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O conceito de homem, na perspectiva de Frankl (1989), é tridimensional sendo composto pela dimensão somática, onde ocorrem todos os fenômenos corporais do homem, os processos químicos e físicos, a dimensão psíquica que se refere à existência humana com as suas disposições, sensações, impulsos, esperanças e desejos e a outra dimensão que é a espiritual nela localiza-se a tomada de posição, achando-se as decisões pessoais de vontade, intencionalidade, interesse prático e artístico, pensamento criativo, senso ético, compreensão de valor e religiosidade (LUKAS, 1989).

Esta dimensão espiritual é a dimensão propriamente do homem sendo dominada por Viktor Frankl como a dimensão noética por causa da derivação da palavra grega nous (espírito, mente) sendo as outras duas, a somática e psíquica, as que o homem partilha com os animais (LUKAS, 1989). A questão do sentido da vida é um problema característico do homem, pois só a ele diferentemente dos outros seres é dado à capacidade de experimentar a problemática do seu ser (FRANKL, 2003).

A busca de sentido pelo homem para Frankl (1991) é em sua vida a motivação primária, o indivíduo sempre se move em busca de um sentido para se viver (FRANKL, 1989), sendo esse sentido individual e específico, pois só pode ser somente por uma determinada pessoa assumindo uma importância para este indivíduo que satisfará a sua própria vontade de sentido, tal sentido é contestado por alguns autores como forma reativa e sublimações, ou seja, mecanismos de defesa. O autor sobre esse entendimento de sentido como mecanismo de defesa declara “Mas, pelo que toca a mim, eu não estaria disposto a viver em função dos meus “mecanismos de defesa”. Nem tão pouco estaria pronto a morrer

simplesmente por amor às minhas “formações reativas”, o que acontece, porém, é que o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores” (FRANKL, 1991, p. 92, grifo do autor). Ao invés de reagir a tais estímulos o ser humano responde as questões que lhe coloca a vida e realiza os significados que a vida lhe oferece (FRANKL, 1989).

Frankl (1991) aponta que uma pesquisa de opinião pública realizada na França mostrou que 89% das pessoas consultadas declararam que a pessoa precisa de algo em função do qual se viver e 61% admitiram existir alguma coisa ou alguém em suas vidas por qual estariam prontas para morrer. Posteriormente, ao autor realizou uma pesquisa em Viena com pacientes e funcionários e os resultados encontrados foram semelhantes.

Os sentidos são únicos e é objeto de descoberta pessoal, que devem ser procurados e encontrados por conta própria de cada um. A vida não deixa jamais de ter sentido, mesmo que esta pareça sombria, sem esperanças, mesmo diante desta percepção negativa da vida, existe um sentido potencial unicamente humano a ser descoberto, que pode transformar uma situação trágica em um triunfo pessoal, sendo acessível a qualquer condição que uma pessoa possa se encontrar. O sentido para a vida é algo único e mutável, em cada situação vivida o homem pode encontrar um sentido para o seu existir, mas esse sentido jamais acaba, pois a vida não deixa jamais de ter sentido, permanecendo cheia de sentido até o suspiro final do seu existir (FRANKL, 1989).

Essa vontade de sentido pode ser frustrada, denominada por Viktor Frankl de vazio existencial, que pode ser entendida de três maneiras: o modo especificamente humano de ser, o sentido da existência e a busca por um sentido. A falta de um sentido para a vida, ou seja, a presença de um vazio existencial, pode resultar em neuroses, num processo através do qual nascem problemas existenciais e não de conflitos entre os impulsos e o instinto (FRANKL, 1991).

Para o fundador da logoterapia, esse vazio se dá porque o homem perdeu alguns alicerces que serviam de sustentação para o seu comportamento, fazendo com que o mesmo aja de acordo com que os outros fazem (conformismo) ou faça aquilo que as outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo), nessa maneira de agir diante da sua vida faz com que o seu sentido de vida não seja descoberto, tornando a sua vida em função das regras e atitudes ditadas pelos outros, como consequência frustra a sua vontade de sentido levando-o a um vazio existencial (FRANKL, 1991).

O vazio existencial para Frankl (1991) manifesta-se através de um estado de tédio, se referindo o mesmo autor a neurose dominical, pois, as pessoas não sabem como lidar com os seus momentos livres. Essa neurose dominical se refere aquela espécie de depressão que

aborda as pessoas que dão por falta o conteúdo de suas vidas quando passa do corre-corre da vida diária para um tempo livre, tornando manifesto esse vazio. Existem também outras maneiras que deixa transparecer o vazio existencial, onde podemos encontrar a vontade do poder, a vontade do dinheiro e a vontade do prazer.

A abordagem a qual tem como pilar o sentido da vida procura proporcionar ao homem uma consciência plena de sua responsabilidade, deixando que ele opte por aquilo que ele julga ser responsável, decidindo a interpretação da sua vida como sendo responsável perante uma sociedade ou perante a sua própria consciência. O ser humano é um ser responsável e precisa o sentido que esta em potencial em sua vida, sendo este descoberto no mundo e não dentro da própria pessoa ou da sua psique (FRANKL, 1991). Ele é responsável pelo o qual se sente livre, tendo a característica de sempre estar voltado para o outro e decidir por esse outro. Ser responsável implica a liberdade da vontade e se este homem abdica da sua vontade mesmo assim continua sendo uma decisão responsável seja qual for à decisão escolhida pelo homem, ele continua sendo o verdadeiro responsável pela sua vida (FIZZOTTI, 1998).

A responsabilidade do indivíduo está nas possibilidades do futuro e em saber transformar estas possibilidades dadas pela vida em realidade, armazenando-os entre as riquezas passadas. Portanto, a motivação da pessoa é pela necessidade que ela possui de compreender o sentido da vida. Quando esse sentido é descoberto, este ser responsável sente- se realizado e encontra energias para enfrentar os obstáculos encontrados em seu percurso da vida (FIZZOTTI, 1998).

Para Fizzotti (1998), o homem se relaciona com o mundo de forma ativa desenvolvendo as suas capacidades para a transformação desse mundo de forma criativa, construtiva e de forma receptiva, recebendo o amor a as alegrias da vida ele sente-se satisfeito, sendo provocado pela imposição do sofrimento e da morte. Nesse relacionamento com o mundo, Viktor Frankl apresenta três categorias de valores, que são: o valor que permite o homem a agir no mundo (valores de criação, produção); valores que permite ao homem receber algo como presente (amor, gratidão, amizade, belezas) e os valores de comportamento (liberdade para tomar decisões, permitindo encontrar um sentido mesmo em situação de dificuldade).

Como foi descrito anteriormente, o sentido da vida é mutável e jamais deixa de existir. Podendo ser descoberto em três diferentes formas: criando um trabalho ou praticando algo; experimentando algo ou encontrando alguém, essa segunda maneira de achar um sentido é experimentando algo com: bondade, a verdade, a beleza, a cultura ou experimentando outro ser humano em sua originalidade única que é amando-o e a terceira forma é a atitude que se

toma em relação ao sofrimento inevitável (FRANKL, 1991). Diante de um sofrimento que aparentemente parece tirar o sentido da vida a pessoa pode encontrar um sentido, quando se encontra em uma situação sem esperança, o que verdadeiramente importe é converter o sofrimento numa conquista humana. Ao aceitar o sofrer com bravura, a vida recebe um sentido até o seu derradeiro instante, mantendo esse sentido até o fim (FRANKL, 1991).

O autor ao falar da transitoriedade da vida afirma que os aspectos transitórios são as potencialidades, mas no momento que são realizadas se transformam em realidade e são entregues ao passado, mas não esta perdido e sim guardado. Sendo assim, a transitoriedade da vida nunca perde o sentido. Mas não resta dúvidas de que as pessoas fixam o seu olhar para a transitoriedade e se esquece dos acontecimentos do seu passado, suas alegrias, seus atos e também seus sofrimentos. Como dia Frankl (1991, p. 106) “a pessoa que enfrenta ativamente os problemas da vida é como um homem que, dia após dia, vai destacando cada folha do seu calendário e cuidadosamente a guarda junto às precedentes, tendo primeiro feito no verso alguns apontamentos referentes ao dia que passou. É com orgulho e alegria que ele pensa em toda riqueza contida nas anotações” (FRANKL, 1991).

Não é só o sofrimento que tenta abafar o sentido da vida, mas também a morte tenta tirar a existência desse sentido (FRANKL, 1991). Viktor Frankl percebe aspectos positivos no homem que é um ser voltado para a morte, para ele ou a vida tem sentido independente de ser breve ou longa, ou não tem sentido por mais longa e infinita que ela possa ser. O homem que esta diante de sua morte questiona-se qualitativamente, de modo que o sentido para a sua morte depende do sentido que ele soube dar a vida (FIZZOTTI, 1998).

Se as pessoas fossem imortais poderia adiar as escolhas e atitudes, e prolongar estas até o infinito, não tendo nenhuma importância de realizar no tempo presente. Mas é morte que o limite da existência, das escolhas e do futuro, sendo obrigados a utilizar o tempo de vida, a não perder as oportunidades que são oferecidas, tendo a morte um critério que caracteriza a vida como única, irreversível. Fizzotti (1998) afirma que Viktor Frankl não concorda aquela angústia do homem diante das limitações da vida e através das possibilidades que a vida oferece a pessoa encontra um sentido para viver uma vida plena e autêntica, encontrando no final do seu caminho sentido e alegria que estão guardados no seu passado.

Até na morte, o homem encontra um sentido para a sua finitude, olhando para a sua trajetória de vida e resgatar do seu passado as alegrias, as atitudes e até mesmo os momentos difíceis que foram enfrentados com tanto vigor, traz a vida e o seu pensar sobra o fim um sentido e alegria de ter vivido uma vida de realização e satisfações.