“Até que ponto a classe em questão cumpre ‘conscientemente’, até que ponto ‘inconscientemente’, até que ponto com uma consciência ‘justa’, e até que ponto com uma consciência ‘falsa’, as tarefas que lhe são impostas pela história?” Georg Lukács (1920)
A formação da consciência das pessoas, para o MST, é inerente ao processo da vida cotidiana desses sujeitos. Surgiu como parte dos “objetivos” do MST a partir da necessidade apresentada de avançar na formação dos seus sujeitos, para que desenvolvessem a autonomia desse movimento nos diferentes Estados, assim como métodos de organização próprios e de direção política diferentes dos praticados por organizações brasileiras, como sindicatos e partidos políticos, por exemplo, até então.
Na perspectiva de buscar a unidade dessas ações, criou-se o setor de formação, em 1988, como resultado da organização de atividades formativas e de cursos direcionados para a Coordenação Nacional e para a juventude militante, que surgiram em 1987 (com a Turma de Monitores). Vale ressaltar que se deu em um momento de expansão do MST em várias regiões do país, o que lhe apontou novas necessidades e desafios organizativos.
Não iremos nos ater à historicidade desse setor, embora reconhecemos a importância dessas informações nessa discussão por se tratar de uma leitura política da conjuntura e uma adequação da formação ao período vivenciado. Fato é que o MST nunca se descuidou dos processos de formação da sua base, pelo contrário, conseguiu estabelecer uma referência na área da formação, no campo da esquerda brasileira.
Assim, sugerimos a leitura de Silva (2005), que descreve a época e os “tipos” de formação, ou as táticas adotadas pelo MST em cada período, até o ano de 2005, visando alcançar os seus objetivos, superando as dificuldades e se afirmando como novo “sujeito” propulsor de formação - na “esquerda” política brasileira.
89 3.1 – A consciência como processo e os desafios para o MST
O MST, desde que surgiu como movimento social, mobiliza famílias de trabalhadoras e trabalhadores camponeses na luta pela Reforma Agrária, organizando e coordenando acampamentos e assentamentos rurais. Para este Movimento, há duas condições diferentes de vivências no mesmo. Uma que é em situação de “acampadas”, ou seja, são as pessoas que, no processo de luta pela conquista da terra, moram nos acampamentos. Da mesma forma, “assentadas” são aquelas famílias que já conquistaram a terra e estão em busca de infraestrutura no assentamento, com condições para produzir e comercializar seus produtos. Portanto, os acampamentos são a fase inicial da luta pela terra e os assentamentos a fase posterior, ou seja, após a conquista da terra e de condições de vida e trabalho.
Ao se projetar no âmbito nacional, o MST precisou reinventar formas e táticas de lutas para garantir a coesão de suas propostas, bem como seu caráter organizativo de movimento sócio territorial, no nível nacional. E, concordando com Mauro Iasi (1999), o MST vê nas articulações desenvolvidas na “coletividade” o potencial de alterar as estruturas historicamente estabelecidas na sociedade, objetivando mudá-las a partir da luta concreta dos trabalhadores e trabalhadoras. Iasi (1999) faz ainda referência a este processo de mudanças pelo despertar da consciência dos trabalhadores e trabalhadoras despojados de seus direitos, citando esse romance:
Aqui está o nó, ó tu que odeias mudanças e temes revoluções. Mantém estes homens apartados; fazes com que eles se odeiem, receiem-se, desconfiem um do outro. Porque aí começa aquilo que mais temes. Aí está o germe. Porque aí transforma-se o “Eu perdi minhas terras”, uma célula se rompe e dessa célula rompida brota aquilo que tu tanto odeias, o “Nós perdemos nossa terra”. E desse “nós” nasce algo mais perigoso. “Eu tenho um pouco de comida” e “Eu não tenho comida nenhuma”. Quando a solução deste problema é “Nós temos um pouco de comida”, aí a coisa toma um rumo, aí o movimento já tem um objetivo. Apenas uma pequena multiplicação, e esse trator, essas terras são nossas (...) Sim, é aí que tu deve lançar a tua bomba. É este o começo... do “Eu” para o “Nós” (IASI, 1999, p. 05).
Vê-se, expresso nesse romance, como “surge” uma força social, sendo revelador de como o processo social daí derivado constitui-se a partir do ajuntamento de pessoas que tem demandas semelhantes e, portanto, traçam
90 os mesmos objetivos. Coube ao MST se preparar pedagógica e metodologicamente para essa coletivização da luta pela terra no Brasil, e esse “aprender a fazer, fazendo” tem como fundamento principal a conscientização dos participantes desse, nesse Movimento.
Assim, a formação política ideológica é uma marca do MST; é formar para a ação e em ação, sendo que essa ação é transformadora da realidade. Essa ação nasce junto com a luta pela terra, nos acampamentos e assentamentos, e se torna vital para as famílias. No primeiro momento, nos acampamentos, surge para atender e suprir as necessidades organizativas imediatas de como coordenar os coletivos e produzir nesse formato, para a preparação para negociar com políticos/governo, para entender as condições imediatas, bem como a forma de luta, etc. Este primeiro momento permite refletir e elevar a consciência acerca da questão agrária e política, nacional e internacional. Essa ação política é conduzida através da participação, na recriação da vida cotidiana, na cooperação em seus diferentes sentidos e no resgate dos valores humanos (MST, 2009).
Assim, a formação se torna imprescindível para o MST, na perspectiva de elevar o nível de consciência (sobre isso ver BOGO, 2007) da sua base social organizada. Por isso, é entendida como um processo que pressupõe uma relação direta entre a prática e a teoria, visando uma ação transformadora, buscando formar homens e mulheres novos, sujeitos de sua própria história e construtores de uma nova sociedade, sendo praticada em todos os espaços desse Movimento e divulgada em todos os materiais elaborados pelo mesmo. Assim, em seus documentos são revelados que: “O MST compreende o processo de formação, em uma primeira instância, enquanto vinculado à prática, isto é, conhecer é participar como ator da construção da luta pela terra, pela reforma agrária e pela transformação social” (SANTOS, 2007, p. 71). A concepção de formação do MST sempre esteve vinculada à sua estratégia geral, ou seja, fazer mudanças na sociedade, mobilizando forças e recursos a partir da luta pela terra e pela Reforma Agrária, objetivando a transformação do atual modelo de sociedade. A sua concepção de formação é de contribuir com/para que sua base, seus militantes e seus dirigentes adquiram os
91 conhecimentos necessários para o desenvolvimento da luta, possibilitando mudanças objetivas nas relações de vida e de trabalho nos assentamentos, sempre na perspectiva de que eles possam exercer ao máximo a definição de caminhar rumo à sua estratégia geral, qual seja, a construção de uma sociedade justa, igual, calcada na valorização do ser humano.
Nessa perspectiva, os processos de formação do MST compreendem e tratam de forma diferente as “etapas” da consciência, que não está em cada indivíduo de forma nivelada (BOGO, 2011, p. 25), porque também os objetivos que o MST almeja são diferentes, embora, não haja uma separação acentuada entre um objetivo e outro. Assim, a formação está vinculada aos objetivos específicos e gerais do MST, mas é diferenciada de acordo com os níveis de conhecimento de sua base social, respeitando seus estágios, sem pular etapas, correspondendo a diferentes níveis de consciência e diferentes processos organizativos dentro da estrutura do Movimento. Estando de acordo com as tarefas assumidas nessa estrutura - que legitimam e credenciam os sujeitos a participarem de outros espaços e momentos de formação locais, regionais, nacionais e internacionais.
Mauro Iasi (1999) descreve a consciência como:
(...) a consciência seria o processo de representação mental (subjetiva) de uma realidade concreta e externa (objetiva), formada neste momento, através de seu vínculo de inserção imediata (percepção). Dito de outra maneira, uma realidade externa que se interioriza (IASI, 1999, p. 10).
E para esse autor, cada pessoa tem suas particularidades que precisam ser compreendidas e respeitadas nesse processo de formação da consciência:
Este processo é ao mesmo tempo múltiplo e uno. Cada indivíduo vive sua própria superação particular, transita de certas concepções de mundo até outras, vive subjetivamente a trama de relações que compõe a base material de sua concepção de mundo (IASI, 1999, p. 09).
Analisando as práticas formativas do MST, percebe-se que o seu objetivo de fazer a luta pela transformação social é um desafio muito mais amplo, mais complexo e exige muito mais aprofundamento e elaboração do que fazer a luta especificamente pela terra ou pela Reforma Agrária. Nesse sentido, constatado o estágio da formação do Sem Terra pela sua posição nos processos de luta e
92 de formação anteriores (ou a formação da vida), a formação proporcionada pelo MST precisa possibilitar a elevação progressiva do nível da consciência, ou seja, precisa promover a formação dessas pessoas envolvidas (base, militantes e dirigentes) respeitando o grau de conhecimento que esses sujeitos já alcançaram, para que compreendam a necessidade de avançar na busca de outros conhecimentos, considerando que uma coisa é fazer a formação de base, outra coisa é fazer a formação de militantes e dirigentes, e assim ocupar lugares diferentes no percurso da luta desse movimento.
Como nos afirma Iasi (1999), a consciência é um processo, e como tal, não pode ser imaginada como algo estático:
Neste sentido procuraremos entender o fenômeno da consciência como um movimento e não como algo dado. Sabemos que só é possível conhecer algo se o inserirmos na história de sua formação, ou seja, no processo pelo qual ela se tornou o que é; assim é também com a consciência, ela não “é”, “se torna”. Amadurece por fases distintas que superam-se, através de formas que se rompem, gerando novas que já indicam elementos de seus futuros impasses e superações. Longe de qualquer linearidade, a consciência se movimenta trazendo consigo elementos de fases superadas, retomando aparentemente, as formas que abandonou (IASI, 1999, p. 09).
Ademar Bogo (2008) nos chama a atenção para a “movimentação” dos processos da consciência. Para este, sendo a consciência um movimento, pode seguir “acumulando conhecimentos ou retroceder ignorando-os”. Exemplifica esse movimento em três direções, conforme as situações apresentadas: de progressão da consciência; estagnação da consciência e regressão da consciência (BOGO, 2008, p. 03).
Ao descrever os procedimentos de como essa movimentação acontece, Bogo (2008) afirma que, no caso de progressão da consciência:
Nesse momento, o movimento está voltado para frente. Conflita consigo próprio; busca sempre novos elementos para fundamentar o seu crescimento nas diferentes formas, como: política, econômica, histórica, jurídica, pedagógica, etc. (BOGO, 2003, p. 03).
E continua:
No momento de estagnação da consciência, não significa que ela não esteja em movimento, apenas deixa de acumular conhecimentos complementares. Passa longos períodos sem acrescentar nada de significativo naquilo que já sabia. Essa situação é prejudicial para
93 a luta de classes, pois o indivíduo de consciência estagnada, pela sua posição de classe, ou por falta de elementos, passa a justificar aquilo que antes negava. Como o movimento das contradições na realidade seguem em frente, a tendência é este indivíduo se desatualizar e, para se manter no posto que está, ou alcançar outro, utiliza-se de vários artifícios (...) (BOGO, 2003, p. 03).
E, para este autor, o processo de regressão da consciência é um estágio que os indivíduos passam quase a “desaprender”:
Já há acúmulo de determinados conhecimentos, mas retrocede-se como se a consciência não tivesse avançado até aquele nível. O indivíduo passa a ter outro comportamento, reações estranhas e atitudes às vezes inexplicáveis. O comportamento individual pode variar entre a ingenuidade, onde as pessoas tomam atitudes não críticas, se deixando manipular como se nunca tivessem participado de determinados espaços de politização. Uma segunda possibilidade na regressão da consciência é cair na criminalidade, como método e meio para atingir os fins (...). Neste sentido, a regressão da consciência adota um caminho diferente e contrário ao que prega a organização. Para que isto seja possível, inverte-se a compreensão e aplicação dos métodos e dos princípios (BOGO, 2008, p. 03).
Essa abordagem descrita por Bogo justifica, por si só, a necessidade constante dos processos de formação nos tempos e espaços de lutas, mobilizações e estudos, dos sujeitos pertencentes aos movimentos sociais, como no caso do MST.
Quanto aos “estágios da consciência” (BOGO, 2007), a formação da base do MST, em um primeiro momento, é projetada na perspectiva de conscientização e clareza de como se deve lutar gradual e constantemente para alcançar seus objetivos, bem como para enfrentar os desafios apontados para cada objetivo em particular.
Dessa forma, o terceiro e maior objetivo desse Movimento, qual seja a transformação social, não é um recurso tático e estratégico para a conscientização dessa base – simplesmente porque ela (a base) não se move, no primeiro momento, pela transformação social ou o socialismo. As famílias que entram para o MST, que vão acampar, vão em busca do primeiro objetivo do MST: lutar por um pedaço de terra. Então, a formação precisa responder este primeiro anseio. Precisa contribuir para que as limitações desse primeiro objetivo fiquem claras para os sujeitos que estão lutando, fazendo sempre a conexão dessa conquista imediata com a necessidade da implementação da
94 Reforma Agrária, já que somente um pedaço de terra é insuficiente para a garantia da sobrevivência no campo.
O avanço para “estágios posteriores” da formação dos Sem Terra, longe de ser uma continuidade mecânica e automática, pode ser comparada a um espiral, que tem um começo localizado ao centro e, à medida que vai avançando em circunferências maiores (estudando, participando de lutas e espaços de formação, da vida orgânica do MST, etc.), vai ampliando sua dimensão e alcançando outros círculos, seguindo em direção ao objetivo estratégico. Portanto, a formação, em um primeiro momento tem a função de responder à demanda dessas famílias que entram para o MST, permeados por aspectos de agitação e propaganda da luta pela terra, para a partir daí avançar na direção de outros objetivos, nos momentos oportunizados e apropriados para tal fim. Nesse primeiro estágio no MST, a formação está vinculada e tem características mais orgânicas e imediatas, sendo associada, desenvolvida e caracterizada muito mais pela forma como é feita e menos pelo conteúdo utilizado. Enquanto a formação inicial da base exige mais atenção à forma (como preparar uma reunião, como organiza um núcleo de base, como organizar os acampamentos e assentamentos, como organizar as lutas, com a divisão das tarefas, etc.); paralelamente, a formação de militantes e dirigentes exige mais apropriação, sistematização, compreensão teórica dos conteúdos sistematizados.
Essa formação dos militantes e dirigentes requer mais atenção e rigor para a importância da organização das equipes e coletivos nos acampamentos e assentamentos, porque essa forma organizativa (BOGO, 2011) forma a consciência das pessoas e, aqui, a formação não se encerra somente na forma, mas também pelo conteúdo que essa forma carrega. Concordando com Bogo, compreendemos que:
A formação da consciência está ligada às questões organizativas, dos núcleos, setores e instâncias do movimento, quanto mais elevada a consciência mais consistência orgânica teremos internamente. A formação e desenvolvimento da consciência, portanto, está ligada ao meio e as relações que se estabelecem entrem as pessoas, em vista de algo a ser alcançado ou construído, individual ou coletivamente (BOGO, 2007 – sem página).
95 Assim, é importante ressaltar que, ao afirmar que a formação da base inicialmente se dá mais pela forma e menos pelo conteúdo, não significa diminuir a importância do conteúdo nesse nível de formação; muito antes pelo contrário, é importante assinalar os aspectos metodológicos que esses conteúdos embasaram para completar a conscientização dos sujeitos, objetivo da formação inicial. Da mesma maneira que não é possível abrir mão do caráter formativo da forma organizativa – que sempre é formativa -, no segundo estágio da formação (formação dos militantes e dirigentes). A diferença, no entanto, é que, como esses militantes e dirigentes já assimilaram metodologicamente a condução dos espaços orgânicos, bem como o caráter formativo dessa forma organizativa, o desafio agora é se debruçar sobre os conhecimentos socialmente acumulados, marchando para outra fase da formação da consciência.
E nesse sentido, o MST compreende como fundamental para a formação do ser humano a necessidade de conhecer outras realidades, de sair desse “mundo rural” imediato, pois somente ali, as circunstâncias se apresentam insuficientes para alargar a visão de mundo que a luta dos camponeses e das camponesas exige. E, para isso, o MST proporciona aos seus sujeitos situações para que aconteça esse afastamento do seu cotidiano aprisionador, com formas e objetivos que variam desde manter uma regularidade nos estudos (formais e informais, da escola básica à educação superior), ou colocar esses sujeitos em contato com vários conhecimentos científicos culturais, ou até mesmo viajar para fora do país (algo normalmente não é comum aos trabalhadores Sem-Terra). Geralmente o agricultor não costuma sair do lugar onde mora, pois vive ali na sua propriedade e dali tira o sustento, empregando suas forças e seu tempo nas suas atividades produtivas - e aqui está o desafio maior do MST.
E sobre isso, Marx e Engels (2001) afirmam que o ambiente estreito e limitado das relações sociais não possibilita que os processos de consciência avancem na direção de sua ampliação:
A consciência, portanto, de início, um produto social é e o será enquanto existirem homens. Assim, a consciência é, antes de mais nada, apenas a consciência do meio sensível mais próximo e de uma
96 interdependência limitada com outras pessoas e outras coisas situadas fora do indivíduo que toma consciência; é ao mesmo tempo a consciência da natureza que se ergue primeiro em face dos homens como uma força fundamentalmente estranha, onipotente e inatacável, em relação à qual os homens se comportam de um modo puramente animal e que se impõe a eles tanto quanto aos rebanhos; é, por conseguinte, uma consciência da natureza puramente animal (religião da natureza) (MARX & ENGELS, 2001, p. 25).
Mesmo com os desafios postos para o MST, no âmbito da formação, este se diferencia de outras organizações sociais por estabelecer mecanismos para aquisição de conhecimentos vinculados às situações em que esses precisam ser “aplicados”, porque para o MST, se as pessoas que compõem essa organização não participarem do processo, também não farão a transformação necessária que objetiva o Movimento.
E, para o MST, essa transformação só acontece mediante um necessário desenvolvimento dos níveis de consciência ou o desenvolvimento da consciência mesma, em níveis diferentes. E para que isso aconteça, é preciso usar táticas diferenciadas para o envolvimento desses sujeitos e utilizar diferentes mecanismos adaptados ao público alvo, como o empoderamento dessas pessoas nas suas comunidades, participação sistemática em estudos, mobilizações, reuniões, encontros, etc., possibilitando a participação direta e a emissão das opiniões dessas pessoas, mostrando que elas têm “vez e voz”, um mecanismo de formação pela experimentação no seu dia a dia.
Outra tática pode ser descrita pela prática de colocar essas pessoas (em processos de formação da consciência) sempre em contato com os conhecimentos sistematizados, para que deles se apropriem. E, no MST, esse contato se dá em grande medida pela contribuição e presença de pessoas que já adquiriram maior nível de conhecimentos (sobretudo, a partir dos cursos e estudos organizados pela Escola Nacional Florestan Fernandes – a ser abordada no capítulo seguinte deste texto); pela socialização de livros, documentos orgânicos próprios do MST, relatórios de reuniões, etc. E sobre isso, Iasi (1999) atribui como outra forma de aquisição do processo de consciência:
Outras informações chegam ao indivíduo, não pela vivência imediata, chegam já sistematizadas na forma de pensamento elaborado, na forma de conhecimento, que busca compreender ou justificar a
97 natureza das relações determinantes em cada época (IASI, 1999, p. 11).
Assim, além das atividades político-organizativas e produtivas que são demandadas e ressignificadas pelos processos de formação do MST, no dia a dia dos seus assentamentos, também é muito intensiva a criação de cursos de formação política e técnica como elemento complementar essencial para garantir a solidez da estruturação desse Movimento.
Essa ação não se restringe à educação de caráter escolar; há também mudanças no cotidiano e no comportamento desses sujeitos. A terra, assim como as formas da vida social e cultural do assentamento, necessariamente precisa ser compreendida como uma extensão dos diferentes laços e relações humanas da comunidade, explicitando o amor e zelo à terra, da mesma forma que amor à vida e cuidado para com os demais sujeitos desse lugar. E, por isso, essas comunidades constroem elementos e valores muito importantes para a humanização da vida, valorizando a cultura, o trabalho, o lazer, a religiosidade, as relações sociais comunitárias, a educação, etc. Não apenas agem para ganhar dinheiro com a terra, mas também atuam ressignificando várias questões da vida, em várias dimensões, sempre com o interesse na humanização da sociedade.
Nesse sentido, Ademar Bogo (2011) nos afirma que: