Apesar da invasão, na década de 1960, de bandas e artistas ingleses nos Estados Unidos, muitos guitarristas americanos se destacaram no cenário artístico. Wes Montgomery (1923-1968) foi fundamental para o estabelecimento da guitarra no cenário do Jazz americano. Autodidata, começou a aprender o instrumento relativamente tarde, quando já tinha 19 anos de idade, ouvindo e tocando com os discos de Charlie Christian e Django Reinhardt. Sua carreira profissional efetiva teve início em 1948, quando trabalhou com Lionel Hampton.
Seu primeiro disco como solista, intitulado ―The Incredible Jazz Guitar of Wes Montgomery‖ e lançado em 1959, causou enorme impacto. Wes usou em seus solos e improvisos uma técnica peculiar, empregando oitavas paralelas 50 através do seu dedo polegar. Esse jeito de tocar guitarra foi posteriormente imitado por diversos guitarristas. Além disso, estabeleceu um tipo de fraseado51 ao Blues
diferente daquele praticado pelos músicos de Chicago.
50 O recurso desenvolvido por Wes Montgomery é conseguido tocando-se duas notas
conjuntas que tenham, entre elas, um intervalo de uma oitava. O intervalo de uma oitava é obtido entre duas notas que possuam freqüências determinadas. A primeira nota tem a metade da freqüência da segunda nota. Em uma escala de dó maior, passando-se por todas as notas chegamos a nova nota dó ―oitavada‖.
51 O termo fraseado é determinado pelo emprego de certas notas e os acordes nos solos e
Wes Montgomery, que faleceu em 1968, foi assim denominado pelo crítico Ralph Gleason de São Francisco: ―Wes foi a melhor coisa que aconteceu com a guitarra desde Charlie Christian‖. (BERENDT, JOACHIM ERNST. O Jazz do rag ao rock. Tradução Júlio Medaglia. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.232).
Entre os guitarristas associados ao Jazz, destacaram-se George Benson (1943-), Pat Martino (1944-), Joe Pass (1929-1994) e Larry Coryell (1943-).
Frank Vincent Zappa (1940-1993), guitarrista, compositor, letrista, diretor de filme, ator, escritor, foi um dos personagens mais importantes e prolixos da história da cultura americana. Influenciado pela música de vanguarda européia (principalmente de Edgard Varèse) e pelo Rock and roll, criou uma música de difícil definição. Em seus álbuns, Zappa fez música sinfônica, Jazz, Rock, teatro musicado, experiências sonoras, música instrumental e cantada. Seu ritmo de trabalho alucinante rendeu mais de 100 discos, e muito material gravado que ainda permanece inédito.
Outra contribuição foi a de lançar vários músicos nas diversas formações de suas bandas. Jean-Luc Ponty, Steve Vai, Adrian Belew, Terry Bozzio, George Duke, Vinnie Colaiuta e Don Preston foram alguns dos músicos que trabalharam com Zappa.
Zappa, por ser uma personalidade musical muito sugestiva, além de importante compositor e formador de grupos, é, relativamente, pouco observado como guitarrista. Em seu instrumento, porém, ele é tão criativo, agressivo, irônico e profundamente musical como em suas composições. (BERENDT, 2007, p. 234).
Outros guitarristas americanos da década de 1960, ligados ao Blues, música folk e
rock foram Johnny Winter (1944-), Duane Allman (1946-1971) do The Allman
Mountain, Stephen Arthur Stills (1945-) do Buffalo Springfield e do Crosby, Stills, Nash & Young, Roger McGuinn (1945-) do The Byrds e Ry Cooder (1947-).
Os músicos contribuíram para solidificar a guitarra dentro da estrutura instrumental básica que os grupos musicais adquiriram na década de 1960. Na organização das bandas, a música era fundamentalmente produzida pela bateria, baixo elétrico, e guitarra como instrumento solista. Nas apresentações ao vivo, o improviso da guitarra ganhou um espaço considerável e os guitarristas tiveram que desenvolver a técnica necessária para este procedimento.
4.3.2. A formação do “Experience”
James Marshall Hendrix nasceu em 1942 na cidade de Seatlle, Estados Unidos, em uma família modesta. Músico autodidata ganhou a sua primeira guitarra aos 15 anos. Por ser canhoto, teve que adaptar o instrumento, invertendo as cordas. Tocou em bandas locais até ser incorporado à Força Aérea americana como pára-quedista. Foi dispensado depois de um acidente e retomou a prática do instrumento. Em sua breve passagem pela banda de Little Richard, percebeu que um importante componente para suas performances seria desenvolver um jogo cênico. No início de sua carreira, Jimi começou a tocar a guitarra nas costas, com os dentes, com o pedestal do microfone ou aproveitando recursos sonoros como a microfonia e a alavanca de vibrato. Suas passagens pelas bandas de Sam Cooke, Wilson Pickett e Ike and Tina Turner ajudaram no seu desenvolvimento como guitarrista e show-man.
Já em Nova York, em 1966, Hendrix tocou em clubes do Greenwich Village com o pseudônimo de Jimmy James. Em uma de suas apresentações foi observado pela modelo inglesa Linda Keith. Linda conhecia muitos músicos
ingleses e convenceu os integrantes dos Rolling Stones, que estavam na América, a vê-lo atuando.
Ela recitava de maneira incansável sua ladainha de elogios a Hendrix para todos os músicos ingleses que conhecia: ―Você tem que ver Jimmy, ele é fabuloso” (...) De repente, contudo, os próprios Stones apareceram no dia 2 de julho para assistir à apresentação de Jimmi na Ondine, uma popular discoteca na 59 East Street. Ficaram muito agitados ao som da guitarra de Jimmy e diante daquela personalidade cênica única. A partir daquela noite, o Rolling Stone Brian Jones tornou-se um importante fã de Jimmy, e nos meses seguintes tratou-o melhor do que a quase todos os demais à sua volta. A aprovação dos Stones confirmou a impressão que Linda Keith tinha em relação ao potencial de Hendrix para se tornar um astro. (LAWRENCE, 2007, p. 50).
Chas Chandler, baixista da banda inglesa Animals, depois de conhecer e igualmente se impressionar com o trabalho de Jimi, transformou-se algum tempo depois em empresário do artista.
O próximo passo foi levar Hendrix para uma série de apresentações em Londres. Na Inglaterra, Chas promoveu testes para a contratação dos músicos que iriam acompanhá-lo. Os escolhidos foram o guitarrista Noel Redding (1945-2003), que assumiu o contrabaixo na banda, e mais tarde o baterista John ―Mitch‖ Mitchell (1947-2008).
Chas conseguiu que Hendrix participasse de uma apresentação do Cream, e impressionasse a platéia e os músicos presentes.
Desde a primeira vez que ele e Chas conversaram em Nova York, Jimi sonhava comum grande espetáculo em Londres. Agora ele se aproveitava da situação e da platéia de outra banda, de uma multidão que comprara ingressos para assistir a três músicos ingleses, e não a um desconhecido norte-americano. Hendrix, em sua Stratocaster branca, executou uma deslumbrante e extensa versão de ―Killing Floor‖,
do lendário Bluesmen Howlin‘ Wolf, enquanto um triunfante Chas se postava ao lado do palco junto com Clapton. ―Eric foi ficando pálido, esmagado diante do talento de Jimi‖, disse Chas. ―Mal podia falar.‖ Para Clapton – reconhecido como o maior guitarrista da Inglaterra desde o seu trabalho anterior com os Yardbirds e os
Bluesbreakers de John Mayall – ouvir Hendrix se derramar daquela forma, naquele
momento, foi chocante e ameaçador. (LAWRENCE, 2007, p. 63).
O sucesso de Jimi entre os músicos, a audiência e a imprensa, foi imediato. No mesmo ano, ele, Noel e Mitch formaram a banda denominada The Jimi Hendrix
Experience.
O grupo começou uma série de apresentações pelo interior da Inglaterra e por alguns países europeus. A fama de Hendrix aumentou e, de volta a Londres, um novo concerto contou com a presença de Eric Clapton, Beatles, Rolling Stones, Pete Townshend (do The Who) e Jimmy Page, entre outros.
A apresentação de 40 minutos foi num volume de arrebentar os tímpanos. Não havia a menor dúvida de que aquele era um trio poderoso. O brilhante talento teatral de Jimi deixou a platéia arrasada. A seqüência incluía ―Like a Rolling Stone‖, ―Eveybody Needs Somebody to Love‖ e ―Johnny B. Goode‖. Os guitarristas da platéia ficaram loucos com esta última música. Jimi Hendrix não seria a própria personificação da música de Chuck Berry? E depois foram tocadas ―Wild Thing‖ e ―Amazingly Cool‖, lembraria John Lennon. Entretanto, foi aversão de Jimi para ―Hey Joe‖ que transformou aquela tarde num verdadeiro congraçamento. Todos os músicos presentes
sabiam que muito em breve aquele seria um enorme sucesso. Depois do show, Noel e
Mitch não acreditaram quando viram que John Lennon era o primeiro astro a aparecer no camarim da banda. ―Grandioso!‖, exclamou ele. Paul McCartney vinha logo atrás: ―James, você é uma maravilha!‖ Jimi sorria e escutava atento a cada palavra de elogio proferida por todos aqueles ―rapazes‖ de Chas. (LAWRENCE, 2007, p. 73).
O ano de 1967 foi determinante para a consagração de Jimi Hendrix no cenário musical. Lançou, com a sua banda, o primeiro álbum Are You Experienced, que
chegou ao segundo posto das paradas inglesas conquistando a chamada
Swinging London. Em março de 1967, o Experience fez uma série de concertos
e apresentações em programas de rádio e televisão na França, Holanda, Bélgica, além da primeira turnê oficial pelo Reino Unido.