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A atividade canavieira situa-se entre as mais tradicionais do país, remontando aos períodos do Brasil-Colônia, podendo ser considerada a mais antiga atividade não extrativista e exportadora desenvolvida em solo brasileiro, já que há registro da entrada de açúcar brasileiro no Porto de Lisboa em 1520 (BELIK; RAMOS; VIAN, 1998).

Ao longo desses quase 500 anos, a atividade experimentou alternância entre períodos de pujante expansão com outros de sufocantes crises. Por vários períodos da história, principalmente entre os séculos XVII e XIX, a atividade sucroalcooleira chegou a ser a mais importante em termos de geração de divisas externas, sendo responsável por parte da expansão das fronteiras agrícolas brasileiras (FURTADO, 2000; BELIK; RAMOS; VIAN, 1998).

Sistema Agroindustrial da Cana-de-Açúcar

Subprodutos Álcool Usinas Destilarias Usinas com Destilarias Anexas Açúcar Própria Insumos Máquinas Equipamentos Mercado Interno e Externo Agroindústria Canavieira Energia Elétrica Terceiros Can a

Atualmente a participação de açúcar e etanol não possuem tanto peso na balança de exportações, mas os valores exportados não são desprezíveis. A tabela 2.1 apresenta as exportações de açúcar e etanol no ano de 2013, conforme os destinos.

Tabela 2.1 – Exportações de açúcar e etanol em 2013.

AÇÚCAR ETANOL

Destinos Volume – ton. Valor FOB - US$ x 1.000 Volume - m3 Valor FOB - US$ x 1,000

África 7.697.300 3.449.771,00 129.546 79.151,00 Ásia 14.602.264 6.171.562,00 746.949 462.170,00 América 2.020.207 922.573,00 1.840.252 1.217.873,00 Europa 2.801.069 1.283.057,00 186.138 109.550,00 Oceania 33.170 14.946,00 124 195,00 Total 27.154.010 11.841.909,00 2.903.009 1.868.939,00 Fonte: Elaborado pelo autor a partir de UNICADATA (2015)

A observação do conteúdo da tabela 2.1 permite concluir que as exportações brasileiras no setor de açúcar e álcool ultrapassaram a marca de US$ 13,7 bilhões. Considerando os dados da balança comercial brasileira, obtidos em MDIC (2015) para o ano de 2013, que atingiram a marca de US$ 242,2 bilhões, é possível afirmar que a agroindústria canavieira respondeu por cerca de 5,7% de todas as exportações brasileiras. O açúcar respondeu por cerca de 39% das exportações de produtos semimanufaturados, enquanto o etanol gerou divisas da ordem de 2% de todas as exportações de manufaturados. Considerando as exportações do agronegócio, tomando como base as informações fornecidas por MAPA (2015), a agroindústria canavieira foi responsável por cerca de 13,7% das exportações do setor. Adicionalmente, segundo dados de MAPA (2015), em 2013 o Brasil foi responsável por quase 62% das exportações de açúcar no mundo.

Para Fernandes, Shikida e Cunha (2013), o Brasil é mundialmente o maior produtor de cana-de-açúcar e de açúcar, além de ser o segundo maior produtor de etanol. Em 2013, segundo dados obtidos junto à FAO, o Brasil foi responsável por 42% da cana produzida no mundo, ficando a Índia em segundo lugar, com 17% (MICHELON et al, 2013). Conforme dados disponíveis em UNICADATA (2015), na safra 2013/14 foram produzidas no Brasil 653,5 milhões de toneladas de cana; 37,7 milhões de toneladas de açúcar e; 27,5 milhões de m3 de

etanol.

Tais resultados decorrem da elevada eficiência nos processos produtivos da agroindústria canavieira e de condições edafoclimáticas excepcionais. Camargo Júnior e Oliveira (2011) afirmam que o Brasil possui os melhores índices mundiais de eficiência na produção de cana, açúcar e etanol e nos últimos 30 anos experimentou importantes ganhos de produtividade, tanto na área agrícola como na industrial. Entre as décadas de 1980 e 1990

ocorreram significativos ganhos de produtividade no campo, decorrentes do uso da vinhaça como fertilizante e do desenvolvimento de variedades de cana mais bem adaptadas. Na etapa industrial, significativos ganhos advieram do desenvolvimento da moagem com 4 rolos e da utilização do bagaço para geração de energia elétrica. Entre a segunda metade da década de 1990 e meados da década de 2000, ocorreram melhorias e automatização dos processos produtivos e avanços na logística de transporte e cultivo, além do desenvolvimento de tecnologia mecanizada de plantio e colheita. Estima-se um ganho de produtividade em torno de 130% no processo de fermentação do etanol e de 33% na etapa agrícola entre 1975 e 2000.

Do ponto de vista comercial e estratégico, destacam-se a busca pela diferenciação de produtos, a diversificação da produção, cooperações, fusões e aquisições e de racionalização do uso da terra e da água. As possibilidades de cogeração de energia a partir do bagaço de cana, viabilizada com o desenvolvimento de geradores mais eficientes, ampliou as possibilidades de agregação de valor ao processo produtivo, de forma que em 2011 as unidades agroindustriais canavieiras produziram cerca de 5,8% de toda a energia elétrica no Brasil e disponibilizaram aproximadamente 2,3% do consumo nacional para a rede (TORQUATO; RAMOS, 2013).

O uso do etanol em adição, ou em substituição, aos combustíveis fósseis, especificamente a gasolina, tem ganhado uma nova dimensão e nesse aspecto a liderança do produto produzido no Brasil é notória. Enquanto nos EUA se produz 4.000 litros de etanol de milho por hectare, no Brasil são obtidos 7.000 litros de etanol de cana na mesma área (KOGA

et al, 2014).

A atividade canavieira sempre foi também grande geradora de emprego e renda. Neves

et al (2010) estimam que em 2008 o PIB do setor chegou a US$ 28,15 bilhões, cerca de 1,5%

do PIB nacional, tendo movimentado US$ 85 bilhões e gerado 4,29 milhões de empregos diretos e indiretos. Shikida (2013) acrescenta que na safra 2011/12 a atividade canavieira teria gerado uma massa salarial da ordem de U$ 738 milhões. Além disso, conforme Belik (1985), há bastante tempo a agroindústria canavieira tem tido papel importante como indutor de inovação tecnológica dentro do panorama agrícola nacional.

No que diz respeito à distribuição da produção da agroindústria canavieira pelo território nacional, a tabela 2.2 contém dados da produção de cana, açúcar e etanol, discriminados por estados e regiões. A análise de seu conteúdo demonstra que a produção é dividida em duas grandes regiões: Centro-Sul e Norte-Nordeste. Os maiores volumes de produção se concentram nos estados da região Centro-Sul, com destaque para São Paulo, seguido de longe por Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Na região Norte-Nordeste destacam-se os estados de

Alagoas e Pernambuco, históricos centros de produção açucareira desde os tempos do Brasil- colônia.

Tabela 2.2 – Produção de cana, açúcar e etanol por estado, região e total na safra 2012/13

Fonte: Elaborado a partir de UNICADATA (2015)

Quanto à ocupação do território nacional pelo cultivo da cana, questão muito polêmica e que tem tomado corpo nos espaços de discussão sobre o setor, a partir de dados contidos em UNICADATA (2015) e IBGE (2015a) é possível afirmar que a área ocupada pela cana em 2012 no Brasil era pouco superior a 9,7 milhões de hectares, cerca de 1,15% do território nacional e aproximadamente 3% das terras aráveis.

Diante de tal importância econômica, associada ao poder social e político característicos do setor (RAMOS, 2011; GUEDES et al, 2013), a agroindústria canavieira tem sido, desde seu surgimento e por muito tempo, alvo de políticas e mecanismos de intervenção estatal direta, ou via órgãos reguladores de atividade econômica. O processo de regulação estatal iniciou-se nos tempos do Império, mas foi intensificado entre as décadas de 1930 e 1990, a partir de quando começou a ser desmontado o aparato regulatório conduzido pelo Estado, vindo surgir alguns mecanismos de auto regulação, sendo este o tema tratado a seguir.

ESTADOS Cana x 1.000 Açúcar x 1000 toneladas toneladas Anidro Hidratado Etanol x 1.000 m3 Total

Espírito Santo 3.770 123 110 72 182

Goiás 62.018 1.891 1.055 2.824 3.879

Mato Grosso 16.989 418 532 572 1.104

Mato Grosso do Sul 41.496 1.368 614 1.618 2.231 Minas Gerais 61.042 3.411 1.246 1.411 2.657

Paraná 42.216 3.037 492 996 1.488

Rio de Janeiro 2.008 84 0 85 85

Rio Grande do Sul 73 0 0 5 5

São Paulo 367.450 23.963 6.958 6.986 13.944 Região Centro-Sul 597.061 34.295 11.008 14.568 25.575 Acre 89 0 0 5 5 Alagoas 21.652 1.728 316 194 511 Amazonas 269 15 0 5 5 Bahia 3.206 94 109 65 174 Ceará 129 0 0 9 9 Maranhão 2.206 11 155 13 168 Pará 819 32 29 9 38 Paraíba 5.150 77 199 140 339 Pernambuco 15.130 1.182 196 121 317 Piauí 851 52 31 1 32

Rio Grande do Norte 2.158 123 33 24 57

Rondônia 188 0 0 11 11

Sergipe 2.276 105 37 69 106

Tocantins 2.334 0 111 85 196

Norte-Nordeste 56.458 3.419 1.215 752 1.968