• Sonuç bulunamadı

DÖRDÜNCÜ BÖLÜM

Belgede Sektör Raporu (sayfa 25-29)

   

  O objetivo desta seção é discutir qual a concepção de ensino‐aprendizagem 

que  se  configura  no  Referencial.  Para  iniciar  o  debate,  pode‐se  considerar  que  o  RCNEI é constituído predominantemente pelo tipo de discurso teórico, de acordo  com o exposto no capítulo inicial deste trabalho na seção relativa à infraestrutura  textual,  como  discutido  por  Bronckart  (1997/2003).  Esse  tipo  de  discurso  é  marcado,  de  acordo  com  as  características  apresentadas  pelo  texto,  como  pertencente  ao  mundo  do  expor  (conjunto)  autônomo,  o  que  significa  que  a  situação da ação de linguagem é coincidente com o tempo atual e os parâmetros 

(agente, referência espaço/tempo) da ação de linguagem não são explícitos, ou seja,  há  distanciamento,  como  demonstrado  na  seção  do  contexto  de  produção  deste  capítulo.  

  A  configuração  do  tipo  de  discurso  teórico  implica,  geralmente,  em  um 

enunciado mais complexo. Essa característica se intensifica no Referencial por não  serem  citadas  explicitamente  as  teorias  e  ou  autores/pesquisadores  diretamente  envolvidos  na  enunciação,  pois  não  são  atribuídas  autorias  nem  posicionamento  teórico  e  tampouco  outros  indicadores  que  poderiam  contribuir  para  elucidar  possíveis pontos obscuros do texto, o que torna o texto ‘objetivado’. 

  Há apagamento da voz do enunciador, como também se verifica no RCNEI, 

pois,  além  do  ocultamento  dos  seus  idealizadores,  os  autores  que  embasam  o  Referencial  também  não  são  marcados,  aparecem  somente  algumas  alusões  em  notas de rodapé, no entanto, é possível localizar no texto marcas lingüísticas que  apontam  para  a  orientação  teórica  que  se  configura.  Assim,  podem‐se  tecer  os  primeiros  comentários  acerca  da  concepção  de  ensino‐aprendizagem  do  RCNEI,  partindo da questão da interação como discutido na seção anterior. 

  Nas páginas analisadas, pode‐se notar que não há ocorrências de formas de 

agir  que   promovam  a  interação  das  crianças  com  os  professores  visando  ao  desenvolvimento.  Isso  é  demonstrado  pela  ausência  de  verbos  como  interagir63, 

partilhar, trocar, entre outros. Se, por um lado, a ausência desses verbos mostra a  falta de formas de agir que promovam a interação, por outro, há grande ocorrência  de  verbos  como:  organizar,  promover,  auxiliar,  ajudar,  oferecer,  e  outros,  que  atribuem o papel de organizador atribuído ao professor. 

  O  professor  aparece  como  sujeito  em  muitas  ocorrências,  como 

demonstrado neste capítulo, mas as formas de agir atribuídas a ele correspondem a  de organizador, de apoio e de estruturador do espaço. Ao relacionar esse agir com  as  teorias  de  ensino‐aprendizagem,  é  possível  perceber  que  ao  professor  é  atribuído  um  papel  secundário  na aprendizagem  da  criança,  revelando o  caráter  Piagetiano  do  Referencial.  A  interação  apresentada  pelo  texto  visa  à  criação  de 

63Foram localizadas ocorrências da palavra ‘interação’; aqui me refiro à ação de interagir, de co-participar,

de criar conjuntamente e outras com esse significado. Destaco, no entanto, que interação pode se relacionar tanto à teoria piagetiana (interação com o meio) quanto à interação vygotskyana (interação entre pares).

ambiente  propício  para  a  aprendizagem  da  criança,  como  defendem  os  teóricos  cognitivistas que se embasam em Piaget.  Como mostra o exemplo seguinte:  

 

“(O professor) organizar grupos, ou duplas de crianças que possuam hipóteses diferentes  (porém  próximas)  sobre  a  língua  escrita,  o  que  favorece  intercâmbios  mais  fecundos”  (RCNEI V.3 p.149 Orientações Didáticas – Prática de Escrita 4 a  6 anos).   

Praticamente todas as interações propostas pelo Referencial apresentam o professor como estimulador e provocador de desafios por meio de ações indiretas com a criança (preparar ambiente, favorecer o manuseio de livros, estimular a descoberta, e outras).  

Os  professores  podem  funcionar  como  apoio  ao  desenvolvimento  verbal  das  crianças,  sempre  buscando  trabalhar  com  a  interlocução  e  a  comunicação  efetiva  entre  os  participantes da conversa”(RCNEI, V.3 p., 136. Orientações Didáticas 0 a 3anos)   

“O professor organiza o ambiente de tal forma que haja um local especial para livros, gibis,  revistas etc. que seja aconchegante e no qual as crianças possam manipulá‐los e “lê‐los”  seja em momentos organizados ou espontaneamente” (RCNEI, V.3, p. 135. Orientações Didáticas 0 a 3anos).

 

No  primeiro  exemplo  o  professor  proporciona  momentos  de  interação  verbal  entre  as  crianças;  as  interações  que  visam  ao  desenvolvimento  são  pouco  valorizadas,  assim  como  a  intervenção  mediadora  dos  conhecimentos  realizada  pelo professor. As atividades são propostas visando à exploração do ambiente e a  vivência de experiências individuais significativas.  Ao colocar em cena o professor  como  instrumento  e  o  professor  como  apoio,  ocorre  um  reducionismo  sobre  a  importância  do  papel  do  professor,  ou  de  sua  intervenção  no  processo  de  desenvolvimento da criança.  

  As formas de agir atribuídas à criança pelo Referencial também contribuem 

para  elucidar  sua  orientação  cognitivista,  a  superioridade  de  ações  individuais,  mesmo  em  situações  de  interação;  sobre  as  ações  que  podem  ser  realizadas  em  grupo, explicita claramente a concepção de criança que o RCNEI apresenta. Como  mostram os excertos a seguir: 

“(As crianças) podem apoiar‐se nas ilustrações e na versão lida (para contar uma história  para outros” (RCNEI, V.3, p.144. Orientações Didáticas – Prática de Leitura 4 a   6 anos).  

 

“(A  criança)  identificar  se  o  texto  lido  (pelo  professor)  é  uma  história,  um  anúncio,  por  exemplo” (RCNEI, V.3, p.141. Orientações Didáticas – Prática de Leitura 4 a  6  anos).  

 

“(As crianças) precisam resolver essa contradição criando uma forma de grafar que acomode a contradição enquanto ainda não é possível ultrapassá-la” (RCNEI, 

V.3, p.128. Desenvolvimento da Linguagem Escrita). 

  É uma representação que coloca a criança como ator do processo de ensino‐

aprendizagem, na medida em que o trabalho pedagógico é centrado nos interesses  individuais.  Do  mesmo  modo,  a  aprendizagem  depende  dos  fatores  como  o  amadurecimento biológico para se construir internamente, o que se confirma pela  crença  de  que  é  necessário  que  o  desenvolvimento  biológico  aconteça  primeiramente  (criança  incompleta)  para  preparar  e  abrir  caminho  para  a  aprendizagem.  Isso  é  demonstrado  pela  sugestão  de  ‘hipóteses  provisórias’  “As  crianças  elaboram  uma  série  de  idéias  e  hipóteses  provisórias  antes  de  compreender o sistema escrito em toda sua complexidade” (RCNEI p.128, v3) que  demonstram que com o amadurecimento essas hipóteses vão sendo re‐elaboradas  pela criança. Os exemplos a seguir, sobre a concepção de erro, também evidenciam  o posicionamento cognitivista: 

 

“No  processo  de  aprendizagem  das  crianças  os  erros  não  são  vistos  como  faltas  ou  equívocos,  eles  são  esperados,  pois  se  referem  a  um  momento  evolutivo” (RCNEI,  V.3,  p.128. Desenvolvimento da Linguagem Escrita). 

 

“Os erros informam para o adulto o modo próprio de pensar da criança” (RCNEI, V.3,  p.128. Desenvolvimento da Linguagem Escrita). 

 

“A  ampliação  da  capacidade  de  comunicação  oral  da  criança  ocorre  gradativamente,  por  meio  de  um  processo  de  idas  e  vindas” (RCNEI, V.3,  p.127. Desenvolvimento  da  Linguagem Escrita). 

 

  Como isso, pode‐se identificar que a preocupação central do Referencial é a 

preocupação é evidente e esperada, considerando que se trata de uma prescrição  para o trabalho dos professores de educação infantil. No entanto, o destaque dado  à aprendizagem demonstra a pouca relevância dada aos professores e as condições  de  realização  do  seu  trabalho,  assim  como  relega  para  segundo  plano  a  importância do outro no processo de construção do conhecimento.  

  Com  base  no  exposto,  é  possível  afirmar  que  a  concepção  de  ensino‐

aprendizagem  que  se  configura  no  Referencial  é  cognitivista  e  embasa‐se  nos  pressupostos de Piaget (1972).  

 

1.7. O Conteúdo representado no Referencial

   

O  objetivo  desta  seção  é  discutir  as  questões  relacionadas  ao  currículo,  especificamente  ao  conteúdo,  para  compreender  de  que  forma  o  Referencial  os  apresenta.    Como  exposto  no  início  deste  capítulo,  o  Referencial  apresenta  seis  áreas (música, artes, linguagem oral e escrita, movimento, matemática e natureza, e  sociedade);  tentando  elucidar  melhor  a  questão  do  conteúdo,  busquei  mais  informações no próprio Referencial.  

Constatei que todas as seis áreas são introduzidas com uma Seção intitulada  ‘Introdução’ seguida por outra intitulada ‘Presença da Linguagem Oral e Escrita na  educação infantil: idéias e práticas correntes’, sendo que somente o nome da área  se altera nessa última. Em todas as áreas foi encontrado um parágrafo semelhante,  variando  somente  a  localização,  entre  uma  ou  outra,  das  duas  seções  citadas  anteriormente.  Esses  parágrafos  são  semelhantes  na  forma,  pois  apresentam  as  mesmas  características  discursivas,  e  no  conteúdo,  pois  apresentam  o  mesmo  objetivo que é justificar a seleção da respectiva área, como revela o quadro abaixo:       Quadro 26. Segmento do RCNEI (V.3, p.15‐20)  Artefato Simbólico  Finalidade  O trabalho com a linguagem se constitui um dos  eixos básicos na educação infantil...  (RCNEI, V.3, p.117 – Introdução64)    

Dada  a  sua  importância  para  a  formação  do  sujeito,  para  a  interação  com  as  outras  pessoas,  na  orientação  das  ações  das  crianças,  na  construção  de  muitos  conhecimentos  e  no  desenvolvimento do pensamento. 

64

“O trabalho com a linguagem se constitui um dos eixos básicos na educação infantil, dada sua importância para a formação do sujeito, para a interação com as outras pessoas, na orientação das ações das crianças, na

Belgede Sektör Raporu (sayfa 25-29)

Benzer Belgeler