A historiografia local de Juiz de Fora, da segunda metade do século XX, exibe uma cidade “famosa” entre as personalidades ilustres que a visitaram nesse período, devido ao seu “magnífico” desenvolvimento industrial. Para Oliveira (1966), nenhum dos títulos
conferidos à cidade por tais personalidades, que admiraram seu “progresso”, desde os primeiros anos de sua existência, foi tão apropriado como o de “Manchester Mineira”, a ela atribuído em virtude do “extraordinário desenvolvimento”, sobretudo, de sua indústria têxtil (p.201). Com efeito, a história de Juiz de Fora, narrada pelo autor, revela um espaço que, mesmo antes de se tornar, de fato, uma cidade, o que ocorreu na década de 1850, já apresentava características que indicavam as fortes mudanças, próprias da “modernidade”,139 pelas quais passaria Juiz de Fora.
A história de Juiz de Fora teria se iniciado no princípio do século XVIII, por volta de 1703, quando Rodrigues Garcia Pais haveria se proposto construir uma picada, uma pequena estrada, um atalho estreito, aberto no mato a golpes de facão, partindo da Borda do Campo até a Raiz da Serra, que ligasse aquela região das Minas Gerais ao Rio de Janeiro. A partir dos documentos encontrados, sobretudo no Arquivo Municipal da cidade, no século XVIII, Juiz de Fora teria sido um sítio ou uma fazenda de um juiz (do juiz de fora); em 1850, Vila de Santo Antônio do Paraibuna; Cidade do Paraibuna em 1856 e, em 1865, a localidade e toda região da qual se tornou o centro voltaram a ter a primeira denominação: Cidade do Juiz de Fora. De acordo com o autor, o barão de São Marcelino “defendeu na Assembléia Legislativa Provincial essa mudança de denominação, sem, no entanto, lamentàvelmente, ter cogitado de saber e indicar o nome do magistrado que, passando pela localidade ou aí residindo muitos anos antes, legara tal nome à futura cidade, deixando em mistério seu próprio nome” (OLIVEIRA, 1966, p.63). Entre os nomes “ilustres” que figuram nas primeiras páginas da história de Juiz de Fora, encontra-se o nome do primeiro marido da avó materna de Pedro Nava: Henrique Guilherme Fernando Halfeld que, de acordo com Oliveira (1966, p.10), construiu, em 1836, a estrada do Paraibuna, obra bastante importante para o “desenvolvimento” da cidade. Também teria
139 Como se pode observar ao longo da dissertação, optamos por utilizar, entre aspas, a palavra modernidade
e outros termos pertencentes ao mesmo campo semântico desse vocábulo, tais como progresso, desenvolvimento, de acordo com a perspectiva com a qual trabalhamos aqui, relacionada ao processo de urbanização pelo qual passaram as cidades brasileiras entre fins do século XIX e princípios do século XX, pois desejamos chamar a atenção do leitor para o lado obscuro, porque injusto e violento, que “a modernização ‘a qualquer custo’” (SEVCENKO, 1998a, p.27) do país também apresentou. Assim, visto que a historiografia tradicional de Juiz de Fora, nesta dissertação, representada pela narrativa de OLIVEIRA (1966), tende mostrar “a vitória inelutável do progresso” (SEVCENKO, 1998a, p.27), sem destacar também as suas misérias, escolhemos usar as aspas a fim de destacar as contradições e incoerências que caracterizam, em diferentes momentos, os processos de mudanças econômicas, políticas, culturais por que passam as sociedades, vistos, geralmente, como processos “bons” em si mesmos, representativos sempre e apenas de “desenvolvimento”, “modernidade” e “progresso”.
sido o engenheiro alemão Henrique Halfeld, um dos “primeiros fundadores do arraial e depois vila de Juiz de Fora” (OLIVEIRA, 1966, p.17).
Luís da Cunha, bisavô materno de Pedro Nava, chegou, juntamente com a mulher, os filhos, as filhas, o restante dos membros de sua família e escravos, ao lugar que seria, poucos anos depois, a cidade de Juiz de Fora, na década de 1860. Na perspectiva do memorialista, sua gente “[...] pensou no Caminho Novo desde o primeiro dia em que ele foi pensado. Nele pisou, ao primeiro mato arrancado, descobrindo chão para ser andado. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.114). Passados alguns anos, depois de muitas transformações no cenário do que fora antes apenas um arraial, na década de 1880, Maria Luísa, a avó materna de Pedro Nava, já incomodada com a urbanização de Juiz de Fora, resolveu se afastar um pouco do centro da cidade:
[...] Minha avó resolvera deixar a Rua Direita, fugindo à barulhada dos bondes inaugurados em 1881 com as duas linhas Alto dos Passos até a Estação e Rua Espírito Santo até Mariano Procópio. Santo Antônio era logradouro mais quieto e ela voltava assim para a vizinhança do pai. Porque o Luís da Cunha continuava na chamada “casa do meio” – com sua chácara, com suas frutas e com sua mulata. Como sempre, seu almoço era em casa da filha que tinha uma escrava, Ana, cujo único ofício era cozinhar para o pai. [...] (NAVA, BO, 2002, p.184).
Maria Luísa pertencia à uma geração escravocrata e rural e que assistia, no final do século XIX, às intensas mudanças por que passava Juiz de Fora, as quais transformariam a cidade no “principal pólo urbano” da “Zona da Mata mineira, adentrando o século XX como um dos florescentes centros industriais do país” (GOODWIN JUNIOR, 1996, p.4). Tratava-se de uma cidade “contraditória”; ao mesmo tempo em que se pretendia “culta, moderna, civilizada”, enriquecia-se às custas do “trabalho forçado de negros escravos, dilacerada pela violência” e por problemas relacionados à saúde da população (p.4-5).
Em consonância com o crescimento do setor econômico de Juiz de Fora, garantido pelo funcionamento de seus estabelecimentos industriais e comerciais, a década de 1880, na cidade, foi marcada por eventos importantes para o seu “desenvolvimento”: a inauguração da luz elétrica, que teria colocado a cidade na vanguarda das cidades brasileiras (OLIVEIRA, 1966, p.113); o crescimento do número de bancos na região; a execução de obras, sobretudo para abastecimento de água; a instalação dos primeiros bondes na cidade. Também a década de 1890 teria trazido benefícios para a cidade de Juiz
de Fora. Sob o Novo Regime, o Município viveu um período de grandes empreendimentos, além de ter, durante os anos de 1890, 1891, 1892, sua receita superado sua despesas.140 Somado a isso, no período entre 1890 e 1900, Juiz de Fora passou a ter seu estabelecimento de ensino secundário oficial: a Escola Normal começou a funcionar em 1894. Entre os acontecimentos relevantes desse momento para sociedade de Juiz de Fora, destacam-se ainda a criação e o funcionamento da Biblioteca Municipal.
Em Juiz de Fora, o “desenvolvimento” em direção à urbanização da cidade não cessaria. Em O Pharol de 12/11/1912, está registrada a chegada de “cinco bondes novos”, destinados “ao serviço da Companhia Mineira de Electricidade, [...] sendo ainda esperados outros” que já teriam sido “despachados” (p.1). Como podemos perceber, as primeiras décadas do século XX também se caracterizariam por fortes mudanças no espaço urbano. Esse foi um período de intensa industrialização de diversas cidades do país, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, a própria Juiz de Fora.141 Se observarmos algumas fotografias dessa cidade, cuja reserva técnica encontra-se no Museu Mariano Procópio,142 é possível imaginar, em certa medida, o espaço da cidade no início do século passado. Por meio dessas imagens, chegamos à Rua Direita, onde hoje se localiza a
140 É importante ressaltar, entretanto, que, embora, na perspectiva de Oliveira (1966), a cidade de Juiz de
Fora só tenha se beneficiado tanto das transformações pelas quais passava o Brasil a partir do movimento de industrialização e urbanização que ocorria em escala mundial, desde meados do século XIX, quanto das mudanças que ocorreram no cenário nacional com a proclamação da República, promover uma industrialização imediata e a modernização do país a qualquer custo apresentava-se como objetivo das novas elites brasileiras. Na perspectiva de GOODWIN JUNIOR (1996, p.9), “A opção por uma modernização conservadora, calcada em argumentos e práticas tecnocráticas, e sem a preocupação de ampliar democraticamente o acesso a seus benefícios, antes pautando-se pela exclusão social, é uma característica ainda marcante nos projetos das elites nacionais”. Para verificar os resultados desastrosos para o país, advindos da execução dos projetos desse grupo social, ver SEVCENKO (1998a).
141 Para SEVCENKO (1998a), o tempo republicano foi um “tempo mais acelerado, impulsionado por novos
potenciais energéticos e tecnológicos”, marcado pela “exigência de acertar os ponteiros brasileiros com o relógio global” (p.27).
142 Em julho de 2007, estive trabalhando, na pesquisa, em Juiz de Fora, no levantamento, seleção e
organização das fontes para a continuidade da investigação, já iniciada no ano anterior. Naquela ocasião, estive no Museu Mariano Procópio à procura de fotografias da cidade no início do século XX. Soube, então que as imagens existiam, mas estavam fechadas no arquivo do Museu e não se podia, naquele momento, ter acesso a elas, porque não havia um funcionário responsável que pudesse mostrar o acervo. Quando voltei à Juiz de Fora, em janeiro deste ano, Heliana Casarim, a historiadora responsável pelo Setor de Memória da Biblioteca Municipal Murilo Mendes, presenteou-me com uma coleção de cartões-postais, produzidos em 2001, nos quais se encontram fotos da cidade de Juiz de Fora no início do século XX, sobretudo no ano de 1903, feitas por F. Soucasaux. Esse material foi produzido por meio da iniciativa do jornal Tribuna de Minas em parceria com o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, para comemorar os 151 anos da cidade de Juiz de Fora. A coleção de postais recebeu o seguinte título: “Lembranças de Juiz de Fora (1903-2001)”.
movimentada Avenida Rio Branco, no centro da cidade. Nessa rua, onde morou Pedro Nava durante a maior parte da infância, com a mãe, irmãos, bem como suas tias e sua avó materna, foi uma das primeiras ruas da cidade e, no ano de 1903, já se destacava pelos sobrados que compunham o cenário:
À medida que vamos observando as fotos de Juiz de Fora em 1903, vamos também entrando em suas ruas – Marechal Deodoro, Halfeld, Rua do Commercio, Rua do Espirito Santo – e percebemos a quantidade de sobrados, casas grandes e edificações que se espalhavam pela cidade. Entre essas construções, estão a Alfândega, o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, o Foro de Juiz de Fora, a Real Sociedade Auxiliadora Portugueza, a Sociedade Italiana Umberto I, o Theatro. “Andando” um pouco mais pelas fotografias, logo encontramos uma construção requintada onde funcionou o Colégio Andrés, “internato católico”, segundo a informação do postal que exploramos, em que teria estudado Pedro Nava entre os anos de 1909 e 1910:
Alguns dos habitantes de Juiz de Fora ao mesmo tempo em que se indignavam com a falta ou o pouco apoio do governo ao processo de urbanização da cidade, encantavam-se com as mudanças.143 Na coluna “Opiniões alheias” do jornal O Pharol, de 28/04/1912, encontramos um longo artigo, escrito em primeira pessoa, que trata do “progresso”, do “avanço” de Juiz de Fora, apesar, segundo o autor do artigo, da falta de apoio dos governos federal, estadual e municipal a esse processo pelo qual a cidade passava: “[...] tudo isso é fructo da iniciativa particular, do espirito emprehendedor e yankee deste povo laborioso e amante do progresso. Nada devemos aos governos federal e estadual. Quanto ao municipal, nem falemos” (p.1).
143 Nota-se, na narrativa de OLIVEIRA (1966), certo deslumbramento, e até um frenesi, diante das
transformações pelas quais a cidade de Juiz de Fora passava desde meados do século XIX. Isso pode ser comprovado, por exemplo, pela ausência, em sua narrativa, de qualquer comparação entre o “progresso” e a “modernidade” experimentados por Juiz de Fora e o “desenvolvimento” que outros centros urbanos também experimentaram no mesmo período. As referências a outras cidades mineiras, como Ouro Preto ou São João del Rei, aparecem no texto de Oliveira mais para evidenciar a suposta superioridade de Juiz de Fora, em termos industriais, econômicos, em relação a essas cidades do que, propriamente, para mostrar que a corrida pelo “progresso” e pela “modernidade” era um fenômeno que vinha ocorrendo em várias cidades do mundo. A esse respeito, ver os já citados estudos de SEVCENKO (1998a) e VEIGA (2002).
O autor do artigo usa as opiniões que seriam de um amigo seu a respeito do “progresso” de Juiz de Fora para reforçar sua própria posição em relação à cidade:
E que queres [que] faça o governo do municipio, com a indifferença do governo da União e a evidente má vontade do Estadual, que não perdoa a Juiz de Fóra sua audacia de progresso, [...] sua independencia nas iniciativas? Isso vem de longe, desde que os creadores desta cidade, num arrojo audacioso, lançaram os fundamentos da futura Manchester mineira. Não nos perdoam sermos os primeiros em tudo (O PHAROL, 28/04/1912, p.1).
Também a edição do jornal de 12/11/1912 noticia a melhoria do espaço urbano ligada ao desenvolvimento da infraestrutura para distribuição de água, com apoio do capital privado. Comenta-se, na edição de número 268 de O Pharol, a transferência do contrato de arrendamento “das fontes de Cambuquira” feita pelo “coronel Azarias Brito a Estevão Silva e outros capitalistas residentes em São Paulo”. “Os arrendatários vão formar uma companhia de poderosos recursos afim de introduzir grandes melhoramentos naquella estação hydro-mineral, dotando-a de installações iguaes ás suas congeneres na Europa” (p.1). Aqui, destaca-se a influência dos coronéis nos rumos administrativos da cidade, bem como dos “capitalistas” externos que se interessavam pelos recursos naturais de Juiz de Fora.
Quando se tratava, na perspectiva dos redatores do jornal, da interferência exterior e de padrões europeus que poderiam contribuir para o “desenvolvimento” de Juiz de Fora, O Pharol não apenas noticiava os acontecimentos, como também mostrava posição favorável em relação às direções que as transformações do espaço urbano iam tomando. Em contrapartida, quando o jornal julgava que a interferência externa era prejudicial à soberania brasileira, O Pharol também não deixava de se posicionar. Ao referenciar uma revista francesa, “Reveu des Deux Mou des”, o jornal denunciou a venda de “60 mil” quilômetros quadrados na Amazônia e a venda de “400 léguas de terra” no “Matto Grosso” para “companhias commerciaes, que installando-se dentro de paizes, comprando largas extensões territoriaes, preparavam um caminho facil de intervenção ás potencias que em summa representavam” (12/11/1912, p.1). O artigo apresenta ainda a opinião de algumas pessoas que debatiam o assunto. Para o Sr. Mauricio de Lacerda, havia a possibilidade de desmembramento nacional, ao passo que, para Caetano Albuquerque, a venda das terras era constitucional. No fim do artigo, o jornal assumiu posição contrária à venda dessas terras ao capital privado estrangeiro, e esse seria “[...] um facto de excepcional gravidade” (p.1).
Embora o jornal demonstrasse sua preocupação com a soberania do país, nas notícias sobre Portugal, os textos tendem a valorizar a antiga Metrópole. Na coluna “Cartas Portuguesas”, verifica-se certa exaltação de Portugal, apesar de o Brasil, na época, já ser uma República. Observa-se também nessas notícias que Portugal ainda tinha como objetivo intervir nos processos judiciais brasileiros (O PHAROL, 19/06/1912, p.1).
Notícias de obras públicas, como a construção de pontes e o custo desse tipo de empreendimento (O PHAROL, 12/11/1912, p.1), a construção de estradas de ferro (O PHAROL, 06/06/1912, p.1), preenchiam as páginas do jornal. Isso pode ser interpretado como uma evidência de que se investia constantemente na urbanização da cidade. Também notícias de Belo Horizonte, do Rio de Janeiro, cidade para a qual muitos desejavam se mudar, como foi o caso do pai de Pedro Nava, de parentes seus e do próprio memorialista, tinham lugar nas páginas de O Pharol. Os anúncios sobre os serviços oferecidos no Rio pareciam nutrir ainda mais esse desejo de alguns habitantes de Juiz de Fora pela outra cidade. Nessa direção, O Pharol de 12/11/1912, por exemplo, trazia o seguinte anúncio: “Restaurant Paris – o primeiro salao no Rio de Janeiro – cosinha de primeira ordem” (p.1). Desse modo, o jornal não só reforçava a valorização do Rio de Janeiro (a qual já parecia existir no imaginário de alguns membros das elites juizforanas), mas também evidenciava a forte presença de Paris como uma capital modelo na mentalidade de determinados grupos sociais, do início do século XX.