2. KAYNAK ARAŞTIRMASI
2.2. Dünya’da ve Türkiye’de Zirai Ürünlerdeki Ağır Metal Kirliliği
No dia 25 de janeiro de 2014, a maior e mais conceituada universidade pública brasileira, a Universidade de São Paulo, completou oitenta anos7. Nos eventos de comemoração,
ainda era possível ouvir o eco dos bumbos e gritos de mais uma greve estudantil e dos debates e burburinhos de mais uma eleição para reitor. À primeira vista, essas duas expressões opostas da vida política universitária – a eleição reitoral e a greve estudantil – compõem apenas mais dois registros na sucessão de “fatos” e “feitos” que, ao longo das décadas, constituem a história da USP.
Por certo, na narrativa do movimento estudantil, a greve e a ocupação da reitoria serão descritas como mais um ato heroico de uma “comunidade sufocada” por uma “burocracia autoritária” e “indiferente à urgente democratização da universidade”. Já na perspectiva dos dirigentes, a reintegração de posse da reitoria e a condução da eleição em meio aos protestos e pressões terá representado mais um momento de “coragem” em que se fez valer “a responsabilidade da direção” que, com “alma forte” e ¨têmpera de aço”, conseguiu manter a
7 A Universidade de São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1934, com sede na cidade de São Paulo, pelo decreto estadual n°6.283, assinado pelo então interventor estadual Armando Salles de Oliveira. Na sua formação original, a USP era composta por faculdades profissionais pré-existentes – a Faculdade de Direito, a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina, a Faculdade de Odontologia e Farmácia, a Faculdade de Medicina Veterinária, a Escola Superior de Agricultura, o Instituto de Educação, e a Escola de Belas Artes, que não ficou muito tempo associada à nova universidade – às quais se somaram duas novas unidades: a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que entrou em funcionamento ainda em 1934, e o Instituto de Ciências Econômicas e Comerciais que só se efetivou em 1946, como Faculdade de Economia e Administração.
37 USP na sua “estrada real”8. Nos dois casos, os eventos aparecem como resultado direto da
atuação consciente de homens imbuídos da certeza de que suas ações determinam a história. Entre essas duas forças historicamente contrapostas, a percepção secretamente compartilhada de que ambas, a despeito das suas profundas diferenças ideológicas e práticas, se sabem parte de uma mesma elite política9.
Essa visão inerente aos “homens de ação”, de que nada existe na história senão feitos, se traduz diretamente na historiografia predominante sobre a USP que, por partilhar uma “visão ingenuamente finalista da história” (Bourdieu, 1984, p. 12), marcada pela primazia da ação individual, confere à narrativa dos próprios uspianos, quase sempre de autoconsagração, um lugar absolutamente central. Essa perspectiva finalista concebe o desenvolvimento institucional como “um todo, um conjunto coerente e orientado que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma ‘intenção’ subjetiva e objetiva, de um projeto” (Bourdieu, 1986, p. 69; grifo meu). Essa perspectiva historiográfica reverte-se, no entanto, no seu aparente contrário: por conceber “uma história contínua, aberta ao trabalho de uma teleologia e aos processos indefinidos da causalidade” garantindo “os poderes de uma consciência constituinte” (Foucault, 2010, p. 275), essa mesma historiografia termina por conceber os acontecimentos históricos como uma mera sucessão de fatos desprovidos de significação, ignorando que os
8 As expressões inseridas entre aspas neste parágrafo são falas dos próprios atores. Para caracterizar o discurso do movimento estudantil, utilizou-se termos e adjetivações de panfletos distribuídos durante a greve de 2013. Para caracterizar o discurso dos dirigentes, mobilizou-se as expressões utilizadas por Ernesto de Souza Campos para descrever a ação das diretorias da Faculdade de Medicina e da Escola Politécnica durante as primeiras mobilizações estudantis, ainda no começo do século XX (cf. Campos, 1954, p. 354).
9 O movimento estudantil da USP é reconhecidamente um espaço importante para a formação de lideranças políticas. Só para exemplificar, na última eleição para a prefeitura de São Paulo, o segundo turno opôs dois antigos militantes do movimento estudantil da USP: José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT). Ambos disputavam o lugar que cabia a outro uspiano, o então prefeito Gilberto Kassab (PSD), que também iniciou sua carreira política no movimento estudantil dessa instituição. No outro extremo, é importante frisar que existe um forte trânsito de dirigentes acadêmicos entre posições de controle da universidade e outras funções executivas no aparelho de Estado, em nível municipal, estatual e federal. Ainda que a porta de entrada na vida pública seja diferente – uns pela via propriamente política e os outros por um caminho pavimentado pela legitimidade burocrática –, tanto as lideranças do movimento estudantil quanto os dirigentes acadêmicos acabam formando uma mesma elite política que dirige, juntamente com outras forças sociais, o aparelho estatal brasileiro.
38 acontecimentos devem ser vistos como “a irrupção de uma singularidade única e aguda, no lugar e no momento da sua produção” (Cardoso, 2001, p. 217).
A perspectiva finalista que concebe a história como o resultado da ação consciente de homens que dirigem a instituição assumindo um determinado sentido marca de modo significativo uma parte importante da historiografia sobre a USP, composta pelas obras que formam a sua história oficial. Podem ser incluídos nessa categoria todos os trabalhos escritos a partir de posições de poder repercutindo, nas suas reconstruções históricas, as visões inerentes a esse lugar institucional, ocupado pelo polo dominante da universidade formado, como se verá, pelas faculdades profissionais tradicionais.
Tem sido assim desde o primeiro livro que se pretende “uma história da USP”, concluído pelo ex-reitor Jorge Americano em 1946 e intitulado A Universidade de São Paulo:
dados, problemas e planos (Americano, 1947). Na mesma linha, as diferentes Memórias e Recordações do também ex-reitor Miguel Reale inserem-se como outro exemplo interessante
(Reale, 1986a, 1986b, 1987 e 1994). Ambos, além de políticos importantes do estado de São Paulo, eram professores catedráticos da Faculdade de Direito da USP. Outros dirigentes acadêmicos também escreveram sobre a história da USP, seja sob a forma de artigos acadêmicos, seja sob a forma de memórias. No primeiro caso, pode-se incluir o recente artigo do também professor de direito e ex-reitor da USP, João Grandino Rodas, intitulado História
da Universidade de São Paulo e escrito em parceria com Shozo Motoyama (Rodas &
Motoyama, 2011). No segundo caso, pode-se incluir as memórias do médico e ex-reitor Hélio Lourenço de Oliveira, publicadas em volume de homenagem a ele (Oliveira, 1995), ou ainda o diário do ex-reitor da USP e o professor de administração da FEA, Jacques Marcovitch, publicado com o título Universidade viva, diário de um reitor (2001). É nessa linha de trabalhos que se localiza, também, a obra intitulada Universidade de São Paulo: súmula de sua história, de Josué Camargo Mendes, que foi ex-diretor do Instituto de Geociências de 1970 a 1974 e
39 vice-reitor da USP de 1973 a 1977 (Mendes, 1977). Pode além disso ser interpretado nessa direção o livro Universidade de São Paulo: subsídios para uma avaliação, organizado pela professora Eunice Lacava Kwaniscka da Faculdade de Economia e Administração da USP a pedido do engenheiro e então reitor da USP, Hélio Guerra Vieira, no momento em que se fortalecia, na universidade, um discurso da avaliação institucional. O livro reúne, assim, a colaboração de diversos professores da USP, tendo em vista subsidiar os processos de avaliação que estavam sendo projetados pelo poder central (Kwaniscka, 1985). No mesmo sentido, pode ser incluído nesse estilo de trabalho o livro preparado pela assessora da reitoria, Rosana Oba,
Universidade de São Paulo: seus reitores e seus símbolos – um pouco da história (Oba, 2006).
Publicado pela Edusp, o livro traz a história pessoal de todos os reitores da USP entre 1934 e 2006, seguida da análise da simbologia da administração universitária, expressa no cerimonial de posse do reitor, nas vestes utilizadas, no capelo e no colar doutoral, no brasão d’armas da universidade, na torre do relógio, no sino da reitoria, entre outros. Prefaciado pelo então governador Geraldo Alckmin, o livro testemunha que a história oficial da USP é escrita não só por aqueles que ocupam diretamente cargos de direção, mas por especialistas a quem se delega essa função.
Com efeito, as duas obras mais significativas dessa tradição foram escritas justamente por autores que, sem assumir diretamente as mais altas posições de poder na universidade, acabaram designados pela direção universitária e em função da sua trajetória institucional como docentes, para escrever a história da USP. São elas: o compêndio História da Universidade de
São Paulo escrito por Ernesto de Souza Campos (1954) e o volume USP 70 anos, imagens de uma história vivida, organizado por Shozo Motoyama (2006). O primeiro foi redigido em 1954
a pedido do Conselho Universitário por ocasião da comemoração do IV Centenário da cidade de São Paulo e das duas décadas de fundação da USP. O segundo foi concluído em 2006 como mais um volume produzido pelo Centro Interunidades de História da Ciência, ligado à reitoria
40 da USP e responsável por escrever a história de diversas instituições de ensino e pesquisa do estado de São Paulo.
Quando se passa da história da Universidade como um todo para a história das suas unidades constitutivas, a lista de trabalhos – muitas vezes de caráter memorialista – escritos a partir de posições estruturais de poder aumenta ainda mais. Sem pretensão de compor uma seleção exaustiva, é possível citar as Memórias para a história da Academia de São Paulo, escritas por Spencer Vampré que, além de catedrático, foi diretor da Faculdade de Direito em 1938 (Vampré, 1977). Ou ainda o livro Recordação das Arcadas, publicado pelo Departamento de Cultura e Ação Social da reitoria em 1953 (Lôbo, 1953). Outro livro que segue esse mesmo padrão é o Geologia USP: 50 anos, escrito por Celso de Barros Gomes, ex-diretor do Instituto de Geociências e ex-chefe de gabinete da reitoria no mandato de Adolpho Melfi (Gomes, 2007). O autor já havia organizado um livro – USP leste: a expansão da Universidade de oeste para o
leste – sobre a história da fundação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, cuja
implementação o geólogo coordenou no começo da década de 2000 (Gomes, 2005). Outro exemplo é o livro de Ruy Alberto Corrêa Altafim, 50 anos da Escola de Engenharia de São
Carlos, unidade de que foi vice-diretor entre 2001 e 2005, pouco antes de se tornar Pró-reitor
de Cultura e Extensão da USP (Altafim & Silva, 2004). A Escola Politécnica também teve sua história registrada pelo Centro Interunidades de História da Ciência ligado à reitoria na publicação intitulada Escola Politécnica 110 anos, construindo o futuro (Motoyama & Nagamini, 2004). De forma menos pretenciosa, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas teve projetos de reconstrução de sua história tematizados no seu veículo oficial por professores ligados a postos de direção como, por exemplo, Sedi Hirano (2003) e Francis Aubert (2002)10.
10 É interessante notar que, considerando o conjunto das unidades da USP, o volume das obras historiográficas dedicada a cada uma delas é bastante desigual. Enquanto a Faculdade de Direito, a Escola Politécnica e a Faculdade de Medicina concentram uma enorme quantidade de trabalhos historiográficos (cf. Adorno, 1988; Bontempi Júnior, 2013; Buzzoni, 2007; Castro, 1982; Cytrynowicz & Cytrynowicz, 2011; Danila, 2009; Faria, 2007; Ficher,
41 Em todos esses casos, o relato histórico é formulado a partir de posições de direção na estrutura universitária assumindo, assim, um conteúdo de celebração e legitimação institucional que ressalta o seu caráter de história oficial. Seus formuladores ou assumiram diretamente posições de poder na universidade (Americano, 1947; Reale, 1986a, 1994; Mendes, 1976; Oliveira, 1995; Marcovitch, 2001, Rodas & Motoyama, 2011) ou, de modo mais mediado, escreveram a partir de espaços acadêmicos criados pela reitoria com a função específica de reconstruir a história oficial da instituição e marcando a profissionalização dessa historiografia oficial (Campos, 1954; Kwaniscka, 1985; Motoyama, 2006; Oba, 2006). Trata-se, portanto, de um padrão de reconstrução histórica que, pela sua importância, não se restringe às obras citadas acima. Ao contrário, marca parte importante da historiografia da USP e das suas respectivas unidades. Todo esse conjunto de trabalhos de história oficial, a despeito das suas diferenças internas, assume uma mesma perspectiva historiográfica que, elegendo o discurso dos dirigentes universitários como fonte privilegiada de pesquisa, concebe a história da USP como uma trajetória bem sucedida, operando, por esse mesmo movimento, uma legitimação dos grupos e indivíduos responsáveis pela sua concepção e direção, dos lugares sociais de onde provêm, bem como dos projetos de universidade de que são portadores11.
Essa tendência aparece de modo explícito na obra do ex-reitor Jorge Americano, um catedrático da Faculdade de Direito com extensa carreira política que, logo após deixar a reitoria
1995 e 2005; Lacaz & Mazzieri, 1995; Marinho, 2001 e 2003; Marinho & Mota, 2012; Martins & Barbuy, 1998; Mota, 2005; Motoyama & Nagamini, 2004; Nagamini, 1994; Nakata, 2003, 2007 e 2013; Padilha, 2010; Queiroz Filho, 2008; Reale, 1997; Ricci, 2006; Samara & Facciotti, 2004; Santana, 1996; Santos, 1985, Venancio Filho, 2004), outras unidades de menor prestígio como a Faculdade de Odontologia, a Escola de Enfermagem, a Faculdade de Saúde Pública, para ficar apenas nas escolas profissionais da capital, possuem uma tradição historiográfica bem mais discreta (cf. Brener & Cesar, 2010; Russo, 2006). Assim, a historiografia das diferentes unidades da USP confirma a afirmação de Pierre Bourdieu de que “quanto mais uma escola é célebre, mais ela é celebrada e mais atrai, para si, obras e artigos” (1989, p. 329). As obras específicas sobre as unidades profissionais tradicionais da USP serão trabalhadas no quarto capítulo desta tese.
11 A mobilização da reconstrução histórica como instrumento de autolegitimação e de autoconsagração não é exclusivo da historiografia sobre a USP escrita a partir de posições de poder institucional da universidade. Nos livros de reconstrução da história de alguns centros acadêmicos de prestígio como o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina da USP, e o Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito, são igualmente marcadas por um tom enaltecedor que, baseado em discursos dos próprios agentes, resulta em uma perspectiva finalista e autolegitimadora (cf. Mota, 2009; Centro Acadêmico XI de Agosto, 2003).
42 da USP em 1946 e reconhecendo a falta de continuidade e informação na administração universitária, resolve elaborar um compêndio de “dados, problemas e planos” para orientar “o trabalho dos futuros administradores da instituição” (Americano, 1947, p. 5). Toda a reconstrução histórica proposta por Jorge Americano visa legitimar o ideal de autonomia universitária, nos termos concebidos pelo ex-reitor, que liderou politicamente um amplo movimento que culminou na transformação da USP em autarquia estadual12.
Nesse sentido, depois de apresentar os constantes embates entre a direção universitária e o movimento estudantil como o resultado de um simples “mal-entendido”, ligado à excessiva e equivocada intervenção estatal na USP, o ex-reitor constrói a imagem irênica de uma comunidade unida na inquestionável luta pela autonomia universitária, obliterando todo e qualquer embate quanto ao sentido específico dessa autonomia. É da perspectiva dessa unidade idealizada que ele narra, em terceira pessoa, o movimento que protagonizou pela
12 O decreto de fundação da USP de janeiro de 1934, seguindo o Estatuto das Universidades Brasileiras de 1931, estabeleceu que a escolha dos dirigentes universitários seria feita pelo governador do estado, a partir de uma lista tríplice de professores catedráticos eleitos pelos respectivos conselhos, ou seja: pelo conselho universitário, no caso da escolha do reitor, e pela congregação, no caso da escolha dos diretores de unidade (cf. USP, 1934a). No entanto, no primeiro Estatuto da USP assinado por Getúlio Vargas e pelo então ministro da educação e saúde, Gustavo Capanema, em setembro do mesmo ano, a forma de provimento desses cargos se altera, em função de mudanças na legislação federal que visavam restringir a autonomia das instituições de ensino (cf. USP, 1934b). Com essa alteração, tanto o reitor da universidade quanto os diretores das suas respectivas unidades passaram a ser de escolha livre do governador do estado “entre brasileiros natos, professores catedráticos de qualquer dos institutos universitários”, ou seja, independentemente de pertencerem ou não à unidade que iriam dirigir (USP, 1934b). Na prática, essa medida transformou os postos de direção da USP em cargos de confiança do governo, gerando uma total suspensão da autonomia universitária minimamente prevista do decreto original de fundação da USP. É contra essa situação que a direção da universidade se volta nas décadas de 1930 e 1940, no movimento que Jorge Americano ao mesmo tempo protagoniza e descreve. Como ele mesmo narra, contra a intervenção estatal, sucediam-se greves estudantis e acumulavam-se manifestações de professores e dirigentes universitários, que se demitiam em bloco como forma de protesto. Ainda assim, há outros indícios de que, entre a direção e o movimento estudantil, não reinava a harmonia que Americano postula (cf. Adorno, 1988; Campos, 1954; Danila, 2009; Fétizon, 1986; Nadai, 1981; Centro Acadêmico XI de Agosto, 2003). Em 1944, por efeito dos protestos, a USP se torna uma autarquia estadual, saindo do controle direto da Secretaria de Educação e Saúde Pública e conquistando o direito de restringir a escolha dos dirigentes por uma lista plurinominal. Em 1945, uma tentativa do governador de indicar diretamente o diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras gerou nova demissão em massa do reitor e dos diretores, o que fez o governo instituir uma lista binominal para a eleição dos diretores de unidade, ainda submetida à decisão final do governador (cf. Americano, 1947, p. 176ss.; Antunha, 1971, p. 78ss.; Fétizon, 1986, p. 458ss.). Essa situação só se alterou com a reforma universitária de 1968, que suspendeu a autonomia universitária, sobretudo ao subordinar a escolha dos dirigentes acadêmico à decisão do executivo. Com a redemocratização do país e a reforma do estatuto da USP de 1988, os dirigentes máximos voltaram a ser escolhido, mediante lista tríplice preparada pelo Conselho Universitário, pelo governador do Estado, exatamente como previsto no decreto de fundação de 1934 (cf. USP 1934a).
43 autonomização da USP, conferindo dignidade histórica aos feitos que realizou na sua passagem pela reitoria:
Embora tivessem sido criados o órgão executivo [reitoria] e o órgão deliberante [Conselho Universitário], suas funções foram, inicialmente, reduzidas porquanto continuou o regime anterior à fundação da Universidade, de subordinarem-se os diretores de Faculdades à Secretaria da Educação. O reitor não tinha, na realidade, função dirigente, nem o Conselho Universitário, função deliberante, à falta de autonomia, quer didática, quer administrativa, quer financeiro-patrimonial [sic]. Por outro lado, instituiu o estatuto universitário a livre nomeação do Reitor e dos diretores pelo governo [...]. A ausência de autonomia administrativa [...] criava dificuldades. Sucediam-se greves de estudantes, de caráter político, e as medidas eram tomadas pelo governo, sem audiência da reitoria. Um tiroteio nas ruas, contra os estudantes, em novembro de 1943, ocasionou o pedido de exoneração do reitor e de todos os diretores, que foi negado pelo governo, sob compromisso deste de dar autonomia à Universidade. A autonomia, tal como foi então concedida, consistiu apenas no desligamento da Universidade da Secretaria da Educação, em fevereiro de 1944, conferindo-se ao Reitor a efetiva autoridade sobre os diretores das Faculdades, subordinado ele [reitor] diretamente ao chefe do Governo (Americano, 1947, p 23- 24).
O ex-reitor da USP parte dessa perspectiva finalista – em que a autonomização da universidade nos termos propostos pela sua direção, de centralização e fortalecimento do poder acadêmico no âmbito central, torna-se um fim legítimo e natural – para ressignificar uma série de fatos que assume, então, um sentido coerente. Assim, o afastamento sucessivo dos reitores da USP é apresentado como resultado direto da equivocada decisão do governo de não reconhecer a autonomia universitária, interferindo na escolha dos seus dirigentes. É interessante notar como Jorge Americano justifica o seu afastamento da reitoria em 1946 pelo caráter arbitrário da intervenção governamental na USP, que resulta na desmoralização e no enfraquecimento dos dirigentes universitários:
A quem considerar as várias substituições na direção suprema da Universidade, impressionarão desfavoravelmente os motivos de substituição dos reitores – ou uma causa política, ou um desconhecimento do que seja a autonomia universitária, por parte do Governo, considerando de sua confiança o cargo, ou uma desavença com o governo. Assim, o primeiro reitor, Reynaldo Porchat, exonerou-se por não querer servir após o golpe de estado de 10 de novembro [de 1937]. O segundo, Lúcio Rodrigues, exonerou-se por desentendimento com o governo. O terceiro, Rubião Meira, por mudança de governo. O quarto, Jorge Americano, por desavença com o governo. O quinto, Almeida Prado, declarou no discurso de posse que só serviria com o atual governo e, candidato ao Governo do Estado, afastou-se logo depois,