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DÖVİZ POZİSYONU TABLOSU 31 Aralık 2010

É importante compreender que, em uma pesquisa fenomenológica, a coleta de dados não ocorre como um momento isolado, mas acontece de forma simultânea à análise dos dados, num processo contínuo de descobertas, compreensão e interpretação. Nesse sentido, os cuidados com os critérios fenomenológicos, durante a análise de dados, são tão importantes quanto aos requeridos na coleta, visto que não ocorrem de forma dicotômica, mas estabelecem um diálogo compreensivo e reflexivo.

Assim, quanto maior a vivência do pesquisador com o tema de estudo da pesquisa, “[έέέ] quanto maior o seu pré-reflexivo, mais ele saberá ler as descrições e dizer do significado nelas contido” (BOEMER, 1994, pέ 89), dado que, para a compreensão e interpretação do fenômeno, colherá as descrições das experiências relatadas pelos sujeitos da investigação, a partir de seu mundo vivido.

Sem ter a intenção de descaracterizar os estudos fenomenológicos, os quais evitam a indicação de regras e passos a seguir no decorrer do método, é relevante ressaltar os estudos de Martins e Bicudo (1983) sobre pesquisa qualitativa fenomenológica e suas

sugestões acerca da análise de descrição dos dados, nas quais enfatizam a necessidade de o pesquisador percorrer momentos importantes na análise de descrição.

Assim, na análise dos dados, referidos autores orientam os seguintes momentos, os quais foram observados em nossa pesquisa: ler a descrição inteira, com vistas a obter o sentido do todo, a fim de familiarizar-se com a descrição das experiências vividas dos sujeitos; ler novamente, de maneira mais lenta, com o intento de identificar as unidades de significado, focalizando o fenômeno que está sendo pesquisado, uma vez que não há um sistema pré-definido de categorias de análise em pesquisa fenomenológica; analisar todas as unidades de significado identificadas e os significados contidos nelas, buscando perceber aquelas que revelam mais sobre o fenômeno; e sintetizar as unidades de significado com o fito de se chegar à estrutura do fenômeno estudado e atingir compreensivelmente a sua essência.

Nesse percurso, utilizamos como ferramenta de apoio para análise o programa informático de análise de dados qualitativos Atlas.ti, versão 7.1.4, sendo os dados explorados por meio do método fenomenológico hermenêutico, de acordo com a filosofia heideggeriana.

O Atlas.ti constituiu-se como uma ferramenta de trabalho valiosa para a realização da análise qualitativa de grandes massas de dados textuais e ajudou a identificar e explorar o fenômeno através de seus de seus ângulos revelados. Desse modo, ofereceu possibilidades de comparar, de forma sistemática, elementos significantes imersos no grande volume de informações coletadas.

Assim posto, buscamos organizar o material transcrito visando à compreensão e interpretação das respostas. Nesse processo, o conteúdo das entrevistas foi transcrito para o editor de textos Word e transferido, em seguida, para o Atlas.ti. O conteúdo analisado enfatizou as citações literais dos sujeitos e as respostas associadas a categorias e suas respectivas unidades de sentido, elaboradas no decorrer das análises, possibilitando-nos a sua interpretação.

É importante destacar que, para a elaboração das categorias,

Uma questão relevante que surge [...] quanto à existência de critérios para determinar o grau de importância ou relevância de um tópico. Está implícito que um critério é a freqüência com que ocorre, mas não é o único [...] é possível que os dados contenham aspectos, observações, comentários, características únicas, mas extremamente importantes para uma apreensão mais abrangente do fenômeno estudado. Haverá também mensagens não intencionais, implícitas e contraditórias, que, embora únicas, revelam dimensões importantes da situação (BOEMER, 1994, p. 90).

Como mencionamos, para se aplicar o círculo hermenêutico, como de resto para todo estudo fenomenológico, é necessário que o pesquisador tenha posição prévia (Vorhabe), concepção prévia (Vorgriff) e visão prévia (Vorsicht) sobre o que vai estudar. Exige esse método que as coloquemos “entre parênteses” ao realizar o estudo de campo, uma vez ser necessário não direcionar as pessoas que vão participar do estudo no sentido de confirmar o que já temos em mente. Em outras palavras, devemos deixar que o fenômeno apareça por si mesmo. Quando da análise dos dados, este tema será retomado.

Posto isso, há duas questão de interesse que precisam ser ressaltadas:

1) Quais os contornos gerais do fenômeno avaliação que se revelam na pesquisa para a elaboração da tese?

2) Como explicitar, fenomenologicamente, os elementos envolvidos no quadro descrito?

Sobre o primeiro ponto, torna-se necessário ressaltar que o quadro suposto vai descrever de forma sucinta o universo a ser pesquisado em que deve conviver os sujeitos classificados em certas categorias, quais sejam: (1) professores que aceitam as regras impostas pela regulamentação do sistema sem se interrogarem sobre elas; (2) professores que as aplicam, mas não concordam com elas; e (3) professores que gostariam de mudá- -las porque percebem que elas não estão adequadas à realidade dos alunos.

A respeito da segunda questão de interesse, em primeiro lugar, há que se compreender como a presença está diante das situações descritas no quadro. Diz-se que a presença para se faz no mundo por um “[...] estar-lançado (que) é o modo de ser de um ente que sempre é ele mesmo as suas possibilidades e isso de tal maneira que ele se compreende nessas possibilidades e a partir delas projeta-se para elas” (HEIDEGGER, 2006, p. 245).

O “estar-lançado” significa a facticidade da responsabilidade (HEIDEGGER, 2006, p. 194), devendo-se entender que, ainda segundo o filósofo alemão, “facticidade não é a factualidade do factum brutum de um ser simplesmente dado, mas um caráter ontológico da presença assumido na existência, embora, desde o início, reprimido” (2006, pέ 194)έ

Assim, vale esclarecer que facticidade e factualidade se diferem, pois factualidade se refere a coisas e eventos que ocorrem no dia a dia; e facticidade é uma característica da presença, isto é, faz parte dela, independentemente de acontecimentos; é com o desenrolar da sua existência que ela vai se revelando e, ao longo do tempo, pode se transformar na historicidade da presença.

Deve-se entender que “um ser simplesmente dado” (HEIDEGGER, 2006) está no mundo, mas não está aberto para possibilidades. Logo, ele só é capaz de produzir fatos pontuais que não expressam um todo de sua ação. Ele produz fatos, mas não cria facticidade que se transforma em historicidade, em função do caráter ontológico do decair no mundo. Como o excerto indica, essa característica da presença se apresenta inicialmente reprimida.

Essa noção já explica o fato de professores que já se conscientizaram da situação de inadequação do estado atual do ensino em função da sua regulamentação, que já superaram o estado de repressão inicial e se encontram já lançados para as possibilidades de mudanças no seu manual intra-mundano de trabalho, o ensinar (Zeug). Por outro lado, há ainda os que estão no estágio em que suas possibilidades estão reprimidas. Dito em outras palavras, não tomaram consciência da situação. Como, então, entender as duas situações?

Para os que estão nessa última circunstância, podemos supor uma fuga do problema, entendida como “[έέέ] fuga de si mesmo o decair da presença no impessoal e no „mundo das ocupações‟ [έέέ] que desencadeia o medo, isto é, do ameaçador” (HEIDEGGER, 2006, p. 252).

Deduz-se do excerto que a situação aceita por esses professores que têm medo de mudanças, mesmo sabendo que elas são necessárias, pode decorrer da ameaça de desobediência aos ditames da regulamentação do currículo e demais normas. Lembre-se, por oportuno, que se está tratando de propriedades ontológicas da presença, logo a solução deve ser buscada no “ser-no-mundo”. Porém, esses docentes não estão isolados, convivem com eles outros colegas que se preocupam com a situação vivenciada. Com efeito, “[...] o ser-no-mundo é cura, pode-se compreender, nas análises precedentes, junto ao manual como ocupação e o ser como presença dos outros nos encontros dentro do mundo como preocupação” (HEIDEGGER, 2006, p. 260, grifo do autor).

Então, a “cura” (Sorge) significa “preocupação”, cuidado que pode se transformar em angústia, que “[έέέ] arrasta a presença para o ser-livre para... (propensio

inέέέ[έέέ]” (HEIDEGGER, 2006, pέ 254)έ Isso significa dizer que, ao atingir esse estágio

de compreensão, começa a existir a possibilidade de mudanças. Os que estão propensos à mudança podem influenciar os que estão fugindo de si e do problema, fazendo com que o medo se transforme em disposição, pois “[...] ter medo por ou ter medo de alguma coisa sempre abre – seja privativa ou positivamente – de modo igualmente originário o ente

intramundano em sua possibilidade de ameaçar e o ser-em no tocante ao estar ameaçado. Medo é um modo da disposição” (HEIDEGGER, 2006, pέ 201)έ

Hobbes (1993, pέ 12) vai na mesma direção, chamando “disposição” de deliberação “a sensação alternada de apetite e medo, durante todo o tempo em que está em nosso poder fazer ou não a ação”έ A constatação de que os conteúdos curriculares estão em descompasso com as necessidades de aprendizagem dos alunos representa opinião formada, que será mais robusta quanto maior for a experiência de quem faz a afirmação. Hobbes defende a existência de uma relação inseparável entre vontade e opinião, pois, segundo ele, “[έέέ] as nossas vontades seguem as nossas opiniões, como as nossas ações seguem as nossas vontades” (1993, pέ 12). Traduzido de outra forma, “Entre desejar e fazer existe a diferença da passividade à atividade” (RICOEUR, 1988, p. 101).

Como visto no corpo teórico, o método fenomenológico será o instrumento básico de análise. Uma visão gráfica desse método é mostrada a seguir.

Gráfico 02 – Representação gráfica do círculo hermenêutico de Heidegger

Fonte: Adaptado de Michael Inwood9 (2012).

9 Gráfico adaptado de Michael Inwood. Disponível em: <http://criticanarede.com/hermeneutica.html>. Acesso em: 27 nov. 2012.

Objeto de estudo Pesquisador Conhecimento prévio Visão prévia Coleta de dados Interpretação Posição prévia Nova compreensão da realidade

Como se observa, a interpretação é o elemento base que conduz a uma nova compreensão da realidade. Não se interpreta aquilo que não se compreende. Portanto, é necessário que

[...] a pre-sença projeta(e) seu ser para possibilidades. Esse ser para possibilidades, constitutivo da compreensão, é um poder-ser que repercute sobre a pre-sença as possibilidades enquanto aberturas. O projetar da compreensão possui a possibilidade própria de se elaborar em formas. Chamamos de interpretação (Auslegung) essa elaboração (HEIDEGGER, 1999, p. 204).

Essa abertura para possibilidades já está expressa no gráfico como “posição

prévia”, “visão prévia” e “conhecimento prévio”, o que possibilita que se possa empregar o termo interpretação como definido por Heidegger (2006, p. 207, grifo do autor):

A interpretação sempre se funda numa visão prévia que „recorta‟ o que foi assumido na posição prévia, seguindo uma possibilidade determinada de interpretação. O compreendido, estabelecido numa posição prévia e encarado numa „visão previdente‟ (vorsichtig) torna-se conceito através da interpretação.

Isso significa dizer que cada volta no círculo, o pesquisador adquire nova compreensão da realidade.

Nosso nível de conhecimento nos permitiu levantar as perguntas pertinentes a este estudo – assim como as propostas de solução para elas e os objetivos a serem perseguidos – e, assim, previamente defender as seguintes suposições:

a) Uma proposta avaliativa elaborada por técnicos distantes do cotidiano escolar não se ajusta à diversidade de situações e consegue ser desenvolvida pelos professores conforme o planejado, de acordo com os aspectos legais, administrativos e pedagógicos;

b) As transformações pretendidas no campo da avaliação do ensino- -aprendizagem devem ser qualificadas duplamente, tanto em termos de

formação inicial e continuada quanto em termos de condições materiais de trabalho, sob pena de limitar-se a um aperfeiçoamento técnico de orientação imediatista e pragmática.

Como visto nas suposições, o que se pretende revelar são as práticas avaliativas do dia a dia do professor em sala de aula, ou seja, sua “cotidianidade mediana” (HEIDEGGER, 2006, pέ 54)έ Para se identificar as práticas da vida

profissional dos educadores em sala de aula, além da observação participante e da escuta sensível, foi tomada para análise as suas falas, pois elas são úteis à disposição do compreender, atuando como a articulação da compreensibilidade (HEIDEGGER, 2006, p. 223). Sendo assim, ainda consoante Heidegger, será empregado como “[έέέ] sentido o que pode ser articulado na interpretação e, por conseqüência, mais originariamente ainda já na fala” (2006, p. 223).

O papel desempenhado pela fala assumiu importância capital no processo de interpretação, à medida que “O nexo da fala com o compreender e a sua compreensibilidade torna-se claro a partir de uma possibilidade existencial inerente à própria fala, que é a escutaέ” (HEIDEGGER, 2006, p. 223). Deduzimos, assim, a relevância da utilização da escuta sensível como técnica de coleta dos dados.

O emprego do conceito de “cotidianidade mediana” tem por objetivo tornar os dados mais confiáveis. Com essa técnica, trata-se de buscar, portanto, como o professor se coloca como presença em sala de aula, no seu dia a dia, de modo a “[...] mostrar [...] como ela é antes de tudo e na maioria das vezes, em sua cotidianidade mediana. Da cotidianidade não se devem extrair estruturas ocasionais e acidentais, mas estruturas essenciais” (HEIDEGGER, 2006, p. 54, grifo do autor).

Como visto, o método adotado supõe que o pesquisador tenha ideias sobre o objeto de estudo, mas elas devem ficar à espera de confirmação do que se revelar nas falas. Deduzimos, desse modo, a coerência entre as técnicas e os instrumentos de coleta de dados e o método de análise adotados. Com efeito, uma entrevista adequadamente conduzida pode mostrar comportamentos que não são os comumente empregados no dia a dia da sala de aula.

Há que se dizer, ainda, que os significados que o pesquisador pode destacar nas descrições têm como referência a totalidade das experiências vividas pelo sujeito e essa totalidade vai além da consciência explicitada pelo sujeito. Dessa forma, haverá sempre uma região não expressa que permanece oculta. Por isso, a pesquisa sempre prossegue (BOEMER, 1994, p. 91).

Acreditamos, então, que a aplicabilidade do método fenomenológico hermenêutico é a forma mais apropriada para se trilhar o percurso metodológico para a realização desta pesquisa, por melhor dar conta da fidedignidade dos juízos interpretativos. Dessa maneira, tivemos a intenção de assumir uma postura adequada à

aplicação desse método na pesquisa. Para tal, debruçar-nos-emos, de forma dedicada, sobre a problemática da compreensão e interpretação do objeto de estudo desta tese, sendo, portanto, importante observar que

Negativamente: a esse ente não se deve aplicar, de maneira [...] dogmática, nenhuma idéia de ser e realidade por mais „evidente‟ que sejaέ Nem se devem impor à presença „categorias‟ delineadas por tal idéiaέ Ao contrário, as modalidades de acesso e interpretação devem ser escolhidas de modo que esse ente possa mostrar-se em si mesmo e por si mesmo (HEIDEGGER, 2006, p. 54).

Nesse sentido, os passos a serem tomados metodologicamente deixam claro que as categorias de análise não puderam ser definidas antecipadamente, mas de acordo com os aspectos revelados pelos depoentes, em virtude de ser uma pesquisa fenomenológica.

A contribuição de Heidegger à hermenêutica contemporânea é inegável, ao tentar buscar compreender o ser, pois essa perspectiva fenomenológica nos leva a concluir que não há interpretações definitivas que representem verdades absolutas e incontestáveis, visto que elas são analisadas à luz do tempo e do contexto histórico e

social em que foram concebidas, levando em conta ainda as possíveis pré- -compreensões do intérprete. Dessa forma, é possível que outros pesquisadores, ao

realizarem uma nova pesquisa, possam, a partir dos achados e das suas circunvisões, construir novo sentido, ou seja, uma nova possibilidade de compreender e interpretar.

6 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS: CONSTRUINDO A TEIA

Benzer Belgeler