? Esta indagação pode conduzir aos sentidos da violência na relação. Dirigida aos atores sociais, pode mobilizar reflexão.
Em certas situações, a violência parece ser estratégia de aproximação, tentativa de contato. Ainda que pela violência, quebrar o distanciamento, a frieza do outro pode ser um ganho. Há quem diga que pior do que a agressão é a indiferença.
No que diz respeito aos afetos, nem sempre se encontra a maneira adequada de expressá-los e a socialização de gênero é, em parte, responsável por isso. Homens são socializados para não expressarem dor, medo, tristeza, pois isso seria sinal de fraqueza. No entanto, a raiva é mais tolerada como expressão no universo masculino do que no feminino. Elas precisam ser frágeis, delicadas, dóceis e, não, agressivas ou alteradas. Se atentarmos para a quantidade de mensagens contemporâneas que ridicularizam a expressão feminina de raiva – termos como “alteradas”, “descontroladas”, “histéricas”, “mal amadas”, “loucas” e a insinuação de não satisfação sexual são comuns – vamos entender que a repressão da agressividade feminina ainda vigora.
Esta visão binária leva a uma condição propícia para eclosão de violência. Expressar o que sentimos é uma necessidade tão humana, tão fundamental, que os homens encontrarão uma maneira de expor suas “fraquezas”. Ainda mais se levarmos em conta o alerta psicanalítico de que o que é reprimido retorna com mais força, de modo a se inscrever. Como a raiva é permitida, eles tenderão a comunicar outros afetos através dela. Quando estão tristes, se sentem ameaçados ou inseguros, expressam raiva e, de tanto fazer isso ao longo do tempo, acabam por confundi-la com outros afetos. Para complementar isso, do outro lado, é comum estar uma mulher contida, passiva, prudente na expressão de sua agressividade; sem costume de expressar seu poder e julgando-se frágil; tentando controlar, com docilidade, o parceiro alterado. Quando não tem êxito, coloca em jogo outras habilidades para a qual foi treinada: amar incondicionalmente e compreender a perspectiva do outro. A violência parece adequada para o estilo masculino de expressar afetos e, mais do que isso, para que os homens possam dizer de si sem se sentiram ameaçados. Ela ajusta-se às linguagens dos gêneros.
A expressão de afetos, entretanto, não é delineada apenas pelo processo de socialização de gênero. Enspíndola et al. (2004) argumentam sobre a importância de analisar profundamente a relação psicodinâmica existente no contexto do casal. Para estas autoras, a lógica dos relacionamentos violentos só pode ser entendida através da “história da construção dos afetos ainda na infância e no desenvolvimento das formas de comunicação” (p. 214). Bucher-Maluschke (2004) enfatiza que nos vínculos criados no convívio familiar, na primeira infância, se constrói o padrão de relacionamento que a pessoa cria e repete nos diversos cenários de sua vida. Ela discute que a privação de laços afetivos sólidos, na infância, acarretam prejuízos emocionais e afetivos na relação conjugal e familiar, posteriormente. Ela chama a atenção para o papel da ruptura ou do enfraquecimento dos vínculos afetivos na família no surgimento da violência.
Considero de suma importância a leitura realizada por esta autora, pertinente não só para a análise da expressão dos afetos, mas para a compreensão mais ampla do fenômeno da violência conjugal. Sua proposta é que a compreensão da violência passa não apenas pela análise das determinações sociais sobre os indivíduos: é imprescindível considerar toda a trajetória do ciclo de vida dos sujeitos para entender porque a agressividade e a violência passam a caracterizar suas relações interpessoais. Há um convite para o olhar sobre a dimensão subjetiva, psicodinâmica da violência conjugal.
Quando se está no calor do conflito, a violência pode servir também como válvula de escape. No auge da tensão, ela parece atuar como forma de resolução do conflito conjugal. Algumas pessoas dizem sentir alívio depois da explosão, como se esta tivesse
atuado, per si, para amenizar a tensão. Não que tenha havido resolução das questões que moveram os desencontros do casal ou que a briga tenha chegado ao fim – a violência aparece mais como resolução pontual do próprio confronto. Inverte a trajetória da escalada, o que pode trazer segurança. Se considerarmos que um número significativo de pessoas que vivem situações de violência foi vítima ou testemunha da violência nas famílias de origem ou em outros relacionamentos amorosos pode-se compreender que a mesma tenha sido apreendida como modelo interacional, como padrão de resolução de conflitos.
As pessoas costumam interpretar a violência que cometem como perda de controle. Esta perda de controle refere-se aos (às) parceiros (as), à percepção de que estes (as) não estão conseguindo controlar seus comportamentos e atitudes. Refere-se também a si mesmas, à sensação de que se foi além dos limites. Por outro lado, a violência parece consistir em uma tentativa de controle sobre o par conjugal, como recurso para que ele escute, obedeça, ceda, pague pelo que fez.
Em suma, pode-se perceber que se a violência no relacionamento a dois representa a dificuldade do casal de encontrar estratégias mais pacíficas de resolução de conflitos, bem como indica a presença de dificuldades de naturezas diversas – afetivas, comunicacionais etc. Não raro reflete a ausência de negociação, revelando-se como sintoma dos problemas vividos pelo casal. Por outro, parece ter a função de recuperar o controle e se constituir como linguagem, como arranjo que visa alcançar o equilíbrio do sistema.
3.4 - O entrecruzamento e a transição de sentidos: conjugalidade, gênero e violência Acredito ser oportuno refletir sobre este capítulo à luz dos objetivos desta pesquisa. Espero ter esclarecido que a compreensão da violência conjugal adotada, neste trabalho. se consolida pela integração de várias dimensões. Os sentidos que ela assume para aqueles que a vivenciam se entrecruzam nos sentidos históricos da conjugalidade, do gênero e da própria violência. Há, entretanto, uma releitura subjetiva desta a partir das experiências dos sujeitos, ao longo de sua história de vida e das dinâmicas conjugais. Levar em consideração como os sujeitos interpretam seu papel e sua responsabilidade na trama violenta, bem como a funcionalidade da violência na dinâmica conjugal, amplia a leitura sobre os sentidos que esta toma em suas histórias. Buscou-se discutir, além disso, a multiplicidade dos sentidos, a dimensão afetiva da violência conjugal e como se oculta na sutileza da incorporação dos papéis estereotipados de gênero e em função de concepções naturalizadas sobre o amor, a família, entre outras, deixando, por vezes, de ser nomeada.
Advogo que estas reflexões trazem subsídios relevantes não só para a compreensão dos objetivos da pesquisa, mas constituem fundamentos para o delineamento de intervenções psicossociais relacionadas à violência conjugal. Abarcar elementos sócio- históricos, subjetivos e relacionais na compreensão dos violência conjugal possibilita uma leitura mais ampla de seus sentidos: na mágica interação intersubjetiva, os sujeitos reproduzem sentidos aprendidos, ao mesmo tempo que os recria.
Para concluir, argumenta-se haver uma transição nos sentidos do gênero e da conjugalidade, nos contextos familiares. A crença de que o casamento seja indissolúvel tem sido abalada (Azerêdo, no prelo), mas este ainda é visto como algo a ser preservado, por exemplo. Nas dinâmicas conjugais, observa-se o exercício de novos papéis por parte de homens e de mulheres. Advoga-se também, neste estudo, que a coexistência de sentidos arcaicos e novos frequentemente provocam tensão e conflitos conjugais que, muitas vezes, levam à violência. Por um lado, estudos recentes demonstram que, apesar dos questionamentos e das transformações produzidas pelos movimentos feministas, as concepções sobre o que é ser homem ou mulher apresentam poucas mudanças (Dantas- Berger e Giffin, 2005; Negreiros e Féres-Carneiro, 2004; Pondaag, 2003). Giffin (1994) argumenta que, nas sociedades ocidentais, as concepções sobre o masculino e o feminino são polarizadas e dualistas. Visões do homens como ativos, associados à cultura/razão, e das mulheres como passivas, associadas à natureza/emoção ainda prevalecem. Tais concepções favorecem a produção da violência, pois pressupõem posicionamentos hierárquicos e distintas valorizações do masculino e feminino.
Amâncio (2001) postula que um dos elementos de maior resistência nas dinâmicas representacionais é o modelo de feminilidade. Através da noção de assimetria simbólica, ela demonstra como há resistência nas mudanças das representações e como concepções naturalizantes dos gêneros se reajustam às transformações do contexto, mantendo seu núcleo estável. Não estariam os fenômenos de subjugação, as manifestações de violência, também adquirindo novas roupagens, de modo a sustentar antigas posições e representações de gênero? A assimetria simbólica consiste em um rearranjo que faz com que componentes representacionais tradicionais se recomponham diante de novas imagens de gênero, delineando a lentidão da mudança.
No contato com situações de violência conjugal, percebe-se este movimento simbólico de resgate de crenças e significados tradicionais de gênero para interpretar novos comportamentos, acordos, posicionamentos e exercício dos papéis na vida a dois. A impressão é que a mudança não é suficiente para abalar concepções enraizadas, que acabam ditando as normas de convivência. A violência parece atuar para resguardar
valores naturalizados e arcaicos, exercendo controle sobre a mudança. Seria um dos recursos para preencher as lacunas deixadas pela assimetria simbólica. O novo seria, ao mesmo tempo, indício de mudança e razão para que esta não ocorra?
A lentidão das mudanças nos sentidos culturais da conjugalidade e do gênero não deve, por outro lado, ofuscar as transformações geradas, no cenário sócio-histórico, pelos feminismos, pelos estudos das masculinidades e de gênero, pelos movimentos sociais (homossexuais, negros, minorias étnicas) e pela dinâmica das práticas sociais. Tais transformações questionaram a hegemonia branca e masculina, provocando uma crise da masculinidade (Nolasco, 2001). Estudos sinalizam para mudanças nos cenários sócio- históricos: homens também são vítimas de violência, o casal se agride mutuamente. Tais mudanças decorrem das novas configurações sociais que exigem negociações até então impensáveis para homens e mulheres, no cotidiano conjugal (Alvim & Souza, 2005). No entanto, algumas pesquisas sobre violência conjugal, embasadas numa visão feminista, parecem ignorar os questionamentos impostos à masculinidade e as transformações produzidas. Por vezes, estes estudos continuam utilizando concepções universalistas, naturalizadas e essenciais do homem e da mulher, mencionando o primeiro como exclusivamente agressor e violento e a última como vítima. A incorporação de homens como sujeitos de pesquisas voltadas para violência conjugal é recente e as análises que consideram as dimensões relacionais deste fenômeno são ainda escassas.
Não devemos subestimar o impacto das mudanças das práticas sociais nos sentidos de gênero. O cenário contemporâneo caracteriza-se como um momento de transição representacional (Dantas-Berger e Giffin, 2005). Novas e velhas representações de gênero, da conjugalidade e da violência coexistem. Há pluralidade na forma das pessoas se relacionarem com o sistema de gênero (Scott, 1995). Os grupos e indivíduos fazem o ajuste das representações consensuais à sua realidade.
Vale apostar no potencial criativo dos sentidos e no impacto de novas práticas sociais nos sentidos de gênero e da conjugalidade. No entanto, as situações de violência evidenciam mais intensamente estas representações em sua estereotipia e o movimento de manter o status quo, ou seja, o uso da força para intimidar a mudança e para resgatar padrões estereotipados de gênero e para preservar o vínculo é gritante demais para ser negligenciado. A assimetria simbólica pode ser explorada, neste terreno, a olho nu. Eis a transição e seu paradoxo: somos capazes de vislumbrar o novo, mas muitas vezes pensamos e agimos de acordo com velhos esquemas. Por vezes, acreditamos estar rompendo com estruturas, mas nos vemos reproduzindo-as. Outras vezes, as práticas
parecem ir adiante, enquanto assistimos perplexos às mudanças, limitados por nossas representações.
Neste momento de transição dos sentidos da conjugalidade e do gênero, as mudanças parecem tantas que, à primeira vista, chega-se a suspeitar que possa se falar de um conjunto comum de conhecimentos que constitui prisma para a leitura, compreensão e atuação no mundo. Entretanto, tecnologias de gênero (Lauretis, 1994) reiteram (Butler, 1990/2003) imagens tradicionais do masculino e feminino. Quando olhamos mais cuidadosamente, percebemos que as novas realidades são perpassadas por tradições e reproduzem o jogo de dominação-subjugação. Dependemos de esquemas conhecidos para construir o inusitado. A noção de assimetria simbólica (Amâncio, 2001) é perturbadora!
Atualmente, os estudos relacionados à masculinidade como os feministas tem se preocupado em ir além da análise exclusiva das mulheres ou dos homens, para vislumbrar as relações de gênero (Badinter, 2003; Louro, 1996). Neste sentido, adotar uma perspectiva sistêmica feminista, em um cenário pós-moderno, não implica na suposição de que as mulheres sejam vítimas nas situações de violência conjugal. Implica no movimento paradoxal que leva a considerar o gênero como categoria fundamental, mas não exclusiva, para a análise da violência na dinâmica conjugal, ao mesmo tempo em que se busca problematizar, desnaturalizar a matriz sexo/gênero (Scott, 1995), que prescreve para homens e mulheres rígidos papéis e modos relacionais.
O paradoxo e o incômodo são condições necessárias para manter vigilância em relação às imposições sociais e para avaliar a herança histórica. Nossa surpresa diante das mudanças nos papéis e nas relações de gênero indica a presença de concepções tradicionais. Falamos, por exemplo, de inversão de papéis; os homens que “ajudam em casa” são referenciados com admiração; ao mesmo tempo em que nos sentimos bem ao assistir cenas que rememoram a clássica família patriarcal (Sabat, 2001; Weedon, 1997). As mudanças nos sentidos históricos são lentas, mas possíveis. Seria ingênuo desconsiderar as transformações ocorridas no tocante ao gênero e precipitado acreditar que são suficientes para garantir equivalência nas relações conjugais entre homens e mulheres.
A proposição feita, nessa tese, é que tanto a pesquisa quanto o atendimento psicossocial de casais envolvidos em interações violentas deve ser compreendido como contexto de produção de sentidos, de outras significações, no qual a(o) clínica(o)- pesquisadora(or) aparece como facilitadora(or) de construções e deve estar atenta(o) aos lugares de fala, situando-se também. Cabe à(ao) pesquisadora(or), bem como às(aos)
as histórias e serão alvo das demandas de homens e mulheres em situação de violência conjugal, compor com as(os) atoras(es) sociais durante o trabalho de construção dos sentidos.
A ética que norteia o trabalho de pesquisa e de intervenção, em contextos de violência conjugal, implica no respeito à liberdade do outro, ao mesmo tempo em que comporta uma dimensão política: não nega a pertença do(a) clínico(a)-pesquisador(a) e seu posicionamento em um mundo marcado por relações de poder (Lévy, 2001). Importa ressaltar a importância da dimensão construtiva dos sentidos: na relação dialógica entre pesquisadoras(es) e as pessoas que vivenciam situações de violência conjugal constroem-se possibilidades de mudança; de nomeação da violência; de desconstrução de sentidos e de (re)significação (Lévy, 2001).
Capítulo IV