Mesmo diante da supervisão do Poder Público, as seguradoras e as demais entidades supervisionadas estão sujeitas a problemas que podem dificultar o bom andamento dos negócios, a exemplo de:
Problemas de agência
Ineficaz gerenciamento de riscos Deficiências nos controles internos Governança inadequada ou insuficiente
3.2.1 Os problemas de agência
Os problemas de agência estão associados ao relacionamento do agente com o principal. Replicamos a definição do relacionamento de agência:
um contrato onde uma ou mais pessoas – o principal – engajam outra pessoa – o agente – para desempenhar alguma tarefa em seu favor, envolvendo a delegação de autoridade para a tomada de decisão pelo agente”. Se ambas as partes agem tendo em vista a maximização das suas utilidades pessoais, existe uma boa razão para acreditar que o agente não agirá sempre no melhor interesse do principal. No caso da relação entre acionistas e gestores, os acionistas poderiam limitar as divergências monitorando as atividades dos executivos e estabelecendo incentivos contratuais apropriados a eles. Dessa forma, os acionistas incorreriam em custos para alinhar os interesses dos gestores aos seus, que são chamados de custos de agência [Jensen e Meckling, 1976 apud Saito, Richard, 2008]
Independente dos compromissos assumidos entre o agente e o principal, existe um risco de o agente realizar atos em benefício próprio, deixando os interesses do principal em segundo plano. Na prática, existe a denominada assimetria de informações, o que pode tornar esse risco mais propenso de ocorrer. A título de exemplo, há administradores de seguradoras que, em benefício próprio, prejudicam as finanças e o desempenho da empresa, motivados por questões pessoais. Nesse caso, prejudicam os acionistas, a quem assumiram o compromisso de maximização do retorno do investimento e seus próprios clientes.
3.2.2 Ineficaz gerenciamento de riscos
No contexto desse item, riscos se referem a eventos que dão causa a perdas que contrariam os objetivos financeiros ou operacionais das entidades supervisionadas. Essa é definição que pode se chegar ao analisar normas da Susep e do CNSP sobre esse tema, especialmente a Resolução CNSP 321/2015.
Dessa definição geral depreendemos que a organização deve ser eficaz no gerenciamento desses riscos. Os eventos geradores desses riscos podem ser internos ou externos à entidade. São
exemplos de eventos internos: erro operacional de um funcionário, má precificação de um produto oferecido, inadequada gestão de caixa e controle inadequado das contas (a receber ou a pagar). Eventos externos são dependentes de agentes que não fazem parte da entidade, tais como: flutuações dos preços de mercado dos bens, direitos e obrigações da companhia; novas regras legais e/ou regulatórias; inadimplência de clientes ou de outras entidades a quem a supervisionada tem algum crédito a receber. Esses variados riscos podem ser agrupados em categorias. Essa classificação é baseada na natureza do evento gerador do risco, conforme demonstramos nos parágrafos seguintes.
França (2014) descreve as principais categorias de riscos envolvendo as entidades supervisionadas: Risco de Subscrição Risco de Mercado Risco de Crédito Risco de Liquidez Risco Operacional
Segue a definição do risco de subscrição
“Solvência II define o risco de subscrição como a possibilidade de ´perdas ou de evolução desfavorável dos passivos de seguros, tanto pela fixação inadequada de preços como por pressupostos de provisionamento incorretos´ “ [CE, 2009 apud França, 2014, p. 16].
O risco de mercado está definido da seguinte forma pela Comissão Européia (2009):
“Possibilidade de ´perdas ou de evolução desfavorável da situação financeira da
seguradora como consequência direta ou indireta de variações do nível e da volatilidade dos preços de mercado dos elementos do ativo e do passivo, bem como dos instrumentos financeiros´” [CE, 2009 apud França, 2014, p. 16].
O risco de crédito é o “risco de perda ou de evolução desfavorável da situação financeira em virtude de variações da qualidade de crédito dos emitentes de valores mobiliários, contrapartes e devedores, a que estão expostas as empresas de seguros” [CE, 2009 apud França, 2014, p. 17].
Por outro lado, o risco de liquidez é definido como o “risco das seguradoras não terem capacidade para realizar investimentos e outros ativos a fim de liquidar as suas obrigações financeiras na data de vencimento” [CE, 2009 apud França, 2014, p. 17].
Por seu turno, o risco operacional é o “risco de perdas resultantes de procedimentos internos inadequados ou deficientes, do pessoal ou dos sistemas, ou ainda de acontecimentos externos” [CE, 2009 apud França, 2014, p. 18].
É evidente que todas essas categorias de riscos afetam os negócios das entidades supervisionadas. Por isso os riscos requerem um gerenciamento eficaz.
Conforme França (2014), os riscos podem influenciar o alcance dos objetivos da entidade:
De forma geral, toda organização está sujeita a riscos que influenciam no alcance de seus objetivos. Sendo assim, cabe a ela administrá-los de forma a minimizar seus efeitos adversos e aproveitar os benéficos. Este processo é chamado de gerenciamento de riscos ou gestão de riscos. [França, 2014, p. 18].
3.2.3 Deficiências no Sistema de Controles Internos e na Estrutura de Governança
Muitas entidades mergulham em crises financeiras também devido a deficiências nos sistemas de controles internos.
Controle interno é um processo conduzido pela estrutura de governança, administração e outros profissionais da entidade, e desenvolvido para proporcionar segurança razoável com respeito à realização dos objetivos relacionados a operações, divulgação e conformidade. [COSO, 2013, p. 6]
Esses controles internos são, portanto, associados ao atingimento dos objetivos organizacionais. É trabalho conjunto da estrutura de governança e de outros profissionais da entidade.
Segue, em seu turno, a definição de governança corporativa, fator chave para que a organização consiga alcançar seus objetivos e gere valor para a sociedade:
Governança Corporativa é o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo as práticas e os relacionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos de controle. As boas práticas de Governança Corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, facilitando seu acesso ao capital e contribuindo para a sua longevidade.
[IBGC2]
O Código das melhores práticas de Governança Corporativa pode ser aplicado parcialmente às entidades em Liquidação Extrajudicial, cujas atividades operacionais estão paralisadas, mas que ainda possuem o dever de prestar contas ao órgão regulador e às partes interessadas (stakeholders).
O IBGC (2009) define as partes interessadas como aquelas que possuem algum tipo de risco direto ou indireto, relacionado à organização. São, portanto, partes interessadas da entidade em Liquidação Extrajudicial: os credores, os empregados, o governo e os acionistas (ou sócios), dentre outras.
IBGC (2009) recomenda a manutenção pelos gestores da entidade do maior nível de transparência possível, ou seja, deve-se informar aos stakeholders sobre assuntos de seu interesse, não somente quando haja imposição legal.
O liquidante extrajudicial deve, quando não houver vedação pelo órgão regulador ou pela legislação, esforçar-se para fornecer tempestivamente as informações não sigilosas que possam interessar aos stakeholders, especialmente as informações relativas ao progresso da Liquidação Extrajudicial e às expectativas (especialmente as financeiras, econômicas e patrimoniais). A informação deve ser prestada com clareza e de forma a privilegiar os aspectos mais substanciais. A referência reforça que “a Internet e outras tecnologias devem ser exploradas para buscar a rapidez e a ampla difusão de tais informações” [IBGC, 2009].
3.3 GERINDO A LIQUIDAÇÃO COM FOCO NOS RESULTADOS
Segundo Falcão e Marini (2010), não há uniformidade na atribuição dos pesos aos elementos promotores de resultados. Os autores citam os seguintes fatores catalisadores de resultados:
a) consciência estratégica; b) liderança;
c) definição clara e detalhada da estrutura e dos procedimentos; d) projetos;
e) contratualização (“pactuação de resultados” e posterior monitoramento/avaliação);
f) equipe de trabalho capacitada e comprometida; g) tecnologia da informação; e
h) recursos financeiros. [Falcão e Marini, 2010]
Nesse contexto, caso se estabeleçam critérios para avaliar a gestão do liquidante, o foco nos resultados deve ser um item de peso relevante nessa avaliação. Avaliar esse foco nos resultados deve considerar o esforço do liquidante para permitir que a intervenção ocorra na medida certa, na duração necessária e sem excessos nem desperdícios. Além dessa atenção relativa à
economia de recursos, o liquidante deve possuir consciência estratégica e liderança na condução de sua equipe.